Porque soy novelista

REVISTA BRASILEIRA, Academia Brasileira de Letras, junho de 2012

Por que sou escritor de ficção

Jo√£o Almino

Come√ßo arrolando uma s√©rie de raz√Ķes que poderiam explicar meu ato de escrever fic√ß√£o e que, no entanto, me parecem insuficientes ou mesmo, em alguns casos, falsas.

Meus primeiros livros tiveram um claro sentido pol√≠tico, mas n√£o eram de fic√ß√£o. A fic√ß√£o j√° √© em si um libelo em favor da liberdade e uma express√£o de inconformidade com uma realidade insuport√°vel. Tomada nesse sentido amplo, tem sempre uma dimens√£o pol√≠tica. No entanto, nunca escrevi fic√ß√£o para transmitir linhas pol√≠ticas ou ideol√≥gicas ou para discutir quest√Ķes sociais, raciais ou de g√™nero, embora essas quest√Ķes estejam claramente presentes em minha literatura. √Č pouco pedir de uma obra de arte que denuncie as injusti√ßas, a desigualdade e a mis√©ria. Ela pode e deve faz√™-lo quando as circunst√Ęncias exijam, mas deve ir al√©m dessa den√ļncia, caso contr√°rio far√° pouco mais do que um artigo de jornal. Meu primeiro romance foi publicado em 1987, dois anos depois do fim da ditadura militar. Para o prop√≥sito de denunciar o regime, eu havia escrito sobre o autoritarismo e a democracia em livros de ensaios e de filosofia pol√≠tica, entre eles ‚ÄúOs democratas autorit√°rios‚ÄĚ, ‚ÄúA idade do presente‚ÄĚ e ‚ÄúO segredo e a informa√ß√£o‚ÄĚ. N√£o usei a fic√ß√£o para esse prop√≥sito. Com o processo de democratiza√ß√£o, minha n√£o-fic√ß√£o perdeu parte de seu sentido de urg√™ncia, e minha fic√ß√£o teria de explorar um territ√≥rio novo, embora alguns de meus personagens n√£o deixassem de exprimir o medo desses anos de ditadura.

N√£o seria suficiente tampouco dizer que escrevo para representar ou retratar a realidade, pois o realismo n√£o basta. Escrever fic√ß√£o √© rebelar-se contra a realidade e ir al√©m dela. N√£o escrevo, al√©m disso, para falar de mim ‚Äď minha literatura tem pouco de autobiogr√°fico. N√£o seria convincente dizer que √© porque n√£o tenho alternativa, n√£o saberia fazer outra coisa, afinal sou diplomata e at√© me dediquei muito √† carreira.

Tampouco seria suficiente dizer que sou escritor para entender o meu meio, o meu pa√≠s, a sociedade em que vivo, para entender o Nordeste onde nasci, Bras√≠lia onde vivi, para compreender as contradi√ß√Ķes, os desafios e adversidades do mundo contempor√Ęneo, embora seja inevit√°vel que minha literatura esteja impregnada do que sou, como brasileiro vivendo no s√©culo XXI.

Se eu dissesse que com minha fic√ß√£o busco a verdade e quero transmiti-la ao leitor — Alethea, em grego ‚Äúverdade, mem√≥ria‚ÄĚ, √© a nega√ß√£o de Lethe (noite, escurid√£o, esquecimento) — teria de acrescentar que a verdade com a qual o escritor trabalha, a que ele traz √† luz dos fundos da escurid√£o, a que estava relegada ao esquecimento e ele recupera pela mem√≥ria, √© a verdade da pr√≥pria da fic√ß√£o. N√£o √© √† verdade ou √† realidade que a literatura deve almejar, mas sim √† supera√ß√£o, pela fantasia, das formas mais diretas de aquisi√ß√£o e transmiss√£o de conhecimento. Sou ficcionista e, portanto, minto. H√° elementos de hist√≥ria em meus romances, mas o mito me atrai mais do que a hist√≥ria e em meus romances criei meu pr√≥prio mundo ficcional.

N√£o sou ficcionista por acreditar que a literatura constroi necessariamente um mundo melhor, tem o poder de transformar a realidade ou serve para transmitir ideais e conhecimento, emitir opini√Ķes, defender uma posi√ß√£o ou procurar dar sentido ao mundo. Por outro lado n√£o escrevo apenas para entreter, para divertir, de forma despretensiosa, pois creio que a literatura tem que ter ambi√ß√£o, menos para edificar ou instruir o leitor, do que para inquiet√°-lo, causar-lhe surpresa e faz√™-lo caminhar pelo inesperado.

Um √ļltimo ponto: n√£o escrevo para tratar de determinados temas, embora sejam evidentes os temas que me interessam em meus livros de fic√ß√£o e at√© de forma obsessiva. Uma lista n√£o exaustiva poderia incluir os processos de desmoderniza√ß√£o, o desenraizamento, a hibridiza√ß√£o, a funda√ß√£o, o novo, o tempo, o vazio, a mem√≥ria, a p√≥s-utopia, o livre arb√≠trio e os novos meios de comunica√ß√£o e de socializa√ß√£o. Mas n√£o s√£o esses temas que fazem de minha escrita uma escrita liter√°ria, um romance.

Antes de responder mais diretamente à pergunta de por que sou escritor, relato algo mais básico: como me tornei escritor.

Quando tinha seis para sete anos, minha irm√£ mais velha era professora prim√°ria numa escola p√ļblica e me ensinou as primeiras letras. Aprendi a ler em casa. Ela pregava figurinhas numa folha de papel e eu tinha de escrever as frases que me viessem √† mente. Creio que a√≠ foi plantada a semente para o gosto que tomei pela escrita, gosto que me acompanhou na escola, onde nada me dava mais prazer do que fazer reda√ß√Ķes.

Mais tarde o grande incentivo veio de meu pai, que faleceu quando eu tinha doze anos. Ele foi um autodidata, não frequentou escola, mas era um leitor ávido. Sua biblioteca não era grande. Cabia numa estante de portas de vidro com oito prateleiras ocupadas com livros de história, entre os quais vários da coleção brasiliana, e mais uma com livros de literatura, entre os quais alguns clássicos do romance regionalista nordestino. Quando aos nove anos de idade eu escrevia algumas páginas num caderno de escola, ele chamava aquilo de livro e me cercava de elogios. Era um incentivo e tanto.

Na adolesc√™ncia escrevi poemas, nenhum aproveit√°vel. Depois iniciei projetos de romance que n√£o consegui levar adiante. Como par√™nteses na tentativa de escrever fic√ß√£o, vieram as obriga√ß√Ķes acad√™micas e as exig√™ncias do momento pol√≠tico brasileiro, que me levaram a publicar quatro livros.

No meu caso a fic√ß√£o n√£o veio para substituir o ensaio, nem para discutir os temas daqueles ensaios atrav√©s de uma nova forma. A fic√ß√£o correspondia a outro territ√≥rio, explorado desde antes e no qual me adentrei plenamente quando as outras formas de linguagem j√° n√£o eram suficientes para exprimir o que eu queria. Mas ‚Äúo que eu queria‚ÄĚ talvez seja uma for√ßa de express√£o.

Escrevia e ainda escrevo porque algo me inquietava e ainda me inquieta. Se j√° soubesse de antem√£o o que dizer, voltaria ao ensaio; se tivesse algo a demonstrar, a uma tese, que tamb√©m cheguei a defender; se quisesse dar uma opini√£o, um artigo de jornal, o que ali√°s fiz com frequencia em momentos pontuais. Na fic√ß√£o √© poss√≠vel dizer o indiz√≠vel, deixar aflorar as contradi√ß√Ķes, expor as emo√ß√Ķes e indagar, explorar.

Escrevo fic√ß√£o menos para dizer o que sei do que para descobrir o que quero dizer, para indagar de mim, dos outros, da hist√≥ria que conto e daquela com H mai√ļsculo que nos envolve a todos; para procurar entender, para aprender, para aventurar-me, como um navegante, por mares ou mundos desconhecidos ou como um caminhante perdido no meio da floresta; para adentrar-me nas profundezas da alma, noutras vidas, fazendo brotar a cria√ß√£o liter√°ria da incerteza e da busca.

Escrevo tamb√©m como um colecionador, para juntar o que encontro no meio do caminho. S√£o fragmentos de leituras, hist√≥rias que me interessam, quest√Ķes que me incomodam, not√≠cias, experi√™ncias e emo√ß√Ķes vividas n√£o apenas por mim, mas tamb√©m por outros.

Escrevo porque não posso escapar à escrita; ou seja, por uma necessidade íntima, indefinível; porque outras atividades não me dão ou não me dariam o mesmo prazer e o mesmo sofrimento e não são, portanto, igualmente necessárias para mim. Não vivo da escrita, mas escrevo para viver, pois não saberia viver sem ela. Sou escritor de ficção como uma forma de resistência, para rebelar-me contra a realidade e a morte, por não suportá-las e querer confrontá-las com vidas e mundos imaginários.

Não é do humor que depende minha ficção. Escrevo quando estou alegre e mais ainda quando estou triste. Para mim não aparecem musas, eu é que vou à busca delas e as invento com grande esforço quando quero.

Sou ficcionista porque o outro me atrai e para entend√™-lo ‚Äď o outro de mim mesmo e tamb√©m aquele que me √© completamente estranho. Num primeiro sentido, escrevo para seduzir o outro, em busca de leitores, mas n√£o me satisfaria uma sedu√ß√£o f√°cil, entregando a mercadoria esperada. Noutro sentido, mais fundamental, escrevo para criar e viver personagens.

Ainda que n√£o houvesse hist√≥ria alguma, que n√£o houvesse enredo, meu objetivo seria que o texto se sustentasse pela escolha mesma das palavras, umas se juntando a outras de forma inesperada, desviando-se do estere√≥tipo e do pitoresco, dos lugares comuns, das frases que se apresentam j√° feitas, criando novas formas de express√£o e espa√ßos amplos para a imagina√ß√£o, exprimindo muitas vezes n√£o apenas o que foi visto ou dito, mas tamb√©m o que est√° escondido ou foi silenciado; n√£o s√≥ o que aconteceu, mas o que n√£o p√īde acontecer; n√£o apenas o que √© conclusivo, mas igualmente o que √© incompleto, fragment√°rio e obl√≠quo; n√£o o que traz respostas, mas o que prop√Ķe perguntas.

A maior parte do tempo escrevo tateando palavras, para vencer uma dificuldade, a dificuldade mesma de escrever. Escrevo, então, para encontrar essas palavras e verificar o resultado de colocá-las umas ao lado das outras, por vezes juntando o que parecia não poder ser juntado, modificando ou embaralhando perspectivas. Mas gosto também depois de aplainar as arestas da linguagem, de dar coerência ao que não tinha, de encontrar sentido para o que antes parecia desconexo, de mostrar o itinerário para deixar no papel os traços de um percurso e de uma busca; de chegar a um nível de compreensão, enfim, a histórias.

Sou escritor, então, fundamentalmente porque me interesso pela linguagem, pela própria escrita, pelas palavras, pelas sílabas, pelos sons e pelo ritmo. Escrevo também porque ainda me faltam palavras, preciso contradizer o que disse ou não acabei de dizer tudo. Por fim, escrevo porque falar não é suficiente ou preciso encontrar uma expressão para meu silêncio.


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