Autor cria geografia que entranha nos personagens

Imortal, Jo√£o Almino cria geografia que entranha nos personagens
‘Entre Facas, Algod√£o’ √© 1¬ļ romance do autor j√° membro da Academia Brasileira de Letras

Folha de S. Paulo, Ilustrada
Sábado, 10 de março de 2018
EDIÇÃO IMPRESSA

BEATRIZ RESENDE
Especial para a Folha

ENTRE FACAS, ALGODÃO
Preço R$ 39,90 (192 págs.)
Autor Jo√£o Almino
Editora Record

Sobre João Almino, diz-se sempre que se tornou o romancista de Brasília. Mais do que isso: o escritor colocou no universo afetivo da literatura brasileira a cidade sem calçadas do delírio modernista.

Em “Cidade Livre”, de 2010, voltou aos in√≠cios da cidade, ao momento da constru√ß√£o, do monumento que se ergueu sobre restos da primeira, desordenada, pecadora, onde o crime ainda era o crime comum, praticado por homens comuns. Aquela, diz, foi a primeira cidade descart√°vel, “constru√≠da para ser destru√≠da”.

Em “Entre Facas, Algod√£o”, primeiro romance de Jo√£o Almino j√° membro da Academia Brasileira de Letras, a vida em Bras√≠lia e o casamento do narrador, advogado nordestino de 70 anos que venceu na capital, j√° se esgotou. Cansado do presente, o passado reaparece com interesse.

O di√°rio, que d√° forma ao romance, registra secamente as decis√Ķes, que s√£o tamb√©m partilhadas pelo Facebook.

Dois feriados seguidos em Bras√≠lia ‚ÄĒ”Vou aqui de feriado em feriado, nem sei por qu√™. Hoje imagino que haja discursos e protestos”‚ÄĒ evocam a rede branca sem ningu√©m balan√ßando no alpendre movida pelo Nordeste, vento que chegava forte na casa do passado.

Nessa idade, a cabe√ßa por vezes falha, as paisagens de secura e √°rvores calcinadas se misturam, mas “os sonhos t√™m mem√≥ria” e surge a lembran√ßa de um amor de juventude, da casa da fam√≠lia.

Algumas trocas de WhatsApp, e Tabatinga √© deixada para tr√°s em voo para Fortaleza e de l√°, via Mossor√≥, para a fazendola comprada, lugar onde passara a inf√Ęncia, na inten√ß√£o de plantar algod√£o.

Dentre as v√°rias raz√Ķes para a mudan√ßa est√° uma necessidade de vingan√ßa. Alguma trag√©dia a envolver pai, m√£e e madrinha.

O que torna a narrativa especial e confirma uma dic√ß√£o √ļnica √© a cria√ß√£o do espa√ßo por onde evolui a narrativa, os lugares por onde se movem os personagens, a geografia que entranha nas rela√ß√Ķes.

Só que desta vez é a voz do sertanejo que anota belezas repentinas, a feiura das localidades abandonadas, o rio que não dá passagem, o meio do mato onde não se pode conseguir suportar a solidão, nem mesmo depois do wi-fi.

Na chegada, o espaço é mesmo do passado e do presente: a lembrança do açude de Orós arrombado, a visão do cemitério ainda pobre, o rio que impede o caminho, os caminhos sinuosos e esburacados. Na cidade, as misérias de sempre estão só mais espalhadas.

Nesse Brasil de diferentes temporalidades que se juntam num presente impregnado ainda de perversas heranças não reparadas, os crimes mudaram apenas de armas.

As facas, que faziam jorrar tanto sangue, foram substitu√≠das por outros recursos que preferem sangrar os cofres p√ļblicos. Os criminosos, os mandantes, o romance nos mostra, continuam os mesmos.

O homem velho deixa o Nordeste: “meu esp√≠rito secou, como a paisagem do sert√£o no auge do ver√£o”. Retorna a Bras√≠lia. Talvez o acaso traga de volta uma emo√ß√£o vivida. Mas est√° dif√≠cil.

BEATRIZ RESENDE é crítica, professora da UFRJ e pesquisadora do CNPQ e da FAPERJ

ENTRE FACAS, ALGODÃO
AUTOR: Jo√£o Almino
EDITORA: Record
QUANTO: R$ 39,90 (192 p√°gs.)
AVALIAÇÃO: muito bom ****


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