Ensaio sobre a cegueira brasileira

O ESTADO DE S. PAULO, CADERNO 2, SÁBADO, 26 DE JULHO DE 2008

Em O Livro das Emoções, romance passado em Brasília, João Almino usa fotógrafo cego como metáfora

Antonio Gonçalves Filho

Para os gregos, era uma punição dos deuses, mas, segundo a tradição judaico-cristã, a cegueira pode ser revertida se o portador topar com uma pessoa santa em seu caminho. Infelizmente, não é o caso do fotógrafo cego de O Livro das Emoções, o novo livro do escritor e diplomata João Almino (Editora Record, 256 págs., R$ 35), que será lançado dia 30 em Brasília, onde se passa a trilogia – agora tetralogia – do autor sobre a cidade. O cego Cadu, do livro de Almino, só topa com gente nada santa nessa cidade futurista que virou uma ruína do passado, quase uma alegoria nesse romance narrado por um fotógrafo cego às voltas com o diário fotográfico que pretende publicar. Como nas narrativas ancestrais sobre homens sem visão, o narrador de Almino parece vítima dos próprios pecados. Eles o impedem de enxergar, mais ou menos como no alegórico Ensaio sobre a Cegueira de Saramago, descontada a distância – e principalmente o estilo – que separam os dois livros.

Não que Almino despreze metáforas, tão caras a escritores portugueses e que abundam igualmente em livros sobre cegos escritos por autores de outras origens, como H.G. Wells. No seu conto O País dos Cegos, por exemplo, os habitantes de uma região isolada, todos cegos, preservam sua herança ancestral matando todos os forasteiros que enxergam. Como os cegos de Wells, o de Almino desenvolve igualmente alguns outros sentidos para justificar o título do romance, o mais ambicioso do autor da Trilogia de Brasília – três livros premiados, sendo o último, As Cinco Estações do Amor, vencedor do prêmio Casa de las Américas em 2003.

Quando se fala em fotógrafo cego, pensa-se automaticamente no esloveno Evgen Bavcar, que perdeu a visão aos 12 anos, em duas etapas, a primeira quando um galho de árvore perfurou seu olho esquerdo e a segunda ao ter o olho direito atingido pela explosão de uma mina. Bavcar costuma dizer que o horizonte de um cego é aquilo que ele pode tocar – seu limite e, paradoxalmente, ponto de partida. Para Cadu, o fotógrafo de O Livro das Emoções, que abandonou o Rio de Janeiro e a mulher há duas décadas para morar em Brasília, também o toque é a mais preciosa das sensações, o que só descobre depois de 20 anos, em 2022, ano em que se passa a história. Antes, seu problema era ”ver demais”, nos mínimos detalhes, confundindo tragicamente os verbos ver e conhecer. Ele via, por exemplo, sua mulher nos braços de um corrupto ricaço e pouco podia fazer a respeito dos dois, a ex-companheira, alpinista social, e seu atual parceiro, um político corrupto que pretende se eleger deputado federal.

Dito assim, pode parecer que O Livro das Emoções foi concebido como uma alegoria política, escrita por um diplomata que recorre a metáforas para contar como Brasília saltou de uma ”promessa orgânica e escultural” para um castigo dos deuses, entregue à degradação arquitetônica e aos cultos extravagantes das cidades-satélites. Mas o interesse de Almino por Brasília vai além do antropológico – e do sociológico. Cônsul do Brasil em Chicago e homem erudito, o escritor de Mossoró percorre as ruas da Capital atrás das características que a inserem no projeto modernista para, logo em seguida, revelar o que ela tem de mais arcaico em suas seitas e na aparência de espaçonave primitiva, terra de ”brasiliários”, descritos numa crônica de Clarice Lispector como cegos de um outro tempo e de outra dimensão.

Não é a única citação de Almino, que reserva referências a Merleau-Ponty, Susan Sontag, Jacques Derrida e Geoff Dyer. Deste último, é nítida a referência ao estudo de uma foto de Stieglitz da pintora Georgia O”Keefe com as pernas abertas, tirada há 90 anos, em que seus pêlos pubianos são comparados a um impenetrável triângulo negro, exatamente como na tela A Origem do Mundo, de Courbet. Em ambos os retratos íntimos de uma vulva, o impacto erótico é substituído pelo mistério, por uma experiência epifânica que corresponde à do fotógrafo de Almino ao comparar o sexo feminino ao triângulo que falta nas ”bandeirinhas” de Volpi. ”Mas são apenas leituras auxiliares, porque a função do romance não é a de impor um ponto de vista ou formular uma tese”, diz o autor.

No entanto, a vulva pintada por Courbet acaba funcionando como representação metafórica do ”desejo do fotógrafo de chegar à essência, à origem do mundo, por meio do desejo”. Ao projetar vulvas enfileiradas como bandeirinhas de Volpi, o fotógrafo de Almino demonstra ter aprendido a principal lição do cubismo, a de que a modernidade está condenada à fragmentação, a ver o todo através de estilhaços. ”Essa idéia está presente em toda a trilogia, pois os romances, autônomos, surgem negando exatamente a idéia do romance”, observa o autor, esclarecendo que não abriu mão da linguagem realista para essa desconstrução derridaniana do gênero.

”Quando comecei a escrever ficção, vivendo no sertão, tinha o romance regionalista como referência”, conta Almino, destacando o nome de Graciliano Ramos entre os autores que mais o marcaram. ”De qualquer modo, achei que não devia repetir algo que já foi feito com grande maestria e, ao mudar para Brasília, decidi eleger a cidade, ainda sem memória, para refletir sobre o Brasil, especialmente o lado místico associado a um sonho de modernidade, de desenvolvimento.”

Brasília, assim, é mesmo personagem nessa tetralogia de Almino, que compreende, além do novo O Livro das Emoções, os romances Idéias para Onde Passar o Fim do Mundo, Samba-Enredo e As Cinco Estações do Amor. Não havia exatamente um projeto orgânico como a arquitetura de Brasília, mas, pelo menos, a tetralogia não acabou desfigurada e distanciada do plano inicial, como a capital do País, em que a modernidade arquitetônica convive com a mais arcaica miséria de suas cidades-satélites. E por que a história de O Livro das Emoções se passa no ano 2022? Porque só a distância histórica permite uma visão menos equivocada, responde Almino. ”O que você lê como passado corresponde ao presente”, diz, justificando seu ”pequeno comentário sobre a degenerescência de uma cidade descrita por meio de suas ruínas”.

E por que um fotógrafo cego é capaz de descrever o que não vê? Porque, parafraseando um comentário da fotógrafa Diane Arbus sobre um artista de rua, ele só acredita no visível, enquanto nós acreditamos no invisível. Todo o livro de Almino é físico, feito de conhecimento carnal. ”Mas minha identificação com o cego não é plena, porque há outros personagens masculinos com diferentes visões da mulher”, esclarece o autor. Almino, que assume ter uma visão materialista, ressalva que aquilo que o fotógrafo vê como físico ”não se esgota nele”. Para ele, a imagem objetiva é sempre uma imagem interpretada, a materialização externa de um desejo, nada mais, nada menos. Aos 58 anos, o diplomata de Mossoró, Rio Grande do Norte, ex-aluno do filósofo Claude Lefort, cita Merleau-Ponty e diz que o excesso de luz pode cegar. Não quer correr o risco de seu personagem.


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