Entre facas, algodão

defato, 16 de março de 2018
Facas na literatura
por David de Medeiros Leite

Alguns hábitos queremos largar, outros, não. O da leitura concomitante de dois livros faz tempo que me acompanha e, não fazendo força em sentido contrário, pretendo assim seguir. Na maioria das vezes, prefiro gêneros e assuntos díspares. Porém, recentemente, ocorreu-me uma interessante coincidência: dei-me conta de que estava lendo duas obras, cujos títulos faziam referência à faca. Sim, isso mesmo, ambos os títulos remetem a tão cortante instrumento de lâmina: Dançar com facas, de Hildeberto Barbosa Filho (Mondrongo, 2016); e Entre facas, algodão, de João Almino (Record, 2017).

No romance Entre facas, algodão, do mossoroense João Almino, o protagonista possui algo machadiano nisso de “atar as duas pontas da vida”, ou seja, a urdidura acontece a partir de sua decisão de, já setentão, resolver deixar Brasília e comprar uma fazenda no sertão potiguar, onde pretende se instalar e “recompor” um passado que lhe consome.

Além da determinação de largar a vida de advogado na capital federal pela de plantador de feijão, milho e “até algodão”, o personagem principal carrega em si o desejo incontido de vingar a morte do pai. Sem falar que tudo está entremeado com laivos sentimentais, na medida em que vive uma separação conjugal e procura reinventar uma paixão da adolescência.

Romancista com sólida carreira, João Almino sustenta uma linguagem leve numa trama bem sequenciada que prende o leitor. Entre tantas facetas, o romance possui uma característica que merece registro: os personagens manuseiam redes sociais, como WhatsApp e Facebook, ao mesmo tempo em que se ancoram em costumes antigos da vida sertaneja.

E a crise familiar que envolve o protagonista (único personagem cujo nome não é revelado, pois o livro baseia-se em um diário do mesmo), também acontece em duas “dimensões”: tanto na questão da vingança da morte do pai, que termina por gerar uma dúvida quanto à própria paternidade biológica que, até então, era inquestionável, como também no que diz respeito a sua relação com os três filhos, cujas convivências são perpassadas por questões afetivas confusas e bastante atuais.

Um excerto do romance pode justificar parcela do título e situar mais ou menos as lembranças do cenário da infância vivida: “No Riacho Negro, meu padrinho vivia da lavoura do algodão, da oiticica e da carnaúba. Sobretudo do algodão. Me lembro que puxava com orgulho o capucho de algodão para mostrar o tamanho da fibra”.

Quanto às facas existentes por entre a maciez algodoeira, as perspectivas que se abrem são variadas e propositais. Desde a já comentada desforra paterna, até as agruras vividas e revividas pelos personagens, nas diversas épocas e dimensões apresentadas. O sertão de outrora, violento pelo coronelismo. Um pouco da vida moderna, como registros em voos de Brasília a Fortaleza.

Tudo isso sob a pena de quem não é amador no oficio. João Almino coleciona prêmios com outros romances, além de respeitado ensaísta em questões políticas e sociais.

Enfim, entre a poesia de Hildeberto e o romance de Almino, caro leitor, vi-me imbricado num mundo de facas sentimentais por entre um algodoal poético romanesco. Duas obras que enriquecem sobremaneira as letras brasileiras.

• David de Medeiros Leite – Professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Doutor pela Universidade de Salamanca – Espanha. Entre outros, publicou os seguintes livros: Incerto Caminhar; Ruminar (Poesia); Cartas de Salamanca; Casa das Lâmpadas (Crônica).


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