Retrato de um período turbulento

RASCUNHO, janeiro 2016 / Entrevistas / Retrato de um período turbulento
Texto publicado na edição #188

Retrato de um período turbulento

Entrevista com Jo√£o Almino, autor de “Enigmas da primavera”
> Por MARCIO RENATO DOS SANTOS

Jo√£o Almino: ‚ÄúO que divide o mundo n√£o s√£o os pontos cardeais, mas a mis√©ria e a riqueza, o acesso ou n√£o ao conhecimento e √† tecnologia, a tirania e a liberdade‚ÄĚ.

As manifesta√ß√Ķes de rua que tomaram conta do Brasil recente, e at√© de outros pa√≠ses, est√£o, em alguma medida, recriadas nas p√°ginas de Enigmas da primavera, o novo romance de Jo√£o Almino. Edi√ß√Ķes da Jornada Mundial da Juventude aparecem nesta longa narrativa ficcional. Mas a atualidade do livro est√°, principalmente, traduzida no personagem Majnun, de 20 anos, que ‚ÄĒ na defini√ß√£o de Almino ‚ÄĒ ‚Äúvive tempos pouco heroicos, marcados pela passividade, mas quer se rebelar contra essa condi√ß√£o. H√° tra√ßos comuns em v√°rias regi√Ķes do globo nas oportunidades que se abrem para os jovens e tamb√©m e sobretudo nas dificuldades que eles enfrentam nesse mundo de rela√ß√Ķes virtuais e de volatilidade no mercado de trabalho‚ÄĚ.
Majnun representa o her√≥i adiado, o jovem do Brasil contempor√Ęneo, para quem conseguir emprego est√°, guardadas algumas propor√ß√Ķes, t√£o dif√≠cil quanto ganhar na mega-sena. E n√£o s√£o poucos os impasses dele. Na realidade, Almino recriou um poema persa do s√©culo 12, Layla e Majnun, que teria inspirado William Shakespeare a escrever Romeu e Julieta. Em Enigmas da primavera, a rela√ß√£o entre Majnun e Laila tamb√©m ser√° invi√°vel, da mesma maneira que o protagonista do romance tenta, mas n√£o consegue se relacionar com outras duas personagens, Suzana e Carmen.
O mundo parece, enfim, inimigo para Majnun. Mas h√° outras quest√Ķes nesta obra, como a depend√™ncia e as ilus√Ķes do universo virtual, pol√≠tica, religi√£o e, a exemplo de um personagem da trama, o autor afirma: ‚ÄúO Ocidente n√£o existe‚ÄĚ. Ap√≥s uma temporada na Espanha, entre 2011 e 2015, Almino est√° vivendo em Bras√≠lia ‚ÄĒ ele √© o diretor da Ag√™ncia Brasileira de Coopera√ß√£o do Minist√©rio das Rela√ß√Ķes Exteriores. Por e-mail, respondeu a esta entrevista, abordando principalmente a obra rec√©m-publicada. Mas tamb√©m comenta, por exemplo, o r√≥tulo que a cr√≠tica aplica a seus livros anteriores, Ideias para onde passar o fim do mundo (1987), Samba-enredo (1994), As cinco esta√ß√Ķes do amor (2001), O livro das emo√ß√Ķes, (2008) e Cidade livre (2010) ‚ÄĒ Pr√™mio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura 2011, definidos como Quinteto de Bras√≠lia ‚ÄĒ pelo fato de serem ambientados na Capital Federal. ‚ÄúSe as hist√≥rias desses romances tivessem lugar em S√£o Paulo, duvido que eles tivessem sido considerados como um Quinteto de S√£o Paulo‚ÄĚ, questiona.

Após uma série de romances com cenário em Brasília, alguns deles sobre a cidade, surge Enigmas da primavera, longa narrativa que também se passa na Capital Federal, mas com desdobramentos na Europa. O seu projeto literário começa, conscientemente, a se modificar a partir deste novo livro?
At√© Cidade livre, meu romance anterior a Enigmas da primavera, n√£o tive a inten√ß√£o de construir romances sobre Bras√≠lia. Apenas minhas hist√≥rias se passavam l√°, e isso chamou a aten√ß√£o da cr√≠tica e de leitores, a ponto de os romances terem sido descritos como uma Trilogia de Bras√≠lia, um Quarteto de Bras√≠lia e depois um Quinteto de Bras√≠lia. Se as hist√≥rias desses romances tivessem lugar em S√£o Paulo, duvido que eles tivessem sido considerados como um Quinteto de S√£o Paulo. Em Cidade livre foi diferente. Houve a inten√ß√£o de descrever o clima da constru√ß√£o de Bras√≠lia e, ao lado de hist√≥rias inventadas, eu trouxe para o livro muito da cr√īnica e dos personagens da √©poca. O que Enigmas da primavera tem em comum com Cidade livre √© um volume expressivo de pesquisa, menos presente nos quatro romances anteriores. Como sempre acreditei que uma cidade n√£o define uma literatura, podendo haver projetos liter√°rios radicalmente distintos em hist√≥rias que tenham por cen√°rio a mesma cidade, bem como projetos liter√°rios semelhantes retratando cidades distintas, n√£o considero que fazer meus personagens sa√≠rem de Bras√≠lia sinalize, em si, uma modifica√ß√£o do projeto liter√°rio, embora n√£o negue que havia um prop√≥sito em situar as hist√≥rias daqueles cinco romances em Bras√≠lia. Por outro lado, procurei em cada livro n√£o me repetir. Em cada um deles tentei explorar uma nova t√©cnica, fazendo varia√ß√Ķes em torno de estruturas e da voz narrativa. Quando alguns personagens se repetiram, apareceram de √Ęngulos distintos, segundo o livro. Ou seja, faz parte de meu projeto liter√°rio, me aventurar, explorar novos caminhos.
Faz parte de meu projeto liter√°rio, me aventurar, explorar novos caminhos.

Uma das quest√Ķes que Enigmas da primavera apresenta √© o envolvimento emocional do personagem Majnun com tr√™s mulheres. ‚ÄúElas preenchiam tr√™s necessidades suas. Carmen era amorosa, cuidava dele. Com Laila, era paix√£o. Podia repudiar Suzana quando o tes√£o acabasse e substitu√≠-la por outra.‚ÄĚ Como foi construir as tr√™s personagens femininas? Somadas, com todas as suas caracter√≠sticas, elas representam, em conjunto, aquilo que um homem, representado por Majnun, ou por algum clich√™ de homem, esperaria encontrar, em tese, em uma √ļnica mulher?
Tentei fazer com que cada uma delas tivesse uma personalidade pr√≥pria bem marcada; que fossem diferentes entre si e ao mesmo tempo n√£o correspondessem a um arqu√©tipo ou tipo ideal. Procurei construir as rela√ß√Ķes do personagem masculino com cada uma delas tamb√©m fugindo aos clich√™s. Essas rela√ß√Ķes evoluem ao longo do romance, e o final do livro aponta caminhos inesperados. As utopias amorosas, pol√≠ticas ou religiosas do personagem central s√£o pr√≥prios de sua juventude, de sua busca e de suas incertezas.

Em Enigmas da primavera, o relacionamento de Majnun e Laila se revelar√° invi√°vel, da mesma maneira que o poeta persa do s√©culo 12 Nizami tamb√©m apresentou um amor imposs√≠vel no poema Layla e Majnun que, algumas vozes comentam, teria instigado William Shakespeare a escrever Romeu e Julieta. A sua proposta foi estabelecer esse di√°logo com Nizami, indiretamente com Shakespeare, e tamb√©m com Eric Clapton ‚ÄĒ uma vez que a sua narrativa menciona a letra da can√ß√£o Layla?
Sim, o diálogo com Nizami, e indiretamente com Shakespeare, está explicitado no romance. Não se trata de uma reprodução da lenda árabe, mas de sua recriação. Quanto a Eric Clapton, não passa de uma citação, que vem muito a propósito.

Na p√°gina 264, Laila diz para Majnun: ‚ÄúVoc√™ √© jovem e tem todo um futuro pela frente‚ÄĚ. Majnun n√£o passou no vestibular de Hist√≥ria, elabora uma narrativa ficcional e, como ele mesmo diz: ‚ÄúN√£o sei o que quero ser‚ÄĚ. Majnun representa um tipo de jovem brasileiro, para quem o presente estaria invi√°vel? ‚ÄúQue mundo era aquele em que um jovem conseguir um emprego era o equivalente a ganhar numa loteria?‚ÄĚ Ele √© um her√≥i adiado?
Ele vive tempos pouco heroicos, marcados pela passividade, mas quer se rebelar contra essa condi√ß√£o. H√° tra√ßos comuns em v√°rias regi√Ķes do globo nas oportunidades que se abrem para os jovens e tamb√©m e sobretudo nas dificuldades que eles enfrentam nesse mundo de rela√ß√Ķes virtuais e de volatilidade no mercado de trabalho.

Majnun diz ter vontade de a√ß√£o. ‚ÄúQueria ter vivido nos anos sessenta‚Ķ Ou setenta‚ÄĚ. De acordo com a narra√ß√£o, ‚ÄúO desejo era genu√≠no, n√£o apenas pela inveja que sentia da √©poca vivida por seus av√≥s maternos em Paris, mas tamb√©m por tudo o que ouvira ao longo dos anos de seus av√≥s paternos, que haviam se conhecido em Beirute. Todos tinham uma hist√≥ria para contar de uma √©poca de grandes acontecimentos. E ele, participaria algum dia de um grande acontecimento?‚ÄĚ A sua vis√£o do tempo presente, em contraponto aos anos sessenta ou setenta [tempo da juventude dos av√īs de Majnun], est√° representada por Majnun e as ang√ļstias que ele sente?
Os anos sessenta e setenta foram tempos dif√≠ceis. A revolu√ß√£o de costumes n√£o se fez sem ang√ļstia. As tentativas de revolu√ß√£o pol√≠tica e social e suas vis√Ķes ut√≥picas levaram em v√°rios lugares, no Brasil inclusive, a conflitos armados. Mas a nostalgia do n√£o vivido serve de ant√≠doto para o conformismo e para atenuar outro tipo de ang√ļstia, aquela dos que se sentem impotentes para mudar o mundo.

Em determinado momento da narra√ß√£o, o leitor se depara com a frase: ‚ÄúA novidade est√° no Oriente M√©dio, nos pa√≠ses √°rabes‚ÄĚ. E tamb√©m: ‚ÄúO Ocidente n√£o existe‚ÄĚ. E ainda: ‚ÄúA op√ß√£o melhor para o futuro da humanidade era o Isl√£‚ÄĚ. Majnun, de acordo com o narrador, vai chegar √† conclus√£o de que o Isl√£ ‚Äúera a religi√£o da igualdade‚ÄĚ. Em Enigmas da primavera h√° uma discuss√£o intensa sobre o Isl√£. H√° no mundo muitos, a exemplo de Majnun, interessados no Isl√£? O que isso representa no presente? H√° uma frase: ‚ÄúAs ditaduras religiosas s√£o as piores‚ÄĚ. O mundo corre esse risco [de ditadura ou ditaduras religiosas]?
Acredito firmemente que o Ocidente n√£o existe e que se essa cren√ßa fosse generalizada, haveria menos conflitos no mundo. O ocidentalismo √© uma ideologia t√£o nefasta quanto o orientalismo de que falava Edward Said. Ela est√° a servi√ßo do conservadorismo em toda a parte. Penso sobretudo na ideia err√īnea de associar um conceito de ‚ÄúOcidente‚ÄĚ com a toler√Ęncia e os ideais liberais e democr√°ticos. O que dizer de alguns dos piores exemplos de tirania e de experi√™ncia totalit√°ria que existiram, n√£o h√° muito tempo, na Europa? E isso sem falar de experi√™ncias mais antigas. Enquanto o imperador mu√ßulmano e mongol da √ćndia, Akbar, escrevia sobre a toler√Ęncia religiosa, Giordano Bruno era queimado em 1600 pela inquisi√ß√£o no Campo dei Fiori em Roma. Hoje em dia, a civiliza√ß√£o √© uma s√≥. Ela √© um processo. Sempre est√° em constru√ß√£o. Uma das previs√Ķes de Marx se concretizou, e o capitalismo atingiu todo o mundo. A revolu√ß√£o tecnol√≥gica tamb√©m √© um fen√īmeno mundial. O chamado Ocidente e seus valores s√£o o resultado de contribui√ß√Ķes de v√°rias culturas, n√£o apenas judaico-crist√£s e greco-romanas, tamb√©m de outras, sobretudo das culturas provenientes do mundo √°rabe, da √ćndia e da China. O que divide o mundo n√£o s√£o os pontos cardeais, mas a mis√©ria e a riqueza, o acesso ou n√£o ao conhecimento e √† tecnologia, a tirania e a liberdade. A tirania n√£o √©, portanto, exclusiva de algumas regi√Ķes do mundo, nem de determinadas culturas ou credos religiosos. Mas se um dos grandes desafios do s√©culo 20 foi a luta contra o totalitarismo nazista, fascista e comunista, no s√©culo 21 surge um novo tipo de totalitarismo fundado em falsos preceitos religiosos, que busca uma volta a origens que nunca existiram e renega toda uma tradi√ß√£o de toler√Ęncia do Isl√£ e do mundo √°rabe.

O que divide o mundo não são os pontos cardeais, mas a miséria e a riqueza, o acesso ou não ao conhecimento e à tecnologia, a tirania e a liberdade.

A exemplo de Jo√£o Cabral de Melo Neto, tamb√©m diplomata, o senhor viveu na Espanha. No caso de Jo√£o Cabral, o flamenco e Sevilha foram incorporados na obra po√©tica. No seu caso, Madri √© recriada em Enigmas da primavera, onde o leitor encontra, entre tantas frases, a seguinte: ‚ÄúA Espanha √© um pa√≠s de fantasmas. Fantasmas crist√£os. Fantasmas mu√ßulmanos‚ÄĚ. Mais que isso. H√° compara√ß√£o entre Madri e Bras√≠lia: ‚ÄúNo Paseo de la Castellana, protegidas do sol inclemente por fileiras de √°rvores, outras mo√ßas de pernas de fora desfilavam com seu sensualismo apenas insinuado, distinto do que ele via em Bras√≠lia. Era o Eix√£o dali, Majnun pensou. [‚Ķ] Tudo ali lhe parecia diferente de Bras√≠lia. Deveria ser o contraste entre o novo e o velho, entre um pa√≠s sem mem√≥ria e outro moldado pelo peso da tradi√ß√£o. E a corrup√ß√£o? Haveria ali tamb√©m?‚ÄĚ. Al√©m do que est√° no livro, quais os pontos de contato entre Espanha e Brasil, entre Madri e Bras√≠lia?
Entre os temas n√£o tratados no livro, eu poderia apontar um tra√ßo comum entre Madri e Bras√≠lia: ambas s√£o cidades planejadas, constru√≠das para serem capitais e associadas √† ideia de uma consolida√ß√£o ou integra√ß√£o do pa√≠s. J√° havia alguma popula√ß√£o na regi√£o de Madri (assim como j√° havia em Luzi√Ęnia no Distrito Federal), mas o que marcou o surgimento da Madri tal qual a conhecemos foi a transfer√™ncia da Corte de Toledo para l√° em 1561.

Na p√°gina 278, um personagem dispara a frase: ‚ÄúA primavera √© s√≥ um come√ßo e passa logo‚ÄĚ. Enigmas da primavera surge num momento em que multid√Ķes foram para as ruas, inclusive no Brasil. Outro personagem do romance diz: ‚ÄúQueremos que a pol√≠tica seja mais honesta e menos mentirosa. Que se cumpra a lei, mas n√£o s√≥, pois nem tudo que √© legal √© √©tico. Temos de ser mais exigentes. Por que n√£o pode haver padr√£o Fifa pra moralidade p√ļblica? Ou pro transporte, a sa√ļde, a educa√ß√£o e a seguran√ßa?‚ÄĚ. Qual a sua avalia√ß√£o do que est√° acontecendo no Brasil? √Č um ponto de virada? Os jovens querem de fato outro Brasil? Ainda mais levando em conta a frase da personagem Suzana: ‚ÄúN√£o pertencemos a nenhum partido. Nem a sindicato. N√£o estamos presos a ideologias‚ÄĚ. E ainda: se fosse poss√≠vel dizer, mesmo que em poucas palavras, qual a sua opini√£o a respeito do que est√° acontecendo no mundo atualmente?
Pensei o pano de fundo deste romance como cen√°rio de uma pe√ßa de teatro. Trata-se de um retrato ou uma s√©rie de retratos de um momento turbulento. Ao compor esse cen√°rio, tomei muito cuidado para me manter no terreno pr√≥prio da fic√ß√£o e n√£o assumir os pap√©is ‚ÄĒ igualmente importantes ‚ÄĒ do historiador ou do jornalista. Para isso era necess√°rio que o narrador deixasse que os personagens se guiassem por suas pr√≥prias emo√ß√Ķes diante dos fatos presentes; que n√£o fizesse profecias nem emitisse ju√≠zos de valor. Eu gostaria que o romance pudesse ser lido no futuro, dentro de v√°rias d√©cadas, com o mesmo interesse ‚ÄĒ ou qui√ß√° com maior interesse ‚ÄĒ do que hoje em dia. Fiquei contente quando Alfredo Bosi disse, a prop√≥sito de Enigmas da primavera, que ‚Äúpara o historiador do futuro‚ÄĚ, poderia ser ‚Äúmina de pistas para compreender o caos de nosso tempo‚ÄĚ. Cabia ent√£o ao romance se ater aos momentos vivenciados pelos personagens, seja em Madri, seja em Bras√≠lia, oferecendo algum contexto mais geral e procurando ser o mais fiel poss√≠vel ao que aqueles personagens sentiram e pensaram naqueles momentos. Estamos falando de jovens nas ruas em v√°rios lugares do mundo: na Europa, nos EUA, no Chile, na Turquia, no mundo √°rabe ou no Brasil. No caso da Espanha, trata-se dos protestos desencadeados pelo movimento do 15-M (que eclodiu em 15 de maio de 2011); no Brasil, dos protestos de junho de 2013. Todos esses s√£o movimentos d√≠spares com alguns aspectos em comum, entre os quais o papel desempenhado no seu in√≠cio pelas redes sociais. Seus resultados tamb√©m s√£o diversos: em alguns casos levaram a muito pouco ou a coisa alguma; noutros a progressos no caminho da democracia; noutros ainda a rea√ß√Ķes autorit√°rias. S√≥ o futuro distante poder√° dizer se s√£o resultados definitivos. A possibilidade de que esses movimentos ressurjam onde foram reprimidos ou onde simplesmente foram desmobilizados sempre existe, mas n√£o conhecemos de antem√£o os ritmos da batalha travada em cada tempo e lugar entre a mem√≥ria e o esquecimento. No caso do Brasil, at√© agora a explos√£o social e urbana de 2013 aparece como fato isolado, com poucos pontos de contato com as manifesta√ß√Ķes de rua mais recentes.

Majnun tem ou aparenta vivenciar momentos de del√≠rio em diversas situa√ß√Ķes. ‚ÄúPode estar vendo esp√≠ritos que a gente n√£o v√™‚ÄĚ, diz a personagem Carmen. Majnun se envolve em problemas por sair do real, inclusive tendo di√°logos com personagens de outros per√≠odos da hist√≥ria. Isso faz parte de um escapismo do personagem, uma fuga do presente, ou ele sofre de problemas mentais?
As duas coisas juntas, pois os delírios não são apenas aparentes e em determinado momento ele precisa ser hospitalizado.

Ap√≥s uma situa√ß√£o-limite, Majnun, enfim, sinaliza transforma√ß√£o. ‚ÄúDescobriu que tinha um objetivo mais ambicioso do que morrer: nunca morrer, conseguir driblar a morte, ser eterno. E mais, viver sempre com seus vinte anos. Algu√©m j√° disse, o pessimismo da intelig√™ncia √© o otimismo da vontade.‚ÄĚ Sem entregar ao leitor, que ainda n√£o leu Enigmas da primavera, exatamente o que acontece com o personagem, √© poss√≠vel comentar que Majnun supera um est√°gio quase de torpor, quase paralisia, durante a narrativa? Ou n√£o? Ao fim da primavera, do seu livro, ele est√° pronto para outra esta√ß√£o?
Sim, n√£o quis que o romance descrevesse uma situa√ß√£o de total beco sem sa√≠da. Afinal se trata de uma primavera. Incerta, sem d√ļvida. Enigm√°tica. Mas outras esta√ß√Ķes vir√£o, para as quais a hist√≥ria do livro sutilmente aponta no final.

Majnun planeja uma narrativa, faz pesquisas, vive intensamente algumas aventuras e, no desfecho de Enigmas da primavera, h√° o seguinte trecho: ‚ÄúTudo feito para acabar em palavras. Uma palavra, outra palavra e mais outra, a novela se fazia, linha depois de linha, como a pr√≥pria vida, feita de busca de sentido, de frases e atos incompletos‚ÄĚ. Isso sugere que a narra√ß√£o, a sua narra√ß√£o, dialoga com o projeto de Majnun? Afinal, durante a narrativa, o leitor tem acessos √†s ang√ļstias de Majnun para elaborar um livro. √Č isso? Ou n√£o? H√° quase a sensa√ß√£o de que √© Majnun quem faz o desfecho de Enigmas da primavera, n√£o √©?
N√£o a partir das narrativas pensadas por Majnun, mas das tiras de papel rasgado nas quais faz anota√ß√Ķes, vai surgindo a possibilidade de alguma reden√ß√£o pela arte, embora n√£o seja este o √ļnico desfecho.

Na p√°gina 64, um dos av√īs de Majnun diz para o neto: ‚ÄúEnvelhecer √© acumular perdas e viver de mem√≥rias‚ÄĚ. O que o Jo√£o Almino tem a dizer sobre a frase ‚ÄúEnvelhecer √© acumular perdas e viver de mem√≥rias‚ÄĚ?
A frase √© perfeitamente apropriada ao personagem. Quanto a Jo√£o Almino, diria o seguinte: ‚Äú√Č acumular ganhos e perdas. Viver de mem√≥rias e de perda de mem√≥ria‚ÄĚ.

MARCIO RENATO DOS SANTOS
√Č jornalista e escritor. Autor de Minda-Au e Mais laiquis, entre outros. Vive em Curitiba (PR).

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