Uma cr√īnica e uma entrevista

REVISTA PESSOA
Seção Literatura Brasileira Hoje
500 autores brasileiros contempor√Ęneos
15 de maio de 2015

Uma cr√īnica e uma entrevista

Escrito por Ieda Magri

Literatura Brasileira Hoje, projeto idealizado por Jo√£o Cezar de Castro Rocha, teve o seu segundo encontro na UERJ com o escritor e diplomata Jo√£o Almino.
O registro foi feito por Ieda Magri, que, al√©m de uma cr√īnica do evento, realizou uma breve entrevista com o convidado.

Quando encontro um escritor num bar, n√£o tem problema. √Č s√≥ um escritor, um professor, um jornalista, um bolsista, um diretor de teatro, um ator. Ningu√©m precisa pensar, muito menos falar, aquele ep√≠teto meio cafajeste: ‚Äúo escritor brasileiro‚ÄĚ. O problema come√ßa quando encontro o escritor brasileiro num lugar em que ele √© chamado de escritor brasileiro. D√° uma coceira na l√≠ngua e eu quero perguntar coisas, ou ent√£o quero s√≥ dizer alguma coisa, sem perguntar nada, enquanto a cabe√ßa fica colocando tudo nuns mapas em que aparecem os escritores e as escritoras, os estados brasileiros, as pequenas livrarias do interior, a falta de livrarias no interior, nos bairros, as tradu√ß√Ķes na Am√©rica Latina, nos Estados Unidos e na Europa, os pr√™mios liter√°rios. Me aparecem de repente, todos os livros do autor enfileirados numa prateleira ou sobre uma mesa. Eu vejo o escritor brasileiro de pijamas, √†s vezes de cuecas, √†s vezes de calcinhas sobre uma mesa com v√°rios cord√Ķes que saem de suas m√£os e manipulam seus personagens e, √†s vezes, mais raro, vejo os personagens manipulando o autor. O problema cresce muito quando sobre essa mesma mesa, pequena, uma mesa de cozinha, ou de livraria, eu vejo todos os autores brasileiros juntos, uns com os dois p√©s bem folgados outros com um espa√ßo bem pequenininho e os p√©s grand√Ķes. E todos dan√ßando. O que importa √© que todos dan√ßam.

Quando o escritor brasileiro come√ßou a falar eu comecei a escrever tudo o que ele falava. At√© porque ele era novo pra mim. Vejam bem: 500 autores brasileiros contempor√Ęneos, entre eles algumas autoras brasileiras contempor√Ęneas, todos dan√ßando na mesa. Voc√™ os l√™ um de cada vez. Dessa vez era a vez do Jo√£o Almino. Eu o conhecia dos textos sobre a literatura brasileira, numa publica√ß√£o que saiu na Argentina mas que eu tinha encontrado no M√©xico quando estava tentando encontrar os autores brasileiros contempor√Ęneos que dan√ßavam l√°. Mas n√£o conhecia o quinteto de Bras√≠lia ‚ÄĒ que n√£o √© a banda que toca para os escritores dan√ßarem sobre a mesa, n√£o ‚ÄĒ s√≥ o nov√≠ssimo Enigmas da Primavera, que li inteiro numa segunda meio chuvosa, n√£o mais de primavera.

Foi assim. Acabo de come√ßar a dar aulas na Uerj. S√≥ li dois livros do Jo√£o Almino e todos os textos do site. Meus alunos nunca ouviram falar de Jo√£o Almino. Por isso mesmo, a conversa seria boa. E foi. Jo√£o, embora a sala fosse uma profus√£o de Jo√£os, a come√ßar pelo idealizador do projeto, ele era o Jo√£o. A conversa divertida. O quinteto de Bras√≠lia n√£o foi ideia dele. Um romance foi se juntando ao outro a posteriori. Agora, como toda banda de rock, pensei, o repert√≥rio quis sair do formato do disco. E come√ßou outro quinteto ou entrou na era solo. ‚ÄúO quinteto de Bras√≠lia s√≥ existe porque tem Bras√≠lia. Nunca seria o quinteto do Rio ou de S√£o Paulo‚ÄĚ. [E eu lembrei dos 500 autores brasileiros dan√ßando sobre a mesa]. Ele diz: ‚ÄúA cidade n√£o tem nenhuma import√Ęncia. Mas h√° duas raz√Ķes principais para o quinteto ser de Bras√≠lia: 1. uma cidade √ļnica; 2. uma cidade como outra qualquer.‚ÄĚ Est√° falado.

Jo√£o Almino tem, parece, um jeito especial de lidar com aqueles cord√Ķes que ligam suas m√£os √†s m√£os dos seus personagens: ‚ÄúO que importa num romance s√£o os personagens‚ÄĚ e ‚ÄúEu sei tudo sobre eles antes mesmo de come√ßar a escrever.‚ÄĚ Pausa. ‚ÄúClaro que eles mudam do come√ßo ao final do livro e de um livro pro outro. Eu tenho um plano para cada romance, mas estou disposto a reescrever, a rever este projeto. √Äs vezes os personagens exigem outras dire√ß√Ķes, outras pesquisas. A mim tamb√©m h√° uma certa surpresa.‚ÄĚ Escrever, claro, √© sempre uma aventura. E Jo√£o Almino parece que entra num arm√°rio com porta falsa ou que entra numa floresta ou que simplesmente para de dan√ßar e fica s√©rio. Agora j√° tem s√≥ ele sobre a mesa: ‚ÄúEscrever √© sempre uma aventura. Caminhamos por um caminho que imaginamos, mas o ato de criar exige que abramos o caminho, que enveredemos pela mata virgem.‚ÄĚ Eu estava certa sobre a tal mata. ‚Äú√Č isso que refaz tudo.‚ÄĚ

E ent√£o todo mundo come√ßa a se co√ßar e o microfone vai: mas Jo√£o Almino, fala mais desses personagens dos seus livros. Mas Jo√£o Almino, e essas mulheres? Mas Jo√£o Almino, e os modelos, que modelos est√£o escondidos nos seus personagens? Jo√£o Almino, voc√™ falou que as mem√≥rias dos seus personagens s√£o sempre artificias, escritas com mapas, b√ļssolas, livros de hist√≥rias, que voc√™ n√£o √© aquela crian√ßa e nem aquele adulto que se chama Jo√£o. S√≥ que elas se tornam vivas e parecem pr√≥prias. Pr√≥prias a voc√™. Tanto suas que as pessoas querem conversar com voc√™ como se voc√™ tivesse vivido aquelas coisas vividas pelos seus personagens‚Ķ e nem nunca morou l√°. Explique isso, por favor. Jo√£o Almino, e a heran√ßa liter√°ria? E a dic√ß√£o machadiana? Jo√£o Almino?

Bom, o autor n√£o se deixa despir. N√£o, n√£o. S√≥ a gravata. Ele conta, mas n√£o entrega. Ele diz, mas tergiversa. Claro, o autor n√£o √© seu personagem. Os personagens, ele insiste, n√£o s√£o meras proje√ß√Ķes de si mesmo. Ele disse desde o in√≠cio. Mas a plateia desconfia. Vai ver √© porque leram O autor mente muito, do Carlos Sussekind e do Francisco Daudt da Veiga. Mas o escritor √© muito generoso. E ele nos d√° pequenas pe√ßas de cada um dos seus livros e ainda diz ‚ÄúEu tinha um projeto muito ambicioso que n√£o coincidiu com o que vim a fazer.‚ÄĚ Conto ou n√£o conto? Ele contou. Tem a ver com os personagens, claro. E a dan√ßa sobre a mesa recome√ßa. 500 autores fazendo a literatura brasileira hoje. Entre eles algumas escritoras. E todos aqueles personagens. Todos sobre a mesa de madeira, numa livraria. Ou numa cozinha.

Quatro quest√Ķes para Jo√£o Almino

1. Em Enigmas da Primavera voc√™ parece colocar em perspectiva um presente que aponta para um movimento na in√©rcia ‚ÄĒinclusive na montagem do livro, que nos primeiros cap√≠tulos apresenta personagens ‚Äúem um tempo agitado e sem rumo‚ÄĚ e que no final como que encontram um rumo nas manifesta√ß√Ķes de junho de 2013. Como na sua cria√ß√£o sobre o presente, voc√™ acredita em alguma ‚Äúoutra pol√≠tica‚ÄĚ, como diz Majnun, impulsionada pelas manifesta√ß√Ķes ou esse acontecimento estaria, como lembra o av√ī de Majnun, S√©rgio, mais para a famosa frase do romance de Lampedusa: ‚Äú√© preciso que tudo mude para que tudo fique como est√°‚ÄĚ?

Jo√£o Almino. Pessoalmente acho que ‚Äúuma outra pol√≠tica‚ÄĚ n√£o conseguiria ser consequente se n√£o encontrasse formas de institucionaliza√ß√£o dentro do sistema representativo. Mas minha opini√£o pessoal pouco ou nada importa para o romance. As opini√Ķes dos personagens, estas sim, podem servir √† reflex√£o do leitor. Um dos muitos t√≥picos que podem ser objeto dessa reflex√£o √© o do sentido de manifesta√ß√Ķes espont√Ęneas, impulsionadas pelas m√≠dias sociais e ocorridas em v√°rias partes do mundo num determinado per√≠odo hist√≥rico. O romance n√£o compete com o jornal nem com o trabalho do historiador. O que ele pretende √© apenas captar as pulsa√ß√Ķes de um momento, descrever as paix√Ķes dos personagens, entender as emo√ß√Ķes que est√£o por tr√°s de suas a√ß√Ķes, tentando captar tend√™ncias por vezes divergentes e os conflitos existentes. Se dele pud√©ssemos extrair uma opini√£o ou uma tese, deveria ser substitu√≠do por um artigo de jornal ou uma disserta√ß√£o. O tempo poder√° ou n√£o dizer se um ou outro personagem tem raz√£o, √† medida que o texto de fic√ß√£o vai ganhando novos significados com suas releituras.

2. Voc√™ acredita que o fanatismo, considerado pelo outro av√ī, Dario, ‚Äúum mal‚ÄĚ, posto que baseado na f√©, ‚Äúque n√£o exige justificativas nem tolera argumento‚ÄĚ, venha justamente da falta de rumo, da falta pelo que lutar, falta vivida pela juventude do presente? (Mas n√£o haveria tamb√©m muitos motivos s√≥ que n√£o mais para uma luta, mas muitas lutas? N√£o estariam, talvez, se travando muitas lutas menos vis√≠veis?)

Jo√£o Almino. O fanatismo √© muitas vezes resultado de certezas, certezas que podem ser cegas, como na f√©, que de fato n√£o exige prova nem d√° espa√ßo para o argumento do outro. A desorienta√ß√£o do mundo contempor√Ęneo pode ser criativa, produtiva, em muitas dire√ß√Ķes, assim como levar ao desespero ou √† busca de sa√≠das heroicas, que deem uma sensa√ß√£o de sentido e de firmeza. Nem todas as causas se equivalem: existem as que podem ajudar na constru√ß√£o de um mundo melhor (algumas delas, como voc√™ diz, embrion√°rias ou pouco vis√≠veis), assim como existem outras, f√°ceis e ilus√≥rias, que contribuem para a barb√°rie.

3. Muito se falou sempre, ou pelo menos desde a conquista da autonomia da literatura, na modernidade, de uma voca√ß√£o da poesia para a resist√™ncia e para o debate democr√°tico, inclusive colocando sempre novas quest√Ķes para o pr√≥prio conceito de democracia. Voc√™ pensa que o romance participa dessa ideia de uma ‚Äúdemocracia por vir‚ÄĚ ou seria outra a natureza do romance no presente?

João Almino. Acredito, sim, que a boa literatura é sempre uma literatura de resistência, que se faz à margem do que é esperado e das fórmulas já conhecidas. O texto literário surge para interrogar, para explorar territórios virgens, para expandir fronteiras, como a própria democracia, que deixa de sê-lo, se não se expande e não se renova, e a liberdade, que não deve se aprisionar sequer no seu próprio conceito.

4. Como diplomata e como professor voc√™ j√° viveu e ensinou no M√©xico, nos EUA e em outros pa√≠ses, tendo at√© mesmo escrito um livro importante que d√° not√≠cia do pensamento e da literatura brasileira para o M√©xico (Tendencias de la literatura brasile√Īa). Nessa sua viv√™ncia em outros pa√≠ses, como percebe neles a circula√ß√£o e o conhecimento da nossa literatura? Ou n√£o h√° mesmo literatura brasileira fora do Brasil, posto que circula pouco ou nada?

Jo√£o Almino. O livro que voc√™ cita foi publicado na Argentina, mas de fato foi distribu√≠do no M√©xico e noutros pa√≠ses de l√≠ngua espanhola. Re√ļne ensaios liter√°rios que produzi circunstancialmente, quando fui convidado aqui e ali, como escritor, para participar de algum encontro ou contribuir para algum livro ou revista. No Brasil teve o t√≠tulo de Escrita em contraponto.Quanto a sua pergunta, creio que tem crescido a proje√ß√£o da literatura brasileira no exterior, mas existe ainda um longo caminho a percorrer. Ela continua sendo relativamente desconhecida. Basta dizer que nossos grandes autores, como √© caso de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimar√£es Rosa, Bandeira, Drummond ou Cabral, continuam sendo desconhecidos fora do Brasil, havendo muito poucas exce√ß√Ķes a esta triste regra, como √© a de Clarice Lispector.

Curadoria de Jo√£o Cezar de Castro Rocha.

Ieda Magri é professora de Teoria Literária na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e autora dos livros Olhos de bicho (Rocco, 2013) e Tinha uma coisa aqui (7Letras, 2007).

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