Prefácio

O presente texto surgiu de um convite que
recebi, não como crítico, mas como escritor apaixonado pela obra de Machado de
Assis, para participar de colóquio nas universidades de Princeton e Chicago em
janeiro de 2009. Acabei produzindo um ensaio mais longo do que seria
recomendável para uma palestra e, já havendo reunido pouco antes alguns de meus
ensaios literários[1], julguei
por bem transformá-lo neste pequeno livro.
Os estudos literários – e os de Machado de
Assis não são exceção – abrangem até mesmo o que os autores interpretados pouco
escreveram. Ou seja, através de um trabalho sutil de arqueologia ou de uma
análise microscópica de textos ou de suas entrelinhas (descobrindo suas
omissões, sua ideologia subjacente ou desconstruindo-os), chegamos ao ponto de
usarmos a literatura para confirmar nossas próprias percepções da história, da
sociologia ou da antropologia.
Meu enfoque será mais modesto. Parto não apenas
do que está explicitado, mas também daquilo a que o narrador dedicou mais
espaço. Limito-me ao que se situa no âmbito do texto ou a suas sinalizações
evidentes, respeitando as ênfases do próprio autor. Talvez eu pudesse definir
este método como a exposição do óbvio, se o óbvio fosse facilmente percebido
como tal.
A crítica tem se fixado no caráter digressivo e
fragmentário de Memórias Póstumas de Brás
Cubas. Neste romance, as digressões, contudo, muitas vezes servem para
criar expectativa em torno do que será narrado e, portanto, para manter o
interesse do leitor, além de acrescentarem uma dimensão simbólica a partes do
enredo, com suas parábolas, metáforas, opiniões e reflexões filosóficas. E
muitos dos fragmentos podem se encaixar, como num quebra-cabeças, para formar
um todo original e coerente.
Não devemos, portanto, perder de vista a
unidade do romance e sobretudo a existência de um enredo principal que o
percorre. Ao comentar a técnica narrativa de Machado em Brás Cubas, quero propor uma leitura que resgate esse enredo
principal. Este dialoga, por outro lado, com enredos alternativos e apenas
insinuados, que são caros a gêneros românticos ou naturalistas habilmente
ironizados pelo autor. Ao fazê-lo torna
mais complexa e enriquecedora a leitura, cria suspense e muitas vezes
surpreende o leitor não pelo que acontece, mas pelo que deixa de acontecer.
O enredo principal a que me refiro está
centrado na relação amorosa entre Brás Cubas e Virgília. Amorosa? Como definir
essa relação entre Brás e Virgília que se mantém e ao mesmo tempo sofre várias
transformações ao longo de tantos anos? Associada à resposta a esta questão
estará a análise da tipologia amorosa proposta por Machado nas Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Intriga-me o fato de que, apesar da
centralidade de Virgília em Memórias
Póstumas de Brás Cubas, a crítica a ela tem dedicado relativamente pouca
atenção, não apenas quando comparada com a Capitu de Dom Casmurro ou outras personagens dos romances da fase madura de
Machado, mas também a personagens das próprias Memórias Póstumas às quais o autor dedicou menos a sua pena e a sua
tinta, como Eugênia. Quero trazer Virgília ao primeiro plano da análise por uma
razão simples: ela é de longe a personagem mais citada no romance. Embora
devamos desconfiar dos critérios quantitativos, neste caso eles servem no
mínimo de indicação de que o autor atribuiu a ela uma importância maior do que
às demais mulheres que despertaram no narrador Brás Cubas a idéia de casamento:
ela é citada 198 vezes no livro;
Nhã-loló, 18 e Eugênia, 14.
Não é por certo de menor interesse que a
relação entre Brás e Virgília corresponda a uma história de amor escuso,
descompromissado e sem culpas, acomodado às circunstâncias e conveniências,
condicionado pela oportunidade, sujeito aos caprichos da opinião e ao mesmo
tempo refreado por decisões racionais. Às vezes o interesse despertado por um
personagem não advém da simpatia ou antipatia que temos por ele, de suas
qualidades intrínsecas, suas virtudes, de seu heroísmo, nem do julgamento moral
que dele fazemos. Esse interesse pode também ser despertado por qualidades
negativas, como o vício, a frieza ou a mediocridade.
Finalmente, sem adotar uma postura moralista,
caberá examinar as questões morais com as quais se deparam esses dois
personagens -- a moral entendida como expressão do foro íntimo ou das
convenções sociais --, a partir de conceitos formulados pelo próprio narrador.
Embora saída de um romance do século XIX, não será surpresa se Virgília, por
seus vícios e virtudes, por sua independência e capacidade de manter uma
relação de igualdade com Brás Cubas, por sua altivez e ousadia, mas também por
seu fingimento e por seu medo de perder seu conforto ou romper com as
convenções, nos parecer próxima de alguma personagem conhecida, da vida real ou
do cinema contemporâneo.
João
Almino