As Cinco Esta√ß√Ķes do Amor

Veja, 4 de julho, 2001

Se o rock de Bras√≠lia foi obra de uma gera√ß√£o, a fic√ß√£o de Bras√≠lia, at√© o momento, √© obra de um homem s√≥: o escritor e diplomata Jo√£o Almino, de 51 anos. Seu novo romance, As Cinco Esta√ß√Ķes do Amor, d√° seguimento a Id√©ias para Onde Passar o Fim do Mundo (1987) e Samba-Enredo (1994). Nas palavras do autor, fecha uma trilogia que tem a capital brasileira como cen√°rio – n√£o a cidade monumental, mas aquela que aspira a ser igual a todas as outras, com seus migrantes, seus jovens, seus intelectuais, seus ricos e pobres. Os tr√™s livros podem ser lidos de maneira independente, embora temas e personagens sejam comuns a eles.

Temas como as promessas não cumpridas da modernidade, e personagens como Ana, secundária em Samba-Enredo e agora alçada à posição de narradora. Uma linguagem sem floreios Рsimples, embora não seca Рtambém é usada nos três. Mas mudam algumas coisas.

A forma de narra√ß√£o √© mais linear nesse livro do que nos outros. E o tom, antes zombeteiro, agora √© tingido de melancolia, o que se torna adequado ao enredo: √†s v√©speras do ano 2000, um grupo de amigos, que se formou no final dos anos 60, trama um reencontro. Todos vivem a meia-idade. A narradora, mais que isso, a crise proverbial associada a essa fase. “Minha juventude est√° perdida. A Bras√≠lia de meu sonho de futuro est√° morta. Reconhe√ßo-me nas fachadas de seus pr√©dios precocemente envelhecidos, na sua modemidade prec√°ria e decadente”, diz ela. Jo√£o Almino, por√©m, reserva surpresas ao leitor – como o surgimento de Norberto, ou Berta, um dos amigos da turma agora convertido em travesti. Em As Cinco Esta√ß√Ķes do Amor, todo o peso das frustra√ß√Ķes e esperan√ßas dos personagens √© posto n√£o mais em grandes projetos e ideologias, mas nas muitas tramas poss√≠veis do amor, da amizade e do sexo. Se existe revolu√ß√£o poss√≠vel, estar√° ela na intimidade? Essa parece ser a id√©ia – ou a pol√™mica – por tr√°s desse belo romance, que s√≥ na superf√≠cie √© convencional.


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