Entrevista a Paulo Paniago, “Pensar”, Correio Braziliense

Imagens da cegueira, O escritor João Almino conta como construiu a história de encontros e desencontros a partir de personagem secundário de romances anteriores: o fotógrafo Cadu

Paulo Paniago, Especial para o Correio

CORREIO BRAZILIENSE, PENSAR, S√ĀBADO, 21 de Junho de 2008

Brasília na minha literatura é também mito, ideia, projeto e metáfora de Brasil, um Brasil de muitos brasis

O personagem estava l√°, secund√°rio, em todos os livros anteriores de fic√ß√£o de Jo√£o Almino. Agora, em “O livro das emo√ß√Ķes”, o fot√≥grafo Cadu vem ao primeiro plano para narrar a hist√≥ria de encontros — e principalmente de desencontos — mais uma vez passada em Bras√≠lia, cidade eleita pelo escritor e diplomata para cen√°rio dos romances. O primeiro foi Ideias para onde passar o fim do mundo. “Imaginei que aquele romance seria uma esp√©cie de introdu√ß√£o a v√°rios outros, que viriam a ser narrados da perspectiva de cada um de seus principais personagens”, diz o C√īnsul-Geral em Chicago em entrevista ao Correio. Aquele era o primeiro do que seria uma trilogia, completa com Samba-Enredo e As cinco esta√ß√Ķes do amor — este √ļltimo foi lan√ßado em mar√ßo nos EUA pela Host Publications com o t√≠tulo de The five seasons of love. Entretanto, ao terminar a trilogia, e depois de tantos personagens femininos, Almino se viu estimulado “a trazer ao primeiro plano da narrativa um personagem masculino que estivera presente, como personagem secund√°rio, em toda a trilogia”. Da√≠ surgiu O livro das emo√ß√Ķes, a respeito do qual concedeu a entrevista a seguir.

O fot√≥grafo sem vis√£o mira a superf√≠cie das coisas e pessoas mais do que o interior, inclusive o pr√≥prio. Quanto h√° de verdade nisso? De onde veio a ideia para fazer o livro? Voc√™ tamb√©m √© fot√≥grafo, o que leva a especular em analogias…
√Č a partir da lembran√ßa — e sobretudo da lembran√ßa de imagens fotogr√°ficas — que o personagem comp√Ķe seu Livro das emo√ß√Ķes. O entrecruzamento entre visualidade e mem√≥ria pontua todo o texto e √© a principal mat√©ria de sua dimens√£o reflexiva. Para aquele personagem, de certa forma, viver era ver, e agora √© lembrar. A reconstru√ß√£o da visualidade pela lembran√ßa √© uma maneira de recupera√ß√£o da vida. Mas o livro √© sobretudo feito de elipses, de fotos n√£o tiradas, imperfeitas, perdidas, desfocadas, mal enquadradas, que sempre apontam para outra imagem, que se torna mais vis√≠vel no escuro, na cegueira. √Č nesta outra imagem, mais do que naquela que lhe serve de refer√™ncia, que reside a emo√ß√£o.

No processo de composição deste livro, você tinha tudo planejado ou foi construindo à medida que escrevia?
Tenho trabalhado de duas formas aparentemente contradit√≥rias: tenho um plano geral e estou sempre disposto a modific√°-lo, radicalmente se for preciso, √† medida que escrevo. Quando chego ao final do processo, √†s vezes ter√° sobrado pouco da ideia original. Levei sete anos para escrever O livro das emo√ß√Ķes, por coincid√™ncia o mesmo tempo que levei para escrever cada um de meus outros romances.

De onde surgiu a ideia do personagem do fot√≥grafo cego a rememorar amores perdidos, mulheres-tri√Ęngulos, imagens do passado?
A fotografia √© para mim uma paix√£o antiga, e h√° muito pensava em enxertar numa obra de fic√ß√£o uma reflex√£o sobre a fotografia, o contraste entre a cegueira e a imagem fotogr√°fica me ajudando a criar camadas inusitadas de interpreta√ß√£o. Para isso, nada melhor do que escrever da perspectiva de um fot√≥grafo, personagem meu, que j√° estava relativamente bem desenvolvido nos livros anteriores. Ele foi o respons√°vel pela imagem que d√° origem a Ideias para onde pasar o fim do mundo. Sua personalidade e o tipo de rela√ß√£o que estabelece com as mulheres — v√°rias delas personagens de livros anteriores, como Berenice, Joana e Ana Kauman — j√° estavam definidos tamb√©m nos romances anteriores. Cabia reordenar esse material, mudar os tempos da narrativa e arquitetar o romance como se fosse um √°lbum de retratos, o que exigiu de mim um paciente trabalho artesanal.

Brasília continua sua referência. Entretanto, a cidade ocupa um espaço que parece ao mesmo tempo central e periférico: a trama poderia estar ambientada em Chicago ou São Paulo, a cidade parece apenas um detalhe. Ou não: o detalhe da cidade conforma e contorna os personagens. Como anda sua relação pessoal com Brasília?
Por causa de minha vida cigana, Bras√≠lia foi a cidade onde mais vivi depois de minha cidade natal, Mossor√≥, no Rio Grande do Norte. Da pr√≥xima vez que eu voltar a Bras√≠lia para morar, √© prov√°vel que as duas empatem. Foram quatro as minhas passagens pela cidade, onde morei pela √ļltima vez entre 2001 e 2004. Essa poderia ser uma das raz√Ķes para fazer de Bras√≠lia cen√°rio e personagem de meus romances. Mas √© verdade que, al√©m de ser uma cidade onde vivi, Bras√≠lia na minha literatura √© tamb√©m mito, ideia, projeto e met√°fora de Brasil, um Brasil de muitos brasis. E voc√™ tem raz√£o: acredito no car√°ter universal da literatura e acho que podem ser mais pr√≥ximas uma da outra hist√≥rias que se passam respectivamente em S√£o Paulo e em Nova York, do que duas que se passam numa mesma cidade, seja ela S√£o Paulo ou Nova York.Ou seja, uma cidade n√£o √© suficiente para definir uma literatura. Minhas hist√≥rias poderiam por certo se situar noutros lugares, mas Bras√≠lia lhes d√° uma cor particular, me ajuda a fugir dos estere√≥tipos e a tratar de temas que me s√£o caros, como o novo, a p√≥s-utopia e os processos de desmoderniza√ß√£o.

Como voc√™ organizou os tempos da narrativa? Na orelha do livro, Jo√£o Gilberto Noll fala em quebra-cabe√ßas que remetem a uma melancolia, a vazios na trama que parecem indicar, de novo, os vazios de Bras√≠lia. √Č isso mesmo?
√Č uma observa√ß√£o pertinente e perspicaz de Jo√£o Gilberto Noll. O tema do vazio — assim como o do instante — √© recorrente em minha literatura e est√° presente no Livro das emo√ß√Ķes. Bras√≠lia, seja como utopia n√£o-realizada, seja como cidade de hist√≥ria recente, pode servir de refer√™ncia para enriquecer esse tema. Quanto aos tempos da narrativa, cuidei sobretudo para que a sobreposi√ß√£o de um tempo presente, que se faz no futuro, ou seja, em 2022, a um tempo passado, que se faz no presente, ou seja, de 2001 √† atualidade, n√£o fosse percebida como complexa. Foi preciso trabalhar simultaneamente nos dois registros, adequando um ao outro, para encontrar a dic√ß√£o certa de cada um e tamb√©m para construir uma trama que despertasse curiosidade.

Ser√° que O livro das emo√ß√Ķes vai virar uma pe√ßa de quebra-cabe√ßas num jogo de armar ainda mais demorado? Outros livros vir√£o e o quarteto pode virar quinteto, ou sexteto…?
H√° alguns personagens insistentes, que batem √† minha porta de madrugada pedindo para regressarem √† hist√≥ria. √Č poss√≠vel que eu acabe cedendo. Confesso que tenho anota√ß√Ķes para um quinto romance. Mas a dist√Ęncia entre elas e um livro pode ser de v√°rios anos. Na verdade, se delas vai mesmo surgir um livro ainda n√£o sei.


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