Resenhas sobre O livro das emo¨›es
Ensaio de Pedro Meira Monteiro
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Entrevista a Paulo Paniago, "Pensar", Correio Braziliense
Desde 1987,
João Almino tem produzido, sem pressa, um longo romance que é também, em sua
face mais ambiciosa, o projeto de uma fundação escritural de Brasília. Nesta
sua quarta parte -- que, como as demais, admite leitura autônoma -- o
narrador-protagonista é um fotógrafo de 70 anos, já cego, que busca reinventar
as suas memórias a partir da memória que guarda das fotografias que tirou para
um ideado diário íntimo. A construção da intimidade, portanto, resulta não
apenas do mimético ou realista das fotografias, mas da memória emocional
colhida nelas, que é mais nitidamente percebida quando o fotógrafo já não vê.
Da dialética entre visão objetiva e cegueira, imagem mimética e imaginação
sentimental, nasce o reconhecimento de uma história pessoal, a única que se
pode viver, embora aparentemente esgotada na banalidade.
O modo da
narrativa é o de um travelling envolvente que se deixa arrastar por várias
personagens e situações, muito diferentes entre si, nas quais ressalta a
habilidade de João Almino para a confecção de biografias, como certa vez
destacou João Lafetá, ou de instantâneos biográficos, como talvez se pudesse
dizer, tendo em vista a analogia com as fotografias que ordenam a narrativa.
Ressalta, também, a sua capacidade de manter o fio narrativo bem seguro em meio
à variedade de registros produzidos pelo narrador, que opera como câmera, mas
cujo principal documento se produz a posteriori, como écfrase, quando os registros
fotográficos dão lugar à reconstrução imaginária de cenas vistas, vividas ou
não, mas sempre manipuláveis.
A narrativa
não se demora propriamente em fatos, conquanto os repasse o tempo todo. Antes
que se imponham como significativos, prevalece o ritmo do passe, que no travelling é quase tudo.
Digo isso, pensando exemplarmente naqueles passeios erráticos de câmera que
empregava Robert Altman: um longo disparo, sem cortes e sem ajuste automático
de foco, que passeia entre desconhecidos, ou conhecidos vagos, cujas vidas se
apresentam naquele lugar, em seqüência, não pela coerência do fio narrativo,
mas sobretudo pela sintaxe, pela disposição do vôo cego da câmera. Por isso
mesmo, é notável o gesto de desenquadramento existencialista que o travelling permite, quando as
situações são capturadas de passagem e a meio, de modo que sempre
alguma vagueza é introduzida na compreensão de cada um dos seus quadros ou
fotos.
Quero
dizer: o seu efeito fundamental é que as razões particulares, os motivos das
ações, privados ou públicos, estão freqüentemente fora do universo dos eventos
destacados em primeiro plano. A narrativa linear, de conteúdo à primeira
vista coerente, no todo se revela quase aleatória, sob domínio do
desenraizamento existencial, do ritmo espiralado da fortuna e da perda do tônus
da vontade em algum momento do passado. No fundo, narra-se para descobrir o não
vivido, assim como apenas se fotografam ausências. Aproveitando a deixa do
próprio narrador, imagino chamar de voyeurismo cego a esse modo narrativo,
finamente explorado nesta quarta parte do romance brasiliense de João Almino.
ALCIR
PÉCORA
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