CIDADE LIVRE ‚Äď FUNDA√á√ÉO E MEM√ďRIA CULTURAL, por Regina Zilberman

O romance Cidade Livre, de Jo√£o Almino, organiza a trama em fun√ß√£o de dois eventos: a constru√ß√£o de Bras√≠lia e o desaparecimento do oper√°rio Valdivino. Examinam-se as conex√Ķes entre os dois epis√≥dios, o primeiro de ordem hist√≥rica, o segundo, de natureza ficcional, para se pensar as rela√ß√Ķes entre um mito de funda√ß√£o e a condi√ß√£o sacral e sacrificial do her√≥i fundador.

REGINA ZILBERMAN, CIDADE LIVRE ‚Äď FUNDA√á√ÉO E MEM√ďRIA CULTURAL. IN: NARRATI-VAS CONTEMPOR√āNEAS, RECORTES CR√ćTICOS SOBRE LITERATURA BRASI-LEIRA. ORG: G√ćNIA MARIA GOMES. PORTO ALEGRE: LIBRETOS, P. 29-46.

CIDADE LIVRE ‚Äď FUNDA√á√ÉO E MEM√ďRIA CULTURAL
Regina Zilberman
UFRGS
Resumo: O romance Cidade Livre, de Jo√£o Almino, organiza a trama em fun√ß√£o de dois eventos: a constru√ß√£o de Bras√≠lia e o desaparecimento do oper√°rio Valdivino. Examinam-se as conex√Ķes entre os dois epis√≥dios, o primeiro de ordem hist√≥rica, o segundo, de natureza ficcional, para se pensar as rela√ß√Ķes entre um mito de funda√ß√£o e a condi√ß√£o sacral e sacrificial do her√≥i fundador.
Palavras-chave: João Almino; Cidade Livre; fundação; memória cultural
Abstract: The plot of João Almino’s novel, Cidade Livre, is organized by two events: the building of Brasilia, the new Brazilian capital, and the vanishing of a worker, the character Valdivino. The connections between these episodes, one historical, the other ficcional, are examined, in order to understand the relations between a foundation myth, and the sacred and sacrificing conditon of a founder hero.
Key words: Jo√£o Almino; Cidade Livre; foundation; cultural memory.
Nosso passado se esconde atrás de muros às vezes impenetráveis e se revela ao acaso, aqui e ali, quando o evocamos por meio de um indício, de uma palavra, de um cheiro, de um gosto, de um detalhe qualquer, como quem olha uma paisagem através de furos na parede. (ALMINO, 2010, p. 232)
1. À PROCURA DO AUTOR
Cidade Livre √© o quinto romance de Jo√£o Almino, autor tamb√©m de Id√©ias para on-de passar o fim do mundo (1987), Samba-enredo (1994), As cinco esta√ß√Ķes do amor (2001) e O livro das emo√ß√Ķes (2008). Publicado em 2010, seu lan√ßamento coincidiu com as comemora√ß√Ķes do cinquenten√°rio de Bras√≠lia, cen√°rio desse conjunto de obras ficcionais. O escritor intitula ‚ÄúQuinteto de Bras√≠lia‚ÄĚ a esse grupo de romances, cuja unidade decorre igualmente da reitera√ß√£o de personagens, que, embora importantes, ocupam posi√ß√Ķes colaterais no enredo, o que faculta sua migra√ß√£o de uma obra a outra.
O tempo dir√° se Cidade Livre √© o fim de um ciclo; mas o romance, sem d√ļvida, nar-ra um come√ßo ‚Äď o da cidade que acolhe as figuras da trama, o que significa afirmar tamb√©m que relata o in√≠cio de um modelo de na√ß√£o para o Brasil, dado o projeto que fundamentou e fecundou a cria√ß√£o de Bras√≠lia. Assim, Cidade Livre assume identidade √©pica enquanto pro-jeto narrativo, ao mesmo tempo em que lida com as coordenadas do mito enquanto modo de expor atos inaugurais de uma civiliza√ß√£o ou de uma cultura.
Uma introdu√ß√£o e sete cap√≠tulos, todos devidamente providos de um t√≠tulo, estrutu-ram a ordem narrativa. A abertura, ela mesma nomeada ‚ÄúIntrodu√ß√£o‚ÄĚ, a que se seguem dois pontos e uma especifica√ß√£o, ‚ÄúSete noites e um enterro‚ÄĚ, √© assinada pelo narrador e presun-tivo autor da obra, que se identifica apenas com as iniciais JA, mas que faz quest√£o de se distinguir de Jo√£o Almino, o escritor que, colocando seu nome na capa, √© o respons√°vel pe-lo livro. A disjun√ß√£o entre os dois JAs apoia-se em dois recursos: o narrador alude ao fato de ter oferecido o livro para a leitura e corre√ß√£o de Jo√£o Almino, arrependendo-se depois desse ato: ‚Äúcometi o erro de entreg√°-lo a um escritor que o esvaziou de v√≠rgulas e pontos‚ÄĚ (ALMINO, 2010, p. 15); no transcurso dos cap√≠tulos seguintes, o narrador retoma o proce-dimento, aludindo mais de uma vez √†s sugest√Ķes expressas por Jo√£o Almino no sentido de aperfei√ßoar o texto, o que refor√ßa a discrimina√ß√£o entre as duas criaturas [por exemplo: ‚Äúdiscordo neste ponto da revis√£o de Jo√£o Almino, que introduziu sonhos demais na nossa viagem ao Planalto Central‚ÄĚ (ALMINO, 2010, p. 34)].
Por outro lado, o narrador parece não querer abrir mão da ambiguidade que a dupla denominação sugere. Assim, encerra a introdução com uma observação, dirigida aos leito-res, que, em lugar de esclarecer sua identidade, sublinha a coincidência entre os dois sujei-tos, à qual se seguem as iniciais JA, mencionadas antes:
At√© aqui este √© o √ļnico par√°grafo que voc√™s, leitores do blog, comentaram, que-rem porque querem saber meu nome ou pelo menos se sou ou n√£o sou Jo√£o Al-mino, como se a hist√≥ria mudasse de sentido dependendo de quem seja seu autor, mas paci√™ncia, mantenho meu anonimato pela simples raz√£o de que me d√° mais liberdade, sobretudo liberdade para ser sincero. (ALMINO, 2010, p. 17-18)
Ao estabelecer a dualidade entre o narrador em primeira pessoa, identificado como Jo√£o, e o escritor que assina o livro, o autor subverte a atribui√ß√£o da autoria. Observe-se que a autoria, em qualquer circunst√Ęncia, em se tratando de obras de fic√ß√£o, corteja a condi-√ß√£o do ghostwriter, ainda que √†s avessas: uma obra √© assinada por um ser hist√≥rico, mas quem √© a enuncia √© um ente imagin√°rio, que responde por seu criador. No caso de Cidade Livre, por√©m, essa condi√ß√£o √© colocada de cabe√ßa para baixo, reinvertendo a situa√ß√£o do ghostwriter, agora, por√©m, em um texto de fantasia, pois ocorre de ser a criatura fict√≠cia a reivindicar a autoria, relegando o indiv√≠duo que assina o livro, e que responde legalmente por ele (FOUCAULT, 1992), √† condi√ß√£o de interventor, interpondo-se no discurso alheio para desfigur√°-lo a ponto de comprometer sua espontaneidade.
√Č, pois, como se o sujeito que coloca seu nome na capa cometesse um crime, rou-bando a propriedade que pertenceria, com legitimidade, √† personagem, contudo n√£o plena-mente identificada, que relata os eventos. Essa, por outro lado, tamb√©m n√£o √© inocente, j√° que, da sua parte, se aproveita de discursos alheios, registrados por escrito, como os cader-nos de seu pai adotivo, ou transmitidos oralmente, como as lembran√ßas, oriundas igualmen-te do pai do narrador, que, em estado ag√īnico, aciona sua mem√≥ria para dar conta do passa-do a ser recuperado pelo livro proposto.
Ladr√£o que rouba ladr√£o? √Č essa a cena fundadora de Cidade Livre? As apropria-√ß√Ķes, contudo, n√£o se limitam √† circula√ß√£o dos enunciados entre criador e criatura. Evocam ainda ilustres representantes da literatura brasileira, sendo o mais not√≥rio, no caso, Gracili-ano Ramos (1892-1953), autor de S√£o Bernardo (1934).
Tamb√©m esse romance abre com uma introdu√ß√£o que exp√Ķe o processo de produ√ß√£o do livro. Paulo Hon√≥rio, o protagonista e narrador, t√£o logo inicia o relato, declara:
Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho.
Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contri-buir para o desenvolvimento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as cita√ß√Ķes latinas; Jo√£o Nogueira aceitou a pontua√ß√£o, a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composi√ß√£o tipogr√°fica; para a composi√ß√£o liter√°ria convidei L√ļcio Gomes de Azevedo Gondim, redator e diretor do Cruzei-ro. Eu tra√ßaria o plano, introduziria na hist√≥ria rudimentos de agricultura e pecu√°-ria, faria as despesas e poria o meu nome na capa. (RAMOS, 1972, p. 61)
No par√°grafo seguinte, o narrador declara que o plano n√£o dera certo; mas n√£o de-siste, embora altere o modo de proceder: conserva a colabora√ß√£o de Azevedo Gondim, e os dois trabalham juntos por um tempo, sobretudo porque Paulo Hon√≥rio v√™ em seu parceiro ‚Äúuma esp√©cie de folha de papel destinada a receber as ideias confusas que me fervilhavam na cabe√ßa‚ÄĚ (RAMOS, 1972, p. 62). Por√©m, o resultado acaba por desagrad√°-lo:
O resultado foi um desastre. Quinze dias depois do nosso primeiro encontro, o redator do Cruzeiro apresentou-me dois capítulos datilografados, tão cheios de besteiras que me zanguei:
РVá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está safa-do, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma! (RAMOS, 1972, p. 62-63)
Processo semelhante encontra-se em Cidade Livre: tamb√©m o Jo√£o-narrador desen-canta-se com as sugest√Ķes do outro Jo√£o, que almeja aperfei√ßoar seu estilo:
[…] cometi o erro de entreg√°-lo a um escritor que o esvaziou de v√≠rgulas e pontos, o encheu de g√≠rias e cenas de viol√™ncia, me alertou ser preciso acrescentar-lhe uma dimens√£o moral e filos√≥fica e ainda me perguntou se continha algum ensi-namento, o que achei um absurdo e por isso decidi envi√°-lo √† editora mesmo sem a moral, a filosofia e o ensinamento, me chateando depois com a resposta polida de que n√£o se enquadrava na sua linha editorial. (ALMINO, 2010, p. 15)
E, tal como ocorre em S√£o Bernardo, cujo protagonista retoma, solitariamente, o projeto de escrita da obra ap√≥s ‚Äúouvi[r] novo pio de coruja‚ÄĚ ‚Äď ‚Äúiniciei a composi√ß√£o de re-pente, valendo-me dos meus pr√≥prios recursos e sem indagar se isto me traz qualquer van-tagem, direta ou indireta‚ÄĚ (RAMOS, 1972, p. 64) ‚Äď, o Jo√£o de Cidade Livre √© motivado por um ‚Äúvulto. Papai!, chamo. Sil√™ncio. Ainda ou√ßo sua voz, como eco, l√° no fundo de meu medo‚ÄĚ (ALMINO, 2010, p. 24), o que aciona o gatilho da mem√≥ria e garante a escrita do livro.
A introdução estabelece, pois, as regras da escrita:
– o compartilhamento da autoria, que, enquanto identidade, se dissolve entre v√°rios sujeitos, ainda que o narrador controle os freios do relato e mante-nha a unidade do di√°logo com o(s) leitor(es);
– a sugest√£o de apropria√ß√Ķes nem sempre leg√≠timas, denunciando o ato cri-minoso que sustenta a cria√ß√£o liter√°ria, formada pelo deslocamento dos su-jeitos da enuncia√ß√£o e pela incorpora√ß√£o de achados alheios, declarados al-guns, conforme indica o narrador no in√≠cio da introdu√ß√£o ‚Äď ‚Äúmeu relato manteve misturadas minhas mem√≥rias, as de papai, minhas pesquisas e as observa√ß√Ķes de tia Francisca‚ÄĚ (ALMINO, 2010, p. 15) ‚Äď, outros, por√©m, omitidos e nem sempre volunt√°rios.
Apoiando a trama de Cidade Livre sobre a necessidade de esclarecimento de um as-sassinato, constata-se que o delito apresenta-se não apenas enquanto objeto da narrativa, mas assenta-se sobre o próprio processo de produção, razão porque o narrador pode ser u-no, mas as subjetividades que o habitam mostram-se variáveis, já que a propriedade materi-al da narração não lhe pertence com exclusividade.
2. TRAMA
Sete capítulos desdobram a trama, cumprindo o prometido no subtítulo da introdu-ção, pois correspondem às sete noites em que o narrador acompanhou a agonia do pai, pre-so e em estado terminal, relembrando com ele os anos da edificação de Brasília.
O primeiro cap√≠tulo, tendo por subt√≠tulo ‚ÄúDe A a Z‚ÄĚ, cont√©m dois segmentos. No primeiro, o narrador evoca a a√ß√£o do pai adotivo, Moacyr Ribeiro, que relata o que teste-munhou no Jardim da Salva√ß√£o, quando Valdivino, personagem cuja fun√ß√£o no romance revela-se aos poucos, teria ou n√£o falecido. Esses acontecimentos datam de 22 de abril de 1960, o dia subsequente √† inaugura√ß√£o de Bras√≠lia. No segundo segmento, o narrador retor-na a 1956, quando sua fam√≠lia, ent√£o constitu√≠da pelo pai adotivo, por tia Francisca (irm√£ de sua finada m√£e) e ele, ainda menino, √© estimulada a transferir-se de Ceres, em Goi√°s, para a regi√£o onde ser√° erigida a nova capital do pa√≠s.
Ceres √©, ela mesma, uma cidade, na √©poca, recentemente fundada, origin√°ria da Co-l√īnia Agr√≠cola de Goi√°s, estabelecida por Bernardo Say√£o (1901-1959), engenheiro e ent√£o vice-governador do Estado, a quem ser√° atribu√≠da a miss√£o de concretizar o projeto do pre-sidente Juscelino Kubitschek (1902-1976). Say√£o √© personagem n√£o apenas da hist√≥ria de Bras√≠lia, mas da vida das personagens de Cidade Livre, pois sua presen√ßa e iniciativas de-sempenhar√£o papel decisivo nos acontecimentos da intriga. Nesse ponto do relato, √© o en-genheiro encarregado da Novacap quem induz Ribeiro e seus parentes, aos quais se junta sua irm√£ Matilde, designada por tia pelo narrador, a come√ßar nova trajet√≥ria em um cen√°rio at√© ent√£o pouco conhecido por todos.
O cap√≠tulo inicial coloca as personagens em dois tempos: a atualidade do narrador e o passado de sua transfer√™ncia para Bras√≠lia. Esse momento corresponde simultaneamente a um novo in√≠cio, j√° que elas viveram traumas ‚Äď Moacyr decide mudar-se para Ceres e adotar o pequeno Jo√£o, depois de uma crise de alcoolismo; Jo√£o perdeu a fam√≠lia (pai, m√£e e duas irm√£s) em um acidente dom√©stico ‚Äď de que precisam se liberar, e ao princ√≠pio propriamente dito de suas exist√™ncias, pois n√£o se apresentam acontecimentos pr√©vios experimentados por qualquer uma dessas criaturas. Assim, n√£o se sabe o que motivou a decad√™ncia de Mo-acyr, qual foi a trajet√≥ria pregressa da fam√≠lia do narrador, e tia Francisca e tia Matilde, re-presentando os dois lados da fam√≠lia, respectivamente a do narrador e a de seu pai adotivo, n√£o contam com uma hist√≥ria anterior.
Tal como Bras√≠lia, a fam√≠lia at√≠pica do narrador vivencia uma esp√©cie de marco ze-ro, embora todos disponham de raz√Ķes ‚Äď fatos anteriormente vividos ‚Äď que justificam a mu-dan√ßa em processo. Mas o que ocorreu antes n√£o contribuiu para o que se passa mais adian-te, de modo que esses dados s√£o omitidos, correspondendo a uma esp√©cie de pr√©-hist√≥ria, logo, carente de registro, de situa√ß√Ķes motivadoras do presente, mas n√£o suficientemente re-levantes para serem relatadas.
O cap√≠tulo se complementa pela apresenta√ß√£o dos primeiros movimentos na dire√ß√£o da instala√ß√£o da Cidade Livre, entre 1956 e 1957. Aquela, que viria a constituir o atual N√ļ-cleo Bandeirante, disp√Ķe de um estatuto particular: ‚Äúprimeira cidade descart√°vel‚ÄĚ, ‚Äúconstru-√≠da para ser destru√≠da‚ÄĚ (ALMINO, 2010, p. 43), e qualificada de ‚Äúlivre‚ÄĚ, porque os comer-ciantes locais n√£o pagavam impostos; al√©m disso, acolhia, sem discrimina√ß√Ķes e preconcei-tos, pessoas da mais variada proced√™ncia, desde que comprometidas com a edifica√ß√£o de Bras√≠lia.
O cap√≠tulo inicial configura o modo como o romance se desenvolver√°. Assim, alter-nam-se epis√≥dios relativos √† hist√≥ria da constru√ß√£o da futura capital, com eventos experi-mentados pelo narrador. Rememoram-se as profecias milenaristas que prognosticavam seu aparecimento, as miss√Ķes, desde o s√©culo XIX, que mapearam a regi√£o, as iniciativas do governo federal no sentido de viabilizar o projeto, as inaugura√ß√Ķes que sinalizavam sua ins-tala√ß√£o, as medidas de ordem material de que a Bras√≠lia de hoje resultam, como a altera√ß√£o na geografia dos rios, levando √† cria√ß√£o do lago Parano√°. De outra parte, exp√Ķem-se as ati-vidades de tia Francisca, respons√°vel por fornecer alimentos para o refeit√≥rio dos trabalha-dores, de Moacyr, que almeja documentar o testemunho dos visitantes ilustres que acompa-nham a implanta√ß√£o da nova urbe, enquanto se encarrega dos comodatos na Cidade Livre, e os devaneios er√≥ticos do narrador, ainda menino, ao contemplar Matilde nua, imagem que o persegue por todo o transcurso da narrativa.
O cap√≠tulo seguinte, ‚ÄúSegunda-noite: De corpo e alma‚ÄĚ, narra a inaugura√ß√£o de Bra-s√≠lia, concentrando-se nos festejos ocorridos entre 20 e 21 de abril de 1960. Reitera-se o te-or √©pico que marcara o cap√≠tulo inicial, relativo √† instala√ß√£o do projeto, para relembrar a mobiliza√ß√£o de pessoas que acompanham as missas, os discursos do presidente, a euforia que contamina a todos. A essas recorda√ß√Ķes somam-se as alus√Ķes √† prec√°ria situa√ß√£o de Valdivino, possivelmente perseguido pelo coronel nordestino a quem n√£o pagara a d√≠vida contra√≠da ao aceitar a combina√ß√£o que o levaria a migrar para o Centro-Oeste e obter colo-ca√ß√£o na constru√ß√£o da nova cidade:
Papai tinha conhecimento daqueles abusos. Montavam-se neg√≥cios para financiar as passagens dos retirantes, os agentes de empregos os encontravam onde estives-sem, at√© mesmo nos lugares mais rec√īnditos do sert√£o, e eles, fugindo da seca, se deixavam seduzir pela promessa do trabalho em Bras√≠lia, submetendo-se a quais-quer que fossem as condi√ß√Ķes. (ALMINO, 2010, p. 70)
Mais adiante esclarece-se outro temor do rapaz: ele seria igualmente perseguido por Arist√≥teles, o ‚Äúpolicial da GEB‚ÄĚ (ALMINO, 2010, p. 75), com quem dividia o dormit√≥rio. Tais amea√ßas comp√Ķem o pano de fundo que culmina no sumi√ßo de Valdivino, nunca mais encontrado pelo narrador, apenas por seu pai, conforme esse relata no cap√≠tulo primeiro, ao rever o filho, depois de anos de separa√ß√£o e pr√≥ximo da morte. N√£o surpreende, pois, que o desaparecimento do rapaz converta-se em mist√©rio irresolvido, mesmo porque n√£o √© inves-tigado, atormentando t√£o somente o narrador, por se sentir parcialmente respons√°vel pelo fato, e sua tia Francisca, que permanentemente protesta a inoc√™ncia de Moacyr, sobretudo depois do falecimento desse.
No parágrafo final do capítulo, o narrador inclui uma confissão que dá conta de sua parcela de culpa nos acontecimentos que culminam na morte de Valdivino:
Desde então ficaram misturados em minha cabeça o possível assassinato de Val-divino, a inauguração de Brasília e os peitos de tia Matilde, além de minha pró-pria culpa por ter querido tanto a morte de Valdivino, ele que me queria tanto bem. (ALMINO, 2010, p. 86)
√Ä inaugura√ß√£o de Bras√≠lia soma-se, pois, um crime, cuja v√≠tima pertence √† classe trabalhadora e re√ļne as caracter√≠sticas do indiv√≠duo associado √† constru√ß√£o da cidade ‚Äď o candango. Valdivino √© o sertanejo que se desloca para o centro do pa√≠s, de uma parte, em busca de uma oportunidade profissional, de outra, √† procura da mulher que ama, cuja iden-tidade se revela nos cap√≠tulos finais. Instalada a nova capital, ele √© exterminado, pois, em certo sentido, deixa de se mostrar necess√°rio. Ao contr√°rio da Cidade Livre, estabelecida para ser tempor√°ria, mas que permanece at√© a atualidade, Valdivino √© o ente descart√°vel, que n√£o encontra lugar no mundo que se descortina em 21 de abril de 1960. N√£o por acaso, seu desaparecimento ocorre na data subsequente, 22 de abril, dia em que, conforme assina-lam os historiadores, a frota dos portugueses comandados por Pedro √Ālvares Cabral (1467/8-c.1520) aportou no litoral baiano, dando in√≠cio √† coloniza√ß√£o da Am√©rica lusitana.
Cidade Livre joga com os registros hist√≥ricos, movendo-se do presente para o pas-sado, a fim de interpretar o momento vivido. O 21 de abril escolhido por Kubitschek para inaugurar a nova capital homenageia Tiradentes, como o romance relembra na p√°gina 81; mas √© tamb√©m a ocasi√£o de um crime, quando Joaquim Jos√© da Silva Xavier (1746?-1792), o alferes que supostamente liderara a conjura√ß√£o mineira, fora enforcado pelo poder metro-politano portugu√™s. Assim, o 22 de abril assinala come√ßos, o da coloniza√ß√£o europeia e o de opera√ß√£o de Bras√≠lia enquanto centro pol√≠tico nacional; por√©m, a data est√° marcada por um crime que empana a imagem gloriosa que a mem√≥ria gostaria de consignar. Provavelmente por esse motivo Moacyr, o pai do narrador, jamais consiga levar a cabo o Livro de Ouro em que ambiciona anotar para a posteridade as declara√ß√Ķes de louvor ao projeto e funciona-mento da cidade por parte dos visitantes not√≥rios que por ali passaram durante o per√≠odo de sua edifica√ß√£o.
A partir do terceiro cap√≠tulo, a narrativa adota predominantemente procedimento li-near, substituindo o vaiv√©m cronol√≥gico, entre 1956 e 1960, at√© ent√£o empregado. ‚ÄúTerceira noite: paisagens com cupins‚ÄĚ det√©m-se sobretudo ‚Äúno dia em que conhecemos Valdivino‚ÄĚ (ALMINO, 2010, p. 87), por volta de outubro de 1956. O encontro d√°-se em meio √† mata, onde se acham o narrador e seu pai, quando o rapaz aparece, afirmando t√™-los salvo do ata-que de uma on√ßa. No m√™s seguinte, o jovem passa a trabalhar na Novacap, tornando-se fre-quentador ass√≠duo da casa do narrador, pois conta com a admira√ß√£o de Francisca e o apre√ßo dos demais, incluindo o engenheiro Roberto, parceiro de Matilde.
‚ÄúQuarta noite: Lucr√©cia‚ÄĚ desloca parcialmente o foco para as a√ß√Ķes de Moacyr, que se torna amante de Lucr√©cia, uma prostituta radicada na Cidade Livre. Introduz a persona-gem Paul√£o, a quem o pai do narrador se associa em uma s√©rie de negociatas de que advir√° seu enriquecimento. Esse √© mat√©ria de ‚ÄúQuinta noite: A constru√ß√£o do mist√©rio‚ÄĚ, transcorri-do em 1958, tamb√©m concentrado sobretudo nas a√ß√Ķes de Moacyr, que se considera desti-nado a cumprir duas miss√Ķes: ‚Äútestemunhar aquele come√ßo, registr√°-lo para a hist√≥ria e en-riquecer com as oportunidades que se abriam.‚ÄĚ (ALMINO, 2010, p. 148) Sua melhor opor-tunidade de acompanhar ilustres personalidades das artes e da pol√≠tica internacional ocorre quando Aldous Huxley (1894-1963) e a esposa conhecem Bras√≠lia, o que maravilha o autor de Admir√°vel mundo novo.
‚ÄúSexta noite: O campo da esperan√ßa‚ÄĚ divide as a√ß√Ķes entre Moacyr e Valdivino. Aquele continua seus neg√≥cios com Paul√£o, mas, movido por seu empenho em testemunhar os eventos principais da hist√≥ria, acompanha os trabalhos de Bernardo Say√£o na constru√ß√£o da rodovia que ligar√° Bras√≠lia a Bel√©m, no Par√°. Trata-se de outra tarefa √©pica, que faz sua primeira renomada v√≠tima tr√°gica: o pr√≥prio engenheiro √© atingido por uma √°rvore que vi-nha sendo derrubada:
Pouco depois de meio-dia, papai se aproximava do local juntamente com um to-pógrafo e um engenheiro, e, quando por volta de uma da tarde os três assistiam à derrubada de uma gigantesca árvore que se prendia a outras por cipós e parasitas, um galho seco de quarenta a cinquenta quilos e medindo cerca de dois metros desprendeu-se das ramagens de uma árvore vizinha, voou feroz e veio atingir a cabeça de Bernardo Sayão, bem como seu braço e perna esquerdos. (ALMINO, 2010, p. 188)
Na sequ√™ncia do cap√≠tulo, compete ao narrador testemunhar a mobiliza√ß√£o popular por ocasi√£o do enterro do engenheiro, que desse modo inaugura o campo santo da cidade que erigia. Outra vez o relato assume tom √©pico, ao lidar com a emo√ß√£o popular e as medi-das p√ļblicas dos l√≠deres pol√≠ticos: ‚Äúo presidente JK, chegando a Bras√≠lia, dera a ordem de enterr√°-lo no terreno que o pr√≥prio Say√£o demarcara, h√° menos de dois anos, para ser o fu-turo cemit√©rio de Bras√≠lia, o Campo da Esperan√ßa, que seria assim inaugurado com seu en-terro.‚ÄĚ (ALMINO, 2010, p. 192). Mais adiante, o narrador reitera: ‚ÄúBras√≠lia nunca tinha vis-to e talvez jamais viesse a assistir novamente a enterro t√£o concorrido. O cemit√©rio era um mar de trinta mil pessoas.‚ÄĚ (ALMINO, 2010, p. 193)
As a√ß√Ķes grandiosas n√£o se limitam √† rea√ß√£o popular. A rodovia entre Bel√©m e a fu-tura capital √© inaugurada em 31 de janeiro daquele ano, tomando o nome de Bernardo Sa-y√£o. Al√©m disso, o presidente JK resolve punir a natureza que o privara de um de seus prin-cipais assessores:
[…] o pr√≥prio JK, orgulhoso, naquele dia havia derrubado um velho jatob√° no ponto de liga√ß√£o das frentes norte e sul da estrada, dera ordem para derrubar a primeira √°rvore e ele pr√≥prio derrubara a √ļltima […]. Sentado no trator, cuidado-samente desmobilizara o tronco de jatob√°, que ainda se manteve de p√©, em segui-da engrenara as lagartas e avan√ßara com determina√ß√£o sobre ele, o jatob√° oscilara ainda, mas era j√° ent√£o o cambaleio que prenunciava a morte. (ALMINO, 2010, p. 194).
O epis√≥dio enuncia o outro combate que se travava, agora entre o homem e a natu-reza at√© ent√£o inviol√°vel. Essa alcan√ßara algumas vit√≥rias, mas diante da a√ß√£o empreende-dora do principal her√≥i da trama hist√≥rica, o presidente JK, as derrotas se acumulavam. Elas podiam, por√©m, se mostrar passageiras ou enganosas, desconfian√ßa introduzida pelo narra-dor, ao relembrar conto de Monteiro Lobato (1882-1948), ‚ÄúA vingan√ßa da peroba‚ÄĚ, que a-lude √† lenda do ‚Äúpau de feiti√ßo‚ÄĚ, o ‚Äúpau vingativo que pune a malfeitoria dos homens‚ÄĚ (LOBATO, 1947, p. 107).
A men√ß√£o √† narrativa configura, de uma parte, o tom ‚Äúpoliticamente correto‚ÄĚ do tex-to, ao mesmo tempo que sugere a depreda√ß√£o do espa√ßo natural amaz√īnico. N√£o se restrin-ge, por√©m, a esse papel, ao refor√ßar o car√°ter m√≠tico do processo de funda√ß√£o: tal como o-corre √† inaugura√ß√£o da capital no Planalto Central, a do campo santo relaciona-se a um ato criminoso, que, ritualisticamente, consome os indiv√≠duos que os planejaram, seja o cemit√©-rio, seja a nova cidade.
O cap√≠tulo sexto d√° conta igualmente das agruras de Valdivino, acusado de seduzir e engravidar uma mo√ßa, raz√£o porque √© perseguido pela fam√≠lia dela, que exige o matrim√īnio do par. O suposto sedutor cogita ter sido v√≠tima de uma arma√ß√£o, mas n√£o encontra meios de reagir ou escapar √† pena prevista; por isso, oculta-se por certo tempo, at√© reaparecer em casa de Francisca, por ocasi√£o do carnaval de 1959, conforme relata o narrador. Reside um tempo junto √† fam√≠lia de Jo√£o, mas depois transfere-se para Vila Amaury, em raz√£o de seu trabalho como pedreiro.
‚ÄúS√©tima noite: O deserto e o esquecimento‚ÄĚ denomina o cap√≠tulo de encerramento. Dando continuidade ao percurso cronol√≥gico da narra√ß√£o, alcan√ßam-se as cerim√īnias de i-naugura√ß√£o, antecipadas em cap√≠tulo anterior e agora posicionadas enquanto efeito dos e-ventos previamente expostos. Retorna o tom grandiloquente da epopeia, extra√≠do das in-forma√ß√Ķes contidas nas anota√ß√Ķes que o pai do narrador lega √† posteridade:
Como numa contagem regressiva para o lan√ßamento de um foguete, a caixa de pap√©is de papai anunciava a inaugura√ß√£o de Bras√≠lia atrav√©s de recortes de jor-nais, todos datados e numerados. Ele havia me mostrado no pr√≥prio dia da publi-ca√ß√£o um jornal de 16 de janeiro daquele ano de 1960, noticiando que a Caravana da Integra√ß√£o Nacional, com suas quatro colunas ‚Äď do Norte, Sul, Leste e Oeste, ou seja, de Bel√©m, Porto Alegre, Rio e Cuiab√° ‚Äď, formadas cada uma por cinquen-ta ve√≠culos de fabrica√ß√£o nacional, come√ßava sua viagem para a futura capital, e no dia 2 de fevereiro, juntamente com Valdivino e as tias Francisca e Matilde, me levou sob um c√©u nublado para a Pra√ßa dos Tr√™s Poderes, onde quase toda a po-pula√ß√£o de Bras√≠lia assistia √† chegada daquelas colunas, que seriam recebidas por JK, dona Sarah e todo o minist√©rio. (ALMINO, 2010, p. 212-213)
O narrador n√£o abandona, por√©m, o destino de Valdivino no passado, nem de seu pai, que, neste cap√≠tulo derradeiro, se entrela√ßam, j√° que Moacyr pode ter sido o assassino do rapaz: ‚ÄúDizem que Valdivino agrediu voc√™, papai, porque soube de seu caso com Lucr√©-cia, acreditam que foi voc√™ quem o assassinou em leg√≠tima defesa, que tinha depois tentado, sem √™xito, salv√°-lo, ressuscit√°-lo.‚ÄĚ (ALMINO, 2010, p. 216). O pai apresenta outra vers√£o, repetindo a informa√ß√£o que dera a Jo√£o no cap√≠tulo inicial: encontrou o rapaz inconsciente, tentou despert√°-lo, mas n√£o √© bem sucedido: ‚Äúaproximou-se de Valdivino quando ele tenta-va enunciar mais algumas palavras, envolveu delicadamente seu pesco√ßo com as m√£os, procurou levantar sua cabe√ßa, pareceu-lhe ent√£o que Valdivino havia expirado, sentiu seu pulso e n√£o teve mais d√ļvida.‚ÄĚ (ALMINO, 2010, p. 29). Do renascimento n√£o h√° provas, pois, apenas lendas que circulam entre os adeptos do culto de que Valdivino fazia parte, di-fundidas por √ćris Quelem√©m:
Quando papai voltou ao Jardim da Salva√ß√£o dois dias depois, √ćris lhe disse, Ele √© um santo, para explicar por que o corpo de Valdivino n√£o apodrecia. Nunca vai apodrecer, vaticinou, e mais tarde espalhou que Valdivino ressuscitara, estava vi-vo, embora papai nem ningu√©m l√° em casa nunca mais o tivesse visto. (ALMINO, 2010, p. 30)
√Č ainda no cap√≠tulo final que o narrador exp√Ķe os esclarecimentos apresentados por seu pai: Valdivino era adepto de seita milenarista comandada por √ćris Quelem√©m; essa chamava-se originalmente Lucr√©cia, ex-amante tanto de Moacyr, quanto de Paul√£o, mas tamb√©m a mulher que o rapaz buscava, quando se dirigiu, do sert√£o, ao Planalto Central. Sem elucidar se a sacerdotisa era a amada ou m√£e de Valdivino [‚ÄúN√£o sei se √ćris era ou n√£o a m√£e dele, parece que quando ele era crian√ßa ela lhe contava que ele tinha sido enjeitado na porta de casa, mas quando quis parar com aquela rela√ß√£o maluca com ele, inventou de dizer que era sua m√£e‚ÄĚ (ALMINO, 2010, p. 235), escreve Jo√£o], a narrativa deixa entrever uma rela√ß√£o incestuosa, que coloca v√°rias disputas em cena, todas indicando para a retoma-da do mito de √Čdipo, apresentado aqui √†s avessas, j√° que se sacrifica o filho (Valdivino), e n√£o o pai, em nome da posse da figura materna (Lucr√©cia).
A esse √ļltimo interrogat√≥rio de Moacyr pelo filho adotivo, seguem-se a morte e o enterro do interrogado, cuja confiss√£o n√£o alcan√ßa diminuir as d√ļvidas e incertezas do inter-rogador, mesmo porque esse n√£o supera o sentimento de culpa expresso ao leitor, por efeito de sua condi√ß√£o de narrador:
Confesso a vocês o que não disse a papai: que naquele tempo eu também me sen-tia assassino de Valdivino, um assassino sem remorso. Eu desejei aquela morte, a desejei muito, talvez mais do que qualquer outra pessoa. (ALMINO, 2010, p. 232)
O di√°logo com o leitor, substituindo o interrogat√≥rio feito ao pai adotivo, acaba por ser respondido por esse √ļltimo, retornando do passado e, de certo modo, de seu t√ļmulo: ‚Äúe por que voc√™ quer resolver esse problema?, nem todo problema tem solu√ß√£o, foram essas as √ļltimas palavras que ouvi de papai, entre quatro paredes de um branco sujo.‚ÄĚ (ALMINO, 2010, p. 232) Talvez por essa raz√£o n√£o se verifica o aclaramento desejado pelo narrador, restando, de uma parte, a d√ļvida e a suspeita, de outro, o esquecimento. S√£o as palavras de Moacyr, ao reproduz para o filho seu di√°logo com Lucr√©cia/√ćris de Quelem√©m, que selam o destino da investiga√ß√£o do final de Valdivino: ‚Äún√£o houve crime, em Bras√≠lia n√£o haver√° crimes, ela dizia. Ou os crimes n√£o ser√£o descobertos, contestei. N√£o, n√£o haver√° crimes, ela repetia.‚ÄĚ (ALMINO, 2010, p. 229-230)
3. SACRALIDADE E EXCLUS√ÉO DA HIST√ďRIA
Duas linhas de força travejam Cidade Livre:
Рo processo de construção de Brasília, com ênfase no período transcorrido entre 1956 e 1960, episódio de fundo histórico, decisivo para a compreen-são do Brasil da segunda metade do século XX;
Рa trajetória de Valdivino, desde o encontro com a família do narrador, por volta de 1956, até seu desaparecimento, em 22 de abril de 1960, episódio de natureza fictícia, mas fundamental para a interpretação conferida pelo romance ao pano de fundo histórico.
Essas linhas n√£o s√£o paralelas; pelo contr√°rio, entrela√ßam-se v√°rias vezes, j√° que Valdivino e a fam√≠lia do narrador migram para o Planalto Central, de uma parte, para solu-cionar problemas particulares, mas, de outra, para se integrar aos sucessos not√°veis que l√° ocorriam. Assim, o sertanejo exerce v√°rios of√≠cios em distintos segmentos da trama: √© es-criba, depois servente de obra, oper√°rio, gar√ßom; por√©m, invariavelmente ocupa a posi√ß√£o do representante da camada popular que sustentou a edifica√ß√£o da cidade ‚Äď o candango, cu-ja import√Ęncia ficou perenizada no monumento que o homenageia, de autoria do escultor Bruno Giorgi (1905-1993). Por sua vez, Francisca √© ‚Äúfornecedora de alimentos e tamb√©m auxilia[r] na cozinha do restaurante do Servi√ßo de Alimenta√ß√£o da Previd√™ncia Social‚ÄĚ (ALMINO, 2010, p. 102), Moacyr negocia os comodatos, Matilde namora Roberto, enge-nheiro da obra.
A trama absorve as duas linhas de força, sendo que uma depende da outra: Brasília teria sua história sem Valdivino, Francisca e outros, mas não seria concretizada sem a mão de obra corporificada por eles. Sob esse aspecto, as personagens assumem significado ale-górico, cada qual correspondendo a elementos individuais do processo que, conglutinados, configuram sua imagem compósita. Só que o mosaico que se desenha é móvel, acolhendo, de uma parte, figuras novas, de outra, banindo as antigas.
A elimina√ß√£o mais gritante √© a de Valdivino, a personagem aparentemente colateral que faz as vezes do sujeito sacrificado. Sob esse aspecto, ele ascende √† condi√ß√£o de prota-gonista, al√©m de absorver fatores m√°gicos e divinos, sugeridos de imediato por sua nome de batismo. Outras associa√ß√Ķes reiteram sua situa√ß√£o simult√Ęnea de ente fadado ao sacrif√≠cio ritual e figura dotada de componentes m√≠ticos:
– a identidade com que √© conhecido no Jardim da Salva√ß√£o, Abel, nome do filho de Ad√£o e Eva, o casal original da B√≠blia hebraica, pastor de ovelhas e predileto de Deus, raz√£o do ci√ļme suscitado em seu irm√£o, Caim, que o mata, inaugurando a s√©rie de crimes e de barb√°rie que faz a hist√≥ria da hu-manidade;
– a atra√ß√£o incestuosa por Lucr√©cia, m√£e ou amante, que o conduz a Bras√≠lia, Tebas moderna, e que motiva sua morte, invertendo a sequ√™ncia do mito tr√°gico, mas n√£o deixando de lado o aspecto sacrificial contido na puni√ß√£o de √Čdipo;
Рa aproximação com o destino de Jesus Cristo, pois, ao ser encontrado mor-to ou semimorto no Jardim da Salvação, espera-se que ressuscite, expecta-tiva que se transforma em lenda relativa à sua sorte futura.
Al√©m das aproxima√ß√Ķes m√≠ticas, fica sugerida uma associa√ß√£o, de ordem hist√≥rica, com Tiradentes, o m√°rtir da independ√™ncia brasileira, pois √© por ocasi√£o do feriado dedica-do √†quela personalidade hist√≥rica que a capital √© inaugurada.
Na composi√ß√£o de Valdivino, colaboram, pois, elementos m√≠ticos e hist√≥ricos. Por outro lado, a composi√ß√£o da hist√≥ria de Bras√≠lia tamb√©m incorpora perspectiva m√≠tica, fa-zendo com que, por outro caminho, se cruzem as linhas de for√ßa que travejam o romance. Assim, a escolha do local da funda√ß√£o da cidade relaciona-se √† profecia de dom Bosco, du-plicada na miss√£o de que √ćris Quelem√©m se cr√™ investida: ‚Äú√ćris tivera a ilumina√ß√£o de que dom Bosco lhe atribu√≠a a miss√£o de rumar para o Planalto Central para ajudar a criar a nova civiliza√ß√£o‚ÄĚ (ALMINO, 2010, p. 30); e Valdivino e a seita a que pertence consideram aque-le espa√ßo m√°gico, capaz de conduzi-los a Z, ‚Äúcidade perdida de uma civiliza√ß√£o antiga e avan√ßada‚ÄĚ (ALMINO, 2010, p. 171). Se, por esse aspecto, o comportamento das persona-gens poderia parecer inveross√≠mil, os fatos extraliter√°rios colaboram para conferir-lhe vera-cidade, pois sabe-se que Bras√≠lia e a regi√£o que a cerca, no Planalto Central, congrega seitas milenaristas que contam com adeptos de todo o mundo, circunst√Ęncia, ali√°s, mencionada na trama: ‚ÄúA raz√£o para o espanto n√£o era a arquitetura de Oscar Niemeyer, nem o plano urba-n√≠stico de L√ļcio Costa; eram as cren√ßas e seitas que j√° proliferavm pelos seus arredores […].‚ÄĚ (ALMINO, 2010, p. 222)
A perspectiva m√≠tica por excel√™ncia n√£o procede, por√©m, do contexto messi√Ęnico e apocal√≠ptico que distingue a regi√£o central brasileira. Sem contrariar as peculiaridades do ambiente nacional, enra√≠za-se em um tipo de tradi√ß√£o sacrificial que foi objeto de investiga-√ß√£o e formula√ß√£o de hip√≥teses interpretativas por parte de Sigmund Freud (1865-1939).
Em 1913, em Totem e tabu, Freud explanou os fundamentos de sua teoria, em que transportava para a antropologia suas descobertas relativas ao complexo de √Čdipo, mat√©ria de A interpreta√ß√£o dos sonhos (1899). Destacando o papel da atra√ß√£o incestuosa de todo fi-lho homem pela m√£e, tema do mito grego e da trag√©dia √Čdipo Rei de S√≥focles (497/496-406/405 a.C.), Freud atribuiu a forma√ß√£o da personalidade √† necessidade de reprimir esse instinto primevo. A identidade do sujeito constitui-se a partir de recalques prim√°rios, os quais somente alcan√ßam manifestar-se de modo cifrado, por meio de imagens on√≠ricas ou de lapsos de linguagem.
A confian√ßa de Freud em suas teses levou-o a expandi-las para uma interpreta√ß√£o da forma√ß√£o da sociedade, calcada em similar processo de repress√£o do incesto, j√° que esse tema repete-se em narrativas produzidas por povos de proced√™ncia diversa, em distintos es-t√°gios de civiliza√ß√£o. O resultado √© o livro Totem e tabu (FREUD, 1970), em que exp√Ķe a concep√ß√£o de que, na sociedade tribal primitiva, a atra√ß√£o dos filhos pelas mulheres do pai levou-os a assassinar o genitor, crime que ocasiona culpa compartilhada por todos, ainda que n√£o expressa de modo expl√≠cito. O antepassado √© divinizado, convertendo-se no totem adorado e respeitado pela comunidade. Ao mesmo tempo, eleva-se o tabu do incesto, o que faculta a vida social e impede a uni√£o sexual com mulheres com as quais os homens divi-dem la√ßos sangu√≠neos.
Ainda que evid√™ncias posteriores √† publica√ß√£o de Totem e tabu colocassem sob sus-peita as conclus√Ķes de Freud, suspeitas agudizadas pelo fato de que ele saltava da psicolo-gia individual para a antropologia e a etnologia, o psicanalista n√£o alterou seu pensamento com o passar do tempo. Pelo contr√°rio, ampliou sua abrang√™ncia, retomando-o em seu √ļlti-mo livro, Mois√©s e o monote√≠smo (FREUD, 2001), quando procura explicar as raz√Ķes do antissemitismo a partir de similar fundamento, apoiado na psicologia coletiva.
Nesta obra, produzida entre 1934 e 1938, e editada em 1939, Freud parte da hip√≥te-se de que Mois√©s n√£o era hebreu, mas eg√≠pcio, seguidor da doutrina do fara√≥ Akhenaton, o-riginalmente Amen√≥fis IV, que instaurara entre seu povo, ainda que √† for√ßa, o culto mono-te√≠sta de Aton e fundara a cidade de Akhetaton, destinada √† nova religi√£o. Ap√≥s a morte do fara√≥, os sacerdotes reinstalam o polite√≠smo, mas permanece um n√ļcleo resistente, de que faria parte Mois√©s. Motivado pela sua f√©, o patriarca decide liderar um grupo de hebreus, ent√£o escravos, prometendo-lhes a liberdade e o retorno √† terra de Cana√£, desde que acatada a religi√£o que professava.
Os hebreus teriam aceito a proposta, mas, após deixar o Egito, cansados de vagar no deserto, acabam por assassinar seu líder, retomando suas crenças originais. Tal como em Totem e tabu, ao crime sucede a culpa, e essa conduz à mudança de perspectiva. O coman-dante egípcio é convertido em profeta, sacralizado e adotada sua religião, que, contudo, não mais se livra da noção de delito, necessidade de punição e veneração.
Conforme Freud, √© Mois√©s, pois, o fundador do povo hebreu, n√£o apenas por ter-lhe legado o culto monote√≠sta, mas, principalmente, por desencadear uma √©tica fundada na a-ceita√ß√£o de regras r√≠gidas e inquestion√°veis, oriundas do sentimento de transgress√£o nunca superado. Freud acrescenta que, no caso do juda√≠smo, tais percep√ß√Ķes conduziram a um es-piritualismo nem sempre deglutido por outros grupos, essa constituindo uma das raz√Ķes do antissemitismo, outra sendo a ascens√£o da religi√£o crist√£, para a qual a culpa pode ser per-doada, desde que descontada em parcelas de a√ß√Ķes generosas que garantem a salva√ß√£o do indiv√≠duo que as pratica.
Importa salientar o princ√≠pio presente no pensamento de Freud: a cultura instaura-se a partir da perpetra√ß√£o de um crime. Esse pode ser reprimido, sublimado ou travestido em deifica√ß√£o, mas suas marcas permanecem de algum modo. Para o psicanalista, essas marcas se revelam, mesmo quando √† revelia, por meio do processo que denomina ‚Äúretorno do re-primido‚ÄĚ, mostrando-se seguidamente de forma mascarada, o que requer deciframento, tra-balho conduzido pela terapia psicanal√≠tica, mesmo quando aplicada aos grupos sociais. Para Jan Assmann (1998; 2008), elas introduzem-se na cultura, caracterizando-se essa, pois, por conter necessariamente um elemento amb√≠guo e contradit√≥rio, dial√©tico, dir√≠amos, impedin-do que se apresente exclusivamente de modo celebrat√≥rio e monumental, de uma parte, ou desqualificado e depressivo, de outra.
Observe-se que, adotada a perspectiva freudiana, como procede, em parte, Jan Ass-mann, ao desenvolver sua no√ß√£o de mem√≥ria cultural, torna-se imprescind√≠vel a presen√ßa da figura sacrificial ‚Äď a que corporificar√° o elemento a ser eliminado, porque, de algum modo, indesejado, mas que permanece enquanto fantasma, sombra, enfim, enquanto um ente colo-cado a meio passo entre a vida e a morte.
Giorgio Agamben (2002) qualifica o homo sacer por essas caracter√≠sticas: sua sacra-lidade decorre de uma impunibilidade, e sua indestrutibilidade, da car√™ncia de materialida-de f√≠sica, colocando-se em um espa√ßo intermedi√°rio, inacess√≠vel √† justi√ßa e ao tempo, o que reitera sua imperecibilidade. √Č tamb√©m sua condi√ß√£o que o situa entre a ‚Äúvida nua‚ÄĚ e o ‚Äúpoder soberano‚ÄĚ, que n√£o pode alcan√ß√°-lo. O estado de exce√ß√£o, objeto da reflex√£o de A-gamben, justifica-se a partir da√≠, pois tamb√©m ele se coloca em lugar inating√≠vel, embora necess√°rio, justificando-se permanentemente.
Agamben compara o homo sacer ao comatoso que nem experimenta a vida, nem pode escolher a morte. Um poder decide por ele, o que o substrai da existência:
A sala de reanima√ß√£o onde flutuam entre a vida e a morte o n√©omort, o al√©m-comatoso e o faux vivant delimita um espa√ßo de exce√ß√£o no qual surge, em estado puro, uma vida nua pela primeira vez integralmente controlada pelo homem e pe-la sua tecnologia. E visto que se trata, justamente, n√£o de um corpo natural, mas de uma extrema encarna√ß√£o do homo sacer (o comatoso pode ser definido como ‚Äúum ser intermedi√°rio entre o homem e o animal‚ÄĚ), a aposta em jogo √©, mais uma vez, a defini√ß√£o de uma vida que pode ser morta sem que se cometa homic√≠dio (e que, como o homo sacer, √© ‚Äúinsacrific√°vel‚ÄĚ, no sentido de que n√£o poderia obvi-amente ser colocada √† morte em uma execu√ß√£o de pena capital). (AGAMBEN, 2007, p. 171)
Nada mais próximo da posição de Valdivino ao final de Cidade Livre, a meio cami-nho entre a vida e a morte, sem, contudo, dispor de instrumentos próprios para alterar seu estado.
Valdivino compartilha com o homo sacer a condi√ß√£o sacral e a situa√ß√£o vitim√°ria, sendo que a responsabilidade por essa circunst√Ęncia circula entre as personagens masculi-nas de Cidade Livre, desde o coronel nordestino a quem estaria obrigado a pagar pelo transporte a Bras√≠lia, ao policial da GEB que desgosta dele, limites entre os quais se elen-cam a fam√≠lia da poss√≠vel noiva Carminha, o pai do narrador, ciumento de Lucr√©cia, e o pr√≥prio narrador. Todos teriam motivo para desejar o aniquilamento de Valdivino, todos convivem com sua concomitante falta e presen√ßa, por cima dos quais persiste o poder sobe-rano que determina suas exist√™ncias.
Valdivino √©, pois, o morto que n√£o pode ser enterrado, porque seu cad√°ver n√£o foi encontrado. √Č o cordeiro de Deus sacrificado, √© tamb√©m o l√≠der religioso que conduziria um povo √† terra prometida. Como uma culpa injulgada e, portanto, impenaliz√°vel, Valdivino permanece entre n√≥s, denunciando o que ficou incompleto e ignorado pelo poder soberano, em nosso ininterrupto estado de exce√ß√£o.
REFERÊNCIAS
AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer. O poder soberano e a vida nua. 2. reimpress√£o. Trad. Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.
ALMINO, Jo√£o. Cidade Livre. Rio de Janeiro: Record, 2010.
ASSMANN, Jan. Moses the Egiptian. The Memory of Egypt in Western Monotheism. Cambridge, Mass; London: Harvard University Press, 1998.
ASSMANN, Jan. Religión y memoria cultural. Diez estudios. Trad. Marcelo G. Burello e Karen Saban. Buenos Ayres: Lilmod, Libros de la Araucaria, 2008.
FOUCAULT, Michel. O que é um autor? 3. ed. Trad. António Fernando Cascais e Eduardo Cordeiro. Lisboa: Vega, 1992.
FREUD, Sigmund. Moisés e o monoteísmo. Trad. Maria Aparecida Moraes Rego. Rio de Janeiro: Imago, 2001.
FREUD, Sigmund. T√≥tem y tab√ļ. 4. ed. Trad. Luis L√≥pes-Ballesteros y de Torres. Madri: Alianza, 1970.
LOBATO, Monteiro. Urupês. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1947. (Obras Completas de Monteiro Lobato, 1. série, v. 1)
RAMOS, Graciliano. S√£o Bernardo. 17. ed. S√£o Paulo: Martins, 1972.
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