A geração oitenta escreve. E bem.

O ESTADO DE S. PAULO, 13/11/87

LIVROS/CRÍTICA

Humor refinado, ironia sofisticada, a marca de João Almino, um autor jovem que vale conferir.

Se você é um daqueles muitos leitores que acreditam, não sem razão, que a literatura brasileira vai mal das pernas, atenção: dois lançamentos deste segundo semestre – Inácio Araújo, com Casa de Meninas, publicado em agosto pela editora Marco Zero, e João Almino, com Idéias para Onde Passar o Fim do Mundo, publicado mês passado pela editora Brasiliense – colocam esta afirmação em cheque.

São autores jovens, que não foram exilados, presos ou torturados. Chega às livrarias – até que enfim – a geração oitenta. Autores que contam suas histórias com estilo próprio e têm em comum o senso de humor. Humor refinado, ironia sofisticada, alvos certeiros, como neste trecho de João Almino: “Contudo, eliminei personagens. A principal razão, última e determinante instância, foi pura preguiça”. E que não têm medo de citar. São muitas as citações: de músicas – Almino brinca com letras desde Caetano Veloso até os Beatles, que quase dão nome a um de seus capítulos, com o nome de sua música “No Diamonds in the Sky”, filmes, ditos populares e a própria literatura.

Afinal, é a partir de uma citação explicitada a Machado de Assis que inicia esta história de um mundo caótico, contada por um autor defunto. Sempre próximo da política, o autor é diplomata e é em Brasília que se passa a ação. Nada, entretanto, de escritos descobertos na gaveta de algum velho móvel. Nem de defundo querendo contar

sua própria história. O autor-defunto deste Idéias volta à vida para contar a história de seus personagens, fixados numa fotografia amarelecida da posse do presidente Paulo Antonio Fernandes, o primeiro presidente negro no Brasil e, como não poderia deixar de ser, filho de um general. Participam da história Madalena, sua mulher psicanalista, a filha Silvinha, a irmã de criação Eva e outros que …”mesmo absolutamente secundários”, insistem em integrar a ação. Caso contrário ao da nordestina Berenice que, sem aparecer na foto, ganha força de guest star.

Não se trata, entretanto, de citações destinadas a mostrar/demonstrar cultura. São feitas ao nível da homenagem, da referência, realizadas com leveza e, por que não, com uma certa piscadela cúmplice com o leitor, a exemplo de quando cita João Guimarães Rosa “…em veredas escuras do grande sertão” e, através da brincadeira, revela o estilo trabalhado e o apuro formal em que nada está por acaso.

Que possibilitam ao autor, num crescendo de “vidros e cacos fragmentários”, a completa atemporalidade do texto e a superposição de histórias. Diferentes, ou apenas vistas por diferentes prismas, por diferentes personagens, já que a uns é dado interferir na história dos outros, por causa da total mobilidade de que gozam e de que goza, principalmente, o personagem-narrador, que, defunto, se incorpora em cada um desses personagens para melhor relatar sua história, compreendê-lo e expô-lo ao leitor. Finda essa exposição, aliás, o narrador rapidamente se desinteressa do personagem já por demais esmiuçado e o abandona em busca de sangue fresco.

Nesse troca-troca, porém, nem sempre Almino é muito feliz, já que tudo na obra – agilidade do texto, força do enredo e interesse da ação – depende, num certo sentido, do personagem enfocado no momento. Todo o conjunto ganha então força, agilidade e vida com Berenice, a criada por definição, e Íris, ex-prostituta, atual vidente do “Templo da Salvação”, personagens fortes, catalisadores, que tudo submetem à sua própria visão e dimensão e que, num vórtice de imaginação desenfreada, que mistura discos voadores, sacis-pererês, assassinatos e fins-do-mundo, agarram o leitor e o dominam, para logo em seguida perdê-lo para personagens que, possivelmente desejados, mais pausados como Madalena e Eva, aparecem diante desses dois, como pálidos e sem vida.

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra e Almino consegue reencontrar o equilíbrio de seu texto numa deliciosa discussão final entre Mário Camargo de Castro, o personagem-narrador, e Silvinha, em vida sua amante, que psicografou a obra ou, talvez, seja o narrador deste, como diz o próprio personagem, livro “anti-romance, antididático e antialternativo”, que reúne todas as condições para fazer o leitor esquecer do caos em que vive o Brasil de hoje e mergulhar no caos do Ano I, seja lá de que época for, que o autor não está para essas explicações. Mas mergulhar com prazer.


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