Prefácio
Os ensaios reunidos no presente livro são “escritos em contraponto”, como
se fossem melodias tocadas, não no intervalo, na pausa ou como parênteses na
atividade principal, mas ao mesmo tempo que esta outra melodia, subjacente –– a
do ficcionista. Este, aparentemente ausente, é o verdadeiro compositor dessas
melodias paralelas.
Minha paixão é a literatura, especialmente a ficção, à qual tenho me
dedicado nos últimos anos. No entanto, escrevi ensaios político-filosóficos, o
que ainda faço esporadicamente, em geral respondendo à necessidade de refletir
sobre os desafios de nosso tempo. Alguns deles foram reunidos em livros. Nunca
até agora tinha me ocorrido fazer o mesmo com meus ensaios literários.
Produzi-os ao longo dos anos, não na qualidade de crítico, que não sou, mas
por circunstâncias que levam o escritor a interessar-se por temas literários,
pela leitura atenta de livros de poesia e de ficção e a aceitar convites para
realizar palestras ou escrever artigos.
Algo que fiz ao acaso, como quem, encontrando objetos ao longo de um
caminho, pára para observá-los. No acaso certamente existe escolha, como aquela
que resulta da indiferença ou paixão que idéias, livros e autores podem nos
provocar. Desses vários ensaios selecionei alguns poucos, que me parecem
guardar unidade.
Através deste livro, mais do que teorizar, pretendo levantar questões e
compartir percepções. O método variado vai da leitura minuciosa, passo a passo,
de textos selecionados, como na análise de poemas de Robert Creeley, Herberto
Helder e João Cabral de Melo Neto, através da qual diviso poéticas do vazio e
do silêncio, até o “distant reading” do ensaio sobre História, Transculturalismo e o Romance Ocidental, em que tento
entender algumas tendências atuais da literatura. Neste livro discorro também
sobre o tema do mito e da utopia em Brasília, faço um apanhado das tradições literárias
no Brasil, remontando-as a Machado de Assis, discuto a atualidade da metáfora
da antropofagia e aspectos dos diálogos literários entre o Brasil e Portugal e
entre o Brasil e os EUA.
Estes ensaios respondem a preocupações centrais com temas da cultura e das
tendências literárias contemporâneas que me são caros. Entre essas
preocupações, incluem-se a de liberar a criação para que ela não fique presa a
modas internacionais e nem mesmo a fronteiras ou raízes. Há um partido tomado
pelo que tenho chamado de “universalismo descentrado” e por um cosmopolitanismo
que não abdica do local e do concreto, o que passa pela reavaliação de temas do
modernismo brasileiro. Há finalmente também uma reflexão sobre o território do
novo e do vazio, tema recorrente em minha literatura, como o primeiro ensaio
deste livro – sobre Brasília – poderá deixar claro.
João Almino
In: Escrita em contraponto. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2008.