Como escrevo a ficção

Luso-Brazilian Review, Volume 49, Number 2, 2012, p. 1-4

Como escrevo a ficção

Jo√£o Almino 1

Há décadas escrever ficção para mim é um exercício como o de quem diariamente precisa exercitar o corpo ou o dos religiosos que rezam todos os dias. Raramente faço distinção entre momentos em que estou escrevendo um livro e que não estou. O pequeno exercício diário está sempre presente, em movimento, resultando em mais ou menos páginas escritas ou apenas reescritas. Assim, quando um livro é concluído, projetos de outros são concebidos ou retomados e, na medida em que um deles se desenvolve mais, é a este que dedico minhas horas diárias de escrita.

At√© hoje sempre me atra√≠ram mais os relatos longos, ou seja, os romances. Lan√ßo-me neles como numa corrida de longa dist√Ęncia, ou melhor, como numa peregrina√ß√£o a algum lugar misterioso cuja dist√Ęncia desconhe√ßo, ou ainda a um p√©riplo que me levar√° a novas aventuras. Gosto de partir n√£o apenas com algumas frases na bagagem, mas tamb√©m com uma vaga no√ß√£o do conjunto, uma estrutura ou um esquema apenas pensados e ainda n√£o escritos. Mas √† medida que as frases v√£o se juntando umas √†s outras, essa no√ß√£o de conjunto, essa estrutura, esse esquema, sejam eles formadores de hist√≥rias ou n√£o, v√£o se modificando a tal ponto que, quando chego ao final, muitas vezes j√° n√£o reconhe√ßo os elementos que inspiraram minha partida.

Uma vez conclu√≠da uma primeira vers√£o ‚Äď bruta, descosida, cheia de materiais coletados pelo meio do caminho –, come√ßo as revis√Ķes. No meu caso s√£o muitas e, portanto, reescrever √© muito mais demorado do que escrever. O livro √© reescrito do come√ßo ao final tantas vezes que a √ļltima vers√£o pode ser radicalmente distinta da primeira. Nesse processo de reescrita, posso refazer as hist√≥rias e fundir ou dividir personagens.

O que mais me atrai na elabora√ß√£o de um texto liter√°rio √© a cria√ß√£o de personagens muito diferentes uns dos outros, aos quais tenho de dar vida, colocando uns em confronto com outros, explorando suas contradi√ß√Ķes, seus amores, √≥dios, desaven√ßas, sua esperan√ßa e desespero ‚Äď personagens que n√£o sejam apenas isso ou aquilo, que evoluam e surpreendam sem deixar de ser o que s√£o; que tenham sentimentos complexos e possam, por exemplo, ter alegrias em meio √† dor, misturem o bem e o mal e possam despertar √≥dio e amor. N√£o tento transpor para a fic√ß√£o personagens de carne e osso, mas, ao contr√°rio, procuro fazer com que personagens imagin√°rios, inventados, constru√≠dos a partir de pessoas que conhe√ßo ou de hist√≥rias ouvidas ou lidas, sejam veross√≠meis.

No in√≠cio os personagens me pertencem. Dou o pontap√© inicial. Mas depois que eles j√° t√™m suas biografias, que se envolvem em determinadas situa√ß√Ķes, devo obedecer a suas pr√≥prias evolu√ß√Ķes, a suas din√Ęmicas nas rela√ß√Ķes de uns com os outros e com o mundo que os rodeia. N√£o quero sejam portadores de uma clara e inequ√≠voca mensagem minha. Ao por lado a lado personagens radicalmente distintos e explorando-os em sua complexidade, procuro evitar as vis√Ķes unidimensionais e real√ßar as ambiguidades, incoer√™ncias e perspectivas conflitantes. Os desafios e impasses, em vez de serem percebidos atrav√©s das conclus√Ķes do narrador, devem vir da situa√ß√£o mesma dos personagens e de sua evolu√ß√£o na hist√≥ria.

Alguns desses personagens t√™m uma rela√ß√£o direta comigo na medida em que sinto compaix√£o por eles. Para transmitir fielmente suas emo√ß√Ķes, vivo outros de mim mesmo e muitas vezes vivo a pr√≥pria dor alheia. Mas consideraria pobre minha literatura se viesse a se basear exclusivamente na minha experi√™ncia. Por isso para compor esses personagens, recorro, como um colecionador, a tudo o que est√° a meu alcance: ao que me lembro, a hist√≥rias que me contam, ao que entendo dos sentimentos alheios, ao que vejo no cinema e sobretudo ao que leio.

Eles se revelam atrav√©s da hist√≥ria que vivem, de detalhes e fatos menores, do que falam e pensam. Procuro n√£o me limitar a seus aspectos exteriores e a suas a√ß√Ķes, como seria poss√≠vel e at√© desej√°vel num roteiro cinematogr√°fico. Uma vantagem da literatura, a meu ver, sobre outras express√Ķes art√≠sticas √© possibilitar uma dimens√£o reflexiva aprofundada, dimens√£o essa que procuro explorar em meu trabalho. Muitas vezes o car√°ter introspectivo e a dimens√£o reflexiva, subjetiva, ajudam a ver por dentro os personagens.

Considero uma sorte n√£o ter de produzir por encomenda — para a pr√≥xima s√©rie de televis√£o ou para a coluna semanal, por exemplo. Trabalho sem qualquer pressa. Somente publico quando creio que consegui n√£o me repetir e as revis√Ķes j√° n√£o conseguiriam melhorar o texto. N√£o escrevo por escrever e n√£o confio no que me sai de maneira f√°cil e despretensiosa.

Aliás, não gosto da ideia de uma literatura despretensiosa. Para mim pessoalmente, a literatura tem que ter ambição. Reconheço que existem livros que servem ao objetivo do mero entretenimento. Podem ser um bom passatempo, mas me interessam pouco. Prefiro ler textos inquietos, que buscam caminhos novos, sobretudo na linguagem. Essa ambição, a meu ver, a boa literatura deve ter, menos para procurar edificar ou instruir o leitor, do que para inquietá-lo, causar-lhe surpresa e fazê-lo caminhar pelo inesperado.

Minha fic√ß√£o se produz tamb√©m guiada por uma preocupa√ß√£o est√©tica, o que n√£o significa tentativa de embelezar a realidade, pois a solu√ß√£o liter√°ria n√£o passa pelas idealiza√ß√Ķes, e a literatura n√£o deve se desviar do dif√≠cil desafio de revelar os subterr√Ęneos da mente e o lado escuro da vida.

Por outro lado, n√£o me atrai o hiperrealismo liter√°rio ou a romantiza√ß√£o da viol√™ncia t√£o em moda. Gosto de deixar √† leitora e ao leitor algum espa√ßo para respirar e imaginar. De deixar que ele ou ela fa√ßa as conex√Ķes necess√°rias. De expor as situa√ß√Ķes com nuances, subentendidos. De escrever nas entrelinhas. N√£o se trata de silenciar vozes, nem de omitir informa√ß√Ķes, mas, ao contr√°rio, de avan√ßar sobre o territ√≥rio do desconhecido, tateando-o, sem medo de se expor √† d√ļvida, ao fragmento, ao incompleto, ao que apenas se adivinha. Atrai-me o estilo el√≠ptico, no qual pode existir uma fun√ß√£o para as retic√™ncias, os fragmentos, os sil√™ncios e os espa√ßos em branco; a ideia de uma narrativa que n√£o se fa√ßa apenas de presen√ßa, mas tamb√©m de aus√™ncia, de vazio e de sil√™ncio.

A liberdade √© o principal instrumento do escritor. A fic√ß√£o, para fazer jus a seu pr√≥prio conceito, deve ser criativa — livre e fundadora, capaz de libertar a pr√≥pria liberdade de seus sentidos j√° adquiridos. A boa literatura √© aquela, ent√£o, que est√° disposta a liberar a imagina√ß√£o, a surpreender, a fazer avan√ßar o pensamento, a romper com as formas estabelecidas pela pol√≠tica e pelo pr√≥prio saber. Por isso pode ao mesmo tempo dar prazer e incomodar.

Confio em que continua existindo uma literatura que n√£o esteja subordinada √† sociologia, √† antropologia, √†s ideologias, √† pr√≥pria cr√≠tica liter√°ria ‚Äď embora possa e deva ser apropriada por esses importantes campos do conhecimento; que n√£o seja feita apenas com vistas ao seu aproveitamento pelo cinema ou as m√≠dias contempor√Ęneas; que n√£o seja um ap√™ndice √† a√ß√£o perform√°tica de seus autores.

Que, finalmente, valha pelas palavras mesmas que a constroem, pois acredito que a realidade definidora do texto liter√°rio √© a da pr√≥pria linguagem. A literatura n√£o √© apenas sobre a experi√™ncia; √© experi√™ncia e aventura. N√£o √© somente sobre a realidade; √© realidade mesma. Os temas, as opini√Ķes, os saberes, os enredos podem ser os mais diversos. N√£o s√£o eles que sustentam por si s√≥s o texto liter√°rio e, sim, a forma como as palavras se encadeiam umas √†s outras, √† procura de sentidos.

Note
1. Dando prosseguimento √† s√©rie de depoimentos de romancistas brasileiros contempor√Ęneos sobre o fazer da fic√ß√£o, a Luso-Brazilian Review tem o prazer de publicar este texto de Jo√£o Almino, autor que tem la√ßos estreitos com esta Revista e este campus, onde j√° esteve em numerosas ocasi√Ķes na condi√ß√£o de conferencista e participante de congressos. Em 2011 Jo√£o Almino recebeu da Universidade de Wisconsin o Global Citizen Award em reconhecimento √† sua atua√ß√£o marcante como homem de letras, intelectual e diplomata.


REDE SOCIAIS