Enigmas da Primavera

de João Almino (editora Record, 2015)

Fragmento

Capítulo que promete cenas tórridas, que não são razão para ser pulado, mesmo porque promessa não é fato nem dívida

—  Vire-se pro outro lado — Suzana lhe disse de novo, pouco depois de entrarem no quarto.

Desta vez Majnun não teve dúvida: era de propósito. Suzana entrou no banheiro mal enrolada no lençol, talvez nua por baixo daquele lençol. Ele se lembrou dos quadros do Museu do Prado, e a Suzana real foi assumindo as formas da Susana dos quadros. Logo se transformou na jovem mal enrolada num lençol que contemplava uma caveira, como  no  cartão  que  Laila lhe tinha enviado. Mau pressentimento. Prenúncio de perigo.

Tirou a cueca. Quando ela saiu do banheiro, foi ao encontro dela.

—  Não — ela gritou.

Majnun a jogou violentamente sobre a cama, os dois nus, se digladiando.

—  Sou virgem — ela disse.

Era o mesmo termo que o marido de Laila tinha aplicado a ele.

—  Se você soubesse…

—  Sei. E não me interessa. Xô, galinha!

Ela tinha razão. Ele era um zero à esquerda, um merda, um cafajeste.

—  Vou desaparecer. Você nunca mais vai me ver — disse.

—  Ótimo. Já vai tarde.

A parede tremeu. Devia ser novamente o casal vizinho, dois homens musculosos pressionando a cama sobre a parede como uma máquina bate-estaca. Desta vez Majnun não conseguiu esboçar seu riso, nem Suzana deu a entender que estava ouvindo.

Ele caminhou pelas calçadas estreitas, saltando mijos e bostas de cachorro. Por que sentir-se arrasado, quando deveria estar orgulhoso da ousadia?

Suzana ia certamente comentar com Carmen. De- pois, Carmen lhe diria: “Majnun, eu fazia melhor conceito de você. Agora sei quem você é: um cafajeste.” Que vergonha! Ele era mesmo um idiota. Por que não conseguia entender as mulheres? Suzana  ia  queixar-se aos pais, a notícia se espalharia por Brasília, chegaria a seu avô Dario, a sua avó Elvira, até a sua querida avó Mona… De boca em boca se amplificaria, ele seria ex- posto como um tarado, um agressor sexual… E Laila? Será que o perdoaria?

O desejo era real, tinha de reconhecer. Não amava Suzana, disso tinha certeza, mas que tesão sentia! Só não havia demonstrado antes por timidez. Desde que a tinha

visto desfazer a mala no dia da chegada a Madri, acordava de madrugada pensando nela. Ou mais exatamente em seu corpo; melhor dizendo, em detalhes de seu corpo. E então começava mentalmente a acariciá-la naquelas partes. E não somente a acariciá-la. Achara ingenuamente que aqueles exercícios mentais seriam suficientes para acalmar seus sentidos.

O que fizera era grave, reconheceu. Ele não era aquela pessoa que avançou sobre Suzana ou, ao contrário, vai ver aquele era seu eu verdadeiro, lascivo e confuso. Viu um bar de tapas com fachada de antiga farmácia: azulejos de friso azul e fundo amarelo dos dois lados da porta, nos quais estavam desenhados um homem engravatado de um lado e uma mulher de longo vestido verde do outro, ambos fazendo propaganda de remédios. Entrou sem saber o que queria. Pronunciou frases sem sentido, em português, e conseguiu no meio delas balbuciar, com lábios tremidos, a palavra “vino”, que lhe foi trazido uma e outra vez. Bebeu até completar a dose certa e necessária de insensibilidade, anestesia da alma de quem precisava seguir caminhando pelas ruas sem saber aonde ia.

Ofegante, respirava com dificuldade, e seu coração palpitava. Devia voltar ao hotel? Desculpar-se de joelhos com Suzana? Beijar seus pés? Pressentiu numa fração de segundo que Carmen o protegeria. Não, ele não tinha futuro. Tudo perdido. Melhor que a polícia o encontras- se, que fosse julgado e jogado na prisão, onde sua vida ganharia sentido. Desligou o celular para não ser impor- tunado.

Tonto, sentiu um calafrio no calor, talvez começo de febre. Para onde caminhava? Já havia passado por aquela rua vindo no sentido contrário. Estaria dando voltas em torno ao mesmo quarteirão? Numa praça triangular com mesas na calçada, gente alegre em torno de chopes e ta- ças de vinho gesticulava sem parar. Estaria ele perdido? Não. Bastava seguir o fluxo, caminhar por onde os outros caminhavam.

Haveria perigo em tomar as ruas desertas e escuras que mais o atraíam? Logo encontrou outro fluxo de gente e de carros. Que horas seriam? Reconheceu a Gran Vía, que desceu seguindo um grupo de jovens, talvez todos muçulmanos, pois a mulher ao centro estava coberta por uma burca. Chegou à Plaza de Cibeles, de onde avistou a Puerta de Alcalá. Em minutos, entrou no Parque do Retiro, lembrando-se de que ali se realizava a festa do perdão. Era disso que precisava, de perdão. Encontraria Suzana?

Passou pelo lago, tomou à esquerda e chegou a uma alameda de confessionários brancos, formas pontiagudas apontando para o alto qual rabo de avião. Pelo que estimou, duas centenas de confessionários. Mas já era tarde, não havia padres, a Festa do Perdão havia terminado, hoje ele não seria perdoado.

Pegou um caminho à direita que logo adiante fez uma curva também à direita. Apressou o passo pelo caminho deserto, tornou a virar à direita e regressou por outra ala- meda larga e mal iluminada.

Viu uma placa indicando o Palácio de Cristal. No caminho uma moça de blusa de mangas compridas, sentada num banco, sorriu para ele. Estaria atraindo as atenções?

O Palácio de Cristal estava fechado. Olhou seu interior através das portas de vidro. A exposição, intitulada “Continuará”, era de uma artista nascida em Sarajevo, Maja Bajevic. Teria a ver com os protestos do 15-M? Havia uma referência a Walter Benjamin, a uma de suas Teses sobre a Filosofia da História, especificamente a Tese 5. Sentou-se num degrau da escada. Uma breve pesquisa no Google remeteu-o a uma frase: “A verdadeira imagem do passado nos escapa, pois o passado é uma imagem que resplandece num instante e logo desaparece.”

Levantou-se e encostou o rosto numa das portas de vidro do Palácio. Viu o que pareciam andaimes, parte da exposição, e, acima deles, palavras escritas sobre uma placa de vidro inteiramente empoeirada. Tratava-se de uma instalação, “Performance/categoria-azar”. Eram palavras efêmeras, logo apagadas para que outras viessem a ser escritas. Majnun conseguiu enxergar uma citação de Antonio Machado: “Incerto é, na verdade, o futuro. Quem sabe o que vai passar? Mas incerto é também o pretérito. Quem sabe o que passou?”

Voltou pelo mesmo caminho. A moça ainda estaria lá? Continuaria sentada no banco? Novamente sorriria para ele?

Agora, na companhia de mais duas moças igualmente com blusas de manga comprida, ela conversava com um jovem vestido com uniforme azul de ginástica. Majnun passou vagarosamente ao lado e olhou para ela, que o ignorou. Estava concentrada na conversa, feita em inglês:

—  So, have you read the Mormon’s book?

Yes, I have, but…

A lua inquisidora e a novela trágica

Chegando novamente ao lago, viu do outro lado pessoas sentadas nos degraus do Monumento a Alfonso XII. Seguiu para lá. Sentindo um vento quente no rosto, emocionou-se com a lua tremulando na água. As árvores, ao fundo, desenhavam-se sobre o céu cinza pálido, sem nu- vem e tenuemente claro.

Um grupo de rapazes — o que ele tinha visto antes, com um rapaz a menos e sem a mulher de burca — conversava em árabe. Aproximou-se e os cumprimentou, também em árabe. Os jovens foram simpáticos e gentis, e sua simpatia e gentileza dobraram de tamanho quando souberam que ele vinha do Brasil. Quiseram enveredar a conversa pelo futebol, mas Majnun não gostava de futebol e ainda não acompanhava as polêmicas sobre a construção de estádios como viria a fazer em 2013.

Um dos jovens tinha um primo em São Paulo e havia alguns anos tinha pensado em morar no Brasil. Trocaram impressões sobre São Paulo, cidade que estava ficando mais violenta do que o Rio. O rapaz sorria, observando os

demais e principalmente Majnun, e repuxava, com gesto sutil e irônico, os cantos dos lábios, margeados por um bigode fino.

Majnun quis livrar-se daquele sorriso provocador com uma pergunta despudorada:

—  Vocês são todos muçulmanos?

Sim, todos eram. Mas vinham de distintos lugares. Ele vinha da Líbia; um outro, do Marrocos, de uma cidade do norte, próxima a Ceuta; o barbudo com uma touca na cabeça, dos Estados Unidos, e o louro de cabelo frisado, do Líbano.

—  Do Líbano?

Majnun então contou suas ligações com o Líbano e o Egito, através de seus avós paternos.

—  No caso desse cara, é o pai que vem do Oriente Médio — disse o líbio, apontando para o americano.

—  O pai dele nasceu no Iêmen — disse o marroquino. O americano manteve-se calado e sério.

Majnun falou sobre sua avó Mona e as conversas que havia tido com ela sobre o Islã, inclusive sobre sua possível conversão.

Finalmente levantou um assunto que o interessava especialmente naquela noite. Se dois jovens não casados tivessem relação sexual, Alá os perdoaria?

—  Alá não é vingativo. É tolerante, sapientíssimo, como diz o Corão — falou o rapaz sorridente de bigode fino, o líbio, cujos lábios afundados nos cantos continuavam irônicos.

Bom, não se engane. Pela Charia, tanto é fácil casar como se divorciar. Mas relação sexual fora do casamento, nem pensar. Os dois deviam morrer — falou em árabe, com um perceptível sotaque, o barbudo de touca, o americano, um rapaz alto, de rosto queimado e viril, marcado por pregas laterais.

Tinha olhos expressivos, cheios de orgulho e, pareceram a Majnun, de integridade.

—  Não exagere, onde isso acontece? — perguntou o líbio, o que tinha um primo em São Paulo.

—  Tem de acontecer em todo lugar, se são muçulmanos.

—  São suas ideias radicais.

—  Está no Corão.

—  Não desse jeito. E depois é preciso prova: quatro testemunhas têm que ter visto, mas visto mesmo tudo, até a pena dentro do tinteiro, como dizem os ulemás, o que torna a regra impraticável.

—  No caso de mulheres adúlteras, não há dúvida, de- vem ser apedrejadas até morrer — argumentou o barbudo de touca, o americano de rosto queimado.

—  O Corão não menciona apedrejamento e sim cem vergastadas — esclareceu o líbio —, mas mesmo isso não faz sentido hoje em dia. Para quem cometer adultério, homens e mulheres, diz para deixá-los tranquilos caso se arrependam e se corrijam.

—  Esses excessos existem em alguns poucos lugares, como o Irã: pena de morte por apedrejamento para as adúlteras e noventa e nove chicotadas para quem mantenha relações sexuais fora do casamento — esclareceu o libanês louro de cabelo frisado.

Majnun imaginou que, além de seus avanços sobre Suzana, se fosse muçulmano naquela noite teria cometido outra transgressão.

—  É proibido tomar vinho? — perguntou.

—  Não, não é. Se você lê o Livro com atenção, conclui que o vinho pode ser fabricado e que ele traz tanto malefícios quanto benefícios. A proibição é só para o ex- cesso, que leva à intoxicação — respondeu o líbio.

—  Na verdade, um verso de Medina diz que as bebi- das inebriantes são manobras abomináveis de Satanás — defendeu o americano.

—  Não confunda o rapaz. Olha, não é porque você gosta de vinho que não pode se converter — falou o líbio.

—  E existe alguma regra sobre como se vestir? — quis saber Majnun, lembrando-se de que sua avó Mona explicou que ela sequer precisava usar véu.

—  Veja a gente — disse o líbio. — Esse cara usa touca porque quer. Para as mulheres, sim…

—  Mas a fé tem suas regras sobre vestuário, ou não tem? Pois o comportamento exterior revela a retidão do espírito. A felicidade está em imitar Maomé. Por isso a obrigação de colocar um turbante quando se está de pé — informou o americano. — Para as mulheres, a obrigação é claríssima: devem conservar seus pudores; devem cobrir o colo com seus véus e não devem mostrar seus atrativos a não ser aos maridos, os pais, os sogros, os filhos, os ir- mãos…

—  Você gravou isso para controlar sua namorada? — interrompeu o líbio.

—  O pudor também é uma virtude masculina.

—  Veja só quem fala! Onde está seu turbante, cara?

—  contestou o líbio.

—  Confesso que deveria estar usando, embora eu esteja sentado. Minha touca substitui por enquanto o turbante. E também é importante que você comece com o pé direito quando calça os sapatos.

—  Por quê? — perguntou Majnun.

—  É o que deve ser feito para que as portas da felicidade não se fechem para você — esclareceu o barbudo alto, o americano de touca. — Da mesma forma que você deve comer com a mão direita e que, quando cortar as unhas, deve começar pelo indicador da mão direita e ter- minar pelo polegar da mão direita; e que deve começar pelo dedo mindinho do pé direito e terminar pelo dedo mindinho do pé esquerdo.

Majnun notou que aqueles dois, o líbio e o barbudo americano, não se entendiam. Seriam de seitas diferentes? Parecia óbvio que o barbudo pertencia a um grupo militante, talvez um dos que ele tinha visitado pela inter- net. Como achou grosseiro perguntar diretamente, introduziu o tema de maneira sutil:

—  Queria me converter ao Islã, como disse. Mas qual Islã?

—  O Islã é um só — disse o barbudo.

—  O que quero dizer é: seria sunita? Xiita? Ismaelita? Sufi? Druso? Alauita? Salafista? Wahabista? Que diferença faz?

—  Você está fazendo confusão. Alauita também é xiita. Os ismaelitas, apesar de só reconhecerem os primeiros sete imãs do xiismo e não os doze, são xiitas. Salafistas e wahabistas também são sunitas — falou o libanês de cabelo frisado.

Explicou que os sunitas e os xiitas se dividiam na questão da sucessão do Profeta. Para os xiitas, os imãs eram sucessores de Ali, primo e genro de Maomé, bem como quarto califa. Dentro do próprio xiismo também tinha havido divergências a propósito dos sucessores: o sexto imã, Ja’far as-Sadiq, designou como sucessor seu filho primogênito Ismael, mas, como este morreu antes do pai, a sucessão ficou com seu outro filho, Musa al-Kazim, reconhecido como verdadeiro sucessor pela maior parte dos xiitas. Outros acreditaram, porém, que Ismael não havia morrido, apenas se ocultado, e são seus segui- dores. Por isso são conhecidos como ismaelitas. Acham que Ismael voltará no final dos tempos. Dissimulam sua religião, se são obrigados a isso quando perseguidos, para se precaver e se resguardar, o que está baseado no Corão.

O marroquino, que havia estado calado, sugeriu, com olhar profundo e voz suave, que Majnun fosse a um centro, do qual fez menção de lhe dar o endereço, porém o líbio se opôs imediatamente, aconselhando Majnun a não se envolver “naquilo”. Sugeriu que fosse a uma mesquita.

—  Qual mesquita? — perguntou Majnun.

—  Vá à Mesquita da M-30, que todo mundo conhece e você pode localizar facilmente.

Deitado num banco do parque, usando sua mochila como travesseiro e olhando uma lua inquisidora, Majnun adormeceu com a ideia de que a única salvação estava em sua novela. Lá haveria lugar para ele, Suzana, Carmen e Laila.

Para tornar os quatro personagens irreconhecíveis, inclusive ele próprio, começou por vesti-los com suas mantas e respectivos turbantes e então transportou-os à Idade Média, mais precisamente a Granada. Salpicou uma ou outra palavra em árabe para impressionar o leitor. Fez de Suzana prisioneira cristã do sultão, ele próprio, Majnun, que as- sumiu o papel do pai de Boabdil, o sultão Abul Hassan, o vigésimo primeiro e penúltimo sultão de Granada. Ele, Majnun, não tinha uma barba tão espessa quanto a do sultão? Não era igualmente mau-caráter e violento? Não tinha o coração tão duro quanto o dele? Não era fato que ele trocou sua mulher, Fátima, por uma prisioneira cristã, Isabel de Solís, que passou a se chamar Soraya, assim como ele, Majnun, trocou injustamente Laila por Suzana? Suzana poderia ser Soraya, estrela da madrugada, e com ela Majnun teria dois filhos, Saab e Nasr, os mesmos que o sultão teve com Soraya. Mas seria justo comparar Laila com Fátima, também conhecida como Aixa al-Hurra, a liberta, honrada e honesta? Laila era menos virtuosa e mais atraente do que ela, mas na ficção tudo cabia. Cabia sobretudo descrever-se como um depravado. Pois Abu-l-Hassan Ali não havia uma vez convidado membros da corte para assistir a um banho de Soraya e depois oferecido a cada um deles uma tigela da água em que ela se havia banhado? Não bebia vinho e fumava haxixe em festas com escravas? Não era verdade que durante os treze primeiros séculos da Hégira, segundo a Charia, o homem podia comprar escravas e ter relações sexuais com elas? Que até a abolição do califado por Ata-turk em 1924 os califas tinham seus haréns, “reservas” de centenas ou mesmo de milhares de mulheres?

A novela seria realista e trágica. Trágica para ele, personagem principal, que perderia a guerra e o trono para seu filho. Para Suzana, aliás Soraya, seria o contrário: ela triunfaria quando Boabdil capitulasse diante dos cristãos; voltaria a ter seu nome cristão e batizaria seus dois filhos, que passariam a ser infantes de Granada com os nomes Don Fernando e Don Juan.

Majnun sentiu merecer esse fim trágico. Se nunca ha- via desempenhado os papéis execráveis do sultão, tinha sido apenas por não ser sultão, viver no século XXI e Suzana não ser sua escrava. Ele era vil e humano como a maldade, ou era a maldade mesma.

Pensou em anotar esses pensamentos, acrescentando uma ressalva: se não modificasse aquela novela, ele seria injusto com Laila, relegada ao papel de uma sultana abandonada, e sobretudo com Carmen, esquecida depois das primeiras frases. Mas nada anotou, pois estava escuro, e ele já instalado e sonolento no banco do parque.

Onde estão a honra e a desonra?

Ao acordar com a claridade do dia, uma quinta-feira, 18 de agosto, quando talvez o Papa já estivesse na cidade, notou que na noite anterior havia entrado outro e-mail de Laila no seu iPhone: “nao adianta se esconder a policia sabe que vc comprou as balas.”

O que fazer? Não seria um ato de covardia e sim, ao contrário, de coragem abandonar todos — Laila, Carmen, Suzana, seus avós —, desaparecer sem deixar traço e seguir para um país da África ou do Oriente Médio para ajudar numa revolução. Apostava que era isso que o ame- ricano barbudo estava fazendo. Por que não havia ficado com o contato dele?

Não ia se preocupar. Algum dia, se voltasse ao Brasil, esclareceria tudo. E se houvesse uma ordem de prisão pela Interpol?

Inquieto, passeou pelo parque e comprou de um mantero sudanês um chapéu de papel feito na China. Depois tomou o cuidado de se desviar do carro da polícia que afugentava os vendedores ambulantes, inclusive o sudanês. Saiu do parque e tomou café da manhã numa padaria da Plaza de la Independencia.

Caminhou até o Paseo del Prado e entrou no Museu Thyssen-Bornemisza. Passou meia hora diante de um quadro de Monet, “A ponte de Charing Cross”, de 1899, uma tarde, a luz filtrada através da bruma do inverno, algumas barcaças sob a ponte, a silhueta do Parlamento insinuando-se ao fundo. Imaginou jogar-se daquela ponte e se dissolver na paisagem imprecisa.

“Suzana tem razão. Está horrivelmente quente”, pen- sou, ao sair. Tirou a camisa, seguiu em direção ao Pra- do, subiu à direita, mochila nas costas, pela Calle de las Huertas, e foi lendo frases de escritores inscritas no calçamento. Deu por fim na Plaza de Santa Ana, cercada de restaurantes e cervejarias, cheia de gente.

Numa mesa em plena praça, pediu una caña e solomillo, um lombo de porco, acompanhado de batatas cozidas. Poderia se comprometer por razões religiosas a deixar de comer uma carne deliciosa? Até poderia aceitar que “a dieta é o começo de todo tratamento”, como queria o Profeta, mas para isso deixar de comer carne de porco?

As pálpebras começaram a pesar. Um rapaz da mesa ao lado lhe fez uma pergunta em inglês, que ele não entendeu. Majnun olhou ao redor. Já havia passado por ali, mas os prédios não lhe pareciam familiares, era como se os visse pela primeira vez e estivesse num sonho. Os dedos de suas mãos estavam inchados, talvez por causa do calor. Pensou em Suzana, em Laila. Seu coração bateu apressado e confuso. Sentiu-se asfixiado, tinha de sair dali rapidamente.

Poderia Carmen ser sua salvadora? Se ela tivesse celular, ligaria para ela. Para Suzana é que não. De novo o rapaz da mesa ao lado tentou iniciar uma conversa. “Desculpe”, Majnun respondeu, em português, “não entendo nada”. Chamou o garçom, pagou a conta e saiu, fugindo do rapaz.

Desceu lentamente na direção do bairro de Lavapiés, admirando as fachadas decadentes. Depois de quarenta minutos perambulando, encontrou um hotel barato com conexão de internet.

Subiu quatro escadas com a mochila nas costas e se deitou, sem conseguir fazer a sesta espanhola. Com olhos pregados no teto e boca semiaberta, afundou-se em pensamentos amargos, questionando-se sobre os rumos da vida, entre os quais os únicos claros eram a doença, a morte ou a prisão, a menos que partisse para lutar em algum lugar impelido pela mágoa, que pode ser autora de atos nobres, heroicos às vezes.

O tempo estava parado. Não podia ser medido com o metro das expectativas. Além disso, quando passava, não usava medidas uniformes, não era ordeiro e o surpreendia com saltos brutais. A virtude e o vício, a honra e a desonra, onde estariam?

Pensou em se desfazer dos escrúpulos para provar o sentimento cego, ser bandido, sem o peso da moral e da boa reputação, experimentando a liberdade selvagem. Seu coração palpitou quando imaginou o corpo nu de Suzana se debatendo na cama contra o seu. Ele devia voltar ao hotel e enfrentá-la; dizer-lhe tudo. Mas o quê? Ele não sabia o que queria e muito menos sabia ser mau. Era um mau mau.

Finalmente, resolveu fazer um esforço de reflexão racional, como um outro de si mesmo, um crítico que pudesse observá-lo a distância. Pensou no único conselho que seu avô Sérgio tinha lhe dado, citando um filósofo alemão: “Faze aquilo que quiseres ver convertido em lei universal.” Então, como se tivesse encontrado o caminho, tirou da mochila seu Corão em árabe. Sentou-se na cadeira, estirou as pernas sobre a cama, apoiou o computador sobre as coxas e se pôs à tarefa. Primeiro, faria sua pesquisa na internet para tentar entender melhor as diferenças entre sunitas e xiitas. Depois leria suras no seu Corão. Logo encontrou uma informação: com o assassinato do quarto califa, Ali, primeiro imã xiita, o califado ficou em mãos de Muawiya, que teve muitos seguidores

os sunitas, como sua avó — mas não foi reconhecido pelos xiitas, porque, ao contrário de Ali, primo e genro de Maomé, nas suas veias não corria o sangue do Profeta.

A touca não faz o muçulmano

Era 19 de agosto, sexta-feira. Acordou cedo e tomou um longo banho, enquanto repassava os sonhos da noite. Neles Laila e Carmen estavam confundidas, e Suzana inexplicavelmente não havia aparecido. Melhor, pensou. Ela era insignificante. Nunca mais queria vê-la. Nunca. Nunca mais mesmo! Essa mera ideia lhe trouxe uma ponta de alegria que transpareceu no leve sorriso dos músculos relaxados do rosto. Devia ter dormido mais, porém se sentia bem-disposto. Lavou os pés entre os dedos, pois não queria passar vergonha se na Mesquita o fizessem lavar os pés. Sexta-feira era dia de celebração, dia santificado, o domingo dos muçulmanos.

Aparou a barba e cortou as unhas das mãos e dos pés como indicado pelo barbudo americano. Escolheu as melhores roupas: calça de linho, mesmo amassada, e camisa polo azul. Será que seu chapéu podia substituir um turbante? Pôs os sapatos, em vez dos tênis com que andara desde que havia saído de Brasília.

Depois de comer algo no Café Barbieri, estudou o mapa no Google e seguiu de ônibus, Corão debaixo do braço, em direção à Mesquita da M-30, a Mesquita Omar de Madri.


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