Interview to Juliana Krapp on THE LAST TWIST OF THE KNIFE

Numa esp√©cie de di√°rio, um advogado em fim de carreira descreve como decide abandonar a mulher e a vida em Taguatinga, no Planalto Central, para reencontrar o passado. Aos 70 anos, o protagonista de Entre facas, algod√£o retorna √† periferia rural onde passou a inf√Ęncia. Busca o amor de menino, o acerto de contas com as d√ļvidas da mem√≥ria e a vingan√ßa pela morte do pai. Acaba se confrontando com uma realidade trai√ßoeira, repleta de surpresas e de desvios.

Em seu s√©timo romance, Jo√£o Almino lan√ßa m√£o de Bras√≠lia, cen√°rio primordial de sua obra, apenas como ponto de partida e de chegada, cedendo espa√ßo a um mergulho in√©dito no universo do Nordeste brasileiro. Nessa investida, deixa ainda mais intensa a dic√ß√£o enxuta que marca sua trajet√≥ria ‚ÄĒ tr√™s d√©cadas de produ√ß√£o liter√°ria, que acabam de torn√°-lo o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras.

1. O senhor j√° afirmou algumas vezes que a constru√ß√£o dos personagens costuma ser o passo inicial em seu processo de cria√ß√£o. Como nasceu o protagonista de “Entre facas, algod√£o”?
O Nordeste esteve presente em minha literatura atrav√©s de personagens que migraram para Bras√≠lia. Do Nordeste vem a Profetisa √ćris Quelem√©m, do meu primeiro romance, Ideias para Onde Passar o Fim de Mundo, refer√™ncia a Guimar√£es Rosa. Ela est√° em todos os seis romances meus j√° publicados. Do Nordeste vem Berenice, que tamb√©m vinda do meu primeiro romance, reaparece em Samba-Enredo, em As cinco esta√ß√Ķes do amor e em O livro das emo√ß√Ķes. Do Nordeste vem Valdivino, que costura as hist√≥rias de Cidade Livre, meu quinto romance. Mas ainda n√£o havia dado a voz a um dos personagens nordestinos em primeira pessoa. Senti que deveria agora suprir esta lacuna proposital. Achei que deveria manter a regi√£o de Bras√≠lia como ponto de partida e de chegada. Mas meu personagem faria uma viagem de regresso a seu Nordeste natal. E ent√£o constru√≠ sua biografia. Pensei nos seus fantasmas e nas suas fantasias de inf√Ęncia, na sua identidade. E fui costurando sua mem√≥ria falha nos pontos geogr√°ficos de sua viagem presente.
2. Mem√≥ria e identidade s√£o temas centrais neste romance. Mas trata-se de uma trama trai√ßoeira, na qual esses dois elementos ‚ÄĒ mem√≥ria e identidade ‚ÄĒ revelam-se movedi√ßos, pe√ßas √† merc√™ de uma viol√™ncia que parece inerente √† vida. Como transformar essa instabilidade do cotidiano em jogo liter√°rio?
Voc√™ captou bem. Mem√≥ria e identidade, recorrentes em minha literatura, s√£o elementos fundamentais de compreens√£o do mundo. No entanto, s√£o objeto de uma busca permanente. Mem√≥ria parcial. Identidade m√ļltipla e em aberto. Essa instabilidade cria narrativas, que a literatura problematiza, exercendo seu papel.
3. Bras√≠lia tem sido cen√°rio primordial em seus livros. Mas agora a cena se desloca para o interior cearense ou potiguar. Ou melhor: esta nova trama serpeia entre Taguatinga, no Planalto Central, e o lugarejo de V√°rzea Pac√≠fica ‚ÄĒ com passagens por Bras√≠lia e Fortaleza. Quais os desafios de lan√ßar luz, via fic√ß√£o, ao Brasil perif√©rico e rural? Este tem sido um espa√ßo negligenciado pela prosa contempor√Ęnea?
Sim, muito da melhor tradi√ß√£o liter√°ria brasileira √© a urbana das grandes cidades. Apenas para citar os maiores, se Machado est√° para aquela tradi√ß√£o, Graciliano est√° para esta outra, que lan√ßa um olhar agu√ßado para a pequena cidade e para o mundo rural. O Brasil profundo est√° em ambos os universos. Bras√≠lia, terceira cidade mais populosa do Brasil, est√° no primeiro, e seu entorno em grande medida no segundo. Para lan√ßar luz, via fic√ß√£o, sobre o Brasil perif√©rico e rural do sert√£o nordestino, n√£o √© bom romantizar nem apenas real√ßar suas grandes mazelas. √Č preciso compaix√£o, mais do que escrut√≠nio sociol√≥gico ou antropol√≥gico. Isso √© poss√≠vel atrav√©s de personagens que tenham vida dentro das realidades e verdades da fic√ß√£o.
4. Mossoró, onde o senhor nasceu, guarda muitas semelhanças com Várzea Pacífica? Qual o papel de sua própria memória nessa narrativa?
As memórias neste livro, memórias movediças, são inventadas. Mas os espaços físicos percorridos pelo personagem central são conhecidos meus. Isso facilita meu trabalho de descrição e fornece um sentido mais claro de verossimilhança. Várzea Pacífica, porém, se parece menos com Mossoró do que com pequenas cidades sertanejas do interior do Ceará e do Rio Grande do Norte onde estive quando criança.
5. “Entre facas, algod√£o” seria sua obra-prima, afirma o pesquisador alem√£o Hans Ulrich Gumbrecht, no posf√°cio ao livro. Como este novo romance se distingue de seus livros anteriores?
Espero que Gumbrecht tenha razão, pois gosto de pensar que o tempo pode nos ensinar a ser melhores no que fazemos. Algo parecido com este meu novo romance poderia ter sido o meu primeiro, se não fosse a preocupação que tive, no início, de não situar as histórias no Nordeste para não cair na armadilha de me situar ou ser situado dentro de uma tradição forte e vista por muitos como regionalista. Brasília era território inexplorado, sem clara tradição literária, propícia ao novo, um mito para ser desmistificado e que, por ser cruzamento de brasis, me dava a oportunidade de ali acolher também o Nordeste. Depois de seis romances, relaxei. Vou direto para o Nordeste. O novo romance também se distingue dos demais pela forma. Do ponto de vista da linguagem, da própria técnica, da estrutura, da perspectiva do narrador, procurei a cada livro não me repetir. Para este levei ao ponto mais alto o esforço de limpidez, enxugamento e simplificação, para retratar a secura nordestina. Sem querer me comparar e apenas para prestar as devidas homenagens, é o que fizeram João Cabral e Graciliano Ramos.
6. Desejo, sensualidade e paix√£o tamb√©m s√£o elementos marcantes na hist√≥ria narrada em “Entre facas, algod√£o”. Ao mesmo tempo, h√° vol√ļpia na fluidez narrativa que √© uma das marcas de seu trabalho. A aparente simplicidade de sua escrita ‚ÄĒ resultado, claro, de intensa sofistica√ß√£o est√©tica ‚ÄĒ contrasta com a vol√ļpia que emerge de seus personagens. O qu√£o fundamental √© essa vol√ļpia na sua cria√ß√£o liter√°ria?
Vol√ļpia √© vida. Est√° tamb√©m na forma, n√£o s√≥ no que √© contado. Est√° na sedu√ß√£o da pr√≥pria escrita, no prazer obtido pelo encadeamento exato de palavras, no encontro feliz entre a linguagem popular e a erudita. No prazer que vem da escolha do melhor, do que pode ser saboreado muitas vezes, sem que se perca o gosto quando se tem gosto apurado. E tudo isso para que o prazer da escrita se encontre com o prazer da leitura. Isso n√£o se faz sem esfor√ßo paciente. N√£o est√° isento de sacrif√≠cio. N√£o tenho pena dos personagens. Posso faz√™-los sofrer. Mas, quando o fa√ßo, √© para aumentar o prazer da leitura. N√£o s√≥ porque a leitora e o leitor podem sentir aquilo que os alem√£es chamam de schadenfreude, ou seja, sentir prazer com o infort√ļnio alheio. Sobretudo porque podem reavivar sua compaix√£o, seu desejo, amor, √≥dio e toda uma gama de sentimentos. O que faz a leitora e leitor sofrerem n√£o √© o personagem mau ou maltratado; √© a m√° e maltratada escrita.
7. N√£o √© de hoje que os dispositivos tecnol√≥gicos t√™m lugar de destaque em seus romances, criando um tom contempor√Ęneo que √© muito marcante em sua obra. Mas se apropriar do aparato comunicacional de nossos tempos n√£o √© tarefa f√°cil para a maioria dos escritores. Como o senhor trabalha para integrar esse tipo de comunica√ß√£o contempor√Ęnea ‚ÄĒ WhatsApp e Facebook, por exemplo ‚ÄĒ √†s suas narrativas?
Muito se tem falado das linguagens que v√™m surgindo, √†s vezes com a insinua√ß√£o de que amea√ßam de morte a linguagem liter√°ria. Ela cederia ao cinema (o escritor escreveria j√° pensando na apropria√ß√£o cinematogr√°fica de seu texto). Haveria o empobrecimento da linguagem advindo da internet, do uso do blog, das redes sociais. A era das imagens relegaria a segundo plano a linguagem escrita. √Äs vezes isso vem acompanhado de um lamento. Procurei tomar um partido pela literatura e pela linguagem liter√°ria propriamente dita, mostrando que, ao contr√°rio do que alguns pensam, elas t√™m a capacidade de assimilar todas as outras formas de express√£o art√≠stica, sem qualquer subordina√ß√£o. Por isso meu romance em que o narrador escrevia um roteiro de cinema (Ideias para onde passar o fim do mundo) jamais poderia ser um roteiro de cinema. A m√°quina ou computador do futuro, narrador de meu romance Samba-Enredo, n√£o se presta a uma fic√ß√£o cient√≠fica, mas a uma vis√£o humana e pr√≥xima de nosso pr√≥prio tempo. Em O livro das emo√ß√Ķes, descri√ß√£o de 62 fotografias, elas n√£o s√£o vistas. Somente podem ser lidas. S√£o palavras. Cidade Livre, que foi postado num blog e comentado por blogueiros, n√£o utiliza a linguagem do blog. O WhatsApp e o Facebook podem entrar num romance contempor√Ęneo brasileiro porque s√£o parte integrante e vis√≠vel do cotidiano brasileiro e das rela√ß√Ķes que se estabelecem entre as pessoas. Esse di√°logo entre as formas de express√£o, ao inv√©s de empobrecer ou relegar a segundo plano a literatura, pode enriquec√™-la. O mundo muda, e a literatura com ele. O que salva o leitor da mediocridade √© a linguagem liter√°ria. Ela pode manter sua eleg√Ęncia e beleza estando atenta n√£o apenas √†s normas cultas, mas tamb√©m √†s formas populares e de cria√ß√£o popular. N√£o precisamos de defender a literatura nem nos lamentarmos por sua guerra perdida. Vamos para o ataque.
8. O senhor tomou posse, em julho deste ano, na Academia Brasileira de Letras. √Č uma grande conquista, imagino que motivo de muita alegria. H√° algo que o tenha surpreendido na experi√™ncia de se tornar um autor imortal?
Fiquei surpreso quanto ao grau com que essa alegria foi compartida por muitos. Onde quer que estive somente recebi manifesta√ß√Ķes de contentamento e de carinho, no Nordeste, em Bras√≠lia e at√© mesmo no Sul do pa√≠s.
9. J√° h√° planos para um novo livro? Quais seus projetos atuais?
Vai sair quase ao mesmo tempo que o romance um livrinho de ensaios sobre utopia. E um novo romance está a caminho. Prefiro não falar dele, porque sinto que é, embora não deseje que seja, da família daqueles meus projetos do passado que levaram sete anos para serem concluídos.


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