Alminolndia
No
quinto livro, Cidade livre, Joo Almino termina de delinear uma Braslia que ,
ao mesmo tempo, cenrio e personagem de um universo ficcional calcado em referncias
histricas
Anglica Madeira
Especial
para o Correio
Cidade
livre, quinto livro de Joo Almino, tem Braslia como cenrio e,
principalmente, como personagem de um universo ficcional que agora encontra-se
plenamente delineado. O desenho romanesco interessa por sua tcnica impecvel,
que se explicita em longas passagens e digresses em que o romance discute seu
mtodo de composio, uma espcie de memorialismo da era da informtica, um
sistema de citaes apanhadas por um nico narrador, um certo Joo, que tem voz
prpria. So mobilizados textos da tradio memorialista — que abraa de
Brs Cubas a Joo Miramar — e da potica da paisagem — Alencar,
Euclides e Guimares Rosa, outro Joo. O narrador nem sempre sabe com certeza a
quem est citando, mas o revisor, Joo Almino, sabe, e ele quem s vezes
tira, s vezes acrescenta um passo, um ponto. H um jogo entre os personagens
comprometidos com a narrativa e o aleatrio dos frequentadores do blog em que o
falso autor decidiu publicar seu romance, aps ter sido recusado por uma
editora.
Esse
tipo de jogo permite multiplicar a potncia da fico, fazendo-a render ao mximo,
pelas caractersticas da voz do narrador, um jornalista e pesquisador que
constri seu relato baseado em verses de uma histria cujo enigma ele procura
desvendar. A organizao externa do romance obedece ordem das visitas que
ele, filho, faz ao pai, entre quatro paredes de um branco sujo, em sete
noites seguidas. E essas histrias entrelaadas pem em funcionamento uma armao
narrativa complexa que escava os fatos do passado, mobiliza a memria para que
casos to impressionantes no sejam esquecidos.
Assim
assistimos em paralelo ao desenrolar de uma histria que se faz, a construo
da cidade-capital e a vida, o dia a dia das pessoas na Cidade Livre, ao longo
dos quatro anos que antecederam a inaugurao de Braslia. Assistimos o bom
termo porque o texto de Joo Almino muitas vezes adquire a nitidez fotogrfica,
quando se trata de descrever as festas e os eventos. O 21 de abril de 1960, a
festa da vspera, a banda de msica, os avies da FAB fazendo evoluo, a
inaugurao do Correio Braziliense, tudo descrito com mincia pelo olho-cmera
de uma criana de 10 anos, deslumbrada e sensvel, o futuro narrador. A
reconstituio de rituais polticos por si s j seria interessante. Mas
acrescida do movimento do olhar da criana e atrelada a fatos marcantes do
ponto de vista das emoes e dos afetos, fica ainda mais densa, mais cheia de
sentido e de mistrio. Pois foi na vspera do dia principal que Joo viu pela ltima
vez Valdevino.
Valdevino
um sertanejo que se destaca da massa de candangos que veio construir Braslia.
Veio movido pela ideia de construir igrejas. Conheceu acampamentos, perseguio
dos mais fortes, a violncia da Geb e uma grande paixo que pode ter sido sua
perdio. Pouco letrado, escrevia cartas que seus conterrneos do norte lhe
ditavam. Estava de bem com a vida, por mais que passasse apertado. Mas o que
comove em Valdevino, magrelo, pequeno, desengonado, sua bondade, sua inocncia
e fragilidade. Quase uma alegoria de um ser sensvel em meio a grossos
interesses. Ele destoa da galeria de homens que povoam a infncia do narrador:
Roberto, Paulo e, naturalmente, o pai.
Das
mulheres, alm das duas tias que se espelham em contraste — tia
Francisca, discreta e modesta; tia Matilde, exuberante e sexy —, h Lucrcia,
prostituta, transformada em ris Quelemm, quando se torna profetisa e
sacerdotisa de uma seita ecltica no Jardim da Salvao. Ela era a mulher por
quem os homens perdiam a cabea: Paulo, que a maltratava; Valdevino, que a
amava; e o prprio pai, o Dr. Moacyr, ex-mdico psiquiatra, ex-fazendeiro, um
pouco jornalista (queria acompanhar visitantes ilustres e anotar a saga da
construo de Braslia), que se tornaria scio de Paulo em negcios ilcitos.
Cores
e cheiros
A
pesquisa em arquivos intensa. No s os cadernos manuscritos deixados pelo
pai, acompanhados de verses da tia Francisca e, menos, de tia Matilde, mas
jornais, revistas e fotografias, ajudaram o narrador a fazer to prodigioso
restauro de uma poca que ganha vida, surge do nada, levantada pela fora dos
objetos, das coisas, dos filmes que eram exibidos no cinema da Condessa, da
moda, dos carros, dos mveis de pernas palito. Cores, cheiros, percepes de um
mundo em movimento, em que cidades surgiam, cidades eram inundadas, pessoas
enriqueciam, pessoas morriam e Braslia comeava a existir.
A
msica tambm contribui para esse levantar-se de um tempo histrico. Pelas
evocaes das preferncias das tias, a bossa-nova, o samba-cano, as
marchinhas do carnaval de 1958, Madureira chorou ou Mame eu levei bomba, ou o
samba de Billy Blanco — No vou, no vou para Braslia / Nem eu nem
minha famlia — so referncias que fazem a trilha sonora de Cidade
livre. H ainda a msica das chuvas nas telhas de zinco, primeiro um piano
suave, logo rica em percusses. No raro ouvimos os sons de britadeiras e
outras mquinas, como a msica dura e ritmada dos geradores. Ora mais fortes,
ora mais fracos, lmpadas, lamparinas e lampies garantem a luz, um pouco
fantasmagrica, das cenas noturnas, em tons de azul, cinza, branco e amarelo.
Primeiro
ncleo de moradia dentro do Plano Piloto, a W3 Sul passou a ser o foco da vida
social da cidade nos primeiros anos, arrebanhando um significativo contingente
da Cidade Livre. O prprio narrador faz esse percurso revelador de sua ascenso,
indo terminar seu relato em uma casa do Lago Sul, herana de seu pai —
casa que mais tarde perderia.
O
heri Sayo
Embora
povoada pelos personagens sempre citados quando se trata de recontar a saga da
construo de Braslia — Juscelino, Niemeyer, Israel Pinheiro — a
narrativa no se detm sobre eles. Para o narrador, esses so figurantes que
interessam menos que os homens e mulheres mais comuns, de carne e osso, que
participaram da vida e da aprendizagem de Joo. Pois esse tambm um romance
de formao, com os rubores, fantasias e as culpas da sexualidade exuberante da
adolescncia, com mortes e vissicitudes dolorosas a marcar o itinerrio do
narrador. Talvez o nico personagem que adquire um estatuto quase pico, devido
ao seu carisma, ao seu idealismo e admirao de quantos o conheceram, seja
Bernardo Sayo.
Engenheiro
agrnomo envolvido com a modernizao da agricultura do Centro-Oeste desde o incio
dos anos 40, Sayo criou a colnia agrcola de Ceres e em seu entusiasmo para
desbravar o mato e plantar cidades, arregimentou muita gente para construir
Braslia. Ele descrito como um homem corpulento, queixo quadrado e viril, um
rosto expressivo queimado de sol, cabelo volumoso partido do lado e que parecia
— do alto de seus 55 anos — ter dois metros de altura. Era ele quem
comandava as principais operaes da construo da cidade, um homem que
preferia a ao conversa fiada. Sua heroicizao se completa pela morte trgica,
tingida de mistrio e superstio, no meio da mata que desbastava para
construir a estrada que ligaria Braslia a Belm, no Par.
Atingido
na cabea e na perna e no brao esquerdos por um pau vingativo, quando da
derrubada de uma rvore gigantesca, Sayo foi levado s pressas cidade mais
prxima, mas no resistiu. O relato detalhado dessa morte assim como do que se
seguiu, o velrio, a comoo pblica, o enterro concorrido, o pranto e a emoo,
podem explicar-se por ser o pai do narrador uma testemunha ocular de todos
esses acontecimentos, prximo que era do engenheiro. Este foi o primeiro
enterro realizado no Campo da Esperana, cemitrio demarcado por Sayo.
O
narrador avisa desde o incio que seu relato surge no por diletantismo, mas
por necessidade. Necessidade de acertar contas com o pai, que depois ficamos
sabendo — adotivo —, morto h seis meses; necessidade de decifrar
o enigma da morte de Valdivino; descobrir o sentido de tantas mortes. De fato,
o romance cheio de desastres, da morte trgica de toda a famlia de Joo, em
um desastre de automvel, episdio que ele prefere no comentar porm pontua
sempre o relato como um ncleo do afeto triste que dar o tom da narrativa.
como se a memria estivesse coberta com uma mortalha e a histria comeasse a
azedar. Era preciso cont-la. Este o enigma mais pungente, a razo de existir
da narrativa, o que est por trs da urgncia de narrar.
O
narrador tem voz discreta. Lcido, apesar dos surtos de loucura provocados por
tortura durante a ditadura, no faz estardalhao nem se lamria de sua condio;
no tem pressa em dizer o que aconteceu com o pai. Ao contrrio, a repetio do
cenrio becketiano em que se do estas entrevistas noturnas entre pai e filho,
vai levando o leitor a deduzir toda uma massa de informaes escamoteadas e s
muito a custo narradas: a priso e o envolvimento do pai nos negcios de Paulo,
sua possvel responsabilidade ou omisso na morte de Valdivino — se que
morte houve. um livro lutuoso, enigmtico, melanclico. Tufo, o cachorro e
companheiro do menino, que o diga. Toda a matria tratada com sobriedade, uma
voz que, j adulta, consegue mesclar a delicadeza da criana e uma leve ironia
adquirida no rolar da experincia. Por ser a realidade incomensurvel ser
sempre necessrio narrar, urdindo fios, cruzando olhares, no julgar e, em meio
ao cipoal das verses, experimentar sua prpria voz. Esse Joo...
Anglica
Madeira professora e pesquisadora do departamento de Sociologia da
Universidade de Braslia e professora do Instituto Rio Branco, do Ministrio
das Relaes Exteriores
O
autor e sua obra
A
pedido do Correio, Joo Almino apresenta e comenta os quatro livros anteriores
Ideias
para onde passar o fim do mundo Brasiliense, 1987 (primeira edio); Record,
2003
Num
livro que pode ser lido como comentrio de uma fotografia, um fantasma volta
Terra para concluir o roteiro de seu filme inacabado. A histria, que narrada
no ano zero, a do tempo em que baixa dentro de cada um de seus personagens. O
leitor compe o romance a partir do que l das vidas de cada um deles.
Samba-enredo
Marco Zero, 2004, esgotado
Uma
mquina, distante no futuro, narra em primeira pessoa as diferentes verses do
sequestro do primeiro presidente negro do Brasil em pleno carnaval, num momento
do passado, quando ele seguia para um encontro amoroso. O suspense mantido at
o fim. A mquina levanta hipteses enquanto narra o desfile carnavalesco. Crime
poltico? Passional? Mero engano? Sua frieza e sua objetividade se contrapem
musicalidade da linguagem e matria catica e emocional descrita, em que
sobressaem o desejo e a paixo.
As
cinco estaes do amor Record, 2001
Narrando
em primeira pessoa, sempre no presente, Ana procura desenvolver a filosofia do
instantanesmo, vive uma revoluo interior e realiza sua busca amorosa, que
passa por relaes erticas e apaixonadas e chega quinta questo, a utopia
que se define como a reorganizao do existente, na qual feita a descoberta
do mais prximo e acessvel. O livro pode ser lido tambm como uma reflexo
sobre a criao literria.
O
livro das emoes Record, 2008
No
ano de 2022, o fotgrafo Cadu, j cego, procura recuperar o lbum fotogrfico
que tentara montar 20 anos antes, quando via, e via demais, seu livro das emoes.
A reflexo sobre a fotografia, a memria e o envelhecimento construda pela
superposio do dirio que ele escreve no presente e a rememorao das
fotografias que ele vai recuperando, fotografias que esto impregnadas de
inveja, desejo, oportunismo, dio ou amor e que vo compondo uma histria
emocional do personagem.