João Almino transforma incertezas e turbulências em um personagem complexo e inesquecível

RASCUNHO, janeiro 2016 / Ensaios e Resenhas / Mudança de estação
Texto publicado na edição #188

Mudança de estação

João Almino transforma incertezas e turbulências em um personagem complexo e inesquecível

Por MARCIO RENATO DOS SANTOS

Jo√£o Almino, autor de Enigmas da primavera

Pode fazer alguma diferen√ßa, informa√ß√£o nunca √© demais, saber que, em Enigmas da primavera, Jo√£o Almino dialoga com Nizami, poeta persa do s√©culo 12. Nizami √© autor de Layla e Majnun, poema que teria estimulado William Shakespeare a elaborar Romeu e Julieta. A exemplo do que acontece em Layla e Majnun e em Romeu e Julieta, Majnun ‚ÄĒ o protagonista de Enigmas da primavera ‚ÄĒ tamb√©m est√° diante de um relacionamento invi√°vel com a personagem Laila.

Mas isso é apenas um detalhe do mais recente romance de João Almino.

O escritor nascido em Mossor√≥ (RN), atualmente vivendo em Bras√≠lia (DF), recria o poema de Nizami para tratar de impasses do presente. Majnun representa o jovem que terminou o ensino m√©dio, mas ainda n√£o conseguiu entrar na universidade ‚ÄĒ n√£o sabe ao certo o que fazer e tem a impress√£o de que conseguir um emprego n√£o ser√° f√°cil. Na p√°gina 82, o narrador define o personagem: ‚ÄúNa verdade n√£o estava numa encruzilhada. Numa encruzilhada havia dire√ß√Ķes e destinos poss√≠veis‚ÄĚ.

Se algu√©m definir a situa√ß√£o de Majnun como uma met√°fora da condi√ß√£o humana, n√£o ser√° exagero. E, quase paralisado diante da aparente falta de caminhos, o protagonista de Enigmas da primavera tenta fugir de sua realidade. Em alguns momentos, demonstra ‚ÄĒ mesmo que apenas por meio de desabafos ‚ÄĒ vontade de ter sido jovem nos anos sessenta, per√≠odo da juventude de seus av√≥s. Mas, durante um encontro na casa dos parentes, surgem opini√Ķes relativizando aquele per√≠odo que Majnun considera ideal: ‚ÄúNo Brasil, era a ditadura. Na Fran√ßa, os jovens achavam que iam transformar o mundo. O fim da hierarquia, o desafio √† autoridade‚Ķ E sabe o que sobrou?‚ÄĚ. Em seguida, uma personagem dispara o seguinte coment√°rio: ‚ÄúSabe em que desembocou maio de sessenta e oito? No aumento das vendas de pornografia‚ÄĚ.

Confuso, Majnun tem a sensa√ß√£o de que j√° viveu na Europa em outro momento hist√≥rico ‚ÄĒ e a narrativa sugere que ele entra em transe, ou em algum estado de viv√™ncia paralela, e conversa com personagens do passado, ao mesmo tempo em que tamb√©m se entrega a viagens pelas redes sociais: ‚ÄúPasso minhas tardes sozinho, dedicado a meu mundo interior, ao Twitter ou ao Facebook‚ÄĚ.

Em meio √† turbul√™ncia, Majnun se interessa pelo Isl√£, na avalia√ß√£o dele, ‚Äúa religi√£o da igualdade‚ÄĚ. E, ent√£o, h√° fragmentos de Enigmas da primavera dedicados ao tema, como se l√™, por exemplo, na p√°gina 204:
‚ÄĒ Est√ļpido falar de toler√Ęncia no Isl√£ ‚ÄĒ interrompeu Suzana, furiosa. Existem lugares onde a blasf√™mia e a apostasia podem levar √† morte; onde as mulheres n√£o podem dirigir, andar de bicicleta. Pra sair de casa t√™m de estar acompanhadas de um parente do sexo masculino, mesmo que seja uma crian√ßa. Pra viajar t√™m de ter autoriza√ß√£o dos maridos‚Ķ
‚ÄĒ Isso n√£o tem a ver com religi√£o‚Ķ Em T√ļnis, no Cairo e em Istambul voc√™ v√™ mu√ßulmanas liberadas, sem v√©u e feministas ‚ÄĒ Majnun contestou.
‚ÄĒ Voc√™ j√° esteve l√°?
‚ÄĒ N√£o, mas‚Ķ
‚ÄĒ E por que a maior parte dos terroristas √© mu√ßulmana? Ser√° que n√£o conseguem ler direito o Cor√£o? Ou ent√£o leem e se explodem com bombas achando que os m√°rtires v√£o pro Jardim das Del√≠cias, cheio de virgens de grandes olhos negros?

Longas falas
Nesses fragmentos, os di√°logos entre personagens podem apresentar o tema, Isl√£, a quem nunca leu a respeito ‚ÄĒ o autor conhece, a fundo, a quest√£o. Eventualmente, algum leitor pode considerar uma ou outra fala longa demais ‚ÄĒ e h√°, de fato, algumas falas extensas, por exemplo, na p√°gina 207:
‚ÄĒ Primeiro, o Ir√£ n√£o √© √°rabe. Depois, existe uma explica√ß√£o para esses castigos corporais. O direito penal moderno existe para reabilitar o preso ou para evitar que ele volte a cometer o crime, se fica solto. J√° o antigo, que predomina ainda na Charia, tem o objetivo de fazer sofrer. Mas voc√™ tem de entender o seguinte: o direito penal moderno depende da exist√™ncia de um Estado, de pris√Ķes e de policiais. Onde n√£o havia nada disso, a solu√ß√£o era a dos castigos corporais. As leis de Tali√£o (olho por olho, dente por dente) estavam no C√≥digo de Hamurabi e tamb√©m na B√≠blia hebraica. J√° era um avan√ßo que os castigos corporais da Charia n√£o fossem aplicados diretamente pelas fam√≠lias agredidas e n√£o degenerassem em guerras tribais. [‚Ķ]

Esses di√°logos, que algum resenhista poderia classificar como exageradamente extensos, ao inv√©s de, por exemplo, entediarem um ou outro leitor, se alternam a outros momentos do romance, proporcionando, de maneira geral, uma din√Ęmica na leitura.

Majnun viaja para Madri, acompanhando duas amigas, Carmen e Suzana. Se a primeira √© a personagem com quem o protagonista consegue conversar, a segunda desperta nele instintos incontrol√°veis. Majnun tentou, mas n√£o resistiu e ‚Äúse jogou‚ÄĚ em cima de Suzana, como est√° na p√°gina 170:
‚ÄĒ Chulo ‚ÄĒ ela repetiu. Bruto. Foi uma viola√ß√£o ‚ÄĒ ela disse, chorando. ‚ÄĒ Voc√™ me currou, seu filho da puta.
‚ÄĒ N√£o. S√≥ tentei.

Mas, al√©m e independentemente de tudo o que foi comentado nesta resenha,Enigmas da primavera traz a atmosfera das manifesta√ß√Ķes de rua que tomaram conta do Brasil em anos recentes. A insatisfa√ß√£o com as pr√°ticas pol√≠ticas, o anseio por algo que seja diferente daquilo que se repete e parece imut√°vel e, acima de tudo, como alguns analistas interpretaram os protestos, em especial os de 2013, a falta de entendimento a respeito do que, exatamente, os manifestantes desejavam aparece neste romance de Jo√£o Almino. Majnun √© uma met√°fora desses movimentos: ele n√£o tem clareza a respeito do que fazer, mas segue, em conflito com obst√°culos ‚ÄĒ ele √©, ao menos aparentemente, um enigma ‚ÄĒ, na imin√™ncia de uma outra esta√ß√£o que, em breve, pode ter in√≠cio.

Leia entrevista com Jo√£o Almino: http://rascunho.com.br/23739-2/

Enigmas da primavera
Jo√£o Almino
Record
288 p√°gs.

MARCIO RENATO DOS SANTOS
√Č jornalista e escritor. Autor de Minda-Au e Mais laiquis, entre outros. Vive em Curitiba (PR).

http://rascunho.com.br/mudanca-de-estacao/


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