ENTREVISTA A José Leonardo Tonus, Université de Paris-Sorbonne

Presente em grande parte de seus romances, o universo brasiliense surge, no √ļltimo trabalho de Jo√£o Almino, como um espa√ßo m√≠tico que o olhar descentrado do narrador-personagem vem revelar. J.A, um escritor sem editora, relata ao longo deste romance sua inf√Ęncia vivida no N√ļcleo Bandeirante, cidade-sat√©lite habitada por uma horda an√īnima de oper√°rios origin√°rios dos quatro cantos do Brasil. A hist√≥ria come√ßa com um prol√≥go, cuja ambiguidade em torno da voz autorial/atorial cria, √† maneira machadiana, um jogo de falsos semblantes. Se, ao mimar o regime autobiogr√°fico, (“eis o que eu vivi, eis o que eu escrevi”), o narrador-personagem responde ao protocolo da leitura memorial√≠stica, sua ficcionaliza√ß√£o tende a atenuar e a diluir as t√™nues fronteiras existentes entre hist√≥ria e fic√ß√£o, entre a verdade e a mentira.
Elaborada a partir de um suporte narrativo virtual em rede (o blog), a estrutura romanesca de Cidade Livre refuta as no√ß√Ķes cl√°ssicas da autoria textual. Com efeito, ao acentuar os efeitos de dissimula√ß√£o, o autor assegura ao texto uma configura√ß√£o caleidosc√≥pica capaz de neutralizar a articula√ß√£o linear e un√≠voca das informa√ß√Ķes veiculadas. Em Cidade Livre, estas apresentam-se, antes, sob a forma de sequ√™ncias associativas, convergentes e/ou divergentes, que reavaliam, constantemente, o conjunto dos dispositivos escriturais : inst√Ęncias narrativas, focaliza√ß√£o, temporalidade e espacialidade. Ao olhar ir√īnico e desabusado de J.A., justap√Ķem-se, ao longo do texto, as lembran√ßas fragmentadas de seu pai adotivo registradas num di√°rio lacunar, o testemunho de personagens hist√≥ricas ficcionalizadas, os coment√°rios dos leitores virtuais do blog que destilam, completam ou alteram as informa√ß√Ķes dieg√©ticas e, finalmente, o olhar admirativo da popula√ß√£o an√īnima de candangos que, em Bras√≠lia, acreditava ver o raiar de uma nova era para o pa√≠s. A intriga articula-se em torno do relato de sete noites de vig√≠lia durante as quais J.A acompanha a agonia do pai at√© a sua morte. O corte temporal aqui escolhido pelo autor confere ao texto uma dimens√£o m√≠tico-simb√≥lica inscrevendo-o na tradi√ß√£o dos mitos de restaura√ß√£o c√≠clica. Romance de funda√ß√£o, ou de anti-funda√ß√£o, Cidade Livre conduz o leitor pelos abismos labir√≠nticos de uma mem√≥ria individual e coletiva estilha√ßada que, atrav√©s das brechas, frestas, insterst√≠cios e desv√£os da hist√≥ria n√£o-oficial do pa√≠s, recomp√Ķe o momento inaugural do Brasil moderno. A euforia e o otimismo da constru√ß√£o de Bras√≠lia contrastam, ao longo do romance, com as desilus√Ķes familiares e o desencanto dos trabalhadores locais, dentre os quais, Valdivino, assassinado no dia da inaugura√ß√£o da capital brasileira. Sua morte misteriosa constitui o motor dram√°tico e interpretativo desta narrativa que concentra no candango todas as contradi√ß√Ķes do devir da na√ß√£o brasileira, dividida entre sua ancoragem rural e urbana, seu √≠mpeto modernista e tradicional, sua racionalidade e irracionalidade profundas. A localiza√ß√£o do romance no universo brasiliense √© neste sentido significativa. Espa√ßo movedi√ßo e desprovido de hist√≥ria, Brasilia √© em Cidade Livre um territ√≥rio sem ra√≠zes povoado de identidades prec√°rias, √≥rf√£s e bastardas, em suma : o espa√ßo das utopias e distopias de um Brasil que, em constru√ß√£o, ja √© ru√≠na.

– Muitos cr√≠ticos t√™m sublinhado, neste seu √ļltimo trabalho, sua preocupa√ß√£o com o resgaste de um material hist√≥rico brasiliense. Poderia nos falar um pouco da g√™nesis do romance, das fontes utilizadas e do processo de reda√ß√£o?
Jo√£o Almino : N√£o √© um romance hist√≥rico. Todos os personagens centrais bem como as tramas que d√£o corpo ao romance s√£o puras cria√ß√Ķes liter√°rias. As mem√≥rias do narrador, Jo√£o, s√£o inventadas. O J.A. do pref√°cio n√£o passa de uma refer√™ncia jocosa ao M. de A. do Memorial de Aires. No entanto, como a hist√≥ria se passa no momento da constru√ß√£o de Bras√≠lia e na “Cidade Livre”, a cidade que foi constru√≠da para ser destru√≠da no dia da inaugura√ß√£o de Bras√≠lia, adicionei ao texto elementos e personagens hist√≥ricos que, embora secund√°rios, t√™m a fun√ß√£o de criar uma atmosfera de verossimilhan√ßa para o conjunto das hist√≥rias. Havia perseguido o tema do novo, da cria√ß√£o e da funda√ß√£o nos romances anteriores e, desta vez, resolvi revisit√°-lo sob a √≥tica da pr√≥pria constru√ß√£o da cidade. Uma parte substancial do material que eu havia acumulado sobre Bras√≠lia ao longo dos anos ainda n√£o havia utilizado na minha fic√ß√£o. A isso somei uma pesquisa em bibliotecas norte-americanas, onde encontrei v√°rias dezenas de livros, revistas, folhetos e artigos de jornal sobre Bras√≠lia nos anos de sua constru√ß√£o.

– A cr√≠tica sublinha uma certa predomin√Ęncia do espa√ßo brasiliense em sua obra. Por que a escolha de Bras√≠lia, sobretudo enquanto elabora√ß√£o m√≠tica? Em sua opini√£o, de que maneira o mito permite uma releitura da hist√≥ria oficial?
Jo√£o Almino : O mito tem um sentido de perman√™ncia maior do que a realidade hist√≥rica. N√£o pode ser facilmente destru√≠do. Pode tamb√©m oferecer uma chave de interpreta√ß√£o de uma hist√≥ria profunda e nem sempre aparente. Bras√≠lia tem uma carga simb√≥lica como poucas cidades do mundo. Seu projeto acompanhou toda a hist√≥ria do Brasil independente e veio a ser identificado com a aspira√ß√£o de modernidade do Pa√≠s. Bras√≠lia √©, assim, uma ideia de Brasil e uma met√°fora do mundo moderno. Escrever sobre Bras√≠lia √© escrever sobre o Brasil e sobre os dilemas, contradi√ß√Ķes e tens√Ķes desse mundo moderno. Bras√≠lia pode tamb√©m servir de suporte a um ide√°rio est√©tico-liter√°rio. Uma cidade desenraizada, ainda um vazio com pouca tradi√ß√£o, povoada de migrantes, com uma identidade m√ļltipla, cambiante e aberta, cria um espa√ßo de possibilidades que legitima a liberdade de imagina√ß√£o. Pode tamb√©m ser prop√≠cia a uma literatura que procura evitar os estere√≥tipos. Seu car√°ter universal favorece uma tomada de partido contra o pitoresco. Em Bras√≠lia, existe uma tens√£o exacerbada entre a geometria do plano e a criatividade espont√Ęnea da vida cotidiana, entre a ordem e o caos, entre o futurista e o arcaico, entre o projeto racional e moderno e express√Ķes pr√©-modernas e irracionais, presentes, por exemplo, na experi√™ncia de suas v√°rias seitas m√≠sticas. E tudo isso √© um √≥timo material para a literatura.

– Cidade Livre inscreve-se na din√Ęmica dos mitos de funda√ß√£o. Por que estabelecer o mito de funda√ß√£o a partir da categorias da orfandade? Compartilha a opini√£o do escritor e soci√≥logo canadense G√©rard Bouchard que v√™ na bastardia uma chave interpretativa para se pensar a identidade dos pa√≠ses no Novo Mundo?
Jo√£o Almino : Sim, somos povos bastardos, e esta √© uma de nossas qualidades. Ao inv√©s de pensar numa identidade referida a ra√≠zes ou tradi√ß√Ķes, prefiro trabalhar com a hip√≥tese da ocupa√ß√£o de um espa√ßo vazio, com a possibilidade de cria√ß√£o livre e de assimila√ß√£o sem preconceitos das mais diferentes fontes. A orfandade implica maior liberdade e tamb√©m maior responsabilidade na constru√ß√£o de uma √©tica e de um destino.

РO romance Cidade livre apresenta uma nítida estrutura labiríntica. Seria esta a materialização de um espaço fechado que enclausura seus habitantes ou antes, como diria Octavio Paz, a sugestão de um território fechado com poucas saídas? Neste sentido, que saídas proporciona às suas personagens no final do romance?
Jo√£o Almino : Voc√™ tem raz√£o, h√° uma estrutura labir√≠ntica, com arquitetura conc√™ntrica. O personagem narra suas mem√≥rias a partir de suas pr√≥prias recorda√ß√Ķes, de uma conversa de sete noites com seu pai moribundo e da leitura de pap√©is que haviam sido enterrados pelo pai no dia da inaugura√ß√£o da cidade. Essas mem√≥rias, inicialmente escritas cerca de seis meses ap√≥s a morte do pai, s√£o postadas por partes num blog e comentadas por leitores. O que lemos, contudo, n√£o √© o processo da escrita, mas sim o texto na sua forma final, ap√≥s incorporadas as opini√Ķes ou coment√°rios dos leitores e ap√≥s feita uma revis√£o por Jo√£o Almino, que, apesar da coincid√™ncia com o nome do autor, n√£o deixa de ser tamb√©m um personagem fict√≠cio. Os tempos se justap√Ķem no relato: o da conversa com o pai, o do momento da escrita, aquele ap√≥s a revis√£o final e o do passado a que est√£o referidas as conversas do pai e as recorda√ß√Ķes do menino. O tempo em si √© um labirinto, j√° dizia Borges. Talvez tenha sido por causa desse outro labirinto, o do tempo, que Teseu um dia perdeu Ariadna, depois de matar o Minotauro e ter seguido o fio que ela havia tecido para que ele sa√≠sse do labirinto e voltasse a ela. A literatura √© como esse fio de Ariadna, mas n√£o d√° garantias a ningu√©m. Gostaria de que, ao lidar com os becos sem sa√≠da do labirinto, que levam √† pris√£o, √† morte, ao desespero, √† desilus√£o ou ao misticismo, o leitor pudesse abrir mais seus horizontes para lidar com as dificuldades da vida. Mas n√£o posso estar certo disso. A √ļnica sa√≠da clara do labirinto, entre os personagens, √© a da escrita. Com pap√©is desenterrados, a conversa com um moribundo, a d√ļvida em torno a um poss√≠vel assassinato ou ainda o pr√≥prio fracasso, √© poss√≠vel ao filho construir o relato que o pai n√£o conseguira.

– Seu √ļltimo romance ap√≥ia-se, em grande parte, num jogo de dissimula√ß√Ķes e de simulacros. De que maneira Cidade Livre questiona o valor e o papel do relato hist√≥rico? Por que se servir do ind√≠zivel hist√≥rico como transmissor da verdade ou de uma impossibilidade de se restaurar a verdade?
Jo√£o Almino : N√£o questiono o valor e o papel do relato hist√≥rico. No entanto, por defini√ß√£o a fic√ß√£o, para que seja fic√ß√£o, n√£o pode se confundir com a hist√≥ria. Era o que j√° dizia E. M. Foster em Aspectos do Romance: o historiador registra, enquanto o romancista deve criar, e uma parte do material com o qual este trabalha n√£o est√° facilmente dispon√≠vel para o historiador, pois pertence a um universo interior de dif√≠cil acesso, em que imperam as paix√Ķes, os sonhos, as alegrias, as tristezas e ang√ļstias. O trabalho do ficcionista deve incluir tamb√©m o duvidoso, o fragment√°rio, o incompleto, o rec√īndito e obscuro. Esse √©, ali√°s, o material por excel√™ncia do romance, pois a verdade transparente e a certeza demonstr√°vel cabem numa tese ou num tratado cient√≠fico. Um questionamento met√≥dico pode ser feito num ensaio filos√≥fico. Escrevemos fic√ß√£o quando todas as outras formas de express√£o s√£o insuficientes para dizer o que queremos dizer ou o que nem sequer queremos dizer, por n√£o conhecermos ainda o territ√≥rio em que pisamos. Pois a fic√ß√£o √© uma busca, uma interroga√ß√£o, uma imers√£o nas emo√ß√Ķes e uma aventura do pensamento.

– Como encara hoje a produ√ß√£o liter√°ria contempor√Ęnea no Brasil? De que autores nacionais sua escrita e preocupa√ß√Ķes est√©ticas tendem a se aproximar?
J√£o Almino : Posso apenas dizer, sem com isso acreditar em afinidades ou influ√™ncias, que os autores brasileiros de que mais gosto e que mais li e reli s√£o Machado de Assis, Graciliano Ramos e Clarice Lispector. Sei que esta lista t√£o pequena deixa de lado alguns dos gigantes de nossa literatura, mas estes s√£o os tr√™s aos quais sempre volto. Quanto √† produ√ß√£o contempor√Ęnea, creio que passa por um bom momento. √Č diversificada, rica e criativa.


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