Entrevista a O Globo: A TRILOGIA DE BRAS√ćLIA

João Almino lança novo livro ambientado na cidade de muitos brasis

ENTREVISTA JOÃO ALMINO

Chega na pr√≥xima semana √†s livrarias do pa√≠s mais uma obra do terceiro “jo√£o liter√°rio” produzido pela diplomacia brasileira. Depois de Jo√£o Guimar√£es Rosa e de Jo√£o Cabral de Mello Neto, a vez √© do diplomata Jo√£o Almino, que lan√ßa seu romance “As cinco esta√ß√Ķes do amor” ter√ßa-feira, √†s 20h, na Argumento. Ministro-conselheiro da Embaixada do Brasil em Londres, em julho Almino assume a dire√ß√£o do Instituto Rio Branco, em Bras√≠lia.

Cassia Maria Rodrigues
Correspondente ‚ÄĘ LONDRES

O GLOBO: Com “As cinco esta√ß√Ķes do amor”, voc√™ concluiu a trilogia de Bras√≠lia iniciada com “Id√©ias para onde passar o fim do mundo”. De que trata o livro? E por que este t√≠tulo?
JO√ÉO ALMINO: O livro √© uma reflex√£o sobre as rela√ß√Ķes contempor√Ęneas, sobretudo as amorosas. Vivemos um momento de crise e de revis√£o de comportamentos, que se remete √† grande revolu√ß√£o de costumes de 1968. Mas n√£o apenas isso. √Č algo que vem de mais longe. 0 amor √© uma id√©ia; √© uma constru√ß√£o moderna sobretudo a id√©ia de que o amor pode vir junto com o casamento. Houve √©pocas em que essas duas coisas n√£o estavam ligadas. Ent√£o, pensar a quest√£o da rela√ß√£o do ponto de vista afetivo, da conviv√™ncia, neste momento de grandes transforma√ß√Ķes comportamentos, √© o tema do livro. Sobre “As cinco esta√ß√Ķes do amor”, bom, √© uma met√°fora. Em portugu√™s, pelo menos, elas t√™m um sentido amb√≠guo, porque podem ser como as esta√ß√Ķes do ano ou as esta√ß√Ķes da cruz. Mas estas s√£o mais do que cinco. Ent√£o as cinco, de fato, lan√ßam uma esp√©cie de pergunta. H√° o que vai al√©m do que √© previs√≠vel, algo como a terceira margem do rio.

Em suas narrativas, voc√™ amplia a import√Ęncia dos personagens femininos. Despertam fasc√≠nio maior por serem mais ricos em emo√ß√Ķes?
JOÃO ALMINO: Sim. 0 personagem feminino me permite como escritor abranger mais a vida. Se eu escrevesse este mesmo livro com um personagem masculino, talvez não pudesse me aprofundar tanto em aspectos humanos que eu gostaria de me aprofundar. Eu queria uma dimensão mais completa da vida. Acho que os homens se limitam mais em alguns aspectos. Preferi fazer um livro mais quente, e achei que poderia fazer isso melhor com um personagem feminino.

Por que Brasília é uma fonte de inspiração para você?
JO√ÉO ALMINO: Bras√≠lia, em primeiro lugar, √© um vazio. Uma cidade sem hist√≥ria ainda, com mais futuro do que passado. √Č uma inc√≥gnita em muitos sentidos. Mas, sendo um vazio, √© tamb√©m uma cidade onde voc√™ pode mais facilmente p√Ķr o que voc√™ quiser. Tem um horizonte muito amplo para a fic√ß√£o. E √© uma mistura de brasis: tem muito do Nordeste brasileiro, tem algo do Centro do Brasil, do Planalto, um pouco da Amaz√īnia, um pouco do Sul. E bastante do Sudeste, ao dar continuidade √† administra√ß√£o federal que veio do Rio. Mas Bras√≠lia √© tamb√©m palco, teatro. Mesmo a sua arquitetura se presta aos grandes cen√°rios. Pessoalmente, como fui um migrante em minha vida toda, e em todos os lugares em que eu vivi, vivi relativamente pouco tempo, eu diria que Bras√≠lia √© daqueles lugares do mundo onde eu mais vivi. Mas nem sempre esta minha liga√ß√£o com a cidade √© de atra√ß√£o, pode ser de repulsa. Mas a atra√ß√£o √© suficiente para que a cidade me instigue.

Mesmo a Bras√≠lia da falta de √©tica nas rela√ß√Ķes pol√≠ticas √© uma boa id√©ia para se passar o fim do mundo?
JO√ÉO ALMINO: Sim, Bras√≠lia √© um bom lugar para se passar o fim do mundo, assim como outros. Acho que a id√©ia do fim do mundo, pelo menos na minha literatura, est√° presente desde o come√ßo porque tamb√©m est√° muito presente no imagin√°rio moderno. A gente teve a impress√£o de que seria poss√≠vel transformar o mundo de maneira radical. Faz parte do imagin√°rio moderno essa id√©ia de uma mudan√ßa, e da possibilidade de uma mudan√ßa radical. Sobretudo atrav√©s da id√©ia da revolu√ß√£o, que foi uma id√©ia hist√≥rica t√£o importante. Inclusive, gerou grandes transforma√ß√Ķes no s√©culo XX – a pr√≥pria id√©ia da constru√ß√£o de um homem novo. Mas, ao mesmo tempo, h√° uma consci√™ncia crescente de que se trata de uma ilus√£o tamb√©m. No fundo, as coisas mudam para melhor e para pior, mas h√° tamb√©m, e sobretudo, uma grande continuidade, h√° algo subjacente que permanece, que tem a ver com a cultura. 0 fim do mundo, portanto, em vez de existir em algum ponto do futuro, em vez de haver um zero da hist√≥ria em algum momento, de alguma maneira, se ele existe, existe todos os dias. Temos que conviver com ele porque √© parte do nosso imagin√°rio. Depende de n√≥s querer viv√™-lo como ilus√£o ou ter consci√™ncia de que ele nada mais √© do que uma id√©ia pela qual somos atra√≠dos ou que nos assusta.

Em outras palavras, voc√™ passaria o fim do mundo em Bras√≠lia, mas trabalhando para livr√°-la do purgat√≥rio…
JO√ÉO ALMINO: 0 papel do escritor √©, sobretudo, o de tentar aumentar o universo. das percep√ß√Ķes, da consci√™ncia para os problemas, e tentar reduzir o universo das ilus√Ķes. Se com isso ele conseguir fazer com que seus leitores se distanciem do inferno, talvez esse seja um bom efeito da sua literatura. Mas eu tenho uma certa d√ļvida dessa efic√°cia. Eu gostaria de poder acreditar nessa capacidade transformadora da palavra, mas infelizmente n√£o estou certo dela.

Particularmente em rela√ß√£o a “As cinco esta√ß√Ķes do amor”, como se deu a concep√ß√£o do livro?
JOAO ALMINO: Tudo começou com o primeiro livro, que abriu um leque de caminhos. No início, eu imaginei até que poderiam ser mais de três. Os personagens estão lá, eles vão. amadurecendo, alguns crescem um pouco mais, outros nem tanto. E, no final de cada livro, ficam as sementes do livro seguinte. Outros projetos de livros, dos quais escolho um. Então, essa personagem (Ana Kaufmann), que acaba sendo desenvolvida de maneira mais clara no terceiro livro, está presente tanto no primeiro como no segundo. Mas os três livros não precisam ser lidos em série. Eles são independentes.

Voc√™ costuma desenvolver a narrativa na primeira pessoa. √Č uma ferramenta liter√°ria mais f√°cil de ser usada?
JO√ÉO ALMIN0: A narrativa na primeira pessoa leva talvez a uma mais f√°cil identifica√ß√£o do leitor com o personagem. Tentei muito brincar com essa id√©ia da primeira e tamb√©m da terceira pessoa nos meus romances. O meu primeiro livro (“Id√©ias para onde passar o fim do mundo”) √©, em grande parte, em terceira pessoa. Mas √© uma terceira pessoa n√£o t√≠pica. A estrutura dele √© a seguinte: um fantasma desce √† terra para completar, digamos, uma hist√≥ria, um roteiro de cinema que ele tentara em vida realizar e n√£o conseguira. Ent√£o ele baixa na terra em cada um dos seus personagens. Cada cap√≠tulo √© narrado em terceira pessoa, mas √© uma narrativa feita a partir de dentro do personagem, quer dizer, o fantasma est√° dentro do personagem. Portanto, √© uma terceira pessoa que tem toda a dimens√£o da primeira pessoa. Esse foi o jogo do primeiro livro, do ponto de vista da t√©cnica da narrativa No segundo (“Samba-enredo”), a narrativa √© em primeira pessoa, mas √© uma primeira pessoa at√≠pica; porque quem est√° narrando √© uma m√°quina, uma primeira pessoa que tem os limites e a objetividade da terceira pessoa.

Alguns autores brasileiros, como Ana Maria Machado e Ign√°cio de Loyola Brand√£o, identificaram o seu “humor liter√°rio corrosivo” com o de Machado. O que acha?
JO√ÉO ALMINO: N√£o sei se devo acreditar, mas obviamente me sentiria muito honrado com qualquer compara√ß√£o que se fizesse com o grande mestre da fic√ß√£o brasileira Por acaso, li Machado muito cedo, porque meu pai, mesmo sendo um autodidata que tinha apenas o curso prim√°rio, era dono de uma boa biblioteca. Era um grande leitor e, para felicidade minha, l√° no interior do Rio Grande do Norte, em Mossor√≥, eu tinha em casa a obra de Machado e a de Graciliano, autores que eu comecei a ler muito cedo. Se algum dia eu tiver d√ļvida sobre a vontade de viver, pegar um livro do Machado, abrir e ler algumas p√°ginas, sei que √© algo que me far√° renascer.

O que, no Brasil real o inspirou em sua ficção?
JO√ÉO ALMINO: Acho que, em primeiro lugar, o escritor reage √† id√©ia do homem no mundo. Ent√£o, em primeiro lugar n√£o √© apenas o Brasil. √Č o seu estar no mundo que √© uma fonte perene de inspira√ß√£o para os escritores, desde os cl√°ssicos, desde os gregos, desde antes. Acho que mat√©ria-prima para se trabalhar com a literatura n√£o falta. E os grandes temas s√£o os temas perenes, como o amor e a amizade. Agora, al√©m disso, eu diria que o projeto moderno √© um projeto ainda inacabado, e os grandes problemas que a Humanidade tem enfrentado para a constru√ß√£o desse mundo moderno s√£o problemas ainda existentes. E, √† medida que se tenta resolver alguns, outros tantos surgem. Ent√£o, a cada dia que passa enfrentamos novos problemas no Brasil e fora do Brasil. A literatura obviamente lida com aquilo que, quem escreve, conhece melhor, como a sua viv√™ncia, a sua exist√™ncia. Certamente que um escritor brasileiro, mesmo que n√£o fale do Brasil, estar√° refletindo a sua exist√™ncia brasileira. Como por exemplo, Shakespeare, ao escrever sobre a Dinamarca, obviamente continua sendo um autor ingl√™s. Nesse sentido, n√£o h√° como fugir √† realidade do pa√≠s. A realidade do pa√≠s √© complexa, √© brutal, e o escritor tem que enfrent√°-la atrav√©s da sua linguagem.


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