Entrevista a Thiago Blumenthal para Trópico

TR√ďPICO, 14 de agosto de 2010

dossiê
LITERATURA

Às margens de Brasília
Por Thiago Blumenthal

O escritor Jo√£o Almino lan√ßa ‚ÄúCidade Livre‚ÄĚ e explica por que a capital federal recebeu t√£o pouca aten√ß√£o da literatura

Quarenta e um meses para ser construída. Cinquenta anos de idade celebrados recentemente. Cidade mais levantada do mundo, para Guimarães Rosa. Capital da esperança, para o escritor André Malraux, que a visitou em 1959. Além da esperança, a fé no futuro, nos dizeres do cineasta Frank Capra naquele mesmo ano. A capital brasileira, palco de uma construção grandiosa e corajosa, já recebeu muitos atributos desde a sua formação, do projeto à inauguração, da cristalização do símbolo que hoje é para o Brasil ao impacto causado no mundo.

Menos c√©lebre, no entanto, √© a hist√≥ria da Cidade Livre, designa√ß√£o anterior do N√ļcleo Bandeirante (hoje uma cidade-sat√©lite de Bras√≠lia), uma cidade que, desde o seu in√≠cio, era fadada √† destrui√ß√£o, quando a capital estivesse de fato conclu√≠da.

Palco da uni√£o de candangos de todas as partes do Brasil, seu destino de certo modo descart√°vel lhe deu uma fei√ß√£o de filme de faroeste, ou, nos dizeres do jornal ‚ÄúO Globo‚ÄĚ, em 1958, “uma cidade licenciosa e imoral”.

√Č esse desregramento moral da cidade ligada √† constru√ß√£o da capital que serve de piv√ī ao novo romance de Jo√£o Almino, ‚ÄúCidade Livre‚ÄĚ. Muitas vezes chamado de “o romancista de Bras√≠lia”, t√≠tulo que, apesar de honr√°-lo, o autor aceita com reservas, Almino se vale dos cen√°rios provis√≥rios e quase prec√°rios da Cidade Livre para reconstruir a constru√ß√£o da capital brasileira por um vi√©s subjetivo.

√Ä maneira dos folhetins, o narrador (tamb√©m chamado Jo√£o) conta, em um blog, suas lembran√ßas da inf√Ęncia na Cidade Livre e, por extens√£o, em Bras√≠lia. Como em um romance em constru√ß√£o, o narrador pondera sobre quais informa√ß√Ķes deve ali compartilhar e muitas vezes usa os coment√°rios em seu blog (nunca transcritos na narrativa) para tratar tamb√©m da sua pr√≥pria mat√©ria narrativa. Por exemplo, “Se incluo esses detalhes aqui √© apenas para satisfazer o meu seguidor do blog (…). Talvez elimine essas informa√ß√Ķes quando fizer uma releitura”, diz ele, questionando-se como deveria tratar daquele assunto, se com mais ou se com menos detalhes.

Há diversas pausas discursivas, em que o relato é interrompido para comentar qualquer curiosidade ou fato importante referente ao blog e aos seus seguidores/leitores.

As referências ao mundo online e ao modo de leitura nessa mídia, como a Wikipedia e os leitores que gostam de ler tudo apressadamente, pontuam o enredo com uma aproximação ao leitor, não só aquele ficcional (o seguidor X do blog), mas o leitor de fato, que tem o livro em mãos.

Mais do que esse di√°logo travado com os leitores do blog, h√° tamb√©m um outro, de dimens√Ķes e desdobramentos maiores e mais complexos, que √© o di√°logo com o pr√≥prio escritor, Jo√£o Almino, a quem o narrador agradece a revis√£o do livro.

H√° um efeito humor√≠stico quando o narrador discorda da revis√£o feita por Almino: “Discordo neste ponto de vista da revis√£o do Jo√£o Almino, que introduziu sonhos demais na nossa viagem para o Planalto Central. Corto tudo o que ele acrescentou e mantenho meu texto original”, diz o narrador, que novamente se debru√ßa sobre o pr√≥prio texto (e tamb√©m sobre sua pr√≥pria mem√≥ria).

“Livre” porque isentava os comerciantes locais de pagarem seus impostos, a cidade que depois seria sat√©lite da capital antev√™ o futuro no Planalto Central. Aquela mistura de concreto cheio de formas modernistas com o pragmatismo selvagem dos empreiteiros (o pai do narrador fez dinheiro e fama vendendo im√≥veis na regi√£o) se unia ao motivo do misticismo da “Cidade Ecl√©tica que deve ser a Nova Jerusal√©m”.

Personagens que fazem parte da mem√≥ria do narrador, como Valdivino (mais visto como ” idealista” do que um oper√°rio) e as tias, s√£o o gancho para que motivos pol√≠ticos, religiosos e sociais sejam, n√£o desvendados, mas observados pelo filtro sempre obscuro e impreciso da mem√≥ria.

Dividido em sete partes, ou seja, sete noites de conversa com o pai, que ajuda o narrador a se lembrar dos fatos, ‚ÄúCidade Livre‚ÄĚ tem pref√°cio de Benjamin Abdala Junior, que analisa como a fic√ß√£o de Jo√£o Almino busca recuperar o que n√£o ocorreu, mas o que poderia ter ocorrido.

Na linha de uma metafic√ß√£o historiogr√°fica, o romance usa estrat√©gias bastante modernas para recontar um determinado per√≠odo hist√≥rico de um pa√≠s ou povo: fatos que n√£o ocorreram na realidade, declara√ß√Ķes que jamais foram publicadas, n√£o servem para desmentir a hist√≥ria, mas para reavali√°-la, como diz a ensa√≠sta Linda Hutcheon. Assim, o material hist√≥rico √© transmutado para um mundo ficcional, com novo status.

Nascido em Mossor√≥, no Rio Grande do Norte, o escritor e diplomata Jo√£o Almino iniciou seu percurso ficcional na d√©cada de 80, com ‚ÄúIdeias Para Onde Passar o Fim do Mundo‚ÄĚ, o primeiro de uma s√©rie de romances sobre Bras√≠lia.

Autor também de livros de história e filosofia política, Almino doutorou-se em Paris, sob orientação do cientista político Claude Lefort, e já lecionou nas universidades de Berkeley e Stanford.

Em entrevista a Trópico, o autor fala da questão autoral, posta em xeque no romance, sobre a influência e o impacto das novas mídias, mas especialmente sobre Brasília que, hoje com 50 anos (celebrados no dia 21 de abril), pouco é retratada na literatura brasileira.

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O senhor, tido por muitos cr√≠ticos como o “romancista de Bras√≠lia”, retorna √† capital neste novo romance, mas com o olhar voltado para funda√ß√Ķes perif√©ricas da Cidade Livre. De onde partiu essa id√©ia de estabelecer o foco partindo do perif√©rico?

João Almino: O que interessa mais para minha literatura é a história não oficial, o olhar oblíquo e através das frestas, a perspectiva menos usual ou mesmo inusitada e o marginal e periférico.

No per√≠odo escolhido para a trama deste novo romance, Bras√≠lia ainda n√£o tinha vida, seus primeiros pr√©dios e suas primeiras vias apenas come√ßavam a tomar forma, enquanto a Cidade Livre j√° estava povoada de hist√≥rias, de sonhos, incertezas, ang√ļstias, misticismo, paix√Ķes e alegrias. Um bom material para o ficcionista.

Como o senhor trata a quest√£o autoral no texto? H√° mais humor ou reflex√£o liter√°ria no fato de estabelecer o “Jo√£o Almino” como revisor (do qual o narrador muitas vezes discorda) do livro?

Almino: As duas coisas, espero. O Jo√£o Almino revisor serve para marcar, para o leitor, uma dist√Ęncia entre, de um lado, o narrador, que √© autor do livro-blog, e aquele cujo nome vem estampado no capa do livro impresso. Mas serve tamb√©m para introduzir mais uma camada de leitura, com piscadelas de olho para o leitor.

Em determinado momento, o narrador diz que o Jo√£o Almino havia sugerido a composi√ß√£o de um “um denso romance regionalista em busca da terra prometida”. Trata-se de um truque humor√≠stico da fic√ß√£o ou o senhor de fato chegou a pensar nisso?

Almino: Os ingredientes estavam todos l√°, pois infelizmente nada havia mudado radicalmente desde que nos anos 30 Graciliano Ramos e outros haviam escrito seus romances. Mas n√£o caberia rever uma decis√£o que tomei quando comecei a escrever minha fic√ß√£o, ainda em meados dos anos 80: a de preferir cursar um caminho virgem a repetir de maneira pobre o que j√° havia sido feito t√£o bem. √Č muito prov√°vel que esse Jo√£o Almino revisor n√£o passe de um personagem fict√≠cio.

Como se deu essa aproximação com as mídias online, a linguagem do blog e a maneira como ele funciona, com seguidores, comentários, etc.?

Almino: Dei continuidade a um interesse que desenvolvi, desde meu primeiro romance, em estabelecer um diálogo entre a literatura e outros meios de expressão, através da própria literatura.

No primeiro romance, ‚ÄúIdeias Para Onde Passar o Fim do Mundo‚ÄĚ, trata-se de um di√°logo com o cinema. Em ‚ÄúSamba-Enredo‚ÄĚ, com uma m√°quina de intelig√™ncia artificial, que √© a narradora, em primeira pessoa, da hist√≥ria. Em ‚ÄúAs Cinco Esta√ß√Ķes do Amor‚ÄĚ, a narra√ß√£o √© feita num presente cont√≠nuo, como se uma c√Ęmara alerta e vigilante n√£o se desprendesse da narradora. Em ‚ÄúO Livro das Emo√ß√Ķes‚ÄĚ, trata-se de um di√°logo com a fotografia. Agora, √© com o blog.

Em todos os casos, h√° uma tomada de partido pela palavra e pela literatura, e cuido para que os personagens, com suas biografias e emo√ß√Ķes, tenham vida, sejam diferentes entre si, sejam percebidos como pessoas de carne e osso e sobretudo n√£o sejam vistos como um subproduto das formas de express√£o art√≠stica, nem asfixiados pela metalinguagem, como √†s vezes pode ocorrer nas narrativas que se tornaram conhecidas como p√≥s-modernas. O blog cria contrapontos e permite introduzir alguns elementos de humor no texto.

H√° um pouco de Proust no relato do romance e na maneira como a mem√≥ria √© utilizada e reutilizada. H√° at√© alguns pontos tem√°ticos comuns com o livro ‚ÄúEm Busca do Tempo Perdido‚ÄĚ, como a presen√ßa marcante das tias na inf√Ęncia do narrador. Como o relato proustiano influenciou o seu romance?

Almino: Continuo achando ‚ÄúEm Busca do Tempo Perdido‚ÄĚ uma das mais importantes obras liter√°rias do s√©culo XX e, j√° por tr√™s vezes, antes de ler outros tantos livros que me atraem, tomo a decis√£o reler o de Proust. Portanto √© um texto que, de alguma maneira, me √© familiar. Contudo, n√£o creio que tenha me apropriado dele neste romance, pelo menos n√£o de maneira consciente.

H√° uma diferen√ßa b√°sica entre meu processo e o do grande narrador que foi Marcel Proust: a mem√≥ria de meu personagem √© principalmente mem√≥ria inventada. Entre os ingredientes de minha ‚Äúmadeleine‚ÄĚ, inclu√≠ram-se leituras, hist√≥rias ouvidas, cr√īnicas da √©poca e pura imagina√ß√£o.

Pode-se dizer, contudo, que, enquanto a narradora, em primeira pessoa, de meu romance ‚ÄúAs Cinco Esta√ß√Ķes do Amor‚ÄĚ fazia em v√£o um esfor√ßo antiproustiano para esquecer tudo e come√ßar do zero, meus narradores de ‚ÄúO Livro das Emo√ß√Ķes‚ÄĚ e de ‚ÄúCidade Livre‚ÄĚ fazem o percurso contr√°rio e proustiano de tentar recuperar a mem√≥ria perdida. No caso de ‚ÄúCidade Livre‚ÄĚ, a mem√≥ria do narrador √© alimentada por v√°rios di√°logos ‚Äďcom seu pai, com suas tias, com o revisor e com os blogueiros.

Em que medida a sua atividade acadêmica, e especialmente o seu doutorado com o professor Claude Lefort, afetam a sua ficção?

Almino: Apenas na medida em que, tendo a filosofia sempre me interessado, pode ser que, sem que jamais esteja no primeiro plano, algo do pensamento de um ou outro filósofo apareça nas entrelinhas de uma reflexão ou mesmo de um diálogo.

O que distingue, no aspecto formal, esse √ļltimo romance dos √ļltimos publicados, que tamb√©m focalizam ‚Äúper√≠odos fundadores‚ÄĚ?

Almino: √Č poss√≠vel dizer que um dos temas recorrentes no conjunto de meus romances seja o da funda√ß√£o, da cria√ß√£o e do novo, vistos n√£o apenas como o que s√£o de fato, mas tamb√©m como s√≠mbolo e como ilus√£o.

A hist√≥ria de ‚ÄúIdeias Para Onde Passar o Fim do Mundo‚ÄĚ se passa no ano zero. A de ‚ÄúSamba-Enredo‚ÄĚ num momento de caos extremo, em meio ao desfile carnavalesco, no qual tudo √© poss√≠vel e as narrativas podem caminhar em m√ļltimas dire√ß√Ķes. ‚ÄúAs Cinco Esta√ß√Ķes do Amor‚ÄĚ descreve um instante de cria√ß√£o liter√°ria e de revolu√ß√£o interior. ‚ÄúO Livro das Emo√ß√Ķes‚ÄĚ gira em torno da ideia do instante fotogr√°fico, em que se cristaliza a emo√ß√£o.

Agora era chegado o momento de tratar da quest√£o da funda√ß√£o pela √≥tica da constru√ß√£o mesma da cidade, com seus elementos de esperan√ßa e entusiasmo, e tamb√©m com seus dramas e frustra√ß√Ķes.

As técnicas são radicalmente diferentes entre um romance e outro, em parte em razão da escolha dos narradores: um fantasma, uma máquina, uma mulher em primeira pessoa, um fotógrafo cego e, no novo romance, um narrador que, para construir a história, dialoga com outros e consigo mesmo.

Brasília completou seus 50 anos, mas, tirando sua faceta política, ainda não deixou uma marca na literatura brasileira como cenário. Por quê?

Almino: √Č que a literatura √© menos vis√≠vel do que a arquitetura e mais silenciosa e solit√°ria do que o rock, por exemplo. Leva mais tempo para ser percebida, entendida e assimilada. Mas estou certo de que pouco a pouco tamb√©m na literatura ela vai deixar a sua marca.

Como o senhor encara o t√≠tulo de “o romancista de Bras√≠lia”?

Almino: Depois de várias cobranças, decidi aceitar humildemente o título, com ressalvas. A mais importante é a de que outros romancistas de Brasília há e haverá. A outra, que tem a ver com a primeira, é de que muitas Brasílias ficcionais são possíveis.
A minha √© fruto de minha hist√≥ria, de minhas percep√ß√Ķes e de meus interesses: √© uma Bras√≠lia dos subterr√Ęneos e periferias da cidade, de seu cotidiano, da diversidade daqueles que a habitam, e √© tamb√©m uma determinada ideia de Brasil, uma mistura de brasis, um mito que acompanhou toda a hist√≥ria do Brasil independente, bem como uma parte de um projeto que n√£o √© apenas brasileiro, porque se inscreve, no plano urban√≠stico e arquitet√īnico, no √Ęmbito do modernismo europeu dos anos 40 e 50. √Č cen√°rio, personagem, realidade, ilus√£o, sonho e met√°fora.
Tenho dito tamb√©m que uma literatura n√£o se define por uma cidade, pois na mesma cidade podem-se conceber fic√ß√Ķes mais distintas entre si do que fic√ß√Ķes advindas de dois continentes distantes um do outro.
Minha literatura não é enraizada; não faço literatura regionalista nem uma ficção marcada fundamentalmente pela paisagem local ou pela dimensão antropológica ou sociológica do meio. Por outro lado, por que não situar histórias numa cidade de carga simbólica tão grande como é Brasília?

O livro:
Cidade Livre, de Jo√£o Almino. Ed. Record, 240 p√°gs., R$ 39,90. Publicado em 14/8/2010
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Thiago Blumenthal
√Č jornalista e mestre em literatura.


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