Enigmas of Spring

ENIGMAS DA PRIMAVERA

Jo√£o Almino

Entrevista a Juliana Krapp

Desde que estreou na fic√ß√£o, em 1987, com Ideias para onde passar o fim do mundo, o potiguar Jo√£o Almino tem chamado a aten√ß√£o da cr√≠tica pelo estilo inovador e envolvente que imprime √† sua obra. Os romances que produziu desde ent√£o comp√Ķem o chamado “Quinteto de Bras√≠lia”: hist√≥rias nas quais a capital federal √© n√£o apenas cen√°rio, mas sim “laborat√≥rio de experi√™ncias lingu√≠sticas, pol√≠ticas e existenciais”, como afirma Jo√£o Cezar de Castro Rocha.

Enigmas da primavera tamb√©m transcorre, em parte, na cidade planejada. Mas desta vez o leitor segue tamb√©m por Madri e Granada, e ainda pelas f√°bulas e hist√≥rias do mundo √°rabe, no encal√ßo de Majnun, o jovem protagonista deste novo romance. Inst√°vel e rom√Ęntico, contradit√≥rio e imprevis√≠vel, Majnun encarna as idiossincrasias de nosso tempo. Com isso, Jo√£o Almino consolida algo raro entre os ficcionistas: encara a atualidade, enquanto aborda a sensa√ß√£o de vazio, as tenta√ß√Ķes da tirania, a intoler√Ęncia. A Primavera √Ārabe e os protestos de julho de 2013, os indignados europeus e os arroubos do fundamentalismo isl√Ęmico se enovelam numa trama densa e sedutora, que lan√ßa luz ao estilo singular deste diplomata e escritor, que j√° ganhou pr√™mios como o Casa de las Am√©ricas 2003 e o Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura 2011.

Com Enigmas da primavera, o senhor reinventa a sua literatura. √Č o que afirma Jo√£o Cezar de Castro Rocha, em pref√°cio ao livro. Como se deu essa reinven√ß√£o?

João Cezar de Castro Rocha é um excelente crítico, que acompanha meu trabalho há muito tempo. Se ele diz que neste caso houve uma reinvenção, devo acreditar nele.

Mas também acredito que cada livro meu é diferente do anterior, quanto à técnica e à linguagem. Tento não me repetir, porque para mim a ficção é sempre aventura, busca e invenção e porque os temas, histórias e perguntas de cada romance exigem sua forma específica.

Este novo romance d√° cores, por meio da fic√ß√£o, a v√°rios temas do notici√°rio dos √ļltimos dois anos, como os protestos de 2013, no Brasil, e o recrutamento de jovens de diversas nacionalidades pelo fundamentalismo isl√Ęmico. O senhor j√° tinha o enredo delineado quando come√ßou a escrever o livro? Como as not√≠cias foram alimentando a fic√ß√£o?

Sua observa√ß√£o √© perspicaz. O livro pode ser lido como um di√°rio do per√≠odo que vai de 2011 a 2013 e parte da pergunta: onde pulsa o cora√ß√£o do cotidiano? Cheguei a Madri em meio aos protestos dos indignados. Acompanhei pelos jornais o Occupy Wall Street em Nova York, o que acontecia no Oriente M√©dio. Lia os jornais brasileiros. O personagem eu j√° tinha (criar personagens √© quase sempre por onde come√ßo). Que tal usar a linguagem liter√°ria para retratar sua desorienta√ß√£o e busca de identidade nesse mundo imerso em incerteza, crise e tamb√©m esperan√ßa? O material que me interessava eram as emo√ß√Ķes e expectativas do dia a dia e a apreens√£o subjetiva dos fatos. Gostaria que o tratamento liter√°rio permitisse que, dentro de 50 anos, fosse poss√≠vel ler o romance com interesse, que ele continuasse atual, como √© atual hoje ler sobre os acontecimentos de 1848 em A Educa√ß√£o Sentimental de Flaubert ou da Primeira Guerra Mundial em Proust (embora no caso de Flaubert a escrita do romance tenha se dado anos depois dos acontecimentos). Para falar de autores contempor√Ęneos, √© poss√≠vel ler S√°bado, de Ian McEwan, sem ficar preso ao presente da narrativa, embora o tempo da feitura do romance quase coincidisse com o dos acontecimentos pol√≠ticos narrados, os protestos em Londres contra a invas√£o americana do Iraque.

São raros os escritores que ousam tomar como matéria-prima o presente imediato. O quanto a literatura pode ser um veículo poderoso para apreender e analisar o presente, tão veloz?

Talvez este seja um dos meus temas, o presente e o instante presente. Tenho um livro intitulado A idade do presente, e o instantane√≠smo era a ideologia da personagem principal e narradora de As cinco esta√ß√Ķes do amor. Cada um de meus romances tratou, a seu modo, do presente e, espero, n√£o se desatualizaram por isso: Ideias para onde passar o fim do mundo retrata de alguma forma os dilemas morais e pol√≠ticos dos anos oitenta. Samba-enredo trata, entre outros temas, do desenvolvimento da internet, das redes eletr√īnicas e do mundo virtual nos anos noventa. As cinco esta√ß√Ķes do amor enfoca a passagem do mil√™nio. O livro das emo√ß√Ķes, escrito da perspectiva de 2022, relata o presente dos anos 10 do nosso s√©culo 21. Cidade Livre reescreve a euforia e as promessas de um Brasil desenvolvido, que seria em poucos anos, segundo JK, a quinta pot√™ncia do mundo, no momento em que se vivia no Brasil uma nova onda de esperan√ßa. Em nenhum desses casos, o romance abra√ßa as perspectivas mais aparentes do presente, porque a literatura n√£o pode, a meu ver, abdicar de sua fun√ß√£o cr√≠tica. Ela deve ser capaz de se distanciar do seu objeto de interesse para v√™-lo sob a √≥tica de uma hist√≥ria longa e, portanto, para v√™-lo melhor.

O mundo árabe é muito presente neste novo romance. Qual a sua relação com o tema?

Vivi no L√≠bano na √©poca da guerra civil (que os libaneses chamavam eufemisticamente de ‚Äúos acontecimentos‚ÄĚ), de 1980 a 1982, e at√© hoje tenho amigos dessa √©poca. Fiz leituras do Cor√£o e do Isl√£ para melhor construir alguns personagens do novo romance. A Espanha, onde morei durante os √ļltimos tr√™s anos e nove meses, foi muito influenciada pela cultura √°rabe. Pode-se escrever toda uma hist√≥ria alternativa do pa√≠s pondo a √™nfase n√£o na chamada reconquista, na contrarreforma ou na tradi√ß√£o cat√≥lica, mas sim nas contribui√ß√Ķes √°rabes √† cultura europeia, via Pen√≠nsula Ib√©rica. A hist√≥ria da resist√™ncia e da queda de Granada √© fascinante, e a ela recorri para construir parte da narrativa. Posso acrescentar ainda que o Nordeste do Brasil, onde nasci e cresci, tamb√©m foi muito influenciado pela cultura √°rabe, preservada desde o in√≠cio de nossa coloniza√ß√£o ib√©rica, como fica claro atrav√©s da m√ļsica.

Majnun, protagonista de Enigmas da primavera, vive uma rotina mon√≥tona e um bocado med√≠ocre, mas deseja uma reviravolta. Ele √©, de certa forma, parecido √† Ana de As cinco esta√ß√Ķes do amor?

N√£o tinha pensado nessa possibilidade, mas a compara√ß√£o faz sentido. Voc√™ tem raz√£o em dizer que ambos desejam uma reviravolta. Tamb√©m √© poss√≠vel estabelecer contrastes. Ana vive uma revolu√ß√£o interior, enquanto Majnun, indeciso, deseja uma convers√£o religiosa e uma reviravolta social. Em As cinco esta√ß√Ķes do amor, Ana vive a desilus√£o no in√≠cio do ocaso de sua vida, exaurida de suas experi√™ncias amorosas e antes de reinventar a utopia como aquilo que lhe est√° mais pr√≥ximo. Em Enigmas da primavera, Majnun √© um jovem enfadado com seu cotidiano que busca preencher seu vazio nas redes sociais. Tem todo um futuro pela frente, que em vez de alimentar sua utopia, o faz mergulhar inicialmente num pensamento antiut√≥pico, j√° que flerta com a volta a um passado que nunca vivenciou. O final de sua hist√≥ria se abre, contudo, para um novo caminho, o que permite, uma vez mais, estabelecermos pontos de contato entre os dois romances. Num e noutro caso, os caminhos levar√£o os personagens principais a algum recome√ßo surpreendente.

Uma espécie de tensão entre desesperança e combatividade perpassa as histórias de seus romances, de diferentes formas. Como esses temas foram se transformando ao longo do tempo?

N√£o falaria de desesperan√ßa, mas de desilus√£o. E perder ilus√Ķes n√£o √© necessariamente um mal. Os ideais revolucion√°rios das d√©cadas de 60 e 70 desembocaram num certo conformismo e num realismo pragm√°tico, mas ao mesmo tempo mantiveram acesas aspira√ß√Ķes que servem de farol para o avan√ßo das fronteiras do poss√≠vel. Essa tens√£o a que voc√™ se refere resulta de uma interroga√ß√£o: se a realidade √© inadmiss√≠vel, como pensar a p√≥s-utopia? Ou como reinventar a utopia? H√° mais de uma resposta, e uma delas, presente no novo livro, leva ao terror: o desejo de controle completo sobre o presente e sobre o futuro, sobre o social, de elimina√ß√£o do outro, do diferente. O islamismo radical, inspirado em Muhammad ibn Abd al-Wahhab ou em Sayyid Qutb, est√° distante do Isl√£ inventor da toler√Ęncia no dizer de L√©vy-Strauss. Estamos diante de um novo fen√īmeno do totalitarismo.

Majnun quer escrever um ensaio sobre a toler√Ęncia ‚ÄĒ muito embora ele pr√≥prio n√£o pare√ßa muito habilidoso em lidar com as diferen√ßas. ‚ÄúToler√Ęncia‚ÄĚ √© palavra-chave para tentar compreender as idiossincrasias de nosso tempo?

Creio que sim. Majnun √© contradit√≥rio e inst√°vel como o tempo em que vive. Quer aprender com os indignados e alimenta novos ideais revolucion√°rios, ao mesmo tempo em que tenta escrever seu ensaio sobre a toler√Ęncia no Isl√£. Quer se converter ao Isl√£ e frequenta sites radicais. Em termos hist√≥ricos, no final da Idade M√©dia, vamos verificar que os crist√£os eram mais intolerantes que os mu√ßulmanos na Pen√≠nsula Ib√©rica e tamb√©m que a liberdade e o embri√£o das pr√°ticas democr√°ticas n√£o estavam de um lado nem do outro, mas nas cidades de fronteira onde se formavam assembleias para a decis√£o de quest√Ķes de interesse p√ļblico. A toler√Ęncia n√£o come√ßou com Locke ou Voltaire, ali√°s citado por personagem do livro. Tem uma longa hist√≥ria, a leste e a oeste. N√£o √© um valor estritamente ocidental.

Um personagem afirma que ‚Äúo Ocidente n√£o existe.‚ÄĚ

O ocidentalismo √© uma ideologia sim√©trica ao orientalismo de que falava Edward Sa√Įd e serve a interesses conservadores em toda a parte. Sobretudo √© err√īneo em termos hist√≥ricos confundir o Ocidente com a toler√Ęncia e ideais liberais e democr√°ticos. Alguns dos piores exemplos de tirania e a experi√™ncia totalit√°ria existiram na Europa, ou seja, no cora√ß√£o do chamado Ocidente. E isso sem falar de experi√™ncias mais antigas. Enquanto o imperador mu√ßulmano e mongol da √ćndia, Akbar, escrevia sobre a toler√Ęncia religiosa, Giordano Bruno era queimado em 1600 pela inquisi√ß√£o no Campo dei Fiori em Roma, como bem lembraram Amartya Sen e Sergio Paulo Rouanet. Hoje em dia a civiliza√ß√£o √© uma s√≥. Ela √© um processo. Sempre est√° em constru√ß√£o. Uma das previs√Ķes de Marx se concretizou, e o capitalismo atingiu todo o mundo. A revolu√ß√£o tecnol√≥gica tamb√©m √© um fen√īmeno mundial. Estou de acordo com meu personagem: o Ocidente n√£o existe. O chamado Ocidente e seus valores s√£o o resultado de contribui√ß√Ķes de v√°rias culturas, n√£o apenas judaico-crist√£s e greco-romanas, tamb√©m de outras, sobretudo das culturas provenientes do mundo √°rabe, da √ćndia e da China. O que divide o mundo n√£o s√£o os pontos cardeais, mas a mis√©ria e a riqueza, o acesso ou n√£o ao conhecimento e √† tecnologia, a tirania e a liberdade.

Vendo o neto produzir cartazes para as manifesta√ß√Ķes de 2013, um de seus personagens indaga: ‚Äúse o movimento n√£o √© pol√≠tico, que sentido tem?‚ÄĚ. ‚ÄúO de outra pol√≠tica‚ÄĚ, responde o rapaz. E o senhor: acredita no surgimento de uma nova pol√≠tica?

Existem mecanismos novos de comunica√ß√£o e de circula√ß√£o de ideias, como as redes sociais, que podem estar a servi√ßo da pol√≠tica, em suas v√°rias manifesta√ß√Ķes. √Č preciso reconhecer tamb√©m a crise da representa√ß√£o pol√≠tica em v√°rias partes do mundo. Mas o desejo de cria√ß√£o de uma nova pol√≠tica j√° estava presente na Fran√ßa de maio de 1968. √Č tamb√©m o que buscaram muitos ecologistas ao defenderem que n√£o estavam √† esquerda nem √† direita, e sim na frente. Entendo o impulso contempor√Ęneo dos jovens do meu romance, mas a nova pol√≠tica, para ser consequente, acaba por se estruturar em moldes semelhantes aos das organiza√ß√Ķes pol√≠ticas existentes e, na melhor das hip√≥teses, por aumentar o leque da representa√ß√£o pol√≠tica, servindo, portanto, a sua renova√ß√£o e atualiza√ß√£o.

Em sua produção literária sempre foram muito marcantes elementos de inovação, certo experimentalismo. Como essa busca pelo novo se encaixa em seu trabalho atual?

Creio que algo experimentais, do ponto de vista da forma, foram apenas os dois primeiros romances, Ideias para onde passar o fim do mundo e Samba-enredo. Foram, por exemplo, os que mais fizeram uso da digress√£o e da fragmenta√ß√£o. √Č bem verdade que houve em todos os cinco que precederam Enigmas da primavera o uso de recursos t√©cnicos destinados a lidar com os tempos da narrativa e a produzir deslocamentos ou desfamiliariza√ß√£o, atrav√©s principalmente da √≥tica desconcertante dos narradores. Em Enigmas da primavera, pela primeira vez utilizo um narrador em terceira pessoa e uma narrativa absolutamente linear. Se eu eliminasse os t√≠tulos dos cap√≠tulos, seria poss√≠vel ler todo o texto de maneira corrida. Apesar disso, n√£o tento recriar o romance do s√©culo 19. √Č meu novo experimento.

O senhor viveu em Madri, como diplomata, nos √ļltimos anos. N√£o √† toa, √© na cidade espanhola que se passa grande parte do enredo de Enigmas da primavera. Perscrutar as cidades √© parte essencial de sua literatura?

Essencial eu n√£o diria. Muito do que eu penso, do que questiono, das hist√≥rias que imagino poderia situar-se em mais de uma geografia ou em geografia nenhuma. Quando comecei a viajar pelo mundo, o que aconteceu antes da publica√ß√£o do primeiro romance, imaginava quatro op√ß√Ķes para situar minhas hist√≥rias: faz√™-las se passar no Nordeste onde nasci; situ√°-las em lugar nenhum ou imagin√°rio; usar como cen√°rio as cidades onde morava ou inventar minha cidade concreta que pudesse absorver o conjunto de minhas viv√™ncias, leituras e observa√ß√Ķes. A solu√ß√£o foi mista. Inventei minha Bras√≠lia e me interessei por sua geografia e por sua hist√≥ria, para dar mais verossimilhan√ßa a meus relatos. Inclu√≠ o Nordeste em v√°rias de minhas hist√≥rias. E algumas cidades onde morei, como Paris ou S√£o Francisco, aparecem em meus romances. Mas nenhuma delas ocupa tanto espa√ßo nos meus romances quanto agora Madri e a Espanha em Enigmas da primavera.

Levando isso em conta: já existe alguma cidade, além de Brasília, candidata a integrar um novo romance?

Sim, uma cidade imaginária do interior do Rio Grande do Norte, não longe de Mossoró, onde nasci.


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