Sobre o romance “Cidade Livre” de João Almino

1.o de setembro de 2017

SOBRE O ROMANCE “CIDADE LIVRE” DE JOÃO ALMINO

Antonio Riserio

Com anos de atraso, peguei o meu exemplar do romance “Cidade Livre”, fui a uma pracinha fronteira ao mar, pedi uma cerveja e comecei a degustar o texto.

Teria muito a dizer sobre o romance, mas vou me limitar a umas poucas coisas. De cara, elogiando a fatura técnica, formal. Curto livros bem construídos e bem escritos. Nesse ponto, atravessei “Cidade Livre” com muito, muito prazer. Como vi, Heloísa Buarque de Hollanda apontou para esta “presença de um rigoroso trabalho técnico de estrutura e de linguagem”.

Brasília. Mas pré-plano piloto. Dois lances: o Núcleo Bandeirante (o improviso urbano, as tramas rasteiras da vida) e o Jardim da Salvação, vindo de Tia Neiva, com seus amigos índios e extraterrestres… A cidade satélite e a cidade cósmica… Este é o grande lance do livro: uma Brasília anterior a Brasília, uma outra Brasília ou uma pré-Brasília, antecedendo a figuração clara do plano piloto… E tudo ainda vindo de antes, de Goiás (“Ceres explica muita coisa de Brasília”).

Para lembrar a classificação do filósofo polonês Jerzy Szachi, em seu livro sobre as utopias:

No horizonte, a “utopia de lugar” de Lúcio Costa e Juscelino (com “seu olhar de gato risonho”). E, dentro dela e anterior à sua materialização física, a “utopia monástica” de Íris Quelemém, o Jardim da Salvação… Uma Brasília antes de Brasília, enquanto a cidade se constrói.

Com este o mergulho de João Almino nessas águas, confesso que fiquei entendendo melhor a cidade. O messianismo/sebastianismo/milenarismo brasiliense, com naves interplanetárias iluminando a busca de caminhos: Brasília, marco de uma nova humanidade, uma nova civilização. Curioso é que, social e culturalmente, esse misticismo tanto pintou em plano popular quanto em plano erudito.

A referência ao “Grande Sertão: Veredas”, Riobaldo speaking: “A gente viemos do inferno – nós todos – compadre meu Quelemém instrui”. Daí, Almino pegou o “Quelemém” de Rosa, para compor o nome de sua personagem: a prostituta Lucrécia, mística e vidente, que se transfigura na profetisa Íris Quelemém, pregando sermões no Jardim da Salvação, na comunidade salvacionista. Aliás, esta conversão de Lucrécia em Íris, implicando a rivalidade Moacyr–Valdivino, é muito bem urdida.

Mas, lendo o livro, me lembrei mesmo foi da seguinte passagem de Guimarães Rosa, que recordava vagamente, mas vinha com uma observação final inesquecível: “Às vezes eu penso: seria o caso de pessoas de fé e posição se reunirem, em algum apropriado lugar, no meio dos gerais, para se viver só em altas rezas, fortíssimas, louvando a Deus e pedindo glória do perdão do mundo. Todos vinham comparecendo, lá se levantava enorme igreja, não havia mais crimes, nem ambição, e todo sofrimento se espraiava em Deus, dado logo, até à hora de cada uma morte cantar. Raciocinei isso com compadre meu Quelemém, e ele duvidou com a cabeça: – ‘Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho’ – ciente me respondeu”.

O Jardim da Salvação realiza a visão de Riobaldo e confirma a observação do compadre Quelemém… Faz-se a “utopia monástica”, mas o crime não desaparece: é apenas negado – névoa místico-ideológica.

Por fim, me lembrei de um amigo me dizendo: “Depois que li ‘Viva o Povo Brasileiro’, passei a olhar a Bahia de Todos os Santos com outros olhos”. Posso repetir isso aqui, a propósito de “Cidade Livre”: João Almino mudou meu olhar sobre Brasília.


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