Entrevista a Régis Bonvicino РIg.com

Jo√£o Almino acaba de lan√ßar seu quarto romance “O livro das Emo√ß√Ķes”, aos cinquenta e oito anos. Erudito e ativo Embaixador, √© o C√īnsul Geral do Brasil em Chicago, cidade adotiva de Barack Obama, onde h√° est√°biles de Alexander Calder pelas ruas e edif√≠cios do alem√£o-americano Mies van der Rohe, refletindo, em seus espelhos, o dinamismo e a beleza dessa metr√≥pole.

Almino escreve sem pressa sua prosa de arte. Seus livros anteriores s√£o: “Id√©ias para onde Passar o Fim do Mundo” (1987), “Samba-Enredo” (1994) e “As Cinco Esta√ß√Ķes do Amor” (2001). Em vinte e um anos publicou apenas quatro livros, o que mostra, em seu caso, preocupa√ß√£o de apuro. √Č, igualmente, um pensador pol√≠tico em obras como “O Segredo e a Informa√ß√£o” (1986). O cr√≠tico Silviano Santiago define “O Livro das Emo√ß√Ķes” como “um moer no √°spero”. Nessa entrevista, Jo√£o Almino discorre sobre seu mais recente livro, sobre autores de sua prefer√™ncia, como o extraordin√°rio poeta norte-americano Robert Creeley (1926-2003), a quest√£o do preconceito racial no Brasil e nos EUA, e a respeito de John McCain e Barack Obama. Para ele, o vencedor das elei√ß√Ķes de novembro, vai enfrentar intricados problemas internos e internacionais.

R√©gis Bonvicino: O cr√≠tico Alcir P√©cora afirma que, ao longo de seus romances, h√° o projeto “de uma funda√ß√£o escritural de Bras√≠lia”. Esse projeto n√£o seria ainda modernista, sobretudo agora, quando se faz severa cr√≠tica ao conceito de metr√≥pole e mesmo de cidade? Por que elege Bras√≠lia e n√£o sua cidade natal Mossor√≥, Rio Grande do Norte, ou Fortaleza, onde estudou, como ponto de partida para suas reflex√Ķes em prosa de arte?

Jo√£o Almino: Bras√≠lia √© a cidade modernista por excel√™ncia. Serve como ponto de partida n√£o para enaltecer o projeto modernista, mas, a partir de uma perspectiva p√≥s-ut√≥pica, para refletir sobre seu sentido e seus limites. Passei minha inf√Ęncia em Mossor√≥ e minha adolesc√™ncia em Fortaleza. Muito cedo fui um leitor √°vido dos regionalistas nordestinos e at√© hoje admiro profundamente a obra de Graciliano Ramos e especialmente seu estilo apurado. Por isso mesmo, quando comecei a produzir minha fic√ß√£o, procurei evitar ser tragado pela forte tradi√ß√£o do romance nordestino. Bras√≠lia me dava mais liberdade, me ajudava a fugir dos estere√≥tipos e me ajudava a p√īr minha literatura num patamar que eu acreditava ser novo. Al√©m disso, Bras√≠lia √© um mito cuja hist√≥ria coincide com a hist√≥ria do Brasil independente, e para Bras√≠lia eu podia trazer v√°rios brasis, entre os quais o Nordeste.

RB: Em “O Livro da Emo√ß√Ķes” um fot√≥grafo, que se tornou cego, escreve suas mem√≥rias a partir da lembran√ßa das fotografias que tirou de Bras√≠lia. O livro debate a fotografia como m√©todo de registro um tanto envelhecido pela tev√™, pelos celulares e pela internet. O senhor tamb√©m √© fot√≥grafo. H√° algo de auto-biogr√°fico no romance?

JA: H√° muito pensava em incorporar de maneira mais sistem√°tica a um de meus romances uma reflex√£o sobre a fotografia, que j√° fora um ponto de partida de meu primeiro romance, “Id√©ias para Onde Passar o Fim do Mundo”. De fato aquele romance pode ser lido como o coment√°rio de uma √ļnica fotografia. No “Livro das Emo√ß√Ķes” o autor e o narrador convergem no que diz respeito √† reflex√£o sobre visualidade e mem√≥ria. Mas a auto-biografia n√£o se estende aos fatos narrados nem √† dimens√£o existencial da obra. Nos meus livros de fic√ß√£o desenvolvi personagens muito diferentes de mim e muito diferentes uns dos outros. Quando os leitores v√™em neles pessoas de carne-e-osso ou confundem o narrador com o autor me deixam contente, pois significa que consegui tornar esses personagens veross√≠meis. E na fic√ß√£o a verossimilhan√ßa √© mais importante do que a verdade factual.

RB: P√©cora ressalta que o romance n√£o se atem a fatos mas que se caracteriza por “um longo disparo, sem cortes e sem ajuste autom√°tico de foco”, criando personagens que se vinculam mais pela sintaxe do que pela linearidade narrativa. Pode-se concluir que seu trabalho √© prosa feita com base em colagem?

JA: Alcir Pécora é um de nossos mais argutos e requintados críticos. Como seria de esperar, fez, de forma sintética, uma crítica precisa e inteligente do romance. Digamos que o que está sendo narrado não é o que se vislumbra à primeira vista. Posto de outra forma: a linearidade narrativa vai sendo traçada pelo leitor a partir dos fragmentos aparentes, cada um deles centrado numa imagem. A colagem, portanto, é também apenas aparente, pois as linhas de continuidade se tornam evidentes à medida que as peças se encaixam. Os fatos emocionalmente profundos, que projetam a dimensão interior do personagem central, ganham consistência a partir da coleta de detalhes e fatos menores. Este, como todos os meus outros romances, pode ser lido como um comentário sobre o instante, neste caso o instante fotográfico.

Fazer ver o invisível

RB: Susan Sontag afirma que a fotografia √©, essencialmente, uma antecipa√ß√£o da morte. Em “O Livro das Emo√ß√Ķes” o senhor antecipa a morte da literatura? Ou de qual morte? Qual √© o lugar da prosa de arte hoje no mundo?

JA: A rela√ß√£o entre fotografia e morte tamb√©m foi estabelecida por Barthes quando comentou uma foto de sua m√£e, j√° ent√£o morta, foto feita quando ele era crian√ßa. De fato, a fotografia congela o tempo, fixa um instante que imediatamente desaparece e nunca ser√° repetido: a imagem mesma da morte. Por outro lado, tem o dom de fazer retornar os mortos. N√£o importa quando a foto do ser desaparecido foi feita, as irradia√ß√Ķes do corpo vivo e real podem vir nos tocar atrav√©s de sua imagem fotogr√°fica. A fotografia tamb√©m imortaliza a pr√≥pria morte. E ao fixar-se a imagem da morte, ultrapassa-se a morte. A literatura que tentasse demonstrar sua pr√≥pria morte estaria lutando por sua reinven√ß√£o e sobreviv√™ncia. H√° uma frase citada por um dos personagens do livro: “A morte √© muda. Quando a morte fala, √© porque √© vida”. “O Livro das Emo√ß√Ķes” quer se mostrar n√£o como um romance, mas como um √°lbum de fotografias. O tema das apar√™ncias, da representa√ß√£o da realidade, est√° presente na descri√ß√£o desse √°lbum fotogr√°fico. Mas √© ir√īnico o processo de dar √†s palavras uma fun√ß√£o auxiliar para a imagem, pois o √°lbum de fotografias n√£o existe fora das palavras; a imagem somente aparece mediante sua descri√ß√£o. Por outro lado, dependendo de como o definamos, pode ser que n√£o haja romance. Para mim, portanto, se trata menos de decretar a morte da literatura do que ressaltar a possibilidade de uma narrativa que se faz n√£o apenas de presen√ßa, mas tamb√©m de aus√™ncia, de vazio, de elipses e de sil√™ncio. E aqui h√° tamb√©m um paralelo com a fotografia, e suas liga√ß√Ķes com a aus√™ncia, o escuro e a cegueira. Ela salva algo do vazio e o revela, fixando-o no tempo. Por outro lado, por ac√ļmulo de imagens, pode cegar, como na cegueira produzida por excesso de luz. De fato, o bombardeio de imagens pode levar, n√£o √† maior consci√™ncia e √† defini√ß√£o das responsabilidades pelo mal praticado, mas a uma banaliza√ß√£o do mal e √† percep√ß√£o de que ele √© comum e generalizado. Em vez de provocar indigna√ß√£o, pode levar ao conformismo. Deixamos de perceber o fato quando ele est√° em toda a parte. Ou seja, precisamos do sil√™ncio para ouvir as palavras, assim como precisamos do escuro ‚Äď da cegueira ‚Äď para perceber a luz e a imagem. Para assistir √† pe√ßa, dizia Merleau-Ponty, √© necess√°rio o escuro do teatro. No “Livro das Emo√ß√Ķes”, atrav√©s da cegueira do personagem central, se ressalta o car√°ter objetivo da fotografia, que a m√°quina, com sua neutralidade, pode captar, mesmo quando o fot√≥grafo √© cego; e sobretudo o car√°ter subjetivo da fotografia, que requer, mais do que olho, mem√≥ria; o mais importante n√£o √© o que √© fotografado, mas o que o espectador escolhe ver, e o que ele escolhe ver pode estar al√©m da pr√≥pria imagem. Voltando a sua pergunta, continuo acreditando no papel insubstitu√≠vel da literatura quando n√£o renuncia a seu papel de fazer ver o invis√≠vel, dizer o indiz√≠vel; e sobretudo quando n√£o renuncia a sua dimens√£o reflexiva e a sua possibilidade de explorar por dentro os personagens.

Creeley e Cabral

RB: H√° muito tempo o senhor reside no exterior, em raz√£o de ser diplomata. Conheceu, portanto, muitas literaturas e muitos autores. Quais foram os que mais lhe marcaram? Se o poeta norte-americano Robert Creeley foi um deles, discorra sobre ele igualmente.

JA: A lista √© grande e n√£o toda ela tem a ver com os lugares onde morei. Por exemplo, Dostoi√©vski e Borges s√£o autores cuja leitura me marcou e continua me marcando, e nunca vivi na R√ļssia nem na Argentina. Por outro lado, pode ser que se n√£o tivesse morado no M√©xico n√£o tivesse tido a oportunidade de admirar tanto a obra de Juan Rulfo e de Octavio Paz. Tanto num caso como no outro tive o privil√©gio de travar conhecimento n√£o apenas com suas obras, mas tamb√©m com os pr√≥prios autores. Proust √© para mim uma refer√™ncia fundamental e creio que teria sido, mesmo se n√£o tivesse vivido na Fran√ßa. Mas minhas principais refer√™ncias liter√°rias est√£o mesmo no Brasil: Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Jo√£o Cabral‚Ķ Quanto a Creeley, sou um admirador tanto de sua po√©tica quanto de sua poesia, e cheguei a escrever um ensaio sobre ele. Foi um inovador, criando novos padr√Ķes r√≠tmicos com sua poesia concisa e el√≠ptica, misturando o l√≠rico e o n√£o l√≠rico. De certa forma ele reinventou a linguagem banal e coloquial, e o fez n√£o enfeitando-a, mas, ao contr√°rio, simplificando-a ainda mais. Talvez seja esse seu maior m√©rito: o de mostrar a possibilidade de uma simplicidade radical que √©, ao mesmo tempo, rica, complexa e aberta a m√ļltiplas interpreta√ß√Ķes.

Crítica literária

RB: O senhor é um crítico literário. Penso que há uma queda de qualidade em toda a cultura em razão da ausência justamente de crítica e de sua substituição pelo marketing. Concorda com essa afirmação?

JA: N√£o sou cr√≠tico liter√°rio, mas apenas um escritor que, quando convidado a faz√™-lo, √†s vezes aceita o desafio de escrever sobre literatura, como se fosse uma escrita em contraponto a meu pr√≥prio trabalho de fic√ß√£o. Quanto a sua afirma√ß√£o sobre a aus√™ncia da cr√≠tica, pode ser que o mercado, em um caso ou em outro, fa√ßa as escolhas certas. E pode ser que a cr√≠tica, mesmo a mais exigente, tenha percep√ß√Ķes que se mostrem, com o tempo, erradas. Mas em geral concordo com seu coment√°rio. Lamento, sobretudo, que parte da melhor cr√≠tica liter√°ria tenha passado a encarar a literatura apenas como um instrumento de suas an√°lises culturais, sociol√≥gicas ou antropol√≥gicas, mesclando por vezes textos de qualidade est√©tica variada e desigual. Algo desse trabalho revela pouco das obras analisadas, porque est√° focalizado em quest√Ķes muito espec√≠ficas de suas disciplinas, e algumas dessas quest√Ķes s√£o passageiras, logo ficam datadas, enquanto as boas obras liter√°rias permanecem vivas e abertas √† interpreta√ß√£o.

McCain, Obama e o racismo brasileiro disfarçado

RB: O senhor reside hoje em Chicago, uma cidade, no mapa político norte-americano, do Partido Democrata e de Barack Obama. Como vê Chicago? O que os norte-americanos pensam sobre Barack Obama e John McCain?

JA: Chicago √© considerada por muitos a capital agr√≠cola e industrial do meio-oeste e do pr√≥prio pa√≠s, √© pioneira da arquitetura moderna e a sede da maior bolsa de mercadorias e futuros do mundo. Mas hoje em dia √© sem d√ļvida principalmente um local privilegiado para seguir a pol√≠tica norte-americana, muito especialmente a candidatura Obama. Muitos dos norte-americanos com quem tenho conversado acham que o pr√≥ximo Presidente, quem quer que seja, enfrentar√° enormes desafios internos e internacionais. Mas ao mesmo tempo cr√™em ter a sorte de contar com bons candidatos a Presidente. Sem entrar nos m√©ritos de cada um e apenas reproduzindo a percep√ß√£o de analistas ou gente do povo nos Estados Unidos, McCain teve inicialmente alguma dificuldade de seduzir a ala mais conservadora de seu partido, mas √© uma figura amplamente respeitada, com uma hist√≥ria parlamentar reconhecida mesmo por seus advers√°rios e que tende ao centro do espectro pol√≠tico. E Obama sem d√ļvida entusiasmou e continua entusiasmando a base do Partido Democrata ao encarnar a novidade.

RB: H√° mais preconceito racial no Brasil ou nos EUA? Haveria um candidato negro forte √† Presid√™ncia da Rep√ļblica no Brasil como Obama? A cr√≠tica norte-americana Marjorie Perloff considera “Dreams from my father”, de Obama, um livro de arte, filiado √† prosa auto-biogr√°fica negra de Malcolm X. J√° leu algum dos livros de Obama? Qual a sua opini√£o sobre seus livros?

JA: A segrega√ß√£o racial deixou marcas fortes na sociedade norte-americana, de uma forma como n√£o existiu no Brasil. Por outro lado, as oportunidades para os negros s√£o maiores nos EUA, e isso foi resultado do movimento dos direitos civis – uma rea√ß√£o ao racismo e tamb√©m √†s pol√≠ticas segregacionistas. No nosso caso, o racismo disfar√ßado, a aus√™ncia de segrega√ß√£o e a miscigena√ß√£o racial que data da √©poca da Col√īnia explicam a inexist√™ncia de uma rea√ß√£o de tal magnitude. Na minha literatura, h√° um negro Presidente da Rep√ļblica, personagem presente em todo o Quarteto de Bras√≠lia, desde o primeiro livro, “Id√©ias para Onde Passar o Fim do Mundo.” Creio que o personagem foi aceito como veross√≠mil. N√£o sei se seria uma indica√ß√£o de que o Brasil estaria preparado para um negro na Presid√™ncia. Restaria saber se a sociedade “embranqueceria” ou n√£o um negro que se tornasse um candidato vi√°vel. Quanto aos livros de Obama, “The Audacity of Hope” √© bem escrito e, embora n√£o entre em detalhes sobre seu programa pol√≠tico, creio ser uma leitura importante para quem deseja conhecer os fundamentos de suas posi√ß√Ķes e algo se seu pensamento. H√°, por exemplo, um longo cap√≠tulo dedicado a quest√Ķes econ√īmicas; h√° um outro sobre a quest√£o racial; h√° tamb√©m retratos mais pessoais, n√£o apenas dele mas tamb√©m de sua fam√≠lia. √Č, contudo, um livro menos estruturado em forma autobiogr√°fica e narrativa do que “Dreams From My Father”, publicado em 1995, que cobre sua inf√Ęncia, com descri√ß√Ķes, por exemplo, de sua viv√™ncia no Hava√≠ e na Indon√©sia e de como ele lidou com as quest√Ķes raciais; cobre tamb√©m os seus anos de Chicago como organizador comunit√°rio e sua viagem √† √Āfrica para melhor conhecer suas ra√≠zes. Marjorie Perloff tem raz√£o: √© uma melhor pe√ßa liter√°ria.


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