In Jo√£o Almino¬īs book, lessons of tolerance and maturity

Em livro de Jo√£o Almino, li√ß√Ķes de toler√Ęncia e maturidade

MARIA FERNANDA RODRIGUES – O ESTADO DE S. PAULO
S√£o Paulo, 26 de Maio de 2015

‘Enigmas da Primavera’ √© protagonizado por um jovem que vive nas redes sociais e que quer entender o sentido de toler√Ęncia para o Isl√£

Primeiro veio a ideia de escrever um romance centrado num personagem muito jovem, que fosse movido pelas redes sociais e vivesse essa evolu√ß√£o recente dos contatos virtuais. Era 2010, e, no ano seguinte, o escritor e diplomata Jo√£o Almino se mudaria para Madri para uma temporada profissional. Chegando l√°, seu personagem, ent√£o um rascunho, foi adquirindo novas camadas porque Almino come√ßou a se interessar pelo tema da ocupa√ß√£o isl√Ęmica na Pen√≠nsula Ib√©rica.

Vizinho da Biblioteca Nacional da Espanha, foi ali que ele iniciou as pesquisas. Nessa época, a primavera árabe estava começando a chacoalhar o mundo e os jornais já traziam notícias sobre o islamismo radical. E a história, que ele queria, desde o princípio, que tivesse como ponto de partida uma certa desorientação do mundo atual, foi ganhando corpo. Enigmas da Primavera, lançado agora, aborda isso tudo e muito mais: família, amor, liberdade, responsabilidade, busca de identidade e de entendimento do mundo, rejeição, frustração e delírio.

O livro anterior do diplomata, ‘Cidade Livre’, venceu o Pr√™mio Passo Fundo Zaffari e BourbonMajnun √© um garoto na casa dos 20 anos que foi criado, confortavelmente, em Bras√≠lia, pelos av√≥s maternos ‚Äď que lutaram pela democracia quando o Pa√≠s vivia sob a ditadura militar. O pai, que tinha 15 anos quando engravidou a m√£e, morreu de overdose. Ela, viciada em hero√≠na e com surtos psic√≥ticos, estava internada. ‚ÄúQuando pensava nela, imaginava-a tomando u√≠sque e cheirando carreiras de coca√≠na‚ÄĚ, nos informa o narrador.

Frustrado por n√£o conseguir entrar na faculdade de Hist√≥ria, vive mergulhado em pesquisas na internet. Seu interesse: encontrar na tradi√ß√£o isl√Ęmica a explica√ß√£o da toler√Ęncia. Sua vontade √© que um ensaio sobre o tema perpasse a novela que ele est√° escrevendo sobre o Alhambra. Seu interesse pelo mundo √°rabe, por√©m, n√£o √© gratuito. Sua av√≥ paterna √© filha de eg√≠pcia e liban√™s palestino, mu√ßulmana que n√£o usa o v√©u, e √© com ela ‚Äď e com um professor espanhol ‚Äď que ele conversa sobre essas quest√Ķes.

√Č perdidamente apaixonado por Laila (como Majnun, o louco da hist√≥ria √°rabe do s√©culo7, √© por Layla). Ela √© mu√ßulmana como a av√≥ dele, mais velha e casada. Depois de uma reviravolta nessa sua hist√≥ria de amor, ele parte para Madri com duas amigas que participariam da Jornada Mundial da Juventude, o grande encontro de jovens cat√≥licos com o papa. Era a desculpa perfeita para fugir dos problemas e realizar o sonho de visitar Granada. Na verdade, seu sonho era ter vivido ali s√©culos atr√°s.
Enquanto essa história vai sendo contada, Majnun flerta com o islamismo radical, rompe com a família, perambula por Madri, delira e surta em Granada. Na volta da Espanha, encontra um jeito de fazer a diferença. Já estamos em 2013 e a população está nas ruas de todo o País protestando contra uma série de problemas. Ele também.

‚Äú√Č um risco muito grande fazer um romance sobre quest√Ķes contempor√Ęneas, mas sempre me interessei pelo tema do presente‚ÄĚ, conta Jo√£o Almino. Assim, tentou entrar nesses acontecimentos ‚Äď al√©m da primavera √°rabe e dos protestos de junho, est√£o ali o movimento dos indignados, da Espanha ‚Äď por meio da vis√£o subjetiva dos personagens e tentando verificar, como diz o autor, do ponto de vista emocional, como eles est√£o sendo mobilizados por esses acontecimentos. Assim, n√£o importa o resultado da a√ß√£o, mas, sim, sua influ√™ncia naquele personagem.

Majnun poderia ser um desses jovens que deixam tudo para tr√°s e se envolvem com grupos isl√Ęmicos radicais. ‚ÄúIsso tem um sentido de utopia para ele, mas uma utopia regressiva. Uma volta a um passado que nunca existiu. E essa √© tamb√©m uma das inspira√ß√Ķes dos grupos radicais, que acreditam que houve essa pureza, essa inoc√™ncia original, mas ela nunca existiu‚ÄĚ, diz o autor. Sobre o perfil dos que se envolvem, ele comenta que o que h√° de comum √© que s√£o todos muito jovens e rec√©m-convertidos, portanto, ‚Äúpessoas com conhecimento rasteiro de alguns aspectos dessa ideologia‚ÄĚ.

Neste sentido, a leitura de Enigmas da Primavera fornece informa√ß√Ķes ao leitor que deseja entender melhor o que est√° acontecendo no mundo para n√£o radicalizar tamb√©m. ‚ÄúEsta √© uma quest√£o que interessa a todos. N√£o √© puramente do mundo √°rabe, do mundo isl√Ęmico ou da Europa. √Č t√£o importante quanto foi, nos anos 1920, 1930, a expans√£o da ideologia totalit√°ria. E a expans√£o das novas ideologias totalit√°rias contempor√Ęneas interessa ao fil√≥sofo, ao historiador e tamb√©m ao ficcionista‚ÄĚ, diz o escritor.

Jo√£o Almino, que voltou a Bras√≠lia esta semana por tempo indeterminado depois de 10 anos vivendo entre Madri, Chicago e Miami, j√° pensa no pr√≥ximo livro. A capital federal deve deixar de ser cen√°rio. ‚ÄúEstou muito tentado a voltar para o Nordeste. Criei uma cidade fict√≠cia perto de Mossor√≥, onde nasci, e j√° pus os personagens l√°. Vamos ver o que sai disso.‚ÄĚ

Jo√£o Almino
Nascido em Mossor√≥ (RN) em 1950, Jo√£o Almino √© autor livros de n√£o fic√ß√£o e de seis romances ‚Äď conhecidos como o Quinteto de Bras√≠lia. O √ļltimo da s√©rie, Cidade Livre, venceu, em 2011, o Pr√™mio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura. Em sua carreira diplom√°tica, serviu em cidades como Madri, Chicago, Miami, Paris, Washington, S√£o Francisco, Lisboa, Londres e Beirute, entre outras.

Confira trechos da obra:

“Uma noite, ainda em fevereiro de 2011, as conversas eram muitas e variadas em torno √† grande mesa da sala de jantar. Seus av√≥s tinham convidado um casal para jantar, uma professora de Sociologia da UnB, j√° aposentada, velha amiga de sua av√≥, e o marido, um m√©dico que, apesar da idade, ainda se dedicava √† cl√≠nica pedi√°trica. De comum, al√©m de rugas e cabelos brancos, tinham morado em Paris como estudantes. Se pudesse, Majnun pensou, repetiria a vida de seus av√≥s nos anos sessenta e setenta, em Paris ou no Oriente M√©dio.”
(…)

“Ao chegarem ao P√°tio das Murtas, deitou-se no ch√£o com o rosto voltado para a piscina. Apoiou a cabe√ßa sobre a mochila, balan√ßando-a levemente para acompanhar os movimentos brilhosos no espelho d‚Äô√°gua. Havia vida do outro lado, l√° no fundo, na realidade que se refletia, talvez uma vida melhor. Um vulto lhe apareceu bem no fundo da piscina. Agora tinha certeza. Era de fato seu av√ī, j√° moribundo, os olhos assustados, a boca muito aberta. Veio-lhe um desejo forte de mergulhar na √°gua. O calor intenso o impelia. E n√£o apenas o calor. Precisava fugir, fugir da pol√≠cia, fugir para outro mundo. O espelho d‚Äô√°gua o confundia, deixava-o tonto e com enjoo, e o atra√≠a como um √≠m√£. Levantou-se rapidamente, vencendo com dificuldade a for√ßa que o puxava para baixo. Tonto e hipnotizado, observava a √°gua, que tremia sob o sol. De repente sua vista escureceu e, como abatido por um tiro, caiu na √°gua com todo o peso do corpo. Sentiu a cabe√ßa bater no fundo da piscina, onde ficaria para sempre. N√£o precisaria jamais voltar √† superf√≠cie, a da realidade insuport√°vel. Ia se encontrar com o av√ī e pedir desculpas.”

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