ENTRE FACAS, ALGODテグ

  1. Taguatinga, Setor A Norte, QNA 32

 

31 de marテァo

Clarice havia mandado uma mensagem pelo Facebook.

O que ela quer contigo? Patrテュcia me perguntou, mais amarga do que nunca, nテウs dois sentados numa poltrona da sala.

Caテュa uma chuva torrencial.

Vocテェ leu. Sabe tanto quanto eu.

Eu tinha esquecido de sair do Facebook. Patrテュcia aproveitou pra vasculhar minhas mensagens. Inadmissテュvel!

Nテ」o, nテ」o li. Sテウ vi que foi ela que lhe escreveu.

Duvido. Deve ter visto que ela nテ」o quer nada comigo. Sテウ me deu uma dica.

Dica de quテェ?

Saco! Patrテュcia querer me controlar. Podia ter-lhe dito a verdade, se テゥ que ela nテ」o sabia. Pouco me custava. A mensagem de Clarice nada tinha de pessoal. Nada que denotasse afeto entre nテウs. Absolutamente nada! Quase mensagem comercial. Soube por meu amigo Arnaldo de meu interesse em comprar um terreno nas redondezas e me passou a dica. Tambテゥm me informou seu e-mail e nテコmero do celular. Sテウ isso.

Nテ」o interessa, respondi.

Interessa, sim. Acha que esqueci o que essa perua representa pra ti?

Agressテ」o gratuita. Como me arrependi de contar tudo. Falar de meu passado. Entrar em minテコcias logo sobre Clarice! Sou mesmo um idiota, um imbecil!

Ou fui. Era lテ。 no comecinho, quando achテ。vamos que, como estテ。vamos apaixonados e o mundo nテ」o faria sentido se nテ」o estivテゥssemos juntos, tテュnhamos que abrir nossos coraテァテオes e contar tudo, absolutamente tudo. Sinceridade total. Respeito テ verdade, que nテ」o podia ter qualquer remendo. Patrテュcia nunca esqueceu o menor detalhe sobre Clarice.

Ainda chovia. Os relテ「mpagos clareavam as janelas. Os trovテオes ribombavam sem parar, querendo dramatizar nossa discussテ」o.

Nテ」o representa bulhufas. O terreno que estテ。 テ venda, sim. テ o que eu quero. Eu, entende? Onde passei minha infテ「ncia.

Na mensagem Clarice diz que minha casa foi destruテュda. Mas o terreno テ venda ainda preserva a antiga casa-grande da fazenda do pai dela, o Riacho Negro. E como o Riacho Negro me traz recordaテァテオes! Se nテ」o leu, Patrテュcia adivinhou o que dizia a mensagem, pois perguntou:

E por que ela nテ」o compra?

Irritado, respondi, porque quer que eu compre.

Ah, テゥ isso, nテゥ? A sem-vergonha quer que tu vテ。 morar perto dela.

Como sabia que Clarice morava perto do terreno? Isso a mensagem nテ」o dizia. A verdade テゥ que, se eu comprar o terreno, serei quase vizinho de Clarice.

Nテ」o. Eu テゥ que quero morar perto dela. Eu テゥ que quero, entendeu?, respondi, irテエnico, elevando a voz.

Posso saber por quテェ? Nem precisa me responder, jテ。 entendi tudo, disse, sem considerar minha ironia.

Pensando bem, nテ」o hテ。 mesmo ironia. Me dテ。 enorme prazer ser vizinho de Clarice.

Porque sim, respondi.

Pois entテ」o compre a merda do terreno e se afunde nele, Patrテュcia berrou. Vテ。 logo, seu bosta. Eu sabia que nテ」o podia confiar em vocテェ!

Meu casamento com Patrテュcia sobreviveu a infidelidades, e esse assunto boboca nテ」o devia ter provocado tanta zanga.

Pois テゥ o que vou fazer, me flagrei dizendo, sテウ porque uma provocaテァテ」o leva a outra e mais outra.

Descarado! Saia jテ。 de casa, gritou ainda mais alto.

Nテ」o era pra tanto, mas a arenga continuou por horas, em gritos insensatos, gota d窶凖。gua para nossa separaテァテ」o sempre adiada. Basta dizer que, sem se importar com a chuva, Patrテュcia jogou minhas roupas pela janela. Um sapato caiu do outro lado da rua, na calテァada em frente, e encheu-se de テ。gua.

Nテ」o desisti. Debaixo de chuva, juntei todas as coisas, sem medo do ridテュculo perante os vizinhos, e voltei pra casa. Patrテュcia tentou me agredir fisicamente. Sテウ me defendi, nテ」o queria parar na delegacia. Depois me tranquei num quarto. Decidi que sairia de casa, mas nテ」o enxotado. Patrテュcia nテ」o insistiu, apenas deixou de falar comigo, no que lhe correspondi. Se nテ」o me expulsava, eu estava no lucro.

 

1ツコ de abril

Nテ」o テゥ mentira, apesar do primeiro de abril: vendo テ minha volta, meu casamento com Patrテュcia nテ」o テゥ dos piores. Temos muito em comum. Conversテ。vamos, o que nem todo casal pode dizer. Nos beijテ。vamos, feito notテ。vel depois de dテゥcadas de casamento. E os ciテコmes de Patrテュcia sテ」o prova de que ainda me ama.

Sテウ nテ」o tenho os mesmos ciテコmes que ela porque hテ。 muito deixou de cantar nos bares e hoje nテ」o vejo rival テ minha altura entre seus colegas dos Correios. Nテ」o tinha a menor intenテァテ」o de me separar dela. Mas a briga cresceu feito suflテェ fora de meu controle. Nテ」o tem mais jeito. Me fez acreditar que テゥ melhor mesmo voltar pro Nordeste.

Vou responder a Clarice. Pedir detalhes sobre o vendedor do terreno. Se conseguir negociar bom preテァo, pergunto se ela aceita que lhe passe uma procuraテァテ」o pra que cuide da transaテァテ」o no cartテウrio de Vテ。rzea Pacテュfica.

Abril, Pテ。scoa

Clarice me deu o nテコmero do vendedor. Depois de negociar com ele os termos da compra, liguei pro celular dela, achei melhor conversar. Aceitou que lhe faテァa a procuraテァテ」o. Nテ」o tocamos no assunto mais pessoal. Perguntei por Miguel, seu irmテ」o. Estテ。 bem, fora as dificuldades nos negテウcios. Passa a maior parte do tempo viajando.

Pensei em tanta coisa antes de ligar… Em perguntar se ela se lembra de tal ou qual momento, como se sente vivendo sozinha numa fazenda, se alguma vez pensou em mim… Meus sentimentos ficaram embotados. Mas foi possテュvel perceber emoテァテ」o na sua voz. Sobretudo registrei bem o que disse:

Que bom que vocテェ estテ。 voltando.

Escavando sob meus pテゥs, encontro muitas lembranテァas dela. Os sonhos tテェm memテウria. A Clarice do futuro 窶 acho que existe, apesar de tudo 窶 tem muito da Clarice do passado.

Se nテ」o me engano, foi em 58, plena seca, quando pela primeira vez senti por ela algo parecido com o amor. Nテ」o quero falar demais, porque nテ」o tenho certeza e nテ」o me lembro direito. Era muito pequeno. Podia ser naquele ano ou em qualquer outro que o rame-rame era o mesmo, morcegos voando de madrugada, テ。rvores peladas, o verde sテウ nas folhagens dos juazeiros, nos xiquexiques e mandacarus, carcaテァas de animais pelos caminhos de terra poeirenta exalando bafo quente, o sol queimando e secando o mundo, dentro de mim tudo seco. Em poucas palavras, o de sempre, agora cruzado por algum caminhテ」o-pipa e テ espera da transposiテァテ」o do Rio Sテ」o Francisco.

Ou talvez tenha sido inverno, pois me lembro do aテァude com テ。gua, o verde das テ。rvores espinhentas e baixas, verde-claro e brilhoso, a roテァa atrテ。s do aテァude tambテゥm verde, e eu acordava cedo para ir ao curral ordenhar as vacas. Nテ」o sei direito, me desculpe quem vier a ler isto. Ou, ora bolas, nテ」o me desculpo, pois nテ」o devo me desculpar de minhas contradiテァテオes se sテ」o as meras contradiテァテオes do sertテ」o, seco ou molhado, contradiテァテオes que hoje ainda existem. Quando seco, a paisagem cinza, realテァada por pedras e caveiras, digo sem nenhum exagero. Quando molhado, molhado demais, assustando a gente e causando desastres.

21 de abril

Feriado, fiquei em casa. Achei que Patrテュcia ia querer me perturbar. Me ignorou, pelo menos atテゥ agora. Fico tranquilo para continuar estas anotaテァテオes sobre meus tempos do Riacho Negro, de Vテ。rzea Pacテュfica, aquela テゥpoca em que Clarice foi tテ」o importante pra mim. Um dia, quem sabe, mostro estas pテ。ginas a ela.

Pode ser atテゥ que nテ」o me lembre propriamente. Que a realidade daquele passado esteja sテウ na minha imaginaテァテ」o. Devo estar misturando vテ。rias secas e vテ。rias enchentes. Entテ」o, sim, por essa confusテ」o devo me desculpar com quem vier a ler estas anotaテァテオes, feitas assim rapidamente sem preocupaテァテ」o com estilo ou vocabulテ。rio.

Olho meu passado nテ」o com orgulho, mas com resignaテァテ」o. Muitas das turbulテェncias que me atormentavam se apaziguaram. O que me despertava paixテ」o agora estテ。 arquivado na memテウria como fotos num テ。lbum de pテ。ginas amareladas pelo tempo. Algumas dessas fotos, cobertas de fungo. Outras, tテ」o coladas entre si que, quando a gente tenta despregテ。-las, se rasgam deixando brancos.

Clarice テゥ exceテァテ」o. Minha lembranテァa dela テゥ nテュtida como a fotografia bem guardada no fundo de uma de minhas gavetas em que ela olha pra mim com olhar que sinto ser apaixonado e atテゥ hoje transmite vibraテァテオes por meu corpo.

Recupero pedaテァos de mim para criar esta histテウria contraditテウria e verdadeira, que me atormenta. Por isso tenho que pテエr pra fora. Como contraditテウrios e verdadeiros, alテゥm do sertテ」o, eram mamテ」e, que me punia e me protegia, e meu padrinho, pai de Clarice, severo e carinhoso. Eu aceitava as mudanテァas de humor deles como aceitava mudanテァas de humor da natureza. Achava normais minhas alegrias e tristezas.

No inverno a chuva cobria o campo verde, o chテ」o ficava marcado com o barro das botas, as conversas e risos se prolongavam no alpendre da casa-grande de meus padrinhos, os aboios se animavam no campo, as muriテァocas me picavam na nossa casa de tijolo aparente e vermelho, eu me enrolava na rede e envolvia o rosto com o lenテァol, deixando sテウ o nariz de fora e ouvindo os pingos bater nas telhas.

Jテ。 na seca, o sol impiedoso castigava a fazenda do Riacho Negro e me cegava a vista. A poeira aテァoitava os campos cinzentos, de テ。rvores despojadas, o aテァude minguado, as cacimbas sem テ。gua, as pessoas zonzas cozinhando irritaテァテ」o no calor, e o curral vazio, o gado tangido para o Piauテュ.

Nisso pode ser que de novo misture tempos, me desculpem, a seca de um ano com o verテ」o prolongado de outro. Mas nテ」o invento nada, no mテ。ximo テゥ a memテウria que me trai aqui e ali, coisa da idade, aos setenta anos a memテウria falha. O que テゥ certo テゥ que as paisagens da secura traziam sempre as mesmas テ。rvores calcinadas, a mesma ruテュna cinzenta e a mesma irritaテァテ」o. Acho que sテ」o sobretudo elas, as paisagens da secura, que marcam os sertanejos feito eu.

1ツコ de maio

Vou aqui de feriado em feriado, nem sei por quテェ. Hoje imagino que haja discursos e protestos. Prefiro me concentrar nas minhas anotaテァテオes. Procurei lテ。 no fundo minhas memテウrias mais antigas.

Deve haver outras lテ。 atrテ。s, mas as que me chegaram logo foram as de um dia em que, deitado numa ponta do parapeito da casa-grande de meu padrinho, pai de Clarice, com 6 anos, eu ouvia o rテ。dio a pilha Hitachi, novidade que acabava de chegar no Riacho Negro, alegrando o alpendre com forrテウs interrompidos pelos chiados da mテ。 transmissテ」o. O rテ。dio movido a bateria carregada por cata-vento, desligado. Noutra ponta do parapeito, a avテウ de Clarice, Dona Leopolda, gorda, de rosto redondo, bochechudo, metida num vestido florido atテゥ o meio da canela, fazia cigarro cortando com faca afiada o fumo de corda enquanto fumava cachimbo, soltando baforadas. Uma rede branca, sem ninguテゥm, balanテァava no alpendre movida pelo nordeste que chegava forte. Da varanda se via um quarto separado da casa e, pela porta, selas e cabrestos, couros espichados, baテコs no chテ」o e gibテオes pendurados nos tornos de rede. Talvez seja minha memテウria de um dia. Ou talvez, o que テゥ mais provテ。vel, de muitos dias que se repetiam iguaizinhos, sem tirar nem pテエr.

Arnaldo, um preto mais preto e dois anos mais velho do que eu, que hoje tambテゥm mora perto da fazendola que quero comprar e com quem jテ。 me comuniquei, me chamou para ir ao aテァude buscar テ。gua. Ele morava com o pai, Seu Rodolfo, a mテ」e, Dona Vitテウria, e um magote de irmテ」os, na fazenda vizinha, do irmテ」o de meu padrinho, que eu chamava de titio. テ溝mos com Quinquim, buchudo de lombrigas, mas magricela com cor de leite azedo, que, abestado, enrolava a lテュngua e sテウ tinha dois amigos: eu e o jumento Cinzento. Cinzento conhecia o caminho do aテァude, ia na frente. Todos os dias buscava テ。gua. テs vezes voltava sテウ, nem precisava da gente, e ficava esperando atテゥ que a gente chegasse para esvaziar as caテァambas.

Eu considerava Arnaldo meu superior, e com razテ」o. Ele conhecia o nome de todas as rezes 窶 vacas e bezerros 窶, sabia ajudar Quinquim com as caテァambas d窶凖。gua e enchia os quatro potes de barro que repousavam sobre o estrado de madeira do alpendre da casa-grande 窶 hoje, me diz Arnaldo, substituテュdos pela cisterna. Embaixo deles depositテ。vamos rテゥstias de alho, cebola, panelas de barro e mochilas de sal. Para ali de manhテ」 cedo trazテュamos os potes de leite, que num canto da cozinha seriam mudados em queijo de coalho ou coalhada. Ali colocテ。vamos os cachos de bananas para amadurecer, as bananas baba-de-boi, maテァテ」, prata e casca verde que テ medida que amadureciam exalavam seu cheiro. Meu padrinho, pai de Clarice, dizia para colocar as bananas verdes junto das mais maduras para amadurecerem depressa. Eu e Arnaldo テs vezes roubテ。vamos bananas-prata quando comeテァavam a ficar amarelas e as comテュamos quando descテュamos com Cinzento para o aテァude.

Hテ。 coisas, jテ。 disse, que nテ」o me lembro direito, me desculpem. Nテ」o sei se foi neste dia ou noutro, a muda que morava na fazenda do tio de Clarice que eu chamava de titio tomava banho nua no aテァude. Surda, nテ」o ouvia o barulho dos nossos passos, meus e de Arnaldo. Se nos via, fingia que nテ」o nos via, e nテウs fingテュamos nテ」o dar fテゥ de seu fingimento. Nテ」o era a primeira vez. Embora mangテ。ssemos dela quando fazia caretas e barulhos incompreensテュveis com a lテュngua, era a principal atraテァテ」o da caminhada. Contテ。vamos a Miguel, o irmテ」o de Clarice, exagerando na beleza das coxas, da bunda e dos peitos, e ele ficava cheio de inveja. Sテウ nテ」o conseguテュamos dizer que era bonita de rosto, ainda que o cabelo louro, liso e comprido enfeitasse suas costas, pois, nisso concordテ。vamos, a feiura de seu rosto assustava.

2 de maio

Um dia peguei uma aposta com Arnaldo na corrida 窶 dia especial por uma razテ」o simples: tem a ver com Clarice, de quem, afinal de contas, queria falar. Arnaldo corria mais rテ。pido que eu. Me senti derrotado. Caテュ e ralei meus joelhos. Foi o fim do mundo. Ou melhor, seu comeテァo.

O sol nos encandeava com desenhos amarelos. Projetava pra dentro da casa-grande os pilares do alpendre, marcando o chテ」o e os potes de barro com sombras negras e violentas. Daquele dia perdura em mim atテゥ hoje um sentimento de drama e esperanテァa.

De drama: de que a noite que caテュa me despojava de seu manto protetor; de que eu sempre tropeテァaria sobre as pedras da ladeira; de que o horizonte nunca deixaria de ser incerto; de que, perdido, nテ」o encontraria o caminho.

De esperanテァa: de que alguテゥm me salvaria do desastre. Do alto da ladeira, joelhos ralados nas pedras, vendo o sangue, eu tambテゥm via a casa-grande e, na frente, Clarice, que veio em meu socorro.

Uma guinテゥ gasguita voava no terreiro com medo dos vaqueiros encourados. Entテ」o chegou um magote de ciganos, visitantes que a cada dois ou trテェs meses passavam tangendo tropas de burros, mulas e cavalos carregados de bugigangas. Juntaram-se embaixo do pテゥ de tamarindo do terreiro.

Vende este cavalo? Cadテェ o ferrテ」o?, perguntava meu padrinho, o pai de Clarice, com voz raivosamente fina e minテコcias de atenテァテ」o, desconfiado dos ciganos, sem dar fテゥ do sangue nos meus joelhos.

Eu nテ」o tinha dinheiro e queria comprar um presente para Clarice. Por gestos, um dos ciganos me deu a entender que eu poderia pagar depois. Escolhi um anel certamente de ouro e pedra falsos, que dei de presente a Clarice quando o sol jテ。 se escondia envergonhado e as galinhas se aquietavam no poleiro.

De noite 窶 pode ter sido nesse dia e, se nテ」o foi, juntei com outro, sua prolongaテァテ」o natural 窶 havia uma fogueira enorme, feita de muitas carradas de lenha, em frente テ casa-grande. Devia ser junho, quem sabe dia 24, festa de Sテ」o Joテ」o. As labaredas iluminavam rostos risonhos, テs vezes de gargalhadas escancaradas, gente dando volta em torno da fogueira, assando milho verde. No alpendre da casa, a brincadeira era outra, sテゥria: joguei gotas da vela derretida num copo d窶凖。gua, e a cera formou uma letra cテェ, cテェ de Clarice. A felicidade.

Naquela テゥpoca falava-se em roubos de moテァa para se casar, e me contaram que um roubo tinha acontecido em Vテ。rzea Pacテュfica. O rapaz roubava a moテァa, e as famテュlias tinham a obrigaテァテ」o de fazer o casamento. Imaginava-me, entテ」o, chegando a cavalo numa das janelas da casa-grande e levando Clarice na garupa. Serテ。 que ela toparia?

 

Hoje falei com Arnaldo. Faz muitos anos que nテ」o nos vemos, mas sempre que nos falamos テゥ como se tivテゥssemos nos encontrado ontem. Vamos nos comunicar por WhatsApp, ele propテエs. Um sujeito que ele conhece estテ。 vendendo um carro de segunda mテ」o. Vendo o meu aqui em Taguatinga para comprar esse outro quando chegar a Vテ。rzea Pacテュfica, se ainda estiver テ venda. Comprar sem ver テゥ que nテ」o.

Levo para a fazenda uma tテゥcnica de plantio direto do algodテ」o com a introduテァテ」o de culturas rotativas. Jテ。 consultei uma lista de empresas de energia solar fotovoltaica da regiテ」o de Fortaleza, pois vou, sim, instalar placas de energia solar, pelo menos para as necessidades da casa principal, que nテ」o serテ。 a casa-grande, mas a minha prテウpria, moderna e confortテ。vel. E vou aprimorar o sistema precテ。rio de irrigaテァテ」o, que existe hテ。 alguns anos. De novidade, hテ。 dois poテァos artesianos na propriedade, e a casa jテ。 tem cisterna, Arnaldo me disse.

7 de maio

Quando penso na viagem em breve ao Riacho Negro, o passado assume tonalidades acinzentadas, vago e fora de foco. Aqui e ali surgem luzes que iluminam, rasgテオes no escuro e sem continuidade, a cara encarquilhada de minha avテウ, os vestidos de chita de mamテ」e, o paletテウ de linho branco e botas lustrosas de meu padrinho, pai de Clarice, os chocalhos balanテァando nos pescoテァos das vacas leiteiras quando saテュam de manhテ」 cedo para pastar e voltavam de tarde para o curral, o piテ」o que eu jogava na calテァada alta de cimento da casa-grande, os papagaios a voar quando o nordeste chegava quente soprando galhos secos, o meu carneirinho branco no qual eu montava antes de levテ。-lo ao chiqueiro no final da tarde, o gibテ」o, perneiras, peitoral e chapテゥu de couro de Seu Rodolfo, pai de meu amigo Arnaldo e marido da bela Vitテウria.

Vitテウria… Devo falar tambテゥm dela? Me lembro que, na janela pobre, exibia um sorriso misterioso para mim em dentes perfeitamente alinhados, vestido leve e decotado mostrando o vinco entre os peitos. Nテ」o, nテ」o vou falar dela. テ sテウ uma imagem de passagem, um sorriso na janela, um desejo de menino.

Olhando nas cinzas do passado, vejo mテ」os calejadas no cabo da enxada e outras, delicadas, de Clarice, acariciando as bolhas de minha catapora, que ela queria pegar. Vejo os campos de algodテ」o, branquinhos, muito branquinhos, subindo e descendo morros a perder de vista, e Arnaldo chamando-me para caテァar avoantes, que chamテ。vamos avoetes; para acompanhテ。-lo em algum trabalho, sempre em lombo de burro. E depois ouテァo suas gargalhadas cテコmplices pelo caminho, vozes テ。speras me dando ordens, outras me acalentando.

De repente surge minha irmテ」 Zuleide, que hoje mora em Recife, dois anos mais velha do que eu, arengando comigo por causa de uma brincadeira que eu nテ」o entendia e continuo nテ」o entendendo. Pedaテァos do passado que chegam me assustando ou me convidando a um reencontro. テ o que vejo; o que ouテァo. O resto imagino, e devo descrever?

Fecho os olhos. Lテ。 no fundo aparece a paisagem do aテァude, de brilho pontuado por marrecos e mergulhテオes. Ainda estテ」o lテ。? テs vezes descia com Arnaldo, tangendo o jumento Cinzento atテゥ a vazante para colher capim, melancia ou jerimum. As melancias se espalhavam feito erva daninha, um tapete verde pelo meio das plantaテァテオes de milho. Enchテュamos os caテァuテ。s, e Cinzento penava subindo a ladeira empedrada para que depositテ。ssemos a carga nos tonテゥis dos armazテゥns ao lado da casa-grande.

21 de maio

Papai nテ」o aparece por esses rasgテオes de luz que vejo nas cortinas embotadas do passado. Minto. Ele aparece, e muito, quando vejo, assombrado, o que nテ」o vi: a faca dilacerando sua barriga, o sangue escoando feito rio pelo chテ」o, o cadテ。ver encostado na porta de um beco de Vテ。rzea Pacテュfica, a cidadezinha perto da fazenda do Riacho Negro onde morテ。vamos…

E entテ」o talvez quando o que vi com apenas dois anos, nテ」o tenho certeza, as imagens estテ」o fora de foco: uma cova funda, um montテュculo de terra com flores e uma cruz… Ele テゥ uma histテウria terrテュvel que me angustia sempre. Ou entテ」o テゥ uma fotografia junto com mamテ」e, fotografia retocada a cores, na qual o rosto preto de mamテ」e estテ。 rosado e seus lテ。bios trazem um batom de um vermelho que nunca vi ao vivo. Uma fotografia emoldurada e pendurada na parede da sala de nossa casa pobre, de tijolo vermelho.

O assassinato de papai cozinha alguma coisa dentro de mim, uma coisa que vai explodir, tenho certeza. Vinganテァa? Quando eu chegar ao Riacho Negro e sobretudo quando visitar Vテ。rzea Pacテュfica, ainda vou me deparar com esse fato do passado que nテ」o para de me atormentar. Enfrentar necessariamente o assassino.

Parto dentro de uma semana, estテ。 tudo certo. Fujo da secura que comeテァa. Nテ」o tem caテュdo pingo d窶凖。gua neste planalto.

Clarice me enviou a escritura do terreno que comprei por procuraテァテ」o. Arrumei minhas coisas e despachei hテ。 exatamente treze dias uma pequena mudanテァa, que Arnaldo vai receber e acomodar na casa da fazenda. Encarreguei-o tambテゥm de comprar sementes de algodテ」o para o plantio, quando eu chegar.

 

 

2.窶7oo Brasテュlia-Fortaleza

1ツコ de junho

O aviテ」o subiu faz pouco. Voo Brasテュlia-Fortaleza. Agora que Patrテュcia me deixou, deixo Taguatinga. Digo que foi ela que me deixou, embora seja eu que parti, pois a iniciativa foi dela, nテ」o hテ。 dテコvida.

Teve razテ」o e coragem. Eu nテ」o teria nem uma coisa nem outra. Mas fico matutando se o medo テs vezes テゥ que tem razテ」o. A despedida foi dura e fria.

Seja feliz, ela disse, como se dissesse que se foda.

Vocテェ tambテゥm, respondi.

A separaテァテ」o foi amigテ。vel, e muita coisa ainda tem que ser decidida. Ela ficou com a maior parte dos bens, inclusive a casa, mas nテ」o exige dinheiro. Combinamos que vamos formalizar o divテウrcio, porテゥm nテ」o comeテァamos a cuidar dos papテゥis. Sugeri aguardar um pouco, testar como vamos nos sentir com a separaテァテ」o.

Nテ」o tem volta, foi categテウrica.

Olhando as chapadas pela janela do aviテ」o 窶 serテ。 a Mantiqueira? 窶, deixo aparecer outro ser que vivia dentro de mim, outro de mim contra quem sempre lutei. Ser triste, de tristeza terna e contente, que se relaxa na sua prテウpria natureza. Que talvez queira encontrar futuro no passado, tenho de admitir. A gente nテ」o tem controle sobre o que se lembra. E o que se lembra pode insistir em nunca ir embora, atテゥ acorda a gente de madrugada. Pode estar pra cテ。 ou pra lテ。 do que aconteceu.

テs vezes fica difテュcil traテァar a fronteira entre lembranテァa e imaginaテァテ」o. テs vezes a realidade se impテオe テs duas. テs vezes a fazenda que pertencia a meu padrinho me traz mテ。s lembranテァas. A fazenda ficava a trテェs lテゥguas de Vテ。rzea Pacテュfica, que, quando eu era crianテァa, nem vテ。rzea nem pacテュfica era. Ali a vegetaテァテ」o secava no verテ」o 窶 isso imagino que ainda acontece 窶 e, por qualquer coisa, armava-se o maior cu de boi. Assassinatos a todo tempo. Terrテュveis assassinatos! A mais terrテュvel de todas as lembranテァas me chega por tabela, lembranテァa de lembranテァas. Papai assassinado a peixeiradas. Ainda vejo o sangue saindo de sua barriga, esguichado, desparramando-se pelo chテ」o.

Lembranテァas mesmo, quando tenho, sテ」o vagas, de gritos, portas batendo, eu correndo por um descampado sem fim. Eu seguia caminhos sinuosos e esburacados ouvindo choros fortes de mulher, acho que de mamテ」e, de vovテウ. Finalmente chegamos ao lugar de chテ」o ondulado e marcado por cruzes, onde, ao lado de um buraco sem fim, foi depositado o caixテ」o que nテ」o sei se vi ou imaginei, em madeira lisa e pintada de preto. O montテュculo de terra ali ao lado me parecia uma montanha tambテゥm infindテ。vel, montanha que eu nテ」o conseguia escalar. Lテ。grimas ainda caem de meus olhos pelo que nテ」o vi, me desculpo uma vez mais com quem tem paciテェncia de continuar me lendo.

Como posso me lembrar direito? Tinha sテウ dois anos. Sei da violテェncia do assassinato de papai pelos relatos que ouvi anos depois. Mais de vinte peixeiradas, sangue escorrendo pela calテァada. Sangue, muito sangue, um vermelho que mancha todas as minhas lembranテァas.

Sempre pensava naquele crime quando assistia テ morte das novilhas no curral, vendo as machadadas, a carne esfolada e o sangue escrevendo garranchos no tapete de estrume, preto e fofo.

O assassino, preso, nunca admitiu o crime. Sujeitinho nojento, filho da puta. Nテ」o hテ。 dテコvida: teve uma rixa com papai por uma migalhice 窶 papai se recusou a pagar por um gibテ」o de couro malfeito 窶 e era assassino confesso de outras quatro vテュtimas. Cabra ranzinza, irritadiテァo, que batia na mulher aos murros. A filha, de tanto levar chibatada, enlouqueceu, foi o que me contou hテ。 muitos anos Arnaldo, aquele meu amigo de infテ「ncia com quem troco mensagens por WhatsApp.

Li uma vez que テゥ somente nos vivos que os mortos existem, assim como serテ。 apenas nos vivos que estas anotaテァテオes podem sobreviver depois de minha morte. Papai テゥ um morto que vive em mim. Por que ainda quero vingar sua morte depois de tanto tempo? A verdade テゥ que quero. Aparece cada vez mais como necessidade, necessidade de um velho, necessidade cada vez mais urgente, como se me faltasse o que preciso fazer para me sentir completo.

Sテウ de pensar que posso me encontrar com o assassino, o sangue sobe テ cabeテァa. テ medida que os dias passam, vejo que me sobra pouco tempo para cumprir minha missテ」o. Claro que nテ」o foi sテウ por causa de Clarice que comprei o terreno. Volto pra perto do desgraテァado, o filho da puta. Saiu da prisテ」o hテ。 vテ。rios anos. Nunca o procurei, mas hoje sei que, se o encontrar, eu o mato. Tenho de matテ。-lo. Nテ」o me importa nada passar o resto da vida na cadeia. Quem lamentaria? Meus trテェs filhos, sei que nテ」o. Talvez minha irmテ」 Zuleide… Falo tテ」o pouco com ela! Na verdade, faz dois anos que nテ」o a vejo. Para Patrテュcia, preso ou nテ」o, tanto faz, deve estar contente de se livrar de mim. E, se eu morrer, serテ。 minha morte gloriosa, pelo melhor dos objetivos, me entendam ou nテ」o. Trago na bagagem um revテウlver.

 

 

7 de maio

 

Quando penso na viagem em breve ao Riacho Negro, o passado assume tonalidades acinzentadas, vago e fora de foco. Aqui e ali surgem luzes que iluminam, rasgテオes no escuro e sem continuidade, a cara encarquilhada de minha avテウ, os vestidos de chita de mamテ」e, o paletテウ de linho branco e botas lustrosas de meu padrinho, pai de Clarice, os chocalhos balanテァando nos pescoテァos das vacas leiteiras quando saテュam de manhテ」 cedo para pastar e voltavam de tarde para o curral, o piテ」o que eu jogava na calテァada alta de cimento da casa-grande, os papagaios a voar quando o nordeste chegava quente soprando galhos secos, o meu carneirinho branco no qual eu montava antes de levテ。-lo ao chiqueiro no final da tarde, o gibテ」o, perneiras, peitoral e chapテゥu de couro de Seu Rodolfo, pai de meu amigo Arnaldo e marido da bela Vitテウria.

Vitテウria… Devo falar tambテゥm dela? Me lembro que, na janela pobre, exibia um sorriso misterioso para mim em dentes perfeitamente alinhados, vestido leve e decotado mostrando o vinco entre os peitos. Nテ」o, nテ」o vou falar dela. テ sテウ uma imagem de passagem, um sorriso na janela, um desejo de menino.

Olhando nas cinzas do passado, vejo mテ」os calejadas no cabo da enxada e outras, delicadas, de Clarice, acariciando as bolhas de minha catapora, que ela queria pegar. Vejo os campos de algodテ」o, branquinhos, muito branquinhos, subindo e descendo morros a perder de vista, e Arnaldo chamando-me para caテァar avoantes, que chamテ。vamos avoetes; para acompanhテ。-lo em algum trabalho, sempre em lombo de burro. E depois ouテァo suas gargalhadas cテコmplices pelo caminho, vozes テ。speras me dando ordens, outras me acalentando.

De repente surge minha irmテ」 Zuleide, que hoje mora em Recife, dois anos mais velha do que eu, arengando comigo por causa de uma brincadeira que eu nテ」o entendia e continuo nテ」o entendendo. Pedaテァos do passado que chegam me assustando ou me convidando a um reencontro. テ o que vejo; o que ouテァo. O resto imagino, e devo descrever?

Fecho os olhos. Lテ。 no fundo aparece a paisagem do aテァude, de brilho pontuado por marrecos e mergulhテオes. Ainda estテ」o lテ。? テs vezes descia com Arnaldo, tangendo o jumento Cinzento atテゥ a vazante para colher capim, melancia ou jerimum. As melancias se espalhavam feito erva daninha, um tapete verde pelo meio das plantaテァテオes de milho. Enchテュamos os caテァuテ。s, e Cinzento penava subindo a ladeira empedrada para que depositテ。ssemos a carga nos tonテゥis dos armazテゥns ao lado da casa-grande.

 

21 de maio

Papai nテ」o aparece por esses rasgテオes de luz que vejo nas cortinas embotadas do passado. Minto. Ele aparece, e muito, quando vejo, assombrado, o que nテ」o vi: a faca dilacerando sua barriga, o sangue escoando feito rio pelo chテ」o, o cadテ。ver encostado na porta de um beco de Vテ。rzea Pacテュfica, a cidadezinha perto da fazenda do Riacho Negro onde morテ。vamos…

E entテ」o talvez quando o que vi com apenas dois anos, nテ」o tenho certeza, as imagens estテ」o fora de foco: uma cova funda, um montテュculo de terra com flores e uma cruz… Ele テゥ uma histテウria terrテュvel que me angustia sempre. Ou entテ」o テゥ uma fotografia junto com mamテ」e, fotografia retocada a cores, na qual o rosto preto de mamテ」e estテ。 rosado e seus lテ。bios trazem um batom de um vermelho que nunca vi ao vivo. Uma fotografia emoldurada e pendurada na parede da sala de nossa casa pobre, de tijolo vermelho.

O assassinato de papai cozinha alguma coisa dentro de mim, uma coisa que vai explodir, tenho certeza. Vinganテァa? Quando eu chegar ao Riacho Negro e sobretudo quando visitar Vテ。rzea Pacテュfica, ainda vou me deparar com esse fato do passado que nテ」o para de me atormentar. Enfrentar necessariamente o assassino.


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