Escritos de Fronteira

Sem se prender a modas ou ao mercado, o diplomata e escritor Jo√£o Almino ocupa posi√ß√£o singular entre seus contempor√Ęneos

13/07/2012 às 00h00
Escritos de fronteira
Por José Castello | Para o Valor, de Curitiba

Almino: “Continuo acreditando que a boa literatura vence as barreiras de cada √©poca e, quanto maiores e mais numerosas sejam as barreiras, mais material ter√° a explorar”

Diplomata de carreira – serve atualmente em Madri como c√īnsul-geral do Brasil -, o escritor Jo√£o Almino acostumou-se a uma vida m√≥vel e √†s situa√ß√Ķes de transi√ß√£o. Viveu em Mossor√≥, onde nasceu, at√© os 12 anos de idade. Passou quatro temporadas em Bras√≠lia, num total de dez anos. Antes de Madri, serviu em Washington, San Francisco, Miami e Chicago. Tamb√©m sua literatura se ergue em um espa√ßo intermedi√°rio, de fronteira, em que as coisas j√° n√£o s√£o mais, mas ainda n√£o s√£o. Seu “Quinteto de Bras√≠lia” – composto por cinco romances publicados entre 1987 e 2010 – narra hist√≥rias em que os prazeres da utopia se misturam aos movimentos predat√≥rios do real. Em que futuro e passado, como em um choque c√≥smico, n√£o s√≥ se encontram, mas se fundem.

Almino √©, antes de tudo, um homem discreto, e essa talvez seja a origem n√£o s√≥ da firmeza, mas da delicadeza de sua fic√ß√£o. N√£o frequenta ambientes liter√°rios, n√£o participa de grupos, tem um car√°ter introvertido. N√£o pensa s√≥ em literatura: “A coisa mais chata para um escritor √© ficar confinado a falar do que escreve”, afirma. “Tenho v√°rios amigos escritores, sobretudo no Brasil, nos Estados Unidos e no M√©xico, mas meus interlocutores n√£o s√£o necessariamente escritores”. N√£o v√™ a literatura como uma tranca, mas sim como uma chave. Lugar n√£o de reclus√£o e resigna√ß√£o, mas de liberdade e aventura.

Tampouco se prende a seu tempo e suas circunst√Ęncias. √Ä zoeira do presente, prefere conversar com os que j√° se foram. “Meus principais interlocutores liter√°rios est√£o mortos”, diz. “S√£o os autores de que mais gosto e a cujos livros volto com frequ√™ncia.” N√£o mostra manuscritos nem fala a respeito dos romances que est√° a escrever. Quando o livro est√° pronto, passa-o para a mulher e, no m√°ximo, para algum amigo muito pr√≥ximo – que n√£o √©, necessariamente, da √°rea liter√°ria. Almino v√™ a literatura como um instrumento de escava√ß√£o do mundo que interessa a todos os homens.

Embora seus relatos estejam ambientados no mundo contempor√Ęneo, ele n√£o cr√™ que a literatura seja ref√©m do presente. “Continuo acreditando que a boa literatura vence as barreiras de cada √©poca e, quanto maiores e mais numerosas sejam as barreiras, mais material ter√° a explorar.” Em vez de o paralisar, os obst√°culos, ao contr√°rio, o fazem avan√ßar. Reconhece, por exemplo, que a literatura contempor√Ęnea est√° fadada a um di√°logo intenso com o mundo digital e das imagens, mas tamb√©m essa constata√ß√£o, em vez de bloquear seu caminho, se torna mais uma fonte de energia.

Recluso na fronteira do presente, Jo√£o Almino n√£o se preocupa com grupos ou tend√™ncias liter√°rias. Constata: “Minha literatura n√£o poderia ser inclu√≠da na corrente politicamente engajada do per√≠odo do regime militar. Tampouco tem afinidade com a corrente liter√°ria que privilegia o tema da viol√™ncia urbana”. Essa posi√ß√£o solit√°ria, em vez de assust√°-lo, permite que se aproxime ainda mais de si. √Č uma posi√ß√£o contemplativa – como a de um aventureiro que, ap√≥s escalar uma montanha, pode enfim divisar a paisagem com serenidade e isen√ß√£o. “N√£o abdico da dimens√£o reflexiva da literatura”, afirma. “Uma dimens√£o que a meu ver, entre as artes, somente ela pode explorar com a devida profundidade.”

“O trabalho do escritor √© de resist√™ncia, de proposi√ß√£o de novas maneiras de ver o mundo e de organizar seu caos”, diz Almino

A defesa de uma literatura profunda se manifesta no car√°ter mais intimista de sua escrita. N√£o √© por outro motivo que o cr√≠tico brasiliense Denilson Lopes, por exemplo, incluiu Jo√£o Almino entre os autores da colet√Ęnea de ensaios “A Delicadeza”, publicado pela Editora da Universidade de Bras√≠lia em 2008. Ensaios que t√™m como objeto artistas sutis, em cujas obras o afeto ocupa um lugar central. Almino aceita sua inclus√£o entre os intimistas, embora n√£o se sinta “parte de qualquer grupo e ache que a literatura √© sempre um trabalho individual e solit√°rio”. Ocupa, assim, um lugar no grupo dos que n√£o t√™m um grupo, posi√ß√£o que protege suas fic√ß√Ķes das modas e das exig√™ncias de mercado.

√Č um homem met√≥dico, que escreve sempre nas primeiras horas da manh√£, todos os dias, como se cumprisse um rito religioso. Durante o dia, esquece-se da literatura para se dedicar a seu trabalho diplom√°tico. √Ä noite, prefere ler. Reconhece que h√° nessa rotina um forte aspecto de resist√™ncia. “O trabalho do escritor √© um trabalho de resist√™ncia, de proposi√ß√£o de novas maneiras de ver o mundo e de organizar seu caos.” Ao escrever, sabe que assume responsabilidades, n√£o institucionais, ou em nome alheio, mas responsabilidades √©ticas. “Acho que hoje existem realidades e desafios novos que exigem a participa√ß√£o do escritor”, observa, revelando, ao mesmo tempo, seu entusiasmo pelas novas tecnologias. “Elas ajudam a disseminar a palavra e facilitam seu acesso.” Sincronizado com seu tempo, Almino o observa, contudo, a dist√Ęncia. Com prud√™ncia, mas com aten√ß√£o. Com dist√Ęncia, mas com entrega.

Enquanto o mundo avan√ßa, por exemplo, se mant√©m agarrado a seus autores de forma√ß√£o: Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Marcel Proust, Dostoi√©vski e Jorge Luis Borges. S√£o “seus” n√£o porque se assemelhem, mas, ao contr√°rio, porque s√£o muito diferentes entre si. Com cada um aprende uma coisa diferente. “Em alguns casos, podem me ensinar a ser contido e econ√īmico, em outros a liberar minha imagina√ß√£o, em outros ainda a como impregnar a literatura com as quest√Ķes de nosso tempo sem faz√™-la presa de ideologias ou, ainda, como mergulhar na alma humana.” Li√ß√Ķes discrepantes, que o empurram para vias diferentes, que lhe abrem janelas e o levam a respirar. Constata, com humildade: “Li√ß√Ķes que n√£o sei se aprendi, mas est√£o sempre l√°, se oferecendo a mim a cada leitura”.

Outra aliada constante de Jo√£o Almino √© a lentid√£o: “Meu projeto liter√°rio vem de longa data e procuro execut√°-lo sem pressa.” Levou 16 anos para compor o “Quinteto de Bras√≠lia”. O primeiro romance, “Samba-Enredo”, √© de 1994. O quinto, “Cidade Livre”, de 2010. No momento, trabalha em nova fic√ß√£o, iniciada logo ap√≥s o lan√ßamento de “Cidade Livre”. Mas n√£o tem pressa alguma. “Passei algum tempo tomando notas, ensaiando come√ßos e fazendo leituras que poderiam me ajudar”, descreve. “Iniciei a escrita do que √© a primeira – estou absolutamente certo disso – de uma s√©rie de vers√Ķes. N√£o tenho a menor ideia de quando vou terminar.” Para ele, n√£o √© o escritor que imp√Ķe seu ritmo, mas a palavra. O escritor se limita a segui-la, sem muitas certezas a respeito da dire√ß√£o em que caminha e do tempo de percurso que tem pela frente. Estrat√©gia que exige do homem Jo√£o Almino, sobretudo, um atributo: abnega√ß√£o.

“Quando meus personagens morrem, eu n√£o morro com eles. Ao contr√°rio, √†s vezes os mortos me deixam mais vivo”

Foi depois de longa temporada diplom√°tica nos Estados Unidos que se transferiu para um posto em Madri. Ressalva: “Mudei de escrit√≥rio, apartamento, cidade e pa√≠s. Mas n√£o mudei meu ritmo e hor√°rios de trabalho”. Mora, agora, a 50 metros da Biblioteca Nacional da Espanha, em Recoletos, o que o aproxima, de modo quase inevit√°vel, da literatura espanhola. A literatura, por√©m, cria uma esp√©cie de manto protetor, sob o qual o escritor se abriga e carrega consigo pra qualquer lugar. “Meus h√°bitos de trabalho t√™m sido os mesmos h√° d√©cadas.” Defende assim, com √™nfase, o valor da rotina. E a necessidade de, sejam quais forem as circunst√Ęncias, preservar-se.

A persist√™ncia de Jo√£o Almino em seu caminho lhe deu um p√ļblico fiel. “E eu diria at√© entusiasta, mas pequeno.” S√£o leitores que admiram, entre outras coisas, a dist√Ęncia preventiva que conserva em rela√ß√£o ao mundo. “N√£o me sinto satisfeito ou insatisfeito com a realidade do mercado editorial”, afirma – sem esconder o esp√≠rito diplom√°tico. “Porque uma necessidade interior, aliada a circunst√Ęncias, me levaram a n√£o escrever para o mercado, nem pensando nele.” Distancia-se, mais uma vez, do centro, preferindo a serenidade das margens. Ali onde, enfim, o deixam quieto e pode escrever o que quer.

Circunspecto, n√£o √© dado a supersti√ß√Ķes ou manias. Com os anos, livrou-se das poucas que, na juventude, cultivou. “J√° tive meu caderninho de notas sempre no bolso, o que hoje me parece desnecess√°rio.” Prefere escrever no escrit√≥rio, mas escreve tamb√©m em caf√©s, bibliotecas, “num alpendre em frente ao mar ou numa sombra embaixo de uma mangueira”. Insiste: “O mais importante √© ter algumas horas dedicadas √† escrita diariamente, o local e o ambiente de trabalho me s√£o secund√°rios”. O mais importante √© o encontro consigo mesmo.

Almino conhece de perto as oscila√ß√Ķes que definem a escrita. “Hoje, como no passado, escrever para mim envolve tanto sofrimento quanto prazer.” Tudo inclui, sem nada descartar. “Sofrimento porque n√£o √© f√°cil, envolve grande dose de disciplina, an√°lise e sacrif√≠cio. Prazer porque libera minha mente e minha imagina√ß√£o, me deixa com os sentidos mais abertos para tudo o que ocorre ao meu redor e me d√° enorme satisfa√ß√£o quando consigo encontrar uma forma que considero esteticamente bem-acabada para exprimir algum sentimento, ideia ou a√ß√£o.”

Reconhece Jo√£o Almino que, seja como for, a literatura o empurra para terrenos dolorosos e quest√Ķes dif√≠ceis. Ao escrever, v√™-se em contato mais pr√≥ximo com as ang√ļstias do mundo contempor√Ęneo, os dramas amorosos e temas √°speros como a doen√ßa e a morte. Contudo, desmentindo a c√©lebre m√°xima de Gustave Flaubert – “Madame Bovary sou eu” -, ressalva, usando o tema da morte como exemplo: “Quando meus personagens morrem, eu n√£o morro com eles. Ao contr√°rio, √†s vezes os mortos me deixam mais vivo”.

N√£o se preocupa que seus romances se pare√ßam uns com os outros ou sigam certa coer√™ncia interna. “Acho meus romances muito diferentes uns dos outros.” Se buscasse uma ideia que perpassa todos eles, talvez escolhesse, pensa, a reflex√£o sobre o tempo: “Os temas do instante e da funda√ß√£o, do novo, da mem√≥ria e do esquecimento”. Obsess√Ķes que empurram Jo√£o Almino, mais uma vez, para as margens do contempor√Ęneo. Zonas des√©rticas, das quais a passagem do tempo parece banida e onde a aventura humana se perpetua. Fronteiras vazias, de onde ele observa, distante e silencioso, mas tamb√©m com o pensamento a ferver, o veloz passar de nossos dias.

Jos√© Castello √© jornalista e escritor. Autor, entre outros, de “Ribamar” (Bertrand Brasil, Pr√™mio Jabuti de romance) e de “Vinicius: o Poeta da Paix√£o” (Companhia das Letras, Jabuti de ensaio). √Č colunista do “Prosa & Verso” de “O Globo”, no qual mant√©m o blog “A literatura na poltrona” (www.oglobo.com.br/blogs/literatura)

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