Fragmento do primeiro capítulo, Aventuras da Solidão do romance As Cinco Estações do Amor (editora Record, Rio de Janeiro, 2001).

 

 

 

 

Ao contrário de Funes, o Memorioso, o personagem de Borges que não esquecia nada e se lembrava de tudo, vou atravessar o meu Rio Lethes para esquecer tudo, para ter a liberdade de pensar e escrever espontaneamente, guiada só pelo desejo. Deixarei de lado o futuro, para não construir ilusões e nem prever desastres, o que, em vez de evitá-los, talvez os acelere. Quero captar o instante, começar do zero. Sem a carga do passado. Sem história, nem rumo. Apagar-me. Imobilizar-me. Condensar minha vida no instante, viver exclusivamente nele, dele, feito meu cachorro Rodolfo, aqui a meus pés. O presente instantâneo. Um instante que se prolonga, como numa figura borrada ou como quadro depois de quadro de um filme que não pára de rodar. Zero, o momento em que escrevo, a um passo do abismo e do paraíso. Comigo é freqüente: ver a mesma coisa como promessa de céu ou de inferno. Num piscar de olhos, o claro vira escuro. Tudo aqui depende de um triz, está por um fio, que pode ser desde a linha tênue de que eu falava até o meu humor ou um nada de realidade.

 

Vou me apoiar na iluminação que tenho — acho finalmente que é disso que se trata, de uma iluminação — para dar o grande salto. Às vezes é melhor ter coragem de recomeçar, de jogar fora. Até mesmo amores. Não sou de preservar o que me atormenta. Por isso preciso me desfazer completa e definitivamente de Eduardo. Se consigo recomeçar do zero, estou também cumprindo fielmente a promessa feita no encontro de há trinta anos. E os outros inúteis? Farão um esforço semelhante de renovação espiritual?

 

A fumaça do cigarro sobe do cinzeiro, como uma chaminé. Rodolfo me espia com o rabo do olho, certamente desconfiando de que tenho minhocas na cabeça. Baixa a sua própria cabeça sobre as patas, franze as sobrancelhas e deixa seu olhar triste perder-se no infinito, um infinito mais concreto que o meu e à altura do chão.

 

Digo que tudo isso ÒaconteceÓ agora e não que ÒaconteceuÓ um dia, pois quero descrever essa presença instantânea que está sempre em movimento e se define por ele, deixando as infindáveis manchas borradas que mencionava; quero mostrar esse instante por dentro. Presente instantâneo do acontecido. Afinal, o passado é só um rastro do instante, num instante qualquer.

 

Então? Nesse instante penso que vou viver sem rumo, só viajando dentro de mim. Que o importante na vida não é atingir um objetivo, chegar a um lugar, mas curtir cada momento, pois, como o mundo não pára de dar voltas, a forma da viagem é mais importante do que seu destino. Que meus medos e projetos nada têm a ver com a realidade objetiva, porque ando areada e já perdi a noção de objetividade. Não me interessa saber o que é real além da percepção instantânea, a que me flagra o olhar de surpresa e dor, um franzido em minha sobrancelha, meu ombro direito contorcido, o corpo em desequilíbrio, o susto levantando minha mão esquerda, enquanto, como no quadro de Caravaggio, minha mão direita paira tensa sobre os galhos e frutos que se desarrumam sobre a mesa, o meu dedo médio apontado para baixo, de cuja ponta se pendura o ávido lagarto que me pica. Ao lado, o vaso de água no canto direito do quadro é quieto e translúcido, gotas visíveis em sua superfície. Contém uma camélia e seu galho, irmã da que trago em meu cabelo.

 

Olhando as folhas de papel, ainda em branco, sinto que as verdades estão depositadas em larvas de palavras, à espera de situações, as mais banais e inesperadas, que possam juntá-las umas às outras para lhes dar corpo e sentido.

 

Depois de muitas noites trôpegas, em que meu estado de saúde só piora, descubro o ovo de Colombo. A idéia me vem quando penso no alívio de não ter tido de ler tantas notícias inquietantes desde que Berenice deixou de comprar os jornais. Minha nova ocupação vai certamente me dar prazer por meses a fio. Não é só dos jornais que não preciso. Tomo a decisão de separar a montanha de livros, cartas e outros papéis acumulados ao longo da vida, com a intenção de trans­formá-los, como se eu fosse uma máquina, numa mistura esfarinhada de palavras, que depois porei — toda ela — no mesmo saco. Só por ter esta idéia, me sinto leve e fagueira e posso finalmente dar seguimento ao relato. Ligo o som, ouço o CD animado que Jeremias me deu de presente e até danço sozinha, como uma louca, para comemorar um não-sei-bem-o-quê que desbloqueia minha mente e minha alma. Por sorte, apenas Rodolfo testemunha este meu estado de exaltação e até gosta de presenciar meus movimentos.

 

Não que eu tenha tido uma idéia brilhante ou sequer inventado alguma coisa, sei disso. Desde que, há cinco mil anos, os sumerianos cunharam a sua escrita, para fixar mensagens, registrar fatos e pensamentos de maneira durável... Desde que, há quase quatro mil anos, os semitas criaram o seu alfabeto, pai de quase todos os sistemas alfabéticos do mundo, a escrita pode ser apagada, transformada e perdida. Desde que, há sessenta mil anos, existe a linguagem, a língua pode comer a língua e também fixar para sempre o instante.

 

O método será o seguinte: suprirei a ausência dos papéis que vou rasgando, com novas palavras, que vou escrevendo nas folhas de papel em branco. Assim, vou deixando numa folha uma mágoa, noutra uma alegria, noutra ainda luto e tristeza. Dos livros basta extrair o que ficou retido na memória. Quero libertar o que pesa nela.

 

De fato, a memória é um arquivo de gavetas fechadas. Várias das chaves das gavetas são feitas de pessoas, objetos, coisas que nos cercam, das cartas, fotografias e livros. Cada carta, cada uma delas, abre uma enorme gaveta de recordações, que talvez ficasse fechada para sempre se a carta não estivesse ali, exibindo fisicamente suas frases. Ao destruir cada carta, estarei abrindo uma destas gavetas, multiplicando, portanto, as possibilidades de registro no meu relato de despedida, que pretendo ir compondo aos pouquinhos, um parágrafo aqui, outro ali.

 

Ficar nua e leve, me desfazer dos papéis, renascer livre da carga do passado, é tudo o que quero. Com idéias murchas é difícil me vingar de palavras adormecidas. Porém, os papéis vão gritar, chorar, ao ser rasgados, recobrando vida às idéias e aos sentimentos neles armazenados. A partir de agora, minhas palavras de ordem são: nada retido, nada guardado. É chegado o momento de descarregar o que venho acumulando. E também de liberar as palavras dos blocos — graníticos — feitos com as emoções que o tempo calou. Que elas saiam,­ feito facas afiadas, esculpindo o espírito do instante. Quero viver como num hipertexto que nunca pára de se construir, em que a escrita é um diálogo contínuo e infindável com a mente ou um contraponto da vida. Apagar todos os livros, para deixar brilhar, sozinho, o livro natural: aquele em que se acreditava em Yucatán, o que não foi escrito por ninguém, que vai passando ele próprio suas páginas, abrindo-se cada dia numa diferente, e que, por ser vivo, sangra quando tentam virar suas páginas. Minha revolução interior depende da coragem de ir compondo o texto, sempre no presente, enquanto me desfaço dos papéis acumulados. Os papéis a menos aumentarão meu espaço de liberdade.

 

Vendo minha arrumação, Berenice reclama:

— A senhora me desculpe, Dona Ana, mas a senhora está fazendo loucura de se desfazer dos papéis.

— Pode jogar no lixo, Berenice.

— A senhora está fazendo besteira, olhe o que lhe digo.

— Então deixe ali naquela pilha. Depois decido.

 

É melhor mesmo ir fazendo uma enorme pilha de papel. Posso, por exemplo, deixar separado num canto, por uns tempos, tudo o que diga respeito ao amor, que, apesar de me ter tratado tão mal, merece, afinal de contas, minha consideração, pois nele cabem todas as virtudes. Será a pilha do amor, que talvez me faça ver algo distinto do que a vida vem me ensinando ou simplesmente me confirme que não posso mesmo ter o impossível, ou seja, o outro à altura de meu sonho.

 

Vou limpar minhas prateleiras, esvaziar a casa, começando pelo quarto a ser alugado, talvez ao próprio Norberto. Os papéis que me incomodam são a tal ponto parte de minha vida, que a única maneira de me desfazer deles é transformá-los na farinha de palavras que mencionei, farinha pouca e densa, socada a ponto de virar um livro de pedra, ou seja, um livro da vida, que é simples e misteriosa como uma pedra.

 

Será minha versão do Livro absoluto que Mallarmé quis escrever no fim da vida e acabou destruindo antes de morrer, ou daquele, citado no conto ÒA biblioteca de BabelÓ de Borges, que abrange perfeitamente todos os demais. Sua feitura deverá ajudar a libertar-me dos livros de minha biblioteca e dos papéis acumulados — cartas, anotações, poemas, páginas e páginas de diários e outros escritos. Será meu museu de tudo, caixão de lixo ou arquivo.

 

Vou à luta, então. E desde o começo esta é minha odisséia de muitas ondas e correntes, em que enfrento ventos e tempestades num mar infinito, mar de muitos encontros, onde via­jo sozinha. Sozinha com meus papéis e minha caneta.

 

Home