Entre facas, algod√£o

Que livro bonito.

A viagem de volta, uma das obsess√Ķes de quem deixou o interior, tratada com grande delicadeza. Para chegar √† conclus√£o do que racionalmente sabemos, mas que nossas emo√ß√Ķes turvam, que ela √© uma miragem. Nunca se banha duas vezes no rio do tempo.

Enquanto lia, desde o in√≠cio, pensava que havia capturado o tom de Memorial de Aires, de nosso pai-Machado. Nos dois livros, h√° um tom suave da resigna√ß√£o. Embora haja motivos do narrador para a revolta, para a indigna√ß√£o, ele mant√©m-se frio, lac√īnico, distante. Ele n√£o se distancia apenas fisicamente de V√°rzea Pac√≠fica, mas emocionalmente. E √© pac√≠fico o estilo.

O modelo de di√°rio, que poderia levar a efus√Ķes, √©, tal como em Memorial de Aires, um exerc√≠cio de aceita√ß√£o das vicissitudes da vida.

Por outro lado, o romance que vê inviável o passado é um elogio de Brasília, porto final do narrador, continuidade de sua história.

Os √ļltimos par√°grafos atingem uma beleza filos√≥fica que explica o tom do livro.

Miguel Sanches Neto


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