Alminol√Ęndia

Caderno ¬ęPensar¬Ľ, Correio Braziliense

Brasília, sábado, 29 de maio de 2010

No quinto livro, Cidade livre, João Almino termina de delinear uma Brasília que é, ao mesmo tempo, cenário e personagem de um universo ficcional calcado em referências históricas

Angélica Madeira

Especial para o Correio

Cidade livre, quinto livro de Jo√£o Almino, tem Bras√≠lia como cen√°rio e, principalmente, como personagem de um universo ficcional que agora encontra-se plenamente delineado. O desenho romanesco interessa por sua t√©cnica impec√°vel, que se explicita em longas passagens e digress√Ķes em que o romance discute seu m√©todo de composi√ß√£o, uma esp√©cie de memorialismo da era da inform√°tica, um sistema de cita√ß√Ķes apanhadas por um √ļnico narrador, um certo Jo√£o, que tem voz pr√≥pria. S√£o mobilizados textos da tradi√ß√£o memorialista ‚ÄĒ que abra√ßa de Br√°s Cubas a Jo√£o Miramar ‚ÄĒ e da po√©tica da paisagem ‚ÄĒ Alencar, Euclides e Guimar√£es Rosa, outro Jo√£o. O narrador nem sempre sabe com certeza a quem est√° citando, mas o revisor, Jo√£o Almino, sabe, e √© ele quem √†s vezes tira, √†s vezes acrescenta um passo, um ponto. H√° um jogo entre os personagens comprometidos com a narrativa e o aleat√≥rio dos frequentadores do blog em que o falso autor decidiu publicar seu romance, ap√≥s ter sido recusado por uma editora.

Esse tipo de jogo permite multiplicar a pot√™ncia da fic√ß√£o, fazendo-a render ao m√°ximo, pelas caracter√≠sticas da voz do narrador, um jornalista e pesquisador que constr√≥i seu relato baseado em vers√Ķes de uma hist√≥ria cujo enigma ele procura desvendar. A organiza√ß√£o externa do romance obedece √† ordem das visitas que ele, filho, faz ao pai, ¬ęentre quatro paredes de um branco sujo¬Ľ, em sete noites seguidas. E essas hist√≥rias entrela√ßadas p√Ķem em funcionamento uma arma√ß√£o narrativa complexa que escava os fatos do passado, mobiliza a mem√≥ria para que casos t√£o impressionantes n√£o sejam esquecidos.

Assim assistimos em paralelo ao desenrolar de uma hist√≥ria que se faz, a constru√ß√£o da cidade-capital e a vida, o dia a dia das pessoas na Cidade Livre, ao longo dos quatro anos que antecederam a inaugura√ß√£o de Bras√≠lia. Assistimos √© o bom termo porque o texto de Jo√£o Almino muitas vezes adquire a nitidez fotogr√°fica, quando se trata de descrever as festas e os eventos. O 21 de abril de 1960, a festa da v√©spera, a banda de m√ļsica, os avi√Ķes da FAB fazendo evolu√ß√£o, a inaugura√ß√£o do Correio Braziliense, tudo √© descrito com min√ļcia pelo olho-c√Ęmera de uma crian√ßa de 10 anos, deslumbrada e sens√≠vel, o futuro narrador. A reconstitui√ß√£o de rituais pol√≠ticos por si s√≥ j√° seria interessante. Mas acrescida do movimento do olhar da crian√ßa e atrelada a fatos marcantes do ponto de vista das emo√ß√Ķes e dos afetos, fica ainda mais densa, mais cheia de sentido e de mist√©rio. Pois foi na v√©spera do dia principal que Jo√£o viu pela √ļltima vez Valdevino.

Valdevino √© um sertanejo que se destaca da massa de candangos que veio construir Bras√≠lia. Veio movido pela ideia de construir igrejas. Conheceu acampamentos, persegui√ß√£o dos mais fortes, a viol√™ncia da Geb e uma grande paix√£o que pode ter sido sua perdi√ß√£o. Pouco letrado, escrevia cartas que seus conterr√Ęneos do norte lhe ditavam. Estava de bem com a vida, por mais que passasse apertado. Mas o que comove em Valdevino, magrelo, pequeno, desengon√ßado, √© sua bondade, sua inoc√™ncia e fragilidade. Quase uma alegoria de um ser sens√≠vel em meio a grossos interesses. Ele destoa da galeria de homens que povoam a inf√Ęncia do narrador: Roberto, Paul√£o e, naturalmente, o pai.

Das mulheres, al√©m das duas tias que se espelham em contraste ‚ÄĒ tia Francisca, discreta e modesta; tia Matilde, exuberante e sexy ‚ÄĒ, h√° Lucr√©cia, prostituta, transformada em √ćris Quelem√©m, quando se torna profetisa e sacerdotisa de uma seita ecl√©tica no Jardim da Salva√ß√£o. Ela era a mulher por quem os homens perdiam a cabe√ßa: Paul√£o, que a maltratava; Valdevino, que a amava; e o pr√≥prio pai, o Dr. Moacyr, ex-m√©dico psiquiatra, ex-fazendeiro, um pouco jornalista (queria acompanhar visitantes ilustres e anotar a saga da constru√ß√£o de Bras√≠lia), que se tornaria s√≥cio de Paul√£o em neg√≥cios il√≠citos.

Cores e cheiros

A pesquisa em arquivos √© intensa. N√£o s√≥ os cadernos manuscritos deixados pelo pai, acompanhados de vers√Ķes da tia Francisca e, menos, de tia Matilde, mas jornais, revistas e fotografias, ajudaram o narrador a fazer t√£o prodigioso restauro de uma √©poca que ganha vida, surge do nada, levantada pela for√ßa dos objetos, das coisas, dos filmes que eram exibidos no cinema da Condessa, da moda, dos carros, dos m√≥veis de pernas palito. Cores, cheiros, percep√ß√Ķes de um mundo em movimento, em que cidades surgiam, cidades eram inundadas, pessoas enriqueciam, pessoas morriam e Bras√≠lia come√ßava a existir.

A m√ļsica tamb√©m contribui para esse levantar-se de um tempo hist√≥rico. Pelas evoca√ß√Ķes das prefer√™ncias das tias, a bossa-nova, o samba-can√ß√£o, as marchinhas do carnaval de 1958, Madureira chorou ou Mam√£e eu levei bomba, ou o samba de Billy Blanco ‚ÄĒ ¬ęN√£o vou, n√£o vou para Bras√≠lia / Nem eu nem minha fam√≠lia¬Ľ ‚ÄĒ s√£o refer√™ncias que fazem a trilha sonora de Cidade livre. H√° ainda a m√ļsica das chuvas nas telhas de zinco, primeiro um piano suave, logo rica em percuss√Ķes. N√£o raro ouvimos os sons de britadeiras e outras m√°quinas, como a m√ļsica dura e ritmada dos geradores. Ora mais fortes, ora mais fracos, l√Ęmpadas, lamparinas e lampi√Ķes garantem a luz, um pouco fantasmag√≥rica, das cenas noturnas, em tons de azul, cinza, branco e amarelo.

Primeiro n√ļcleo de moradia dentro do Plano Piloto, a W3 Sul passou a ser o foco da vida social da cidade nos primeiros anos, arrebanhando um significativo contingente da Cidade Livre. O pr√≥prio narrador faz esse percurso revelador de sua ascens√£o, indo terminar seu relato em uma casa do Lago Sul, heran√ßa de seu pai ‚ÄĒ casa que mais tarde perderia.

O herói Sayão

Embora povoada pelos personagens sempre citados quando se trata de recontar a saga da constru√ß√£o de Bras√≠lia ‚ÄĒ Juscelino, Niemeyer, Israel Pinheiro ‚ÄĒ a narrativa n√£o se det√©m sobre eles. Para o narrador, esses s√£o figurantes que interessam menos que os homens e mulheres mais comuns, de carne e osso, que participaram da vida e da aprendizagem de Jo√£o. Pois esse √© tamb√©m um romance de forma√ß√£o, com os rubores, fantasias e as culpas da sexualidade exuberante da adolesc√™ncia, com mortes e vissicitudes dolorosas a marcar o itiner√°rio do narrador. Talvez o √ļnico personagem que adquire um estatuto quase √©pico, devido ao seu carisma, ao seu idealismo e √† admira√ß√£o de quantos o conheceram, seja Bernardo Say√£o.

Engenheiro agr√īnomo envolvido com a moderniza√ß√£o da agricultura do Centro-Oeste desde o in√≠cio dos anos 40, Say√£o criou a col√īnia agr√≠cola de Ceres e em seu entusiasmo para desbravar o mato e plantar cidades, arregimentou muita gente para construir Bras√≠lia. Ele √© descrito como um homem corpulento, queixo quadrado e viril, um rosto expressivo queimado de sol, cabelo volumoso partido do lado e que parecia ‚ÄĒ do alto de seus 55 anos ‚ÄĒ ter dois metros de altura. Era ele quem comandava as principais opera√ß√Ķes da constru√ß√£o da cidade, um homem que preferia a a√ß√£o √† conversa fiada. Sua heroiciza√ß√£o se completa pela morte tr√°gica, tingida de mist√©rio e supersti√ß√£o, no meio da mata que desbastava para construir a estrada que ligaria Bras√≠lia a Bel√©m, no Par√°.

Atingido na cabe√ßa e na perna e no bra√ßo esquerdos por um pau vingativo, quando da derrubada de uma √°rvore gigantesca, Say√£o foi levado √†s pressas √† cidade mais pr√≥xima, mas n√£o resistiu. O relato detalhado dessa morte assim como do que se seguiu, o vel√≥rio, a como√ß√£o p√ļblica, o enterro concorrido, o pranto e a emo√ß√£o, podem explicar-se por ser o pai do narrador uma testemunha ocular de todos esses acontecimentos, pr√≥ximo que era do engenheiro. Este foi o primeiro enterro realizado no Campo da Esperan√ßa, cemit√©rio demarcado por Say√£o.

O narrador avisa desde o in√≠cio que seu relato surge n√£o por diletantismo, mas por necessidade. Necessidade de acertar contas com o pai, que depois ficamos sabendo ‚ÄĒ √© adotivo ‚ÄĒ, morto h√° seis meses; necessidade de decifrar o enigma da morte de Valdivino; descobrir o sentido de tantas mortes. De fato, o romance √© cheio de desastres, da morte tr√°gica de toda a fam√≠lia de Jo√£o, em um desastre de autom√≥vel, epis√≥dio que ele prefere n√£o comentar por√©m pontua sempre o relato como um n√ļcleo do afeto triste que dar√° o tom da narrativa. √Č como se a mem√≥ria estivesse coberta com uma mortalha e a hist√≥ria come√ßasse a azedar. Era preciso cont√°-la. Este √© o enigma mais pungente, a raz√£o de existir da narrativa, o que est√° por tr√°s da urg√™ncia de narrar.

O narrador tem voz discreta. L√ļcido, apesar dos surtos de loucura provocados por tortura durante a ditadura, n√£o faz estardalha√ßo nem se lam√ļria de sua condi√ß√£o; n√£o tem pressa em dizer o que aconteceu com o pai. Ao contr√°rio, a repeti√ß√£o do cen√°rio becketiano em que se d√£o estas entrevistas noturnas entre pai e filho, vai levando o leitor a deduzir toda uma massa de informa√ß√Ķes escamoteadas e s√≥ muito a custo narradas: a pris√£o e o envolvimento do pai nos neg√≥cios de Paul√£o, sua poss√≠vel responsabilidade ou omiss√£o na morte de Valdivino ‚ÄĒ se √© que morte houve. √Č um livro lutuoso, enigm√°tico, melanc√≥lico. Tuf√£o, o cachorro e companheiro do menino, que o diga. Toda a mat√©ria √© tratada com sobriedade, uma voz que, j√° adulta, consegue mesclar a delicadeza da crian√ßa e uma leve ironia adquirida no rolar da experi√™ncia. Por ser a realidade incomensur√°vel ser√° sempre necess√°rio narrar, urdindo fios, cruzando olhares, n√£o julgar e, em meio ao cipoal das vers√Ķes, experimentar sua pr√≥pria voz. Esse Jo√£o…

Ang√©lica Madeira √© professora e pesquisadora do departamento de Sociologia da Universidade de Bras√≠lia e professora do Instituto Rio Branco, do Minist√©rio das Rela√ß√Ķes Exteriores


REDES SOCIALES