ENTRE FACAS, ALGODÃO

  1. Taguatinga, Setor A Norte, QNA 32

 

31 de março

Clarice havia mandado uma mensagem pelo Facebook.

O que ela quer contigo? Patrícia me perguntou, mais amarga do que nunca, nós dois sentados numa poltrona da sala.

Caía uma chuva torrencial.

Você leu. Sabe tanto quanto eu.

Eu tinha esquecido de sair do Facebook. Patrícia aproveitou pra vasculhar minhas mensagens. Inadmissível!

Não, não li. Só vi que foi ela que lhe escreveu.

Duvido. Deve ter visto que ela não quer nada comigo. Só me deu uma dica.

Dica de quê?

Saco! Patr√≠cia querer me controlar. Podia ter-lhe dito a verdade, se √© que ela n√£o sabia. Pouco me custava. A mensagem de Clarice nada tinha de pessoal. Nada que denotasse afeto entre n√≥s. Absolutamente nada! Quase mensagem comercial. Soube por meu amigo Arnaldo de meu interesse em comprar um terreno nas redondezas e me passou a dica. Tamb√©m me informou seu e-mail e n√ļmero do celular. S√≥ isso.

N√£o interessa, respondi.

Interessa, sim. Acha que esqueci o que essa perua representa pra ti?

Agress√£o gratuita. Como me arrependi de contar tudo. Falar de meu passado. Entrar em min√ļcias logo sobre Clarice! Sou mesmo um idiota, um imbecil!

Ou fui. Era l√° no comecinho, quando ach√°vamos que, como est√°vamos apaixonados e o mundo n√£o faria sentido se n√£o estiv√©ssemos juntos, t√≠nhamos que abrir nossos cora√ß√Ķes e contar tudo, absolutamente tudo. Sinceridade total. Respeito √† verdade, que n√£o podia ter qualquer remendo. Patr√≠cia nunca esqueceu o menor detalhe sobre Clarice.

Ainda chovia. Os rel√Ęmpagos clareavam as janelas. Os trov√Ķes ribombavam sem parar, querendo dramatizar nossa discuss√£o.

N√£o representa bulhufas. O terreno que est√° √† venda, sim. √Č o que eu quero. Eu, entende? Onde passei minha inf√Ęncia.

Na mensagem Clarice diz que minha casa foi destru√≠da. Mas o terreno √† venda ainda preserva a antiga casa-grande da fazenda do pai dela, o Riacho Negro. E como o Riacho Negro me traz recorda√ß√Ķes! Se n√£o leu, Patr√≠cia adivinhou o que dizia a mensagem, pois perguntou:

E por que ela n√£o compra?

Irritado, respondi, porque quer que eu compre.

Ah, é isso, né? A sem-vergonha quer que tu vá morar perto dela.

Como sabia que Clarice morava perto do terreno? Isso a mensagem não dizia. A verdade é que, se eu comprar o terreno, serei quase vizinho de Clarice.

N√£o. Eu √© que quero morar perto dela. Eu √© que quero, entendeu?, respondi, ir√īnico, elevando a voz.

Posso saber por quê? Nem precisa me responder, já entendi tudo, disse, sem considerar minha ironia.

Pensando bem, n√£o h√° mesmo ironia. Me d√° enorme prazer ser vizinho de Clarice.

Porque sim, respondi.

Pois então compre a merda do terreno e se afunde nele, Patrícia berrou. Vá logo, seu bosta. Eu sabia que não podia confiar em você!

Meu casamento com Patrícia sobreviveu a infidelidades, e esse assunto boboca não devia ter provocado tanta zanga.

Pois é o que vou fazer, me flagrei dizendo, só porque uma provocação leva a outra e mais outra.

Descarado! Saia j√° de casa, gritou ainda mais alto.

Não era pra tanto, mas a arenga continuou por horas, em gritos insensatos, gota d’água para nossa separação sempre adiada. Basta dizer que, sem se importar com a chuva, Patrícia jogou minhas roupas pela janela. Um sapato caiu do outro lado da rua, na calçada em frente, e encheu-se de água.

Não desisti. Debaixo de chuva, juntei todas as coisas, sem medo do ridículo perante os vizinhos, e voltei pra casa. Patrícia tentou me agredir fisicamente. Só me defendi, não queria parar na delegacia. Depois me tranquei num quarto. Decidi que sairia de casa, mas não enxotado. Patrícia não insistiu, apenas deixou de falar comigo, no que lhe correspondi. Se não me expulsava, eu estava no lucro.

 

1¬ļ de abril

N√£o √© mentira, apesar do primeiro de abril: vendo √† minha volta, meu casamento com Patr√≠cia n√£o √© dos piores. Temos muito em comum. Convers√°vamos, o que nem todo casal pode dizer. Nos beij√°vamos, feito not√°vel depois de d√©cadas de casamento. E os ci√ļmes de Patr√≠cia s√£o prova de que ainda me ama.

S√≥ n√£o tenho os mesmos ci√ļmes que ela porque h√° muito deixou de cantar nos bares e hoje n√£o vejo rival √† minha altura entre seus colegas dos Correios. N√£o tinha a menor inten√ß√£o de me separar dela. Mas a briga cresceu feito sufl√™ fora de meu controle. N√£o tem mais jeito. Me fez acreditar que √© melhor mesmo voltar pro Nordeste.

Vou responder a Clarice. Pedir detalhes sobre o vendedor do terreno. Se conseguir negociar bom preço, pergunto se ela aceita que lhe passe uma procuração pra que cuide da transação no cartório de Várzea Pacífica.

Abril, P√°scoa

Clarice me deu o n√ļmero do vendedor. Depois de negociar com ele os termos da compra, liguei pro celular dela, achei melhor conversar. Aceitou que lhe fa√ßa a procura√ß√£o. N√£o tocamos no assunto mais pessoal. Perguntei por Miguel, seu irm√£o. Est√° bem, fora as dificuldades nos neg√≥cios. Passa a maior parte do tempo viajando.

Pensei em tanta coisa antes de ligar… Em perguntar se ela se lembra de tal ou qual momento, como se sente vivendo sozinha numa fazenda, se alguma vez pensou em mim… Meus sentimentos ficaram embotados. Mas foi poss√≠vel perceber emo√ß√£o na sua voz. Sobretudo registrei bem o que disse:

Que bom que você está voltando.

Escavando sob meus p√©s, encontro muitas lembran√ßas dela. Os sonhos t√™m mem√≥ria. A Clarice do futuro ‚ÄĒ acho que existe, apesar de tudo ‚ÄĒ tem muito da Clarice do passado.

Se não me engano, foi em 58, plena seca, quando pela primeira vez senti por ela algo parecido com o amor. Não quero falar demais, porque não tenho certeza e não me lembro direito. Era muito pequeno. Podia ser naquele ano ou em qualquer outro que o rame-rame era o mesmo, morcegos voando de madrugada, árvores peladas, o verde só nas folhagens dos juazeiros, nos xiquexiques e mandacarus, carcaças de animais pelos caminhos de terra poeirenta exalando bafo quente, o sol queimando e secando o mundo, dentro de mim tudo seco. Em poucas palavras, o de sempre, agora cruzado por algum caminhão-pipa e à espera da transposição do Rio São Francisco.

Ou talvez tenha sido inverno, pois me lembro do a√ßude com √°gua, o verde das √°rvores espinhentas e baixas, verde-claro e brilhoso, a ro√ßa atr√°s do a√ßude tamb√©m verde, e eu acordava cedo para ir ao curral ordenhar as vacas. N√£o sei direito, me desculpe quem vier a ler isto. Ou, ora bolas, n√£o me desculpo, pois n√£o devo me desculpar de minhas contradi√ß√Ķes se s√£o as meras contradi√ß√Ķes do sert√£o, seco ou molhado, contradi√ß√Ķes que hoje ainda existem. Quando seco, a paisagem cinza, real√ßada por pedras e caveiras, digo sem nenhum exagero. Quando molhado, molhado demais, assustando a gente e causando desastres.

21 de abril

Feriado, fiquei em casa. Achei que Patr√≠cia ia querer me perturbar. Me ignorou, pelo menos at√© agora. Fico tranquilo para continuar estas anota√ß√Ķes sobre meus tempos do Riacho Negro, de V√°rzea Pac√≠fica, aquela √©poca em que Clarice foi t√£o importante pra mim. Um dia, quem sabe, mostro estas p√°ginas a ela.

Pode ser at√© que n√£o me lembre propriamente. Que a realidade daquele passado esteja s√≥ na minha imagina√ß√£o. Devo estar misturando v√°rias secas e v√°rias enchentes. Ent√£o, sim, por essa confus√£o devo me desculpar com quem vier a ler estas anota√ß√Ķes, feitas assim rapidamente sem preocupa√ß√£o com estilo ou vocabul√°rio.

Olho meu passado não com orgulho, mas com resignação. Muitas das turbulências que me atormentavam se apaziguaram. O que me despertava paixão agora está arquivado na memória como fotos num álbum de páginas amareladas pelo tempo. Algumas dessas fotos, cobertas de fungo. Outras, tão coladas entre si que, quando a gente tenta despregá-las, se rasgam deixando brancos.

Clarice √© exce√ß√£o. Minha lembran√ßa dela √© n√≠tida como a fotografia bem guardada no fundo de uma de minhas gavetas em que ela olha pra mim com olhar que sinto ser apaixonado e at√© hoje transmite vibra√ß√Ķes por meu corpo.

Recupero peda√ßos de mim para criar esta hist√≥ria contradit√≥ria e verdadeira, que me atormenta. Por isso tenho que p√īr pra fora. Como contradit√≥rios e verdadeiros, al√©m do sert√£o, eram mam√£e, que me punia e me protegia, e meu padrinho, pai de Clarice, severo e carinhoso. Eu aceitava as mudan√ßas de humor deles como aceitava mudan√ßas de humor da natureza. Achava normais minhas alegrias e tristezas.

No inverno a chuva cobria o campo verde, o chão ficava marcado com o barro das botas, as conversas e risos se prolongavam no alpendre da casa-grande de meus padrinhos, os aboios se animavam no campo, as muriçocas me picavam na nossa casa de tijolo aparente e vermelho, eu me enrolava na rede e envolvia o rosto com o lençol, deixando só o nariz de fora e ouvindo os pingos bater nas telhas.

Já na seca, o sol impiedoso castigava a fazenda do Riacho Negro e me cegava a vista. A poeira açoitava os campos cinzentos, de árvores despojadas, o açude minguado, as cacimbas sem água, as pessoas zonzas cozinhando irritação no calor, e o curral vazio, o gado tangido para o Piauí.

Nisso pode ser que de novo misture tempos, me desculpem, a seca de um ano com o verão prolongado de outro. Mas não invento nada, no máximo é a memória que me trai aqui e ali, coisa da idade, aos setenta anos a memória falha. O que é certo é que as paisagens da secura traziam sempre as mesmas árvores calcinadas, a mesma ruína cinzenta e a mesma irritação. Acho que são sobretudo elas, as paisagens da secura, que marcam os sertanejos feito eu.

1¬ļ de maio

Vou aqui de feriado em feriado, nem sei por qu√™. Hoje imagino que haja discursos e protestos. Prefiro me concentrar nas minhas anota√ß√Ķes. Procurei l√° no fundo minhas mem√≥rias mais antigas.

Deve haver outras l√° atr√°s, mas as que me chegaram logo foram as de um dia em que, deitado numa ponta do parapeito da casa-grande de meu padrinho, pai de Clarice, com 6 anos, eu ouvia o r√°dio a pilha Hitachi, novidade que acabava de chegar no Riacho Negro, alegrando o alpendre com forr√≥s interrompidos pelos chiados da m√° transmiss√£o. O r√°dio movido a bateria carregada por cata-vento, desligado. Noutra ponta do parapeito, a av√≥ de Clarice, Dona Leopolda, gorda, de rosto redondo, bochechudo, metida num vestido florido at√© o meio da canela, fazia cigarro cortando com faca afiada o fumo de corda enquanto fumava cachimbo, soltando baforadas. Uma rede branca, sem ningu√©m, balan√ßava no alpendre movida pelo nordeste que chegava forte. Da varanda se via um quarto separado da casa e, pela porta, selas e cabrestos, couros espichados, ba√ļs no ch√£o e gib√Ķes pendurados nos tornos de rede. Talvez seja minha mem√≥ria de um dia. Ou talvez, o que √© mais prov√°vel, de muitos dias que se repetiam iguaizinhos, sem tirar nem p√īr.

Arnaldo, um preto mais preto e dois anos mais velho do que eu, que hoje tamb√©m mora perto da fazendola que quero comprar e com quem j√° me comuniquei, me chamou para ir ao a√ßude buscar √°gua. Ele morava com o pai, Seu Rodolfo, a m√£e, Dona Vit√≥ria, e um magote de irm√£os, na fazenda vizinha, do irm√£o de meu padrinho, que eu chamava de titio. √ćamos com Quinquim, buchudo de lombrigas, mas magricela com cor de leite azedo, que, abestado, enrolava a l√≠ngua e s√≥ tinha dois amigos: eu e o jumento Cinzento. Cinzento conhecia o caminho do a√ßude, ia na frente. Todos os dias buscava √°gua. √Äs vezes voltava s√≥, nem precisava da gente, e ficava esperando at√© que a gente chegasse para esvaziar as ca√ßambas.

Eu considerava Arnaldo meu superior, e com raz√£o. Ele conhecia o nome de todas as rezes ‚ÄĒ vacas e bezerros ‚ÄĒ, sabia ajudar Quinquim com as ca√ßambas d‚Äô√°gua e enchia os quatro potes de barro que repousavam sobre o estrado de madeira do alpendre da casa-grande ‚ÄĒ hoje, me diz Arnaldo, substitu√≠dos pela cisterna. Embaixo deles deposit√°vamos r√©stias de alho, cebola, panelas de barro e mochilas de sal. Para ali de manh√£ cedo traz√≠amos os potes de leite, que num canto da cozinha seriam mudados em queijo de coalho ou coalhada. Ali coloc√°vamos os cachos de bananas para amadurecer, as bananas baba-de-boi, ma√ß√£, prata e casca verde que √† medida que amadureciam exalavam seu cheiro. Meu padrinho, pai de Clarice, dizia para colocar as bananas verdes junto das mais maduras para amadurecerem depressa. Eu e Arnaldo √†s vezes roub√°vamos bananas-prata quando come√ßavam a ficar amarelas e as com√≠amos quando desc√≠amos com Cinzento para o a√ßude.

Há coisas, já disse, que não me lembro direito, me desculpem. Não sei se foi neste dia ou noutro, a muda que morava na fazenda do tio de Clarice que eu chamava de titio tomava banho nua no açude. Surda, não ouvia o barulho dos nossos passos, meus e de Arnaldo. Se nos via, fingia que não nos via, e nós fingíamos não dar fé de seu fingimento. Não era a primeira vez. Embora mangássemos dela quando fazia caretas e barulhos incompreensíveis com a língua, era a principal atração da caminhada. Contávamos a Miguel, o irmão de Clarice, exagerando na beleza das coxas, da bunda e dos peitos, e ele ficava cheio de inveja. Só não conseguíamos dizer que era bonita de rosto, ainda que o cabelo louro, liso e comprido enfeitasse suas costas, pois, nisso concordávamos, a feiura de seu rosto assustava.

2 de maio

Um dia peguei uma aposta com Arnaldo na corrida ‚ÄĒ dia especial por uma raz√£o simples: tem a ver com Clarice, de quem, afinal de contas, queria falar. Arnaldo corria mais r√°pido que eu. Me senti derrotado. Ca√≠ e ralei meus joelhos. Foi o fim do mundo. Ou melhor, seu come√ßo.

O sol nos encandeava com desenhos amarelos. Projetava pra dentro da casa-grande os pilares do alpendre, marcando o chão e os potes de barro com sombras negras e violentas. Daquele dia perdura em mim até hoje um sentimento de drama e esperança.

De drama: de que a noite que caía me despojava de seu manto protetor; de que eu sempre tropeçaria sobre as pedras da ladeira; de que o horizonte nunca deixaria de ser incerto; de que, perdido, não encontraria o caminho.

De esperança: de que alguém me salvaria do desastre. Do alto da ladeira, joelhos ralados nas pedras, vendo o sangue, eu também via a casa-grande e, na frente, Clarice, que veio em meu socorro.

Uma guiné gasguita voava no terreiro com medo dos vaqueiros encourados. Então chegou um magote de ciganos, visitantes que a cada dois ou três meses passavam tangendo tropas de burros, mulas e cavalos carregados de bugigangas. Juntaram-se embaixo do pé de tamarindo do terreiro.

Vende este cavalo? Cad√™ o ferr√£o?, perguntava meu padrinho, o pai de Clarice, com voz raivosamente fina e min√ļcias de aten√ß√£o, desconfiado dos ciganos, sem dar f√© do sangue nos meus joelhos.

Eu n√£o tinha dinheiro e queria comprar um presente para Clarice. Por gestos, um dos ciganos me deu a entender que eu poderia pagar depois. Escolhi um anel certamente de ouro e pedra falsos, que dei de presente a Clarice quando o sol j√° se escondia envergonhado e as galinhas se aquietavam no poleiro.

De noite ‚ÄĒ pode ter sido nesse dia e, se n√£o foi, juntei com outro, sua prolonga√ß√£o natural ‚ÄĒ havia uma fogueira enorme, feita de muitas carradas de lenha, em frente √† casa-grande. Devia ser junho, quem sabe dia 24, festa de S√£o Jo√£o. As labaredas iluminavam rostos risonhos, √†s vezes de gargalhadas escancaradas, gente dando volta em torno da fogueira, assando milho verde. No alpendre da casa, a brincadeira era outra, s√©ria: joguei gotas da vela derretida num copo d‚Äô√°gua, e a cera formou uma letra c√™, c√™ de Clarice. A felicidade.

Naquela época falava-se em roubos de moça para se casar, e me contaram que um roubo tinha acontecido em Várzea Pacífica. O rapaz roubava a moça, e as famílias tinham a obrigação de fazer o casamento. Imaginava-me, então, chegando a cavalo numa das janelas da casa-grande e levando Clarice na garupa. Será que ela toparia?

 

Hoje falei com Arnaldo. Faz muitos anos que n√£o nos vemos, mas sempre que nos falamos √© como se tiv√©ssemos nos encontrado ontem. Vamos nos comunicar por WhatsApp, ele prop√īs. Um sujeito que ele conhece est√° vendendo um carro de segunda m√£o. Vendo o meu aqui em Taguatinga para comprar esse outro quando chegar a V√°rzea Pac√≠fica, se ainda estiver √† venda. Comprar sem ver √© que n√£o.

Levo para a fazenda uma técnica de plantio direto do algodão com a introdução de culturas rotativas. Já consultei uma lista de empresas de energia solar fotovoltaica da região de Fortaleza, pois vou, sim, instalar placas de energia solar, pelo menos para as necessidades da casa principal, que não será a casa-grande, mas a minha própria, moderna e confortável. E vou aprimorar o sistema precário de irrigação, que existe há alguns anos. De novidade, há dois poços artesianos na propriedade, e a casa já tem cisterna, Arnaldo me disse.

7 de maio

Quando penso na viagem em breve ao Riacho Negro, o passado assume tonalidades acinzentadas, vago e fora de foco. Aqui e ali surgem luzes que iluminam, rasg√Ķes no escuro e sem continuidade, a cara encarquilhada de minha av√≥, os vestidos de chita de mam√£e, o palet√≥ de linho branco e botas lustrosas de meu padrinho, pai de Clarice, os chocalhos balan√ßando nos pesco√ßos das vacas leiteiras quando sa√≠am de manh√£ cedo para pastar e voltavam de tarde para o curral, o pi√£o que eu jogava na cal√ßada alta de cimento da casa-grande, os papagaios a voar quando o nordeste chegava quente soprando galhos secos, o meu carneirinho branco no qual eu montava antes de lev√°-lo ao chiqueiro no final da tarde, o gib√£o, perneiras, peitoral e chap√©u de couro de Seu Rodolfo, pai de meu amigo Arnaldo e marido da bela Vit√≥ria.

Vit√≥ria… Devo falar tamb√©m dela? Me lembro que, na janela pobre, exibia um sorriso misterioso para mim em dentes perfeitamente alinhados, vestido leve e decotado mostrando o vinco entre os peitos. N√£o, n√£o vou falar dela. √Č s√≥ uma imagem de passagem, um sorriso na janela, um desejo de menino.

Olhando nas cinzas do passado, vejo m√£os calejadas no cabo da enxada e outras, delicadas, de Clarice, acariciando as bolhas de minha catapora, que ela queria pegar. Vejo os campos de algod√£o, branquinhos, muito branquinhos, subindo e descendo morros a perder de vista, e Arnaldo chamando-me para ca√ßar avoantes, que cham√°vamos avoetes; para acompanh√°-lo em algum trabalho, sempre em lombo de burro. E depois ou√ßo suas gargalhadas c√ļmplices pelo caminho, vozes √°speras me dando ordens, outras me acalentando.

De repente surge minha irm√£ Zuleide, que hoje mora em Recife, dois anos mais velha do que eu, arengando comigo por causa de uma brincadeira que eu n√£o entendia e continuo n√£o entendendo. Peda√ßos do passado que chegam me assustando ou me convidando a um reencontro. √Č o que vejo; o que ou√ßo. O resto imagino, e devo descrever?

Fecho os olhos. L√° no fundo aparece a paisagem do a√ßude, de brilho pontuado por marrecos e mergulh√Ķes. Ainda est√£o l√°? √Äs vezes descia com Arnaldo, tangendo o jumento Cinzento at√© a vazante para colher capim, melancia ou jerimum. As melancias se espalhavam feito erva daninha, um tapete verde pelo meio das planta√ß√Ķes de milho. Ench√≠amos os ca√ßu√°s, e Cinzento penava subindo a ladeira empedrada para que deposit√°ssemos a carga nos ton√©is dos armaz√©ns ao lado da casa-grande.

21 de maio

Papai n√£o aparece por esses rasg√Ķes de luz que vejo nas cortinas embotadas do passado. Minto. Ele aparece, e muito, quando vejo, assombrado, o que n√£o vi: a faca dilacerando sua barriga, o sangue escoando feito rio pelo ch√£o, o cad√°ver encostado na porta de um beco de V√°rzea Pac√≠fica, a cidadezinha perto da fazenda do Riacho Negro onde mor√°vamos…

E ent√£o talvez quando o que vi com apenas dois anos, n√£o tenho certeza, as imagens est√£o fora de foco: uma cova funda, um mont√≠culo de terra com flores e uma cruz… Ele √© uma hist√≥ria terr√≠vel que me angustia sempre. Ou ent√£o √© uma fotografia junto com mam√£e, fotografia retocada a cores, na qual o rosto preto de mam√£e est√° rosado e seus l√°bios trazem um batom de um vermelho que nunca vi ao vivo. Uma fotografia emoldurada e pendurada na parede da sala de nossa casa pobre, de tijolo vermelho.

O assassinato de papai cozinha alguma coisa dentro de mim, uma coisa que vai explodir, tenho certeza. Vingança? Quando eu chegar ao Riacho Negro e sobretudo quando visitar Várzea Pacífica, ainda vou me deparar com esse fato do passado que não para de me atormentar. Enfrentar necessariamente o assassino.

Parto dentro de uma semana, está tudo certo. Fujo da secura que começa. Não tem caído pingo d’água neste planalto.

Clarice me enviou a escritura do terreno que comprei por procuração. Arrumei minhas coisas e despachei há exatamente treze dias uma pequena mudança, que Arnaldo vai receber e acomodar na casa da fazenda. Encarreguei-o também de comprar sementes de algodão para o plantio, quando eu chegar.

 

 

2.‚ÄāVoo Bras√≠lia-Fortaleza

1¬ļ de junho

O avi√£o subiu faz pouco. Voo Bras√≠lia-Fortaleza. Agora que Patr√≠cia me deixou, deixo Taguatinga. Digo que foi ela que me deixou, embora seja eu que parti, pois a iniciativa foi dela, n√£o h√° d√ļvida.

Teve razão e coragem. Eu não teria nem uma coisa nem outra. Mas fico matutando se o medo às vezes é que tem razão. A despedida foi dura e fria.

Seja feliz, ela disse, como se dissesse que se foda.

Você também, respondi.

A separação foi amigável, e muita coisa ainda tem que ser decidida. Ela ficou com a maior parte dos bens, inclusive a casa, mas não exige dinheiro. Combinamos que vamos formalizar o divórcio, porém não começamos a cuidar dos papéis. Sugeri aguardar um pouco, testar como vamos nos sentir com a separação.

Não tem volta, foi categórica.

Olhando as chapadas pela janela do avi√£o ‚ÄĒ ser√° a Mantiqueira? ‚ÄĒ, deixo aparecer outro ser que vivia dentro de mim, outro de mim contra quem sempre lutei. Ser triste, de tristeza terna e contente, que se relaxa na sua pr√≥pria natureza. Que talvez queira encontrar futuro no passado, tenho de admitir. A gente n√£o tem controle sobre o que se lembra. E o que se lembra pode insistir em nunca ir embora, at√© acorda a gente de madrugada. Pode estar pra c√° ou pra l√° do que aconteceu.

√Äs vezes fica dif√≠cil tra√ßar a fronteira entre lembran√ßa e imagina√ß√£o. √Äs vezes a realidade se imp√Ķe √†s duas. √Äs vezes a fazenda que pertencia a meu padrinho me traz m√°s lembran√ßas. A fazenda ficava a tr√™s l√©guas de V√°rzea Pac√≠fica, que, quando eu era crian√ßa, nem v√°rzea nem pac√≠fica era. Ali a vegeta√ß√£o secava no ver√£o ‚ÄĒ isso imagino que ainda acontece ‚ÄĒ e, por qualquer coisa, armava-se o maior cu de boi. Assassinatos a todo tempo. Terr√≠veis assassinatos! A mais terr√≠vel de todas as lembran√ßas me chega por tabela, lembran√ßa de lembran√ßas. Papai assassinado a peixeiradas. Ainda vejo o sangue saindo de sua barriga, esguichado, desparramando-se pelo ch√£o.

Lembranças mesmo, quando tenho, são vagas, de gritos, portas batendo, eu correndo por um descampado sem fim. Eu seguia caminhos sinuosos e esburacados ouvindo choros fortes de mulher, acho que de mamãe, de vovó. Finalmente chegamos ao lugar de chão ondulado e marcado por cruzes, onde, ao lado de um buraco sem fim, foi depositado o caixão que não sei se vi ou imaginei, em madeira lisa e pintada de preto. O montículo de terra ali ao lado me parecia uma montanha também infindável, montanha que eu não conseguia escalar. Lágrimas ainda caem de meus olhos pelo que não vi, me desculpo uma vez mais com quem tem paciência de continuar me lendo.

Como posso me lembrar direito? Tinha só dois anos. Sei da violência do assassinato de papai pelos relatos que ouvi anos depois. Mais de vinte peixeiradas, sangue escorrendo pela calçada. Sangue, muito sangue, um vermelho que mancha todas as minhas lembranças.

Sempre pensava naquele crime quando assistia à morte das novilhas no curral, vendo as machadadas, a carne esfolada e o sangue escrevendo garranchos no tapete de estrume, preto e fofo.

O assassino, preso, nunca admitiu o crime. Sujeitinho nojento, filho da puta. N√£o h√° d√ļvida: teve uma rixa com papai por uma migalhice ‚ÄĒ papai se recusou a pagar por um gib√£o de couro malfeito ‚ÄĒ e era assassino confesso de outras quatro v√≠timas. Cabra ranzinza, irritadi√ßo, que batia na mulher aos murros. A filha, de tanto levar chibatada, enlouqueceu, foi o que me contou h√° muitos anos Arnaldo, aquele meu amigo de inf√Ęncia com quem troco mensagens por WhatsApp.

Li uma vez que √© somente nos vivos que os mortos existem, assim como ser√° apenas nos vivos que estas anota√ß√Ķes podem sobreviver depois de minha morte. Papai √© um morto que vive em mim. Por que ainda quero vingar sua morte depois de tanto tempo? A verdade √© que quero. Aparece cada vez mais como necessidade, necessidade de um velho, necessidade cada vez mais urgente, como se me faltasse o que preciso fazer para me sentir completo.

S√≥ de pensar que posso me encontrar com o assassino, o sangue sobe √† cabe√ßa. √Ä medida que os dias passam, vejo que me sobra pouco tempo para cumprir minha miss√£o. Claro que n√£o foi s√≥ por causa de Clarice que comprei o terreno. Volto pra perto do desgra√ßado, o filho da puta. Saiu da pris√£o h√° v√°rios anos. Nunca o procurei, mas hoje sei que, se o encontrar, eu o mato. Tenho de mat√°-lo. N√£o me importa nada passar o resto da vida na cadeia. Quem lamentaria? Meus tr√™s filhos, sei que n√£o. Talvez minha irm√£ Zuleide… Falo t√£o pouco com ela! Na verdade, faz dois anos que n√£o a vejo. Para Patr√≠cia, preso ou n√£o, tanto faz, deve estar contente de se livrar de mim. E, se eu morrer, ser√° minha morte gloriosa, pelo melhor dos objetivos, me entendam ou n√£o. Trago na bagagem um rev√≥lver.

 

 

7 de maio

 

Quando penso na viagem em breve ao Riacho Negro, o passado assume tonalidades acinzentadas, vago e fora de foco. Aqui e ali surgem luzes que iluminam, rasg√Ķes no escuro e sem continuidade, a cara encarquilhada de minha av√≥, os vestidos de chita de mam√£e, o palet√≥ de linho branco e botas lustrosas de meu padrinho, pai de Clarice, os chocalhos balan√ßando nos pesco√ßos das vacas leiteiras quando sa√≠am de manh√£ cedo para pastar e voltavam de tarde para o curral, o pi√£o que eu jogava na cal√ßada alta de cimento da casa-grande, os papagaios a voar quando o nordeste chegava quente soprando galhos secos, o meu carneirinho branco no qual eu montava antes de lev√°-lo ao chiqueiro no final da tarde, o gib√£o, perneiras, peitoral e chap√©u de couro de Seu Rodolfo, pai de meu amigo Arnaldo e marido da bela Vit√≥ria.

Vit√≥ria… Devo falar tamb√©m dela? Me lembro que, na janela pobre, exibia um sorriso misterioso para mim em dentes perfeitamente alinhados, vestido leve e decotado mostrando o vinco entre os peitos. N√£o, n√£o vou falar dela. √Č s√≥ uma imagem de passagem, um sorriso na janela, um desejo de menino.

Olhando nas cinzas do passado, vejo m√£os calejadas no cabo da enxada e outras, delicadas, de Clarice, acariciando as bolhas de minha catapora, que ela queria pegar. Vejo os campos de algod√£o, branquinhos, muito branquinhos, subindo e descendo morros a perder de vista, e Arnaldo chamando-me para ca√ßar avoantes, que cham√°vamos avoetes; para acompanh√°-lo em algum trabalho, sempre em lombo de burro. E depois ou√ßo suas gargalhadas c√ļmplices pelo caminho, vozes √°speras me dando ordens, outras me acalentando.

De repente surge minha irm√£ Zuleide, que hoje mora em Recife, dois anos mais velha do que eu, arengando comigo por causa de uma brincadeira que eu n√£o entendia e continuo n√£o entendendo. Peda√ßos do passado que chegam me assustando ou me convidando a um reencontro. √Č o que vejo; o que ou√ßo. O resto imagino, e devo descrever?

Fecho os olhos. L√° no fundo aparece a paisagem do a√ßude, de brilho pontuado por marrecos e mergulh√Ķes. Ainda est√£o l√°? √Äs vezes descia com Arnaldo, tangendo o jumento Cinzento at√© a vazante para colher capim, melancia ou jerimum. As melancias se espalhavam feito erva daninha, um tapete verde pelo meio das planta√ß√Ķes de milho. Ench√≠amos os ca√ßu√°s, e Cinzento penava subindo a ladeira empedrada para que deposit√°ssemos a carga nos ton√©is dos armaz√©ns ao lado da casa-grande.

 

21 de maio

Papai n√£o aparece por esses rasg√Ķes de luz que vejo nas cortinas embotadas do passado. Minto. Ele aparece, e muito, quando vejo, assombrado, o que n√£o vi: a faca dilacerando sua barriga, o sangue escoando feito rio pelo ch√£o, o cad√°ver encostado na porta de um beco de V√°rzea Pac√≠fica, a cidadezinha perto da fazenda do Riacho Negro onde mor√°vamos…

E ent√£o talvez quando o que vi com apenas dois anos, n√£o tenho certeza, as imagens est√£o fora de foco: uma cova funda, um mont√≠culo de terra com flores e uma cruz… Ele √© uma hist√≥ria terr√≠vel que me angustia sempre. Ou ent√£o √© uma fotografia junto com mam√£e, fotografia retocada a cores, na qual o rosto preto de mam√£e est√° rosado e seus l√°bios trazem um batom de um vermelho que nunca vi ao vivo. Uma fotografia emoldurada e pendurada na parede da sala de nossa casa pobre, de tijolo vermelho.

O assassinato de papai cozinha alguma coisa dentro de mim, uma coisa que vai explodir, tenho certeza. Vingança? Quando eu chegar ao Riacho Negro e sobretudo quando visitar Várzea Pacífica, ainda vou me deparar com esse fato do passado que não para de me atormentar. Enfrentar necessariamente o assassino.


SOCIAL NETWORK