UMA TRILOGIA PARA BRAS√ćLIA

Eloísa Pereira Barroso (*)

A linguagem literária, de certa forma, procura associar-se ao signo da cidade. Os textos mostram-se como palco por onde figura a corrosão da metrópole modernista. O escritor desnuda o encantamento, e os mitos que cercam a cidade capital e dá contornos nítidos à dimensão social de uma cidade que abdica de seus monumentos.

Assim √© que a rela√ß√£o entre literatura e cidade na trilogia de Jo√£o Almino composta pelos t√≠tulos “Id√©ias para onde passar o fim do mundo”, “Samba enredo” e “As cinco esta√ß√Ķes do amor” se d√° pela busca da reflex√£o e da compreens√£o de quest√Ķes que permeiam as experi√™ncias humanas vividas na cidade. Com um olhar voltado para aspectos referentes aos conflitos pessoais do sujeito moderno, Almino busca na narrativa uma possibilidade de expor e desenvolver uma cidade que est√° al√©m dos monumentos de Niemeyer.

Nesse sentido, sua trilogia tem como pano de fundo Bras√≠lia, a capital do pa√≠s, um lugar onde as personagens se encontram em situa√ß√Ķes de desilus√£o e desprovidas de sonho pois, Bras√≠lia n√£o pertence aos meus personagens e nunca lhes vai pertencer. Mas √© nesta cidade, com hist√≥ria e futuro ainda abertos, que est√° para surgir, vestido de fada ou de bruxa, um mito antigo, finalmente real: toda a novidade do mundo. (ALMINO, 2002: 18-19)

As cidades adquirem o ar dos tempos porque passam. Brasília, que tinha sido a promessa do socialismo e, para mim pessoalmente, de liberdade, não usava mais disfarce. A solação de suas cidades-satélites já as asfixiava. (ALMINO, 2001: 21)

Como sujeito inserido no contexto da cidade, o narrador pretendeu n√£o somente expor aos olhos do leitor a sociedade brasileira, nem t√£o pouco pretendeu realizar uma reflex√£o impessoal acerca dela, mas acima de tudo, procurou refletir o homem dentro do universo de conflitos e desestabilidades gerados pelas contradi√ß√Ķes contidas nessa racionalidade moderna de um projeto e de um processo de megalopoliza√ß√£o que se anuncia numa Bras√≠lia de pol√≠ticos, de manifesta√ß√Ķes e de festas, de lugar dos imigrantes desiludidos…

TUDO em Brasília se dá à vista de imediato. Nos céus limpos e na luz generosa, os olhos alcançam longe, não somente o horizonte, também o limite entre a cidade e o campo. Traçados previsíveis, curvas esperadas. Porém, por trás desta luz escancarada e da evidência do que está delineado, persiste um mistério. (ALMINO, 2001: 61)

As reflex√Ķes propostas por Almino em sua trilogia, levam a crer que a fic√ß√£o liter√°ria foi para esse autor, n√£o s√≥ um lugar de conhecimento deste mist√©rio da cidade, mas tamb√©m de reconhecimento de uma sociedade que se move entre a justi√ßa e a corrup√ß√£o, entre sedutores e seduzidos.

À medida que a trilogia se desenrola, há a percepção de que junto a isso os valores éticos humanos vão gradativamente se perdendo, cedendo espaço para outros, em especial, aqueles impostos pela metrópole em degradação.

Tinha que conseguir dinheiro para o barraco, para ir embora ou mesmo para viver. Sentia vergonha de só agora pensar em procurar dona Eva, e para lhe pedir dinheiro. Foi quando lhe ocorreu um plano diabólico e salvador.

Nem tinha por que se vingar de Cadu. Ele não fora o culpado por sua gravidez. O filho era de Zé Maria. O que acontecera com Cadu tinha sido culpa dela. Pelo jeito como ele sorria para o sorriso dela, ela percebera a atração que despertava nele. Ele até lhe dera alegrias; a fizera esquecer, por algum tempo, dos perigos do mundo.

Contudo, a tentação era forte, e ela estava, de fato, precisando de dinheiro. Tivera a idéia assistindo a um filme de espionagem na televisão. Era fácil envolver Cadu. Fazia cinco meses que tinham se encontrado. Telefonou-lhe, então, para anunciar que estava grávida dele. Prometia guardar segredo, mas pedia dinheiro para os gastos.

Essa era a vantagem da cidade grande. (…) ali, ningu√©m a conhecia. Cidade grande era assim, tudo era permitido. (ALMINO, 2002: 71-72)

Ao interagir com as din√Ęmicas da cidade Almino cria uma narrativa experimental, que ora √© atravessada por vis√Ķes m√≠ticas, ora comporta um computador humanizado pela paix√£o, ora retrata est√≥rias frustradas da gera√ß√£o remanescente de 68. As narrativas v√£o exigindo do leitor um processo imaginativo constante para entrecruzar todos os fragmentos anunciados na trilogia e compor a “fisiognomia” de Bras√≠lia. Almino n√£o s√≥ parece brincarcom todos esses elementos existentes na narrativa, ele tamb√©m se permite √† cria√ß√£o de v√°rios outros os quais marcam o cotidiano da cidade, afinal como ele pr√≥prio diz, √© um anti-romancista.

Nessas primeiras anota√ß√Ķes, nenhum personagem √© apenas ele pr√≥prio. Num certo sentido, a verdadeira hist√≥ria foi outra, que deve ser restabelecida por mim. “Por que essa obsess√£o pela verdade?” voc√™ pode querer me perguntar. J√° est√° no Banquete que importa mais a verossimilhan√ßa que a verdade. Mas √© que quero deixar claro aqui meu papel de anti-romancista. (ALMINO, 2002: 214)

Na escrita da trilogia, o autor embriaga-se pela cidade. P√Ķe em fulcro uma percep√ß√£o de Bras√≠lia, infinitamente complexa.

Assim √© que, tanto tempo depois de ter sido utopicamente jogada no futuro, agora nesse come√ßo do ano 1 do governo de Paulo Ant√īnio, tudo o que restava a Bras√≠lia e seus habitantes era contemplar seu passado de sonhos.

A cidade pertencia cada vez mais a um Brasil sem sonhos e desiludido. J√° aceitava sua condi√ß√£o de pobre e o sacrif√≠cio de carregar aquela enorme cruz, seu pr√≥prio corpo, sangue, alma; cruz que inspiraria sua forma e conte√ļdo, √† qual agora se reduzia.

Do socialismo futuro, restaram apenas a burocracia desencantada e o espaço totalitário, o Estado-senhor ocupando o Eixo Monumental.

A cidade, prevista para ser o coração do país, estava fora do Brasil. Era como um castelo medieval, isolado e auto-suficiente, nutrindo-se do seu feudo e imune aos arredores.

O Brasil havia, por√©m, crescido √† sua volta, nas cidades sat√©lites, da cidade livre ‚Äďo N√ļcleo Bandeirante ‚Äď a Taguatinga, do Gama ao Guar√°. (ALMINO, 2002: 23-24)

Ao reconstituir o espa√ßo o autor n√£o se importa em dilacer√°-lo, o romancista apreende as vozes de todos os segmentos que comp√Ķem a cidade, aparecem no texto o poder p√ļblico, as vozes dos pol√≠ticos, das empregadas dom√©sticas, dos caseiros… Enfim, para o autor n√£o h√° distin√ß√£o, a Bras√≠lia de todos os dias faz conviver as diferen√ßas sociais tanto no Pal√°cio da Alvorada, quanto em um barraco do Gama. Almino cria em sua obra a met√°fora do corpo biol√≥gico que permite uma leitura da cidade ligada √† tradi√ß√£o do corpo citadino, nesse sentido a cidade apreens√≠vel aos olhos n√£o se distancia do indiv√≠duo. Na trilogia o campo mim√©tico adquire concretude cultural na qual aparece ligada ao universo social cuja pol√≠tica e economia se revelam pelas tradi√ß√Ķes e pelas a√ß√Ķes das personagens. (Gomes, 1994).

Ao humanizar a cidade e torn√°-la lugar por onde transitam as personagens nas suas a√ß√Ķes cotidianas, Almino possibilita a descri√ß√£o e a reconstitui√ß√£o da imagem de Bras√≠lia. Uma imagem carregada de tens√Ķes sociais em que o povo disputa no e com o espa√ßo urbano a sobreviv√™ncia cotidiana. Assim √© o exemplo de Berenice.

Brasília e seus arredores haviam se tornado inabitáveis. Ela não sabia onde cair morta. A história do país era outra, sua própria história era outra, seu destino seguia um rumo inesperado. (ALMINO, 2002: 73)

“Id√©ias para onde passar o fim do mundo”, o primeiro volume da trilogia, pode ser definido como sendo o fio condutor de uma longa e angustiante caminhada na trilha da cidade de carne e osso empreendida pelo autor.

Nele, as personagens surgem enquanto representa√ß√Ķes da discuss√£o pretendida por Almino a respeito do que acontece com os valores humanos a partir das transforma√ß√Ķes geradas quando os valores da tradi√ß√£o v√£o, gradualmente, perdendo espa√ßo para o pensamento e a√ß√Ķes modernas.

As personagens do romance parecem perdidas no seu tempo, angustiadas, tristes e melanc√≥licas, n√£o conseguem conduzir suas vidas de modo claro, pois n√£o conseguem enxergar com nitidez as mudan√ßas porque passa o mundo, cada vez mais inserido no processo racional e mercantilista. Assim √© que Eva Ousava ser ela mesma e, portanto, estar infeliz. De repente, naquele momento, era como se todo o seu passado tivesse sido muito triste. A tristeza e a insatisfa√ß√£o eram os tra√ßos comuns da sua vida. Sempre tivera uma dificuldade intranspon√≠vel de escolher o que devia ser, fazer, aonde devia chegar. Sempre duvidava do que a deixaria feliz. Quando achava que podia ser o que quisesse, era dif√≠cil demais saber o que queria ser. Por que ainda tinha de se perguntar essas coisas? Cada decis√£o que tomava, anos depois continuava achando que era a √ļnica poss√≠vel, mas percebia tamb√©m que essa decis√£o j√° tinha perdido significado para ela. Descobria sempre que hoje, insatisfeita e triste, sua felicidade futura e definitiva dependia de outra decis√£o. A sua tristeza agora era sempre, e, sobretudo, a tristeza de n√£o ser. (ALMINO, 2002: 122)

“Samba ‚Äď Enredo” parece continuar as inquieta√ß√Ķes de “Id√©ias para onde passar o fim do mundo”. Do mesmo modo que falta essa compreens√£o da realidade moderna no primeiro volume da trilogia, ela se repete neste segundo livro. As personagens n√£o se permitem desapegar das tradi√ß√Ķes e conven√ß√Ķes sociais, mantidas pela classe social a que pertence.

Se no plano social as personagens convivem com mundos distintos, modernidade versus tradi√ß√£o; no plano pessoal a dualidade mais uma vez se faz presente. Os sentimentos de apego √†s tradi√ß√Ķes, de in√©rcia, de medo de romper com as tradi√ß√Ķes, se confrontam em v√°rios momentos com pequenas transgress√Ķes colocadas na narrativa por meio de uma linguagem aleg√≥rica em que a festa carnavalesca torna-se pano de fundo para a narrativa insurgir.

Como tentativa de clarear o debate em torno dessas quest√Ķes surge o computador quase humano, que exerce o papel narrador dessa hist√≥ria.

√Č dif√≠cil escrever hist√≥rias sobre homens. Mais dif√≠cil ainda √© contar a hist√≥ria de um homem como se isso fosse fundamental. A vida humana √© o que acontece entre o nada e o nada. Por isso, parece-me incompreens√≠vel que os homens lutem por viver. Viver, pior que arriscado, √© dif√≠cil. (ALMINO, 1994: 21)

Nesse sentido, o computador narrador, jogado no lixo, questiona os valores constru√≠dos pela racionalidade moderna, questiona tamb√©m os valores arraigados nas personagens e mostra como esse apego √†s tradi√ß√Ķes as impedem de ver e agir com sensatez.

√Č poss√≠vel afirmar que no universo subjetivo tamb√©m habitam dois universos distintos e opostos entre si, um objetivo, regido pela raz√£o e o outro regido pela emo√ß√£o nos dois volumes. Ali√°s, o jogo entre a objetividade e a subjetividade √© algo que tamb√©m se verifica em “As cinco esta√ß√Ķes do amor”.

Em conseq√ľ√™ncia disso, em algumas situa√ß√Ķes, no √ļltimo livro da trilogia “As cinco esta√ß√Ķes do amor”, ao mesmo tempo em que a emo√ß√£o sugere aos que transgridem os valores e as conven√ß√Ķes sociais, a raz√£o e a consci√™ncia das tradi√ß√Ķes n√£o o permitem faz√™-lo.

Dessa maneira, al√©m de tornar as personagens incapazes de tomar atitudes, os conflitos internos gerados pela conviv√™ncia simult√Ęnea com os mundos, as fazem oscilar entre a consci√™ncia e a inconsci√™ncia, vivendo, portanto, numa condi√ß√£o pr√≥xima daquela que sofrem os moradores de uma Bras√≠lia rasteira e barulhenta, que acolhe uma revolu√ß√£o que n√£o se concretizou. Nessa situa√ß√£o, as personagens vivem as suas escolhas e, diante delas, n√£o t√™m nada para comemorarem nesse novo mil√™nio, pois tanto para Ana, quanto para a cidade o tempo passou.

Minha juventude está perdida. A Brasília do meu sonho de futuro está morta. Reconheço-me nas fachadas de seus prédios precocemente envelhecidos, na sua modernidade precária e decadente. (ALMINO, 2001: 40)

Embora esteja sempre diante da possibilidade de fazer op√ß√Ķes, por completa aus√™ncia de vontades individuais, falta de percep√ß√£o, e, por conseguinte, total incapacidade de objetivar a realidade, as personagens acabam se apegando √†quilo que lhe foi imposto.

Por decreto ou por invasão elas aportaram na cidade e fincaram o pé na poeira vermelha para sempre. Isso fica claro quando Ana em conversa com Berenice diz:

РDe Brasília não saio, por mais que Regina insista. (ALMINO, 2001: 42)

Em resumo, as personagens da trilogia podem ser descritas como seres que vivenciam os conflitos da exist√™ncia humana gerada pela oposi√ß√£o entre a racionalidade e a irracionalidade, da cidade que ora √© ass√©ptica, desprovida de emo√ß√£o, ora √© √† medida da emo√ß√£o, ou seja, a Bras√≠lia de Almino n√£o √© somente a vis√£o do poder, ela expressa a dualidade das megal√≥poles que abrigam as contradi√ß√Ķes dadas pelo jogo de oposi√ß√Ķes entre a extrema riqueza e a extrema pobreza, entre a o moderno e o arcaico, entre a esperan√ßa e a desesperan√ßa. Para o romancista a cidade n√£o demonstra, portanto, equil√≠brio entre a raz√£o e a emo√ß√£o. Assim √© que todo o misticismo do “Jardim da Salva√ß√£o”, fincado no parque de √Āguas Emendadas adquire sentido na narrativa.

As personagens “jogadas” no espa√ßo urbano s√£o seres que convivem de modo real com as situa√ß√Ķes que lhes s√£o colocadas sem, no entanto, ter consci√™ncia e controle plenos do que acontece com elas, deixam-se levar, conseq√ľentemente, pelas circunst√Ęncias.

Ao expor os conflitos das personagens, Almino torna a trilogia o ponto de partida em dire√ß√£o √†s reflex√Ķes acerca da situa√ß√£o humana dentro de um emaranhado nebuloso em que as pessoas se v√™em escapando √†s refer√™ncias convencionais colocadas para o indiv√≠duo na metr√≥pole. Assim, no mundo urbano, h√° conseq√ľentemente cada vez mais seres angustiados, solit√°rios, fragmentados e sem perspectivas. Isso se reflete nas palavras de Paulinho o presidente negro, assassinado durante o carnaval.

Para mim, felicidade ou não existe, ou não sei o que é. Na realidade ficaria preocupado se a atingisse. Já pensou? Seria uma espécie de fim de tudo. Um estado parecido com a morte. (ALMINO, 1994: 64)

As palavras de Berenice, uma empregada doméstica retirante do Ceará, sobre os sentimentos que tem em relação a Brasília no trecho a seguir são bem esclarecedoras.

No regresso ao sertão, Brasília ficou na cabeça de Berenice como o símbolo do moderno, do belo, do limpo, do civilizado, do culto, e também da violência, do poder. Brasília ficou em sua cabeça como o sonho de liberdade, pesadelo de castigo, intervalo para viver, lembrança de Zé Maria. Brasília era, para Berenice, só uma ponte de fuga de si mesma e de regresso a si mesma. Ali se narravam, superpostas, histórias velhas e novas de Berenice (ALMINO, 2001: 85).

A cidade ao interferir no modo de Berenice ver o mundo, n√£o s√≥ traz o ponto de vista pautado na raz√£o, mas tamb√©m desenvolve uma reflex√£o bastante significativa sobre os valores da modernidade ao demonstrar maior proximidade pelas causas e pensamentos modernos no que se refere √† cidade cindida. A personagem ao enxergar Bras√≠lia se v√™ refletida nela, √© como se a cidade estabelecesse para ela a alteridade. Portanto, com maior clareza, ao analisar Bras√≠lia, Berenice parece ciente das causas e das conseq√ľ√™ncias dos “atavismos” que ligam o homem de seu tempo aos valores do passado.

Ao proceder dessa maneira, Berenice se apresenta com outra função no texto, nessas horas, ela se torna um porta-voz da causa moderna. Nos momentos da narrativa em que se apresenta, a fala de Berenice se traduz na forma de um discurso bem elaborado acerca dos sentimentos que a ligam à cidade. Tem-se a impressão de que por meio de Berenice, a voz do autor se confunde com a voz dela. O romancista parece valer-se dessa personagem, nesse primeiro momento, para se inserir na ficção expondo seu ponto de vista e refletindo sobre a cidade e os valores a ela agregados.

O narrador-autor de “Id√©ias para onde passar o fim do mundo” √©, visivelmente, um elemento que permite uma maior inser√ß√£o do pensamento do autor no interior do texto.

Apesar da terceira pessoa, esse narrador não apenas observa os fatos, mas participa deles, dialogando com a narrativa. A voz presente no texto é senão a voz que expressa e conduz uma reflexão do pensamento sobre a cidade de Brasília.

Espere! Leia s√≥ esta revela√ß√£o de √ļltima hora e primeira m√£o: n√£o houve hist√≥ria. Bras√≠lia era demasiado artificial. Era apenas sonho ou pesadelo de uma √©poca. Imagem do c√©u e inferno. N√£o podia ser lugar de uma verdadeira hist√≥ria. (ALMINO, 2001: 237)

Em “Id√©ias para onde passar o fim do mundo” o narrador consegue manter uma postura r√≠gida no controle da fala de suas personagens. Conhecemos as personagens que se repetir√£o nos outros volumes, quase que exclusivamente por meio do discurso do narrador.

A express√£o curiosamente se faz oportuna porque h√° um aspecto de nebulosidade envolvendo a rela√ß√£o entre as personagens, e n√£o parece ser de interesse do narrador resolver ou esclarecer para o leitor tal situa√ß√£o, pelo menos nesse momento, haja vista “esta hist√≥ria nunca foi e nunca ser√° escrita” (ALMINO, 2001: 237).

Essa circunst√Ęncia serve aos prop√≥sitos do autor-narrador, visto que o di√°logo mantido pelas personagens √© jogado no meio do nada, n√£o tendo o leitor, portanto, nenhuma condi√ß√£o de entender as reais inten√ß√Ķes delas. Agindo assim, o narrador consegue manter o clima de mist√©rio em torno das mesmas.

Se a vida objetiva das personagens ultrapassa os limites territoriais, buscando novos mundos, novas culturas, para expans√£o, principalmente de mercados, no mundo subjetivo, os atavismos sentimentais fazem parte de suas naturezas. Em “Id√©ias para onde passar o fim do mundo” h√° ind√≠cios de que romper com o cotidiano faz estas personagens verem se livres de quaisquer sentimentos que pudessem mant√™-las aprisionadas √†s conven√ß√Ķes.

No restante da narrativa o leitor tem contato com as personagens quase que exclusivamente pela interposição do narrador-autor/autor-narrador; é nesse sentido que parece ser possível a afirmativa de que Almino se utiliza da criação ficcional como meio de veicular e possivelmente formular e refletir sobre o seu próprio pensamento enquanto reflete sobre a cidade.

Na trilogia, a coexistência em mundos paradoxais é a responsável pelos conflitos das personagens.

Mediante a an√°lise dos elementos utilizados na constru√ß√£o dessa trilogia, percebe-se que houve uma tentativa de levar √† percep√ß√£o desses mundos diferentes habitados pelas personagens por meio da utiliza√ß√£o de elementos palp√°veis, como a pol√≠tica, os c√≠rculos de amigos, o bar Beirute, os blocos de apartamentos da Asa Sul, da√≠ a oposi√ß√£o se construir na narrativa pela Cidade monumental e cidade das desilus√Ķes.

Pautando-se em tais elementos, para desenvolver seu pensamento, Almino lan√ßa m√£o de v√°rios recursos na composi√ß√£o de seu texto. Na trilogia o corpo textual parece ser meticulosamente constru√≠do para que as rela√ß√Ķes entre esses elementos, o pensamento do autor e a estrutura da obra correlacionem-se de modo a dar credibilidade e coer√™ncia √† cidade. Comecemos, pois, pelo primeiro elemento considerado significativo.

Na trilogia, a sobreposição dos sentimentos sobre as vontades do indivíduo é algo possível de ser analisado do início ao final das narrativas.

A perda e a falta de perspectivas paralisam as a√ß√Ķes do sujeito diante dos acontecimentos. Tais sentimentos tornam-se t√£o ou mais significativos que o pr√≥prio indiv√≠duo, porque as a√ß√Ķes das personagens, em especial de Ana, Berenice… s√£o resultantes da for√ßa que esses sentimentos exercem sobre o sujeito.

Assim, ante a leitura do universo das personagens √© poss√≠vel perceber que as for√ßas que impulsionam seus movimentos se sobrep√Ķem √†s vontades individuais.

Com isso, Almino parece sugerir que as personagem s√£o criadas para condensarem, representarem e fazerem pensar o homem dentro de um contexto urbano. Este contexto √© o respons√°vel pelas incertezas trazidas pelo pensamento e a√ß√Ķes modernos sobre as institui√ß√Ķes est√°veis e tradicionais, tais como a organiza√ß√£o do trabalho, os modos de produ√ß√£o, a religi√£o…, Este contexto al√©m de provocar modifica√ß√Ķes nas estruturas sociais, ao mesmo tempo altera e desestabiliza as rela√ß√Ķes pessoais. √Č dessa forma que Ana, ao final da trilogia conclui que:

As cidades mudam com o tempo, à medida que se tornam familiares. Não me sinto mais estrangeira em Brasília. Tenho outros olhos e outro coração para as paisagens de sempre. A cidade já não me assombra, e as esperanças, que à minha revelia, me gera estão ao alcance de minha mão. Ela é minha, com seus vazios, sua frieza, sua solidão. Virei íntima de seu ar empoeirado e seco, da uniformidade de suas entrequadras, de seus longos eixos sob o céu gigante. (ALMINO, 2002: 202)

(*) Eloísa Pereira Barroso, Capítulo da tese intitulada Brasília: As Controvérsias da Utopia Modernista na Cidade das Palavras, apresentada ao Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília/UnB como parte dos requisitos para a obtenção do título de Doutora. Orientadora: Doutora Barbara Freitag Rouanet. Brasília, agosto de 2008.


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