Cidade Livre

Sim, Brasília. Admirei o tempo que já cobre de anos tuas impecáveis matemáticas.

Paulo Leminski

E em sua mem√≥ria ficavam, no perfeito puro, castelos j√° armados.Tudo, para a seu tempo ser dadamente descoberto, fizera-se primeiro estranho e desconhecido… Esta grande cidade ia ser a mais levantada no mundo.

Guimar√£es Rosa

Como os candangos de Bras√≠lia, eu, tamb√©m, me considerava um “construtor de catedrais”.

Juscelino Kubitschek

SUM√ĀRIO

Introdução: Sete noites e um enterro Primeira noite: De A a Z Segunda noite: De corpo e alma Terceira noite: Paisagens com cupim Quarta noite: Lucrécia Quinta noite: A construção do mistério Sexta noite: O campo da esperança Sétima noite: O deserto e o esquecimento

Introdução:

Sete noites e um enterro

Num ponto pensei em me desfazer do que pesquisei e escrevi, deixar minhas lembran√ßas, medos e inquieta√ß√Ķes para um livro de mem√≥rias em que contaria n√£o apenas minha inf√Ęncia na Cidade Livre, a cidade que viera romper o sil√™ncio que por mil√™nios dominara aquele planalto, mas tamb√©m meu interesse pelo jornalismo, meu encontro com minha atual mulher e o nascimento de meus tr√™s filhos, relegar minha pesquisa para as reportagens e me concentrar nas palavras de papai, palavras que ainda vim a corrigir depois de uma conversa com tia Francisca durante seu enterro.

Mas n√£o, meu relato manteve misturadas minhas mem√≥rias, as de papai, minhas pesquisas e as observa√ß√Ķes de tia Francisca, e cometi o erro de entreg√°-lo a um escritor que o esvaziou de v√≠rgulas e pontos, o encheu de g√≠rias e cenas de viol√™ncia, me alertou ser preciso acrescentar-lhe uma dimens√£o moral e filos√≥fica e ainda me perguntou se continha algum ensinamento, o que achei um absurdo e por isso decidi envi√°-lo √† editora mesmo sem a moral, a filosofia e o ensinamento, me chateando depois com a resposta polida de que n√£o se enquadrava na sua linha editorial.

Pensei em vender meu carro para bancar a edi√ß√£o, cortei os floreios e restabeleci meus pontos e v√≠rgulas, pois n√£o tinha tempo a perder com filigranas estil√≠sticas e acho mesmo uma vantagem ser jornalista: de Lucr√©cia, que v√™ um p√°ssaro, nunca direi que o vento suspirava docemente sobre sua fronte, nem que sua beleza esmaltou-se de ternos sorrisos, nem que seus olhos se estendiam pela imensid√£o do Cerrado ou adejavam com o p√°ssaro pelos campos vermelhos. Quando eu estava a meio caminho andado, um cr√≠tico que se dizia meu amigo me censurou n√£o apenas o estilo, mas tamb√©m o conte√ļdo, Esse seu experimento vai ser um desastre, anunciou, e atribu√≠ o vatic√≠nio a uma diverg√™ncia pol√≠tica, pois est√°vamos em lados contr√°rios, ele me via como retr√≥grado e ainda agora passa por mim sem me cumprimentar, mas devo a ele a sugest√£o de criar este blog e ir publicando a hist√≥ria aqui, como folhetim do s√©culo dezenove — com o que salvei meu carro.

N√£o tenho a presun√ß√£o de saber tudo o que aconteceu naqueles tempos, posso ter errado, escrito demais ou de menos, voc√™s sabem que mem√≥rias e pesquisas s√£o falhas e incompletas, melhor ent√£o confessar j√° de cara que muitos fatos esqueci e, dos que me lembro, nem sempre me lembro com certeza ou precis√£o, por isso este √© um texto para ser modificado pelos leitores, como se eu tivesse criado uma wikip√©dia desta hist√≥ria, com apenas as regras de que nas minhas mem√≥rias, de papai e de tia Francisca somente eu posso mexer, e o resto ‚Äď a descri√ß√£o dos fatos que nos d√£o a impress√£o de sermos parte do esp√≠rito de um tempo –, voc√™s leitores do blog podem corrigir √† vontade, e, se tiverem algum caso a contar ou coment√°rio a fazer, que n√£o se intimidem.

Ao longo do processo, ainda acrescentei uma ou outra opini√£o pessoal e corrigi o que sabia a partir do que foi publicado sobre Bras√≠lia at√© este ano de 2010, acumulando assim uma d√≠vida profunda para com Isa√≠as P. Ferreira da Silva Junior, cuja obra analisa minuciosamente a flora e a fauna, os primeiros habitantes e acompanha os detalhes da constru√ß√£o, um trabalho que √© ao mesmo tempo de historiador, antrop√≥logo e soci√≥logo. Uma d√≠vida ainda maior ele tem com muitos e muitos outros que, atrav√©s de relatos hist√≥ricos, an√°lises sociol√≥gicas ou antropol√≥gicas, mem√≥rias, testemunhos, depoimentos em jornais, reportagens, cr√īnicas, poemas, contos e at√© mesmo romances, procuraram desenhar um painel sobre a Cidade Livre, tamb√©m conhecida como N√ļcleo Bandeirante, na √©poca da constru√ß√£o de Bras√≠lia.

√Č ainda em papai que encontro a inspira√ß√£o para publicar este livro, pois, quando ele tentava conciliar seu interesse crescente pela constru√ß√£o civil com a atividade jornal√≠stica, me dizia que tamb√©m na escrita havia constru√ß√£o, e a gente ia pondo tijolo sobre tijolo, e com esse ensinamento presente h√° muitos anos levei adiante seu bast√£o de jornalista e √© a partir desse mesmo ensinamento que rearrumo os tijolos para compor este relato na sua forma atual.

Finalmente agrade√ßo a revis√£o de Jo√£o Almino, que eu conheci em 1970 quando pela primeira vez p√īs os p√©s em Bras√≠lia, e foi dele o incentivo para que eu come√ßasse a escrever esta hist√≥ria. At√© aqui este √© o √ļnico par√°grafo que voc√™s, leitores do blog, comentaram, querem porque querem saber meu nome ou pelo menos se sou ou n√£o sou Jo√£o Almino, como se a hist√≥ria mudasse de sentido dependendo de quem seja seu autor, mas paci√™ncia, mantenho meu anonimato pela simples raz√£o de que me d√° mais liberdade, sobretudo liberdade para ser sincero.

Primeira noite: de A a Z

“Bras√≠lia √© um romance digno de ser contado”, a frase que retirei de um dos v√°rios cadernos enterrados por Moacyr Ribeiro, meu pai, dentro de uma caixa no dia seguinte √† inaugura√ß√£o da cidade, foi pronunciada numa √©poca em que papai colecionava frases dos visitantes estrangeiros da cidade em constru√ß√£o. A capa do caderno trazia uma paisagem em verde, amarelo e azul, cortada em vermelho pela palavra “Avante”, com belas palmeiras e cinco garotos em disparada explorando o territ√≥rio e sabendo para onde iam, todos de chap√©u de massa e lencinho vermelho, meias tr√™s-quartos, camisa de mangas compridas enroladas acima dos cotovelos, cinto largo, cada um com seu cantil de √°gua, e o do meio empunhando uma bandeira do Brasil de haste pontiaguda pronta para ser fincada no futuro, dois riscos finos embaixo e outro, grosso, abaixo daqueles, no canto direito, onde papai escrevera “constru√ß√£o de Bras√≠lia 1956-1960”, e nas duas linhas finais “coment√°rios de personalidades mundiais”.

Eu tinha de obter o depoimento de papai antes que ele morresse, uma forma tamb√©m de me reconciliar com ele no momento delicado que ele atravessava e de reparar meu erro de ter-me afastado dele por tanto tempo, na verdade desde que o deixara, seis anos ap√≥s o incidente de Valdivino, em meio a uma briga que ainda tento entender e que come√ßou quando contei a tia Francisca o que me haviam dito sobre papai, e ainda assim ela n√£o quis desistir de se casar com ele, √Č tudo mentira, ela dizia, Pois me conte a vers√£o verdadeira, N√£o, n√£o tenho nada para lhe contar, ela me respondeu. Foi ent√£o que, usando como estopim uma desaven√ßa em torno de um artigo que eu escrevera, sa√≠ de casa esbravejando contra papai e me mudei para o apartamento de tia Matilde, mas vivi na d√ļvida e precisava, antes que ele morresse, de uma confirma√ß√£o sobre o que de fato aconteceu.

Agora, tantos meses depois das sete noites que passei com ele e da s√©tima noite, a de sua morte, me pergunto se n√£o fui eu mesmo seu assassino. Talvez seja para me redimir que misturo frases de seus pap√©is enterrados com hist√≥rias que li e ouvi, especialmente as que ouvi dele desde que notei nos seus olhos a alegria de me ver a seu lado, pois a alegria √†s vezes se exprime com l√°grimas, como quando nos deparamos com a beleza, a justi√ßa e a bondade em estado puro. O cansa√ßo deste mundo e a resigna√ß√£o com a proximidade da hora de partir foram pouco a pouco transformados pela satisfa√ß√£o com meu gesto reconciliador. Eu n√£o podia acreditar em tudo o que me dizia, e aquele “tudo” me parecia insuficiente, mas reconhe√ßo que, com sua voz tr√™mula, falou muito, como se precisasse de algu√©m em quem descarregar hist√≥rias guardadas desde sempre. De dia ficava calado, e √†s vezes eu sa√≠a, vinha almo√ßar com minha mulher e meus filhos em nossa casa do Lago Sul, me encontrava com os amigos do jornal e ia √† biblioteca da UnB fazer pesquisa, mas de noite eu lia para ele em voz alta e ele consertava uma frase aqui, outra acol√°, e me contava, √†s vezes at√© de madrugada, muitas hist√≥rias sobre Valdivino e o crime que possivelmente n√£o teria ocorrido.

Em seu estado e já com oitenta e dois anos, papai, quando esquecia de um detalhe, inventava outros e até fabricava datas precisas, mas eu mesmo também fui testemunha de muita coisa quando morei na Cidade Livre dos seis aos dez anos de idade, antes de me mudar com tia Francisca para uma das casinhas da W-3 Sul no Plano Piloto, e podia, portanto, completar e corrigir a memória de papai com a minha, bastando, para começar a construir a história, preencher as frases secas que ouvia dele com sol, poeira, lágrimas e medo, e também com tudo o mais com que se devia fazer uma história da Cidade Livre: com máquinas e tratores, com betoneiras, escavadeiras, motoniveladoras, rolos Tander, usinas volumétricas, guindastes, com estacas Franki perfurando o chão, com simples tábuas de madeira e também com noites, bares e prostitutas. Uma história que eu podia contar como epopeia de homens e máquinas criando uma nova cidade, candangos, muitos candangos, sobretudo homens que chegavam sem suas mulheres com a esperança de serem fichados nas empresas construtoras, trazendo malas de madeira ou trouxas, um caneco de alumínio e uma faca presos no cinturão, como era o hábito de Valdivino.

Faz seis meses que papai morreu e que decidi concluir o livro, meses que √†s vezes t√™m coberto de luto estas palavras, e outras vezes me ajudado a escavar do esquecimento alguns brilhos de vida, enquanto cato frases no deserto, a ponto de meus amigos do jornal terem notado minha indiferen√ßa para com as discuss√Ķes pol√≠ticas do momento ‚ÄĒ logo eu, que j√° fui t√£o inconformado e combativo. Minha vida se passa em dois planos distintos: levo os meninos para a escola, chamo o encanador para consertar a torneira da pia, limpo a piscina e, ao mesmo tempo, √© como se estivesse vivendo num mundo outro, de hist√≥ria √ļnica e eterna, que ainda n√£o conhe√ßo completa e que eu mesmo vou procurando compor.

Com este cap√≠tulo quase escrito e outros a caminho, cheios de notas e partes j√° escritas, fico sentado √† mesa da varanda, apoiando meus cotovelos em seu tampo de vidro, fumando meu cachimbo, bebendo caf√© ou tomando Campari, a ouvir sapos no come√ßo da noite, lembrando-me de outros sapos, e de repente uma mortalha cobre tudo, at√© mesmo a bela paisagem √† minha frente, e esta hist√≥ria come√ßa a azedar. Paro, respiro o ar l√° fora, vejo as luzes da cidade a brilhar sobre o lago, vasculho noutro canto das mem√≥rias e sigo noite adentro, desbastando caminhos de inquieta√ß√£o, √†s vezes por horas e horas sem avan√ßar uma linha. Noutras tento conter as torrentes de palavras que descem desorganizadas de uma lembran√ßa forte, como quando me contaram detalhes da poss√≠vel morte de Valdivino, me senti tra√≠do por tia Francisca e sa√≠ de casa brigado com papai. O pior √© que at√© agora o blog n√£o serviu para nada, nenhum seguidor, nenhum coment√°rio √ļtil, talvez porque eu queira esconder a verdadeira raz√£o para estar aqui escrevendo, raz√£o s√≥ minha, de quem procura disfar√ßar nas palavras o sofrimento e o mart√≠rio humano, de quem foi abandonado por todos os deuses e ainda assim espera pelo renascimento e a descoberta, de quem se sente culpado pela morte de seu pai. Mas n√£o quero falar de mim, n√£o sou t√£o louco quanto os m√©dicos dizem, n√£o sou paranoico nem estou fantasiando nada, minha loucura foi apenas tempor√°ria, e disso j√° se v√£o muitos anos.

Houve uma √©poca em que eu tinha oito anos e em que papai era meu modelo de grande homem, severo e justo nas decis√Ķes; uma √©poca em que ele era culto, inteligente, sabia de tudo e me tratava como um filho de verdade, sua autoridade se exprimindo nos gestos en√©rgicos e nas frases curtas. As desgra√ßas que haviam se abatido sobre ele antes de vir para a Cidade Livre n√£o o haviam tornado amargo. Mas n√£o o conheci de uma vez s√≥, a imagem que fiz dele foi sendo composta ao longo dos anos e, mesmo agora, depois de sua morte, ainda n√£o est√° completa. De um romance se esperaria que n√£o houvesse d√ļvidas sobre os contornos morais dos personagens principais ou sobre fatos decisivos de suas vidas, e por isso ainda bem que nada romanceio e devo me contentar com o que sei. Para que tentar corrigir no papel o que na vida esteve errado? Para que forjar uma resposta para o que se apresenta apenas e sempre como inc√≥gnita?

Se eu pudesse continuava a conversa com papai. Sinto a falta dele, e meu cora√ß√£o mistura sentimentos que n√£o deveriam estar misturados, de ternura e √≥dio, enquanto fico remoendo suas palavras, e um vento forte bate nas palmeiras, segredando suposi√ß√Ķes e me ajudando a martelar o teclado do computador.

Olho para o fundo do jardim, onde, no escuro, √°rvores baixas, que plantei h√° um ano, agitam-se nervosas. Vejo um vulto. Papai!, chamo. Sil√™ncio. Ainda ou√ßo sua voz, como eco, l√° no fundo de meu medo. O que ele diz? Repete a vers√£o de √ćris: Valdivino nunca morreu. J√° n√£o protesto, a raiva de antigamente, revisitada, √© s√≥ lembran√ßa de raiva, aceito o que ele diz, com sua voz fr√°gil e doente, carregada pelo vento. Papai!, chamo novamente e me caem l√°grimas dos olhos, enquanto rodopia em minha cabe√ßa um turbilh√£o de imagens, de ideias e de sentimentos contradit√≥rios, e ent√£o me vejo crian√ßa, o menino chor√£o de quem tia Francisca reclamava, antes de acariciar em seu colo.

Logo depois que se apagavam as luzes do gerador, eu fechava os olhos, nunca conseguia ver o bicho do sono que tia Francisca me dizia que vinha me p√īr para dormir e temia que Valdivino me aparecesse e me culpasse por sua morte. Crian√ßa tem dessas coisas, ele aparecia no meu medo com seu jeito t√≠mido e supersticioso, fazendo suas perguntas sem sentido, chorando por qualquer coisa, chorando tanto num dos meus sonhos que ao meu redor se formava uma piscina de l√°grimas, e ainda assim eu n√£o me emocionava. Mas estaria ele morto?

Minha ins√īnia de hoje √© o prolongamento daquelas horas quando, na escurid√£o da noite, eu ouvia barulhos de b√™bados pela rua, os latidos de meu cachorro Tuf√£o, as araras que moravam no fundo da casa ou alguma coruja solit√°ria, e abria os olhos para o caleidosc√≥pio de cinzas e negros que desenhavam monstros nas paredes.

Para dar vida √† hist√≥ria, bastava eu me transpor para um dia de minha inf√Ęncia, me imaginar no meio de uma avenida da Cidade Livre, e ent√£o veria minhas tias desfilando suas formas e trejeitos, Valdivino sentado em frente a uma mesinha transcrevendo cartas, papai conversando na porta de um bar, uma menina de tran√ßas e olhos negros andando de bicicleta, Tuf√£o me seguindo, e veria o colorido das lojas, dos pr√©dios de madeira, carros gordinhos e pretos estacionados na lateral com seus pneus exibindo c√≠rculos brancos, e ent√£o subiria um cheiro de gasolina, de √≥leo, de monturos e bostas de cavalo, e apareceriam em tela grande e colorida hist√≥rias de crimes, pecados, desesperos e grandes futuros.

Olho para um dia de minha inf√Ęncia e vejo tr√™s personagens masculinos conversando em frente a nossa casa, para onde tia Francisca acaba de trazer algumas cadeiras, e nem preciso descrever para voc√™s a casa de madeira e sem cal√ßada igual a tantas outras que se veem nas fotografias daquele tempo, em frente √† qual, eu dizia, os tr√™s personagens conversam conversas silenciosas, gesticulam frases, enunciam palavras que n√£o ou√ßo ou, se ou√ßo, n√£o entendo e, se entendo, n√£o me interessam, um deles de rosto oval, branco e bem barbeado, com alguma marca de desgosto, olhar agudo e jocoso, express√£o de homem bem-sucedido, que acumulou experi√™ncias pela vida. Tuf√£o est√° sentado a seu lado, ouvindo suas conversas de orelha em p√©. √Č papai.

O segundo, com m√£os para tr√°s das quais desce o chap√©u, tem um corpo musculoso e bem moldado, ar firme e franco em seu rosto queimado de sol, bigodes bem aparados, e quem o olhasse sentiria inveja de sua apar√™ncia feliz. √Č Roberto, quando ainda n√£o se sabia se seria namorado de tia Francisca ou de tia Matilde.

O terceiro, de uma simplicidade tosca, com um chap√©u grande demais para sua cabe√ßa pequena, √© conversador, parece inteligente e √© o √ļnico com esporas nas botas, tendo chegado montado num burro, mas, se atrai minha aten√ß√£o, √© por sua fragilidade. Quando tira as m√£os dos bolsos, gesticula sem parar, balan√ßa-se para a frente e para tr√°s sobre suas pernas de cambito e d√° a impress√£o de que sair√° voando se soprado pelo vento. Os outros dois, quando passam por ele, o olham de cima para baixo. Pela descri√ß√£o voc√™s j√° ter√£o adivinhado: √© Valdivino.

Que saudades s√£o essas que sentimos de uma felicidade inventada pela lembran√ßa? N√£o, n√£o √© de hoje minha desconfian√ßa nem minha d√ļvida, que j√° estavam l√° nos meus tempos de menino, mas tive de esperar v√°rios anos para perceb√™-las. Meus desejos mudaram, minhas aspira√ß√Ķes s√£o outras, j√° fui bem-sucedido antes de perder quase tudo, mas as horas passam da mesma forma em outros rel√≥gios, e o sol, diante das constru√ß√Ķes que encheram a paisagem, pinta com as mesmas cores a manh√£ e as esconde igualmente no crep√ļsculo. Voc√™, meu √ļnico e fiel seguidor do blog, tem raz√£o, por que remexer no que est√° quieto e esquecido?

Naquela primeira noite em que reencontrei papai para tirar minhas d√ļvidas, ele negou o assassinato de Valdivino, era delicado para mim ressuscitar a velha suspeita, e era melhor, ele me disse, acreditarmos na vers√£o da profetisa do Jardim da Salva√ß√£o, √ćris Quelem√©m, de que Valdivino n√£o havia morrido e talvez nunca viesse a morrer, sempre fora um insone e um son√Ęmbulo, ainda andava solto, caminhando dia e noite pela floresta, em busca de Z, a cidade perdida. Deixa isso pra l√°, Jo√£o, s√£o √°guas passadas.

√Äs vezes, quando eu ficava recolhido a meus devaneios, me invadia a mem√≥ria nossa vida na Cidade Livre, feita de lugares e cenas, bem como de hist√≥rias de papai, de minhas tias e de outros personagens √† nossa volta ‚ÄĒ entre eles, principalmente Valdivino ‚ÄĒ, as coisas, fatos e pessoas de minha inf√Ęncia dispostos como numa enorme fotografia de fam√≠lia ou como num tabuleiro distante onde a variedade j√° se havia desfeito na uniformidade imposta pelo tempo. Somente papai podia, pela primeira vez, reorganizar as pe√ßas daquele tabuleiro e retirar da imobilidade a minha mem√≥ria. √Č que ele n√£o est√° morto, ningu√©m o matou, papai me respondia, est√° viajando ou apenas dormindo, como √ćris disse.

Haviam-se passado alguns anos do incidente quando papai voltou ao Jardim da Salva√ß√£o, entrou l√° anonimamente, o Jardim crescido, e viu √ćris envolta em sua veste branca, larga e comprida, de mangas bufantes, cabelos esvoa√ßantes, fitas azuis descendo de seus ombros, mi√ßangas nos bra√ßos e pesco√ßo, grandes argolas nas orelhas e esmalte encarnado nas unhas compridas, fazendo sua prega√ß√£o no alto do Morro da Batalha, ela j√° com o ar da profetisa √ćris Quelem√©m que se tornaria famosa em todo o Planalto Central e ainda com uma idade indefinida no seu rosto redondo e sem rugas e nos seus olhos grandes e de um brilho perspicaz, com o ar pensativo e a voz pausada de quem estivesse naquele instante buscando a inspira√ß√£o para cada uma de suas palavras: De vosso veneno sair√° o b√°lsamo de vossa cura; a maldade j√° n√£o crescer√° em v√≥s, a menos que seja a maldade que cres√ßa a partir do conflito de vossas virtudes, mas se tiverdes sorte, ent√£o tereis uma s√≥ virtude; que ela seja a toler√Ęncia ou a paci√™ncia ou o amor ‚ÄĒ palavras em que papai identificou ecos de palavras j√° lidas ou ouvidas. Depois de tudo o que acontecera entre √ćris e papai, era de se esperar que no m√≠nimo se sentisse incomodada com a presen√ßa dele, olhou-o seguidamente e parou de falar, fazendo-se, ent√£o, um sil√™ncio longo e constrangedor.

Naquela primeira noite, entre quatro paredes de um branco sujo, papai me contou o di√°logo que tivera com ela. Vim para falar de Valdivino, O que aconteceu estava escrito, e Valdivino n√£o morreu, ainda sobrevive, ela respondeu, Ent√£o onde posso encontr√°-lo? Ele √© Kara√≠, senhor amo santo e bendito, mas Ta√ļ e Keran√° tiveram sete filhos, as sete desgra√ßas que v√£o se abater sobre o mundo, e a err√Ęncia de Valdivino √© s√≥ o come√ßo de uma delas; ele est√° na selva, √† procura de Z.

No dia do incidente, 22 de abril de 1960, o dia seguinte ao da inauguração de Brasília, papai fora chamado de emergência ao Jardim da Salvação, eu me lembrava bem, pois minhas memórias daquele dia estavam muito presentes, não apenas por algo que antes acontecera entre mim e tia Matilde, mas também porque papai havia trocado seu jipe Willys azul por uma Barata Ford 46 preta, na qual saíra naquela manhã em disparada.

Desconfiei do que papai me contou naquela primeira noite fechado entre quatro paredes, que Valdivino n√£o queria a presen√ßa de m√©dico, tinha de ser ele, papai, s√≥ confiava nele e em mais ningu√©m e que, quando chegou ao quarto de um barraco de madeira do Jardim da Salva√ß√£o, Valdivino estava deitado sobre o ch√£o de barro vermelho, vestia uma cal√ßa de brim, trazia braceletes, estava nu da cintura para cima, tinha marcas na cabe√ßa talvez produzidas por pauladas ou algo mais pesado, delirava e balbuciou v√°rias palavras que papai tentou interpretar, sobre a mesa a fotografia de uma adolescente que papai julgou conhecer e um cart√£o-postal da cidade de Salvador, e num canto uma garrafa de cacha√ßa ‚ÄĒ estranhamente, pois Valdivino n√£o bebia. Ningu√©m viu nem ouviu nada, Ele veio para o Vale fugindo de credores, disse um desconhecido. Papai notou que o chamavam Abel, Ele mesmo caiu e se machucou, doutor, bebeu o l√≠quido da cerim√īnia mais do que devia, n√£o sei se de prop√≥sito, falou outro desconhecido, enfiando a cabe√ßa na janela, e logo partiu sem que papai jamais voltasse a v√™-lo. Parece que aqui voc√™s vivem se machucando sozinhos, papai comentou com uma dose de ironia, lembrando-se que recentemente, a pedido de Valdivino, tentara socorrer √ćris ali no Jardim da Salva√ß√£o e a encontrara numa situa√ß√£o semelhante.

Papai desconfiava que o agressor estivesse ali na sala, correu os olhos pelo que pudesse servir de prova ou pelo menos de ind√≠cio, encontrou apenas um resto de cigarro Continental no ch√£o, aproximou-se de Valdivino quando ele tentava enunciar mais algumas palavras, envolveu delicadamente seu pesco√ßo com as m√£os, procurou levantar sua cabe√ßa, pareceu-lhe ent√£o que Valdivino havia expirado, sentiu seu pulso e n√£o teve mais d√ļvida. √Č o primeiro pecado praticado no Jardim da Salva√ß√£o, disse um senhor a papai, O senhor quer dizer o primeiro crime?

Papai ainda ficou algum tempo no Jardim da Salva√ß√£o esperando ser recebido por √ćris Quelem√©m, at√© que vieram lhe contar que Valdivino continuava estendido no ch√£o, Uns dizem que est√° morto e outros que est√° vivo, e ent√£o papai procurou voltar ao barraco de Valdivino, mas recebeu um recado de que a profetisa pedia que ele fosse embora, o chamaria se fosse preciso.

Quando papai voltou ao Jardim da Salva√ß√£o dois dias depois, √ćris lhe disse, Ele √© um santo, para explicar por que o corpo de Valdivino n√£o apodrecia. Nunca vai apodrecer, vaticinou, e mais tarde espalhou que Valdivino ressuscitara, estava vivo, embora papai nem ningu√©m l√° em casa nunca mais o tivesse visto.

Menino, n√£o temia ficar em casa sozinho com a porta e as janelas abertas, nem andar pelos arredores, indicando hot√©is, lojas, bares e restaurantes a quem chegava. Levava meu fiel cachorro vira-latas Tuf√£o — branco com manchas pretas e alegria da meninada — pelas avenidas de ch√£o batido, enlameadas pelas chuvas, ouvindo a m√ļsica dura e ritmada dos geradores, que garantiam a ilumina√ß√£o enquanto as obras da Usina Hidroel√©trica de Saia Velha n√£o fossem conclu√≠das. Aqui um gerador potente, ali outro fraco, mais adiante uma casa iluminada com lamparina, outra com l√Ęmpada de g√°s e assim as cores das luzes pintavam as sombras ora de azuis, ora de diferentes tons de amarelo, branco ou cinza.

Sobretudo nos primeiros anos, como havia poucos prédios e, portanto, poucas luzes, que somente se iluminavam com os geradores durante algumas horas, em geral os donos desligando-os antes das dez da noite, e como nem todos os prédios possuíam gerador, o céu era um chão de estrelas quando chegava a lua nova. Não aponte com o dedo que pode criar verrugas, avisava tia Francisca e então me mostrava as Três Marias e o Cruzeiro do Sul.

Lembro-me das vezes em que caminhava pelas avenidas tarde da noite, quando a Cidade Livre deixava de dormir, ficando suas lojas abertas para fornecer mercadorias de madrugada à medida que Brasília era construída em ritmo frenético, e eu presenciava, então, tocadores de viola ou batucadas nos bares ou ainda serenatas em frente às casas em noite de luar.

√Äs vezes Tuf√£o tra√ßava o caminho, e eu seguia-o pela feira e avenidas, ouvindo pelos alto-falantes os an√ļncios de filmes e de oportunidades de trabalho, bai√Ķes, xaxados e serm√Ķes. Quando novinho, Tuf√£o gostava de visitar o sapateiro, Seu Albuquerque de Pinho, porque farejava a sola, a cola, a tinta e a graxa, e bem mais tarde, no in√≠cio de 1959, invariavelmente queria entrar no A√ßougue Progresso, do Seu George Reisman, ou no A√ßougue do Bom Jesus para tentar roubar algum peda√ßo de carne.

A maior atração da cidade, motivo de orgulho para mim, era sua feição de faroeste, uma cidade de cinema americano, que, como dizia papai, inexistia em outros recantos do Brasil. Como era para ser provisória e seria destruída quando Brasília fosse inaugurada, todas as casas e barracos, em geral cobertos com telhas de amianto, zinco, chapas de alumínio ou com palha, tinham de ser de madeira. Por isso os incêndios, que se alastravam rapidamente e que eu presenciava também no campo, onde todos os anos, e de veneta, a vegetação pegava fogo e depois brotava envergonhada, com medo de crescer.

Ainda em 1957 papai me matriculou numa turma de trinta e tr√™s alunos no Instituto Batista, um pr√©dio com t√°buas de madeira laterais, telhado de duas quedas e uma √ļnica sala de aula, a primeira escola particular da Cidade Livre, mas logo me transferiu para uma escola p√ļblica e muito maior, o Grupo Escolar N√ļmero Um, ou GE-1, no n√ļcleo habitacional e administrativo que, por ter sido a primeira localiza√ß√£o da Novacap, veio a ser chamado de Velhacap, onde tamb√©m se localizavam o restaurante do SAPS, do qual tia Francisca passou a ser fornecedora, e o pres√≠dio da GP, Guarda Policial da Novacap, depois GEB, a temida Guarda Especial de Bras√≠lia, que, segundo uma das vers√Ķes, podia ter sido a respons√°vel pela morte de Valdivino, se era que de fato Valdivino estava morto.

Papai envaidecia-se por ser a escola um projeto do arquiteto Oscar Niemeyer executado em apenas vinte dias, uma caixa de sapatos comprida suspensa por pilotis inaugurada em 21 de setembro de 1957 pelo pr√≥prio JK, que um m√™s depois plantou no quintal a Cabralia Cangerana, ainda raqu√≠tica, que eu venerava como a um deus de uma religi√£o ind√≠gena. Na √©poca eu n√£o notava a pobreza daquele quintal onde organiz√°vamos nossas festas, talvez porque o sol frequentemente avivasse suas cores e alegrasse sua parca ramagem. Eu acordava √†s seis e meia da manh√£ para ir √† escola, levava comigo meu sono e ignor√Ęncia e, quando n√£o era despertado pelas estripulias que fabric√°vamos, fazendo voar avi√Ķes de papel ou passando desenhos e bilhetinhos de um a outro, chegava a dormir sobre a carteira do fundo da sala, at√© voltar √†s duas horas para casa.

Como nos acampamentos da Velhacap havia mais famílias, eu via mais mulheres e meninas na rua do que na Cidade Livre. Por causa da menina de tranças pretas que passava numa bicicleta de homem, desenvolvi meu sonho de possuir uma bicicleta. Se pedalasse ao lado dela na Avenida Central da Cidade Livre, ela me olharia com seus olhos negros e sorriria para mim, eu a abraçaria, tão linda que ela era, seria minha primeira namorada. Pedi, então, uma bicicleta de presente a papai; viria sozinho à escola de bicicleta e encontraria a menina de tranças, tinha ouvido falar que as mulheres gozavam roçando seus prazeres nas selas das bicicletas, e eu estaria ao lado dela, pedalando, pedalando, ela sorriria novamente para mim, desceríamos de nossas bicicletas e nos beijaríamos apaixonadamente como nos filmes que tia Francisca me proibia de ver.

Quando eu tirava boas notas, voltava a pedir a papai uma bicicleta de presente, presente que nunca chegava, mas em compensa√ß√£o papai me premiava levando-me aos domingos aos programas de calouros na R√°dio Nacional, onde, no audit√≥rio repleto, assist√≠amos a apresenta√ß√Ķes de palco, ou ent√£o √≠amos ao jogo de futebol e torc√≠amos pelo Guar√°, time que disputava campeonatos com v√°rios outros que traziam o nome de firmas construtoras, e depois do jogo, assist√≠amos a um filme no Cine Bras√≠lia, localizado no bloco do meio, ou ainda no Cine da Condessa ou no Cine Bandeirante, depois do mercado e perto de um dos extremos da cidade.

No exato extremo oposto, j√° um pouco despegado da cidade, ficava um lugar que eu apenas imaginava, pois aproximar-me dele era a maior das proibi√ß√Ķes que tia Francisca erguera para mim. Eu sabia que papai √†s vezes frequentava aquela zona de prostitui√ß√£o, conhecida como Placa da Mercedes, e tornou-se s√≥cio de um homem corpulento e de bigodes que tinha neg√≥cios por l√°. Como √© que voc√™ se mete com um sujeito desses? um dia lhe cobrou tia Francisca, H√° muito ele abandonou o bordel, Francisca, o neg√≥cio dele √© constru√ß√£o, Sei n√£o, n√£o me cheira bem. Eu pressentia que tia Francisca estava certa e mais tarde tamb√©m achei que aquele sujeito, numa das vers√Ķes poss√≠veis, tivera algum envolvimento com o assassinato de Valdivino, se √© que assassinato houve.


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