Almino – Um amante do progresso brasileiro

Almino – Um amante do progresso brasileiro
Diego Vives, Princeton University

Mario Vargas Llosa – Pr√™mio Nobel de Literatura e um dos l√≠deres da literatura latino-americana da segunda metade do s√©culo XX – descreveu numa de suas aulas de Princeton os romances comprometidos com a mobiliza√ß√£o social, cultural e pol√≠tica: “Os grandes romances tentaram abordar temas importantes para os indiv√≠duos inseridos num contexto situacional espec√≠fico, muitas vezes conhecido como realidade. Escrever romances √© uma forma de quebrar a realidade.” Como disse Vargas Llosa, o romance de Jo√£o Almino, As Cinco Esta√ß√Ķes de Amor, √© altamente relevante em seu conte√ļdo s√≥cio-pol√≠tico porque busca quebrar a realidade de Bras√≠lia dos anos 1960-1970. A t√≠mida e hesitante Ana – com sua atrevida e corajosa contraparte Diana – explora atrav√©s do amor temas extremamente delicados na cidade de Bras√≠lia.
A cidade que ousou sonhar e ser o rosto vis√≠vel de um Brasil novo, mais justo e mais inclusivo, √© o cen√°rio perfeito onde Almino nos apresenta quest√Ķes tanto morais como pol√≠ticas que se atrevem a questionar e fazer uma cr√≠tica do paradigma sociocultural de seu tempo. Jo√£o escreveu este livro desde o exterior, com uma lente cr√≠tica e audaz que lhe permitiu n√£o s√≥ cobrir assuntos tabu da sociedade brasileira, mas tamb√©m foi capaz de captar um sentimento de indecis√£o e decaimento da cidade ut√≥pica de Bras√≠lia, que n√£o alcan√ßou atender √†s expectativas de um novo Brasil.
O romance come√ßa com uma an√°lise introspectiva de Ana, o personagem principal da hist√≥ria, que aguarda a chegada ao pa√≠s de seu velho amigo Norberto. Ana se move num c√≠rculo socioecon√īmico de classe m√©dia e tem um grupo de amigos (autodenominados “os in√ļteis”). Helena – a mais revolucion√°ria do grupo – desapareceu em tempos de ditadura lutando contra o governo militar. √Č neste contexto cheio de contrastes que as diversas amizades da hist√≥ria acabam ilustrando as inconsist√™ncias da sociedade brasileira da √©poca.
Almino nos apresenta o primeiro tema progressista quando Ana recebe a t√£o aguardada carta de Norberto. A carta vem com uma foto que desafia o paradigma no contexto brasileiro: Norberto decidiu realizar uma opera√ß√£o para mudar o sexo e pretende usar o documento de Helena (que desapareceu) para ser validada dentro do quadro legal como brasileira e sentir-se “Berta”. Com a chegada de Berta na casa de Ana, Almino explora a discrimina√ß√£o contra pessoas transg√™neros, como tamb√©m o tabu relacionado √† identidade de g√™nero que implica “ser mulher” na sociedade brasileira: “Toma inje√ß√Ķes de horm√īnio para ganhar curvas, ter seios fartos e bunda arredondada… De fato, se n√£o √© pelo pesco√ßo e pelas m√£os, ningu√©m nota que Berta √© um travesti. Faz curso intensivo de como ser mulher. Devora tudo quanto √© revista feminina” (Almino 75).
Precisamente, Almino critica a objetiva√ß√£o da mulher brasileira como uma mulher voluptuosa. Essa mulher √© for√ßada (de acordo com a constru√ß√£o social da √©poca) a ser coquete, provocante e sexualmente dispon√≠vel para qualquer homem que a quiser. Almino decomp√Ķe esta ideia com o personagem de Berta, que √© cuidadosamente introduzido na hist√≥ria para fazer o leitor refletir sobre essa realidade alarmante. Almino vai mais longe e se atreve a sugerir que essas mulheres (Ana e Berta) n√£o precisam de homens em suas vidas e que podem criar um n√ļcleo familiar sem eles: “preciso de algu√©m com quem desabafar, compartilhar minhas tristezas, alegrias, medos, esperan√ßas, suspeitas, pondo para fora o que me esmaga l√° dentro, e ningu√©m √© melhor que ela‚Ķ Tenho uma amiga, Berta; logo, existo” (Almino 74).
√Č pertinente identificar que as figuras femininas na hist√≥ria de Almino s√£o independentes, aut√īnomas e se atrevem a desafiar o legado do patriarcado brasileiro. √Č particularmente interessante como Almino, sendo um homem, percebe a necessidade de abordar esta quest√£o em seu romance. O escritor torna-se um ente mobilizador de c√Ęmbio social; seu romance n√£o s√≥ procura entreter, mas tenta gerar – consciente ou inconscientemente – uma mobiliza√ß√£o social no leitor. Ana e Helena s√£o mulheres fortes que se atrevem a lutar por seus ideais, tanto pol√≠ticos como emocionais. Na introspec√ß√£o de Ana e na busca de seu “livro absoluto” (um conceito altamente existencialista), aprendemos sobre seus medos, d√ļvidas, triunfos e falhas no amor. Ana foi casada, sofreu e experimentou sua sexualidade com diferentes parceiros. Essa realidade √© audaz e, muitas vezes, √© desaprovada no contexto sociocultural brasileiro. Por um lado, quando Cadu tem rela√ß√Ķes com muitas mulheres “ele v√™ o mundo como liberdade a esperan√ßa‚Ķ um desejo de agradar √†s mulheres por quem se apaixona de verdade” (Almino 128), por outro lado, quando Ana explora sua sexualidade, ela √© descrita como “sua puta, sua putinha” (Almino 148). Essa discrep√Ęncia no discurso sexual brasileiro √© altamente machista e exemplifica um dos grandes problemas que Almino identifica com a escritura deste romance.
Da mesma forma que Almino apresenta o problema dos padr√Ķes morais em rela√ß√£o √†s liberdades sexuais, ele sugere dois dos t√≥picos mais tabu da Am√©rica Latina: aborto e suic√≠dio. No caso do aborto, o autor constr√≥i uma hist√≥ria sutil – quase de forma ir√īnica – para ilustrar o pouco que se diz sobre esse tema em Latinoam√©rica. Vera, a filha de Berta, decidiu se casar quando engravidou. Embora o homem ofere√ßa “assumir” sua responsabilidade e proponha casamento, Vera decide realizar um aborto e n√£o se casar. √Č importante notar que o aborto √© ilegal no Brasil (mas totalmente acess√≠vel para pessoas que podem pagar o procedimento numa cl√≠nica privada). Ironicamente, Almino descreve a cena em apenas algumas linhas, imitando o espa√ßo m√≠nimo que isso tem na sociedade brasileira: “se deve pura e simplemente fazer um aborto‚Ķ fisicamente ela n√£o sofre muito‚Ķ Por milagre conseguimos que tudo se fa√ßa discretamente, sem conhecimento de Berta, que est√° certa de que o casamento n√£o se deu principalmente devido √†s restri√ß√Ķes de Regina” (Almino 116).
Em maior medida do que o aborto, o assunto tabu do suic√≠dio √© abordado perto do final do romance, no desenlace da hist√≥ria. Ana decide atentar contra sua pr√≥pria vida, mas sobrevive ao tiro na cabe√ßa: “alcan√ßo o rev√≥lver, aponto-o para o meu ouvido e disparo. Quando recobro a consci√™ncia, vejo um crucifixo no alto da parede branca”(Almino 171). O mais interessante √© que, uma vez que Ana sobrevive, sua fam√≠lia esconde o que aconteceu, argumentando que ela sofreu um acidente de carro: “Difundiram a vers√£o – com mina coniv√™ncia, √© claro – de que sofri um acidente de carro” (Almino 183). Este assunto √© particularmente sens√≠vel, considerando que a religi√£o cat√≥lica (predominante no Brasil) condena fortemente essa a√ß√£o e classifica-a como um pecado mortal, bem preconceito socialmente.
Todos esses t√≥picos progressistas est√£o conectados atrav√©s de um tema universal: o amor. A novela n√£o s√≥ √© capaz de capturar a hist√≥ria de uma mulher corajosa que sofreu e viveu por amor, mas tamb√©m incorpora o contexto hist√≥rico para gerar um forte coment√°rio social em rela√ß√£o aos valores morais, sociais e pol√≠ticos dos anos 1960-70 no Brasil. Almino, sem d√ļvida, escreveu um livro que procurava entreter e contar uma hist√≥ria interessante sobre Bras√≠lia, mas em maior medida, ele escreveu um coment√°rio social sobre o que precisava mudar na sociedade latino-americana, que havia sido historicamente marcada pelos abusos contra as mulheres. O entusiasmo do progresso para a sociedade brasileira √© ativado por uma gera√ß√£o de escritores que transcenderam com suas obras liter√°rias, deixando um legado social e come√ßando a mobilizar a sociedade em torno a uma discuss√£o necess√°ria sobre temas que n√£o estavam sendo falados.


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