Homme de Papier

HomemdePapel_01

Oitavo romance de João Almino e segundo após entrar para a Academia Brasileira de Letras, Homem de papel transporta o conselheiro Aires para o século XXI. Livro será lançado em live no dia 12/04 às 19h.
O que Machado de Assis diria se escrevesse sobre a realidade contempor√Ęnea? Em Homem de papel, Jo√£o Almino, diplomata e um dos escritores mais importantes da literatura nacional, resgata o personagem-narrador conselheiro Aires, transportando-o para os dias atuais. Se no machadiano Esa√ļ e Jac√≥ o conselheiro est√° numa trama sobre dois irm√£os que disputam a mesma mulher e defendem regimes pol√≠ticos contr√°rios (Monarquia e Rep√ļblica), em Homem de papel ele ganha protagonismo metamorfoseado em livro, do qual consegue dar escapadelas para o mundo real, regido pela ignor√Ęncia e estupidez.
O exemplar que o abriga pertence √† jovem diplomata Flor, trig√™mea de Hugo e Miguel, que, assim como os g√™meos de Machado, est√£o em eterna rixa. O conselheiro se depara com as redes sociais e precisa se adaptar √† velocidade com que as not√≠cias se multiplicam. Diferentemente do final do s√©culo XIX e in√≠cio do XX, cada not√≠cia cria milh√Ķes e milh√Ķes de ‚Äúverdades‚ÄĚ de consequ√™ncias irrepar√°veis.
Sobre Homem de papel, H√©lio Guimar√£es, professor da USP, escreve: ‚ÄúMovendo-se entre a farsa, a par√≥dia, a s√°tira e a tragicom√©dia, Jo√£o Almino aciona com maestria muitas notas do c√īmico. O humor afasta qualquer sugest√£o de que o passado fosse muito melhor do que o presente. Continua valendo aqui, como em Machado, a convic√ß√£o de que ci√ļmes, trai√ß√Ķes, medo, orgulho, vaidade at√© mudam de endere√ßo, mas mant√™m o frescor do primeiro p√© de alface que nossos ancestrais arrancaram da terra.‚ÄĚ E afirma o cr√≠tico portugu√™s Abel Barros Baptista: ‚Äúuma li√ß√£o de literatura: surpreendente e inteligente.‚ÄĚ

HOMEM DE PAPEL
Jo√£o Almino

416 p√°gs. | R$ 64,90

Ed. Record | Grupo Editorial Record

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Simone Magno
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Lançamento
Homem de papel será lançado no dia 12 de abril, às 19h, em uma conversa do autor, João Almino, com o escritor Luiz Ruffato. A transmissão será ao vivo no youtube da Livraria da Travessa.

Trecho do livro
‚ÄúSempre que eu ouvia desaven√ßas pol√≠ticas, corriqueiras, menos corriqueiras e de todos os tipos, eu pensava em Pedro e Paulo, irm√£os g√™meos, um monarquista e o outro republicano, que j√° brigavam na barriga da m√£e. Voc√™s fiquem tranquilos, jamais darei tanta import√Ęncia a eles neste meu relato. N√£o vou substituir suas paix√Ķes pelas dos partidos azul e vermelho, nem os colocar a defender e condenar o golpe, embora o tenham feito em 1889. N√£o os convidaria para estes pap√©is novos por uma raz√£o fundamental: um e outro abdicariam, como fizeram no passado, de suas paix√Ķes pol√≠ticas por outra maior. Escreveriam suas constitui√ß√Ķes pessoais, acima da Monarquia e da Rep√ļblica, para conquistar o amor de uma mo√ßa que acabaria morrendo de indecis√£o.‚ÄĚ

Sobre o autor
Jo√£o Almino nasceu em Mossor√≥, RN. Diplomata e um dos nomes mais importantes da literatura nacional atualmente, tem sido aclamado pela cr√≠tica por seus romances Ideias para onde passar o fim do mundo (Pr√™mio do Instituto Nacional do Livro), Samba-enredo, As cinco esta√ß√Ķes do amor (Pr√™mio Casa de las Am√©ricas), O livro das emo√ß√Ķes, Cidade livre (Pr√™mio Passo Fundo Zaffari & Bourbon), Enigmas da primavera e Entre facas, algod√£o. Seus romances foram publicados na Argentina, Espanha, EUA, Fran√ßa, Holanda, It√°lia e M√©xico, entre outros pa√≠ses. Seus escritos de hist√≥ria e filosofia pol√≠tica s√£o refer√™ncia para os estudiosos do autoritarismo e da democracia. Em 2017, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.

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CONSULTAR RESENHAS SOBRE « HOMEM DE PAPEL » abaixo e tamb√©m em RESENHAS/Entre facas, algod√£o

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SOBRE « HOMEM DE PAPEL », LEIA ORELHA DO PROFESSOR H√ČLIO GUIMAR√ÉES, da Universidade de S√£o Paulo:

O que diriam o conselheiro Aires, e Machado de Assis, sobre o estado de coisas no Brasil de hoje?

√Č essa a pergunta que parece mover a imagina√ß√£o do escritor, e a do leitor, neste Sedu√ß√Ķes do Ocaso, o oitavo romance de Jo√£o Almino.

O conselheiro Aires, que preside os dois √ļltimos romances de Machado de Assis, √© o narrador e protagonista aqui. Espiando de dentro das p√°ginas do livro que habita h√° mais de s√©culo, e tamb√©m em algumas escapadelas para o mundo exterior, ele passa em revista este nosso tempo regido pela ignor√Ęncia e pela estupidez.

O exemplar que lhe serve de abrigo pertence a uma certa Flor, jovem diplomata, trigêmea de Hugo e Miguel. Neste caso, Flor não está dividida entre o amor de dois gêmeos, mas espremida entre dois irmãos em eterna rixa política.

O centro da ação desloca-se agora do Catete e do Botafogo para uma Brasília invadida por antas, esse animal tipicamente nacional, como o romance faz questão de frisar.

Os anos de transi√ß√£o da monarquia para a rep√ļblica, em que as personagens machadianas assistem, entre embasbacadas e indiferentes, tanto √† aboli√ß√£o como √† proclama√ß√£o do novo regime, d√£o lugar √† vertigem do agora.

A confus√£o generalizada n√£o provoca muito mais do que bocejos no velho diplomata. Quando lhe perguntam como v√™ a atualidade, responde: ‚ÄúA lua est√° bonita‚ÄĚ.

Aires, no entanto, n√£o deixa de se espantar com a propaganda do Viagra, que lhe permitiria reescrever os velhos versos de Shelley e finalmente eliminar o ‚Äúnot‚ÄĚ dos c√©lebres versos ‚ÄúI can give not what men call love‚ÄĚ.

Confrontado com as redes sociais, o conselheiro redivivo √© obrigado a refazer as contas. Se no s√©culo 19 toda not√≠cia crescia pelo menos de dois ter√ßos, agora cada not√≠cia multiplica-se aos milh√Ķes, criando milh√Ķes e milh√Ķes de « verdades » em conflito.

Movendo-se entre a farsa, a par√≥dia, a s√°tira e a tragicom√©dia, Jo√£o Almino aciona com maestria muitas notas do c√īmico, provocando estampidos de riso, risadas mal√©volas, esgares e certamente muito sorriso amarelo.

O riso afasta qualquer sugest√£o de que o passado fosse muito melhor do que o presente. Continua valendo aqui, como em Machado, a convic√ß√£o de que ci√ļmes, trai√ß√Ķes, medo, orgulho, vaidade at√© mudam de endere√ßo, mas mant√™m o frescor do primeiro p√© de alface que nossos ancestrais arrancaram da Terra.

Assim, basta raspar de leve o tênue verniz que recobre as personagens para perceber que o mundo continua povoado pelos descendentes de Brás Cubas, Quincas Borba, Bento Santiago, Fidélia, dona Cesária e, claro, esse Aires, com a sua eterna flor na botoeira.

Neste que talvez seja o mais alusivo de todos os seus romances, Jo√£o Almino n√£o poupa ironia √† vida liter√°ria, √† academia, √† pol√≠tica e √† diplomacia. Entre o desespero e o riso, ressuscita o velho diplomata para nos perguntar ainda mais uma vez: « Que pa√≠s √© este? » E, por tabela, que mundo e que tempo √© este em que sobrevivemos.

Hélio Guimarães, USP
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SOBRE « HOMEM DE PAPEL », LEIA POSF√ĀCIO DO PROFESSOR ABEL BARROS BAPTISTA, DA UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA:

‚ÄúOlha, conselheiro… O senhor deve ficar no livro, √© o que lhe digo. Nem Machado de Assis consegue permanecer como grande escritor sem a presen√ßa do senhor. Fique, conselheiro. O mundo l√° fora, como est√°, n√£o merece o senhor.‚ÄĚ S√£o palavras de uma certa D. Ces√°ria, que o leitor vai encontrar bem cedo no livro que tem nas m√£os. O mundo ‚Äúl√° fora‚ÄĚ √© o que vamos chamando de nosso, decerto aquele onde o mesmo leitor passa os seus dias; por oposi√ß√£o, l√° dentro, o mundo √© o do livro, e o livro √© evidentemente Memorial de Aires. O problema do livro de Jo√£o Almino fica assim posto por essa figura que j√° animava a obra de Machado com tanta maldade como gra√ßa: n√£o tanto o problema de sair do livro, antes o de, saindo, ficar neste outro mundo, o que chamamos nosso. Nenhum mist√©rio. De entrada se percebe que Aires est√° no livro e √© o livro; e o livro, por sua vez, circula nesse nosso mundo, presente e pr√≥ximo, pela m√£o de Flor, que tem no mesmo conselheiro Aires o seu interlocutor favorito. (Flor, n√£o Flora, advert√™ncia em aten√ß√£o aos machadianos ass√≠duos.) Num certo sentido, o empreendimento ficcional de Jo√£o Almino ajeita-se bem √† formula√ß√£o que descrevia D. Ces√°ria: d√° interesse a um reputado entediado e movimento a um confirmado defunto. Num primeiro movimento, a desloca√ß√£o de Aires sugere que o romance o traz a este nosso mundo para o consertar, ao mundo, ou para que ele se conserte, o conselheiro. Quando o c√©lebre verso de Shelley comparece ‚ÄĒ I can give not what men call love ‚ÄĒ, a sugest√£o √© de algum intuito redescritivo, como se Jo√£o Almino pretendesse, trazendo Aires ao nosso presente, restituir-lhe uma oportunidade de amor que negou a si mesmo no romance de Machado e, depois, uma oportunidade de empenho que lhe parecia negar a condi√ß√£o diplom√°tica. A primeira possibilidade de Homem de Papel √© assim a metaficcional; Aires narrando-se de novo, mas para se inventar novo. Entretanto, num lance surpreendente se compreende que Homem de Papel vai noutro sentido sem renunciar a esse primeiro. Ficar ou n√£o ficar no mundo deste s√©culo, este mundo merec√™-lo ou n√£o, enquanto decis√Ķes e ju√≠zos atribu√≠dos ao conselheiro Aires, emergem no confronto com a brutalidade desse ‚Äúmundo l√° fora‚ÄĚ e abrem o caminho para uma alegoria delirante e sarc√°stica da actual conjuntura pol√≠tica brasileira, incompat√≠vel tanto com a diplomacia como com o t√©dio da controv√©rsia famosamente caracterizadores de Aires. O contraste √© grande, e enorme a dist√Ęncia da delicadeza melanc√≥lica √† bo√ßalidade em que Aires fica tentado a morar para sempre. D. Ces√°ria adverte que assim se prejudicaria a grandeza de Machado, que o mundo l√° fora n√£o merece o conselheiro: e eis a gra√ßa sem maldade nenhuma e a maldade sem gra√ßa nenhuma reunidas num s√≥ problema: ficar ou n√£o ficar fora do livro. Jo√£o Almino subverte Aires para o restituir ao original Aires de 1908: depois de ter transformado esse mesmo original em gerador de encontros e desencontros catalisados politicamente pelo aparecimento de uma anta. A discrep√Ęncia entre os dois movimentos √© suficientemente flagrante para operar uma li√ß√£o de literatura: surpreendente e inteligente, remetendo ao passado sem perder a atra√ß√£o pelo presente, denunciando e do mesmo passo contemplando. E ir√≥nico, claro, divertidamente ir√≥nico, ou n√£o fosse Aires o mais eminentemente personagem machadiano transport√°vel para fora do livro e o mais eminentemente capaz de restaurar a necessidade de a ele regressar.

Abel Barros Baptista, Universidade Nova de Lisboa

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Sobre HOMEM DE PAPEL, leia resenha de Stefania Chiarelli em O Globo:

‘Homem de papel’: personagem de Machado de Assis conhece s√©culo XXI em novo livro de Jo√£o Almino

Circulando as ruas de Brasília, o conselheiro Aires segue especialista na alma humana

Stefania Chiarelli, especial para O GLOBO

02/04/2022 – 04:30

Ele √© um diplomata aposentado. Vestido √† moda antiga, apresenta-se s√≥brio, equilibrado, verdadeiro mediador. Homem bicenten√°rio, seu nome √© Aires, e ele vem de outro s√©culo ‚ÄĒ viajou diretamente das p√°ginas de ‚ÄúEsa√ļ e Jac√≥‚ÄĚ (1904) e ‚ÄúMemorial de Aires‚ÄĚ (1908), de Machado de Assis, para protagonizar ‚ÄúHomem de papel‚ÄĚ, oitavo romance de Jo√£o Almino. O escritor, nascido em Mossor√≥ (RN), tamb√©m diplomata, promove na narrativa intenso jogo entre passado e presente, em que o c√©lebre personagem transita hoje pelas entrequadras de Bras√≠lia, no lugar dos passeios pela Praia de Botafogo e Rua do Ouvidor, no Centro da antiga capital federal.

Plantado neste confuso s√©culo XXI, Aires vai revelando, em primeira pessoa, sua perspectiva das coisas. O conselheiro agora mora dentro de um livro. A diplomata Flor, trig√™mea de Hugo e Miguel, √© sua interlocutora privilegiada, e diante de seus olhos espantados o personagem se materializa a cada tanto, saindo do exemplar para o mundo real. A mo√ßa vive uma crise, dividida entre o amor do marido C√°ssio e do colega Zeus, ecos vis√≠veis da grande Flora, de ‚ÄúEsa√ļ e Jac√≥‚ÄĚ, jovem perdidamente apaixonada pelos g√™meos que protagonizam a trama.

√Č antiga a rela√ß√£o quase prom√≠scua entre livros, hist√≥rias e palavras. A obra machadiana j√° vem marcada por m√ļltiplas cita√ß√Ķes: o escritor carioca se pautou pela releitura da tradi√ß√£o, parodiando sem reservas o texto alheio, da B√≠blia a Jos√© de Alencar, de Laurence Stern a Xavier de Ma√ģstre. Nessa espiral, o romance de Almino se situa entre cria√ß√£o e apropria√ß√£o, gesto que desde sempre sustenta a pr√≥pria literatura. Ele n√£o est√° s√≥, muitos escritores j√° beberam dessa √°gua, como Lygia Fagundes Telles, com o roteiro ‚ÄúCapitu‚ÄĚ (1967), e Silviano Santiago, no romance ‚ÄúMachado‚ÄĚ (2016), entre tantos outros.

Em Almino, ecoando Machado, Aires chama a aten√ß√£o para que o leitor tome parte ativa na hist√≥ria, orientando nossa leitura com lembretes e perguntas: ‚ÄúPe√ßo que n√£o riam de mim‚ÄĚ ou ‚ÄúAfinal, quem era eu?‚ÄĚ Tal procedimento surge como alerta ‚ÄĒestamos lendo um relato ficcional, aqui fala um homem de papel. Nessa condi√ß√£o, em algum momento ele d√° o salto e sai da p√°gina escrita. Flor e a entusiasmada professora Leonor s√£o as que melhor conseguem v√™-lo.

Tentador ver aqui sopros vindos da cinematografia de Woody Allen, n√£o por acaso diretor citado no discurso do escritor ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 2017. ‚ÄúA rosa p√ļrpura do Cairo‚ÄĚ (1985) evoca com for√ßa a quebra da dist√Ęncia entre personagem fict√≠cio e espectadora, na figura de Tom Baxter, ator que abandona a tela para declarar o amor √† gar√ßonete Cec√≠lia, que v√™ o filme repetidas vezes na Nova Jersey dos anos 1930. Uma f√£, um personagem. Uma leitora, um conselheiro. Em ambas as narrativas, a sa√≠da do protagonista provoca imediata desarmonia no universo ficcional. Como fazer sentido sem sua presen√ßa? Filme e livro respondem √† pergunta com interessantes desdobramentos.

No √Ęmbito da trama, chama a aten√ß√£o a ambienta√ß√£o em Bras√≠lia, lugar de grande relev√Ęncia na prosa de Almino, dedicada a pensar as rela√ß√Ķes com esse espa√ßo m√≠tico e ut√≥pico. √Ä trilogia composta por ‚ÄúIdeias para onde passar o fim do mundo‚ÄĚ (1987), ‚ÄúSamba-enredo‚ÄĚ (1994) e ‚ÄúAs cinco esta√ß√Ķes do amor‚ÄĚ (2001), acresceu-se ‚ÄúO livro das emo√ß√Ķes‚ÄĚ (2008), ‚ÄúCidade livre‚ÄĚ (2010) e ‚ÄúEntre facas, algod√£o‚ÄĚ (2017), tamb√©m ancorados na cidade. Ao olhar para o conjunto dessa j√° vasta obra, √© poss√≠vel perceber um s√≥lido projeto liter√°rio ‚ÄĒtemas e ambienta√ß√£o retornam, criando uma esp√©cie de constela√ß√£o em di√°logo, em que o escritor d√° asa solta √† imagina√ß√£o. Um personagem pode saltar das p√°ginas do livro que o abriga, ou um computador √© capaz de narrar toda a trama, como G.G., de ‚ÄúSamba-enredo‚ÄĚ.

Mas o narrador Aires carrega v√°rias ambiguidades. Empenhado em recordar o passado, confessa ter a mem√≥ria falha, admitindo ser impreciso na recomposi√ß√£o do vivido. Surpresas e equ√≠vocos se intercalam, como na divertida passagem do carnaval, em que √© tomado por foli√£o. Nesse universo d√ļbio, por vezes um ser imaterial pode ser mais real do que indiv√≠duos de carne e osso, e as cenas ambientadas no mundo da pol√≠tica e da diplomacia comprovam o quanto de teatro a vida obriga a fazer. Na vis√£o de alguns, Aires revela prud√™ncia no viver. J√° outros o enxergam como algu√©m que jamais se posiciona e evita a controv√©rsia a qualquer pre√ßo.

Mesmo desconhecendo as redes sociais, os aparelhos de celular e os bitcoins, o conselheiro segue um especialista na alma humana. No Brasil ca√≥tico de hoje, em que a diplomacia anda t√£o mal representada, seu esp√≠rito sens√≠vel e elegante faz diferen√ßa. Vi√ļvo e sem filhos, Aires pensa que o verdadeiro patrim√īnio consiste na heran√ßa das palavras. Esse imprescind√≠vel capital constitui um modo de prolongar a estirpe do conselheiro nos leitores de hoje e do futuro ‚ÄĒ de corpo presente, papel ou d√≠gitos, cada leitura dir√°.

Stefania Chiarelli é professora e pesquisadora de literatura brasileira na UFF

« Homem de papel »

Autor: João Almino. Editora: Record. Páginas: 416.

https://oglobo.globo.com/cultura/livros/homem-de-papel-personagem-de-machado-de-assis-conhece-seculo-xxi-em-novo-livro-de-joao-almino-25459235

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Sobre HOMEM DE PAPEL leia resenha de Paula Sperb na revista Quatro Cinco Um:

Como se tornar moderno

Conselheiro Aires, famoso personagem de Machado de Assis, ganha roupagem atual em novo romance de Jo√£o Almino

Paula Sperb
14mar2022 04h51 (14mar2022 10h05)

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O escritor portiguar João AlminoPio Figueroa/Divulgação
Jo√£o Almino
Homem de papel

Record ‚Äʬ†416 pp ‚Äʬ†R$ 64,90

Em um primeiro momento, pode parecer uma miss√£o delicada para um escritor apoderar-se de um personagem de Machado de Assis e traz√™-lo para a atualidade em um romance. Tarefa desafiadora especialmente quando trata-se de Conselheiro Aires, personagem t√£o estimado pelos leitores machadianos. Parte do carisma de Jos√© da Costa Marcondes Aires ‚ÄĒ seu nome completo ‚ÄĒ deve-se principalmente ao car√°ter temperado e √† capacidade de escutar e observar para, ent√£o, narrar os dramas humanos.

Aires, um diplomata aposentado, conta, em forma de di√°rio, sua vida em 1888 e 1889, quando volta ao Brasil ap√≥s passagem pela Europa, no seu¬†Memorial de Aires¬†(1908). Entretanto, os leitores j√° conheciam o personagem de¬†Esa√ļ e Jac√≥¬†(1904), no qual se descobre que o romance √©, na verdade, o d√©cimo tomo do Memorial que o conselheiro estava escrevendo. Agora, Aires ganha fumos de modernidade em¬†Homem de papel, oitavo romance de Jo√£o Almino, o segundo desde que o escritor passou a integrar a Academia Brasileira de Letras (ABL), casa dos imortais fundada por Machado. Em¬†Homem de papel, Aires √© renovado, mas continua no papel de narrador.


Homem de papel, de Jo√£o Almino

A forma como o leitor descobre quem narra j√° se encontra na primeira frase do romance: ‚ÄúFlor me colocava numa estante baixa entre uma c√īmoda de tr√™s gavetas e uma escrivaninha coberta de pap√©is desarrumados‚ÄĚ. A ora√ß√£o inicial permite inferir de imediato que a voz est√° dentro de um livro na estante de Flor, uma das personagens. ‚ÄúN√£o quero valorizar essas min√ļcias, que n√£o deveriam me ocupar quando me concentro na hist√≥ria principal. Se √© que lhes conto uma hist√≥ria‚ÄĚ, prossegue o narrador. Aqui, o Aires de Almino ressoa o Aires de Machado, que narra detalhes de seus compromissos e hist√≥rias para depois desculpar-se pelos seus supostos excessos em ‚Äúmin√ļcias‚ÄĚ.

Almino ‚ÄĒ ele pr√≥prio um diplomata de carreira ‚ÄĒ conseguiu manter a coer√™ncia do personagem ao rejuvenesc√™-lo. Os leitores familiarizados com a voz de Aires e sua mentalidade. Como se tornar moderno Conselheiro Aires, famoso personagem de Machado de Assis, ganha roupagem atual em novo romance de Jo√£o Almino Paula Sperb de aberta ao novo e sua convic√ß√£o em n√£o tomar partido de grandes quest√Ķes n√£o se decepcionar√£o. Na verdade, √© quase um presente descobrir que √© poss√≠vel um Aires que usa ‚Äúbon√© e √≥culos escuros‚ÄĚ e caminha pelas ruas de Bras√≠lia, cidade que percorre parte significativa da obra de Almino. √Č l√° que os ossos do conselheiro, doloridos devido ao reumatismo, param de doer. A cura n√£o decorre da mudan√ßa de ares, do Rio de Janeiro para Bras√≠lia. O narrador explica e joga luz sobre o t√≠tulo da obra: ‚ÄúPassei a ter papel no lugar de ossos‚ÄĚ.

Emancipação

Aires n√£o apenas narra epis√≥dios vividos pela personagem Flor, a dona do livro, como tamb√©m acompanha sua trajet√≥ria, de estudante √† diplomata, passando a participar dela. Isso s√≥ √© vi√°vel gra√ßas √† emancipa√ß√£o do homem de papel, ent√£o preso ao livro. Esta emancipa√ß√£o ocorre em quatro etapas ao longo do romance. A primeira, quando Aires apenas escuta o que se passa ao seu redor, seja com o livro na estante ou fora dele. A segunda, quando Aires passa a escrever no livro, inserindo frases e at√© sinais de pontua√ß√£o reconhecidos como novos por Flor. √Č ador√°vel, por√©m n√£o menos convincente, quando Aires deixa um emoji de sorriso para Flor,¬†que enfrenta um momento de afli√ß√£o. ‚ÄúEra como se eu tivesse me tornado moderno‚ÄĚ, conta o narrador. A terceira etapa √© quando Aires passa a falar de dentro do livro. Por fim, Aires sai do exemplar, inicialmente vis√≠vel apenas para a dona da publica√ß√£o.

A fus√£o de Machado de Assis com Jorge Amado faz com que ‚ÄėHomem de Papel‚Äô seja o melhor livro de Jo√£o Almino

Flor √© uma mulher dividida entre o amor de C√°ssio e Zenir, desde a sua juventude. Seu dilema lembra aquele enfrentado pela personagem Flora, de¬†Esa√ļ e Jac√≥. Flora √© objeto da paix√£o dos irm√£os g√™meos Pedro e Paulo, opostos entre si inclusive politicamente. Enquanto um √© monarquista, o outro √© republicano. Flora tamb√©m padece da indecis√£o entre os pretendentes. Mas a Flor de Almino n√£o remete apenas a Machado de Assis, mas a Jorge Amado. Ela √© um pouco¬†Dona Flor e seus dois maridos¬†(1966), como faz quest√£o de apontar o personagem Zenir. Na saborosa obra amadiana, Flor √© uma vi√ļva que ama tanto o malandro Vadinho, o marido morto que aparece nu em forma de esp√≠rito, como o novo marido, o correto Teodoro.

Realismo m√°gico

Almino faz com que seja verossímil que Aires saia do livro e circule por Brasília. Há aí o traço de realismo mágico que também o aproxima de Jorge Amado. Não apenas há um diálogo com Dona Flor, como com O sumiço da santa (1988). No livro, uma imagem de Santa Bárbara, talhada por Aleijadinho, ganha vida ao desembarcar para ser exposta em um museu.

Al√©m do elemento m√°gico,¬†O sumi√ßo da santa¬†tamb√©m √© uma s√°tira pol√≠tica e trata de movimentos sociais e ditadura militar. Em¬†Homem de papel,¬†Almino n√£o foge do contexto pol√≠tico. Os irm√£os trig√™meos de Flor brigam por discordar sobre os rumos do pa√≠s. Sabe-se que ocorreu um¬†impeachment¬†no Brasil e outro chega a ser cogitado. Em tom de f√°bula, antas ‚ÄĒ sim, os animais ‚ÄĒ invadem Bras√≠lia. Uma anta ganha fama e √© aclamada para concorrer √† Presid√™ncia. No¬†Memorial de Aires, o contexto social e pol√≠tico √© o do fim da escravid√£o e a proclama√ß√£o da Rep√ļblica.

A fusão de Machado de Assis com Jorge Amado somada à originalidade de um Aires rejuvenescido faz com que Homem de Papel seja o melhor livro de João Almino. O escritor não poupa delicadezas para os leitores, com referências de outras obras machadianas e do próprio Almino. O fotógrafo Cadu, personagem de Ideias para onde passar o fim do mundo (1987), romance de estreia de Almino, encontra com Aires. A mulher de Almino, a artista plástica Bia Wouk, também surge no livro, com um quadro que decora um ambiente. Diz-se que em Memorial de Aires Machado de Assis também teria colocado um pouco de sua biografia nos personagens Aguiar e D. Carmo, um casal sem filhos, assim como o autor e a mulher Carolina.

Logo no in√≠cio de¬†Memorial, Machado escreveu que a publica√ß√£o estava ‚Äúdesbastada e estreita‚ÄĚ e indicou: ‚ÄúO resto aparecer√° um dia, se aparecer algum dia‚ÄĚ. Gra√ßas ao poder da literatura de inventar uma nova realidade, √© como se Almino tivesse dado continuidade ao¬†Memorial.

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SOBRE « HOMEM DE PAPEL », LEIA MAT√ČRIA NO UOL ASSINADA POR RAFAELA BERTOLINI E ISABELLA BISORDI:
UOL:
VITRINE ¬Ľ CULTURA
UOL
ROMANCE RESGATA CONSELHEIRO AIRES, CL√ĀSSICO PERSONAGEM DE MACHADO DE ASSIS

« Homem de Papel » √© o oitavo romance de Jo√£o Almino, respons√°vel por trazer Aires para o s√©culo XXI
RAFAELA BERTOLINI, SOB A SUPERVISÃO DE ISABELLA BISORDI PUBLICADO EM 02/03/2022, ÀS 15H35
Capa da obra « Homem de Papel » (2022) – Cr√©dito: Reprodu√ß√£o / Record
Machado de Assis é um dos nomes mais importantes da literatura brasileira, sendo que seus livros e contos são celebrados até os dias atuais. E para resgatar uma parte da obra de Machado de Assis, o autor João Almino, também muito importante para a literatura brasileira, resgata o clássicopersonagem-narrador conselheiro Aires para transportá-lo ao século XXI.
« Homem de papel » tira o personagem do papel de conselheiro e o coloca como protagonista metamorfoseado na hist√≥ria, onde ele consegue escapar para o mundo real, que √© regido pela ignor√Ęncia e estupidez. A hist√≥ria conta sobre Flor, que √© trig√™mea de Hugo e Miguel. A rela√ß√£o entre os tr√™s √© cercada de uma eterna richa pol√≠tica, assim como os g√™meos de Machado, Esa√ļ e Jac√≥. Seria Flor a pessoa que atrapalha a simetria ou seria ela um epicentro de equil√≠brio nessa disputa entre irm√£os?
Crédito: Reprodução / Record

O livro se torna moderno por inserir Aires em um mundo moderno onde as notícias são muito rápidas e todos estão cercados por redes sociais. Assim, ele se torna responsável por trazer a essência de Machado de Assis para o mundo moderno, resgatando o seu humor sarcástico em uma narrativa intrigante e inteligente.
A obra será lançada pela editora Record no dia 14 de março de 2022, mas já está disponível para reserva na pré-venda na Amazon.

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https://aventurasnahistoria.uol.com.br/tags/homem-de-papel

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Sobre HOMEM DE PAPEL, leia resenha de Vivian De Moraes, em Literatura Brasileira Contempor√Ęnea, QUORA.

 

Vivian De Moraes

 

 

JornalistaAtualizado 12 de abr.

[DICA DE LANÇAMENTO]

Homem de papel será lançado nesta terça, 12 de abril, às 19h, em uma conversa com o autor, João Almino, com o escritor Luiz Ruffato. A transmissão será ao vivo no Youtube da Livraria da Travessa.

[RESENHA]

O velhos Aires de Machado ressurge em

Homem de papel de João Almino (Record, 2022, 416 pp.)

O surrealismo predomina neste livro em que Almino, o autor imortal da ABL e diplomata, exp√Ķe quest√Ķes de pol√≠tica e diplomacia de forma hilariante. O conselheiro Aires, personagem machadiana, que j√° foi Ayres, com « y », come√ßa a se desprender do papel exatamente deixando-se escorregar nessa letrinha. Da√≠ para a frente, ele vai ganhando mais autonomia, a partir da sua vida de papel. Ele √© uma personagem de um livro editado por um tal M. de A., que n√≥s sabemos bem quem √©.

Em toda a trama, seja nas negocia√ß√Ķes pol√≠ticas, seja no apaziguamento da fam√≠lia de Flor, a diplomata que possui o √ļnico exemplar da edi√ß√£o onde o conselheiro vive, ele se imiscui, por interesse e curiosidade pelos tempos atuais. Ele se envolve em discuss√Ķes, tentando ser sempre neutro, mas sempre se confunde quando se fala de golpe, por exemplo (ele imagina que referem √† proclama√ß√£o da Rep√ļblica), ou guerra (que ele acredita ser a do Paraguai). Novas formas de falar e tecnologias o confundem, e ele se veste √† antiga, sem perder a eleg√Ęncia da postura e do discurso, quando resolve sair de vez do livro e fazer andan√ßas que levam a compara√ß√Ķes entre Bras√≠lia e o velho mar de Botafogo do Rio, antiga capital onde despachava.

As piruetas ocorrem sem parar neste enredo em que, por exemplo, ao se materializar fora do livro, tenta pagar comida ou outra coisa em vint√©ns, √ļnico dinheiro que possui, se envolve em protestos, sem inten√ß√£o, e por isso vai parar na cadeia, se envolve amorosamente com uma mulher (Leonor) etc. Mas a gra√ßa maior vem na apari√ß√£o, perto do fim do livro, de uma anta gigante em Bras√≠lia, onde o livro se passa, que pol√≠ticos interesseiros prop√Ķem seja candidata √† presid√™ncia da Rep√ļblica. Ele √© o √ļnico amigo real da anta. Este √© um daqueles livros que despertam a pressa, a curiosidade irrefre√°vel de se conhecer o fim da hist√≥ria.

AVALIAÇÃO: EXCELENTE

Leia um trecho do romance:

Sempre que eu ouvia desaven√ßas pol√≠ticas, corriqueiras, menos corriqueiras e de todos os tipos, eu pensava em Pedro e Paulo, irm√£os g√™meos, um monarquista e o outro republicano, que j√° brigavam na barriga da m√£e. Voc√™s fiquem tranquilos, jamais darei tanta import√Ęncia a eles neste meu relato. N√£o vou substituir suas paix√Ķes pelas dos partidos azul e vermelho, nem os colocar a defender e condenar o golpe, embora o tenham feito em 1889. N√£o os convidaria para esses pap√©is novos por uma raz√£o fundamental: um e outro abdicariam, como fizeram no passado, de suas paix√Ķes pol√≠ticas por outra maior. Escreveriam suas constitui√ß√Ķes pessoais, acima da Monarquia e da Rep√ļblica, para conquistar o amor de uma mo√ßa que acabaria morrendo de indecis√£o.

https://literaturabrasileiracontemporanea.quora.com/DICA-DE-LAN%C3%87AMENTO-Homem-de-papel-ser%C3%A1-lan%C3%A7ado-nesta-ter%C3%A7a-12-de-abril-%C3%A0s-19h-em-uma-conversa-com-o-autor-Jo%C3%A3o-Al?ch=10&oid=63203846&share=7750d0c6&srid=uP6gHn&target_type=post

 

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Sobre HOMEM DE PAPEL, leia texto do escritor Ant√īnio Torres:

Jo√£o Almino nos brinda com o seu oitavo romance, com o qual acrescenta um ponto importante ao conjunto de sua obra ‚Äď uma obra, diga-se, vigorosa e rigorosa, de intensa leveza narrativa, e que inclui o ensaio liter√°rio e escritos de hist√≥ria e filosofia.

Se no seu romance anterior, Entre facas, algodão, ele se fez o continuador da prosa realista, enxuta, metonímica de Graciliano Ramos, do mundo de casas repartidas dos meninos de engenho de José Lins do Rego, e até da poesia descarnada de João Cabral de Melo Neto, agora, com a pena da galhofa, tintas alegóricas, por vezes melancólicas, em outras utópicas e distópicas, João Almino resgata um personagem de Machado de Assis, e o enfia nas farsas e tragédias desse nosso tempo.

Homem de Papel¬†tem como narrador o conselheiro Aires, que √© transportado do Rio de Janeiro dos fins do s√©culo 19 e come√ßos do 20 para a cidade projetada como um cen√°rio modernista e que passa a ser associada ao que o pa√≠s tem hoje como palco das mais acerbas e/ou retr√≥gadas discuss√Ķes, que, por √≥bvio, nem preciso nomear.

Se em¬†Esa√ļ e Jac√≥¬†o conselheiro Aires est√° numa trama que envolve dois irm√£os em disputa de uma mesma mulher, enquanto defendem regimes contr√°rios (Monarquia e Rep√ļblica), agora ele ganha protagonismo metamorfoseado em livro, do qual d√° suas sa√≠das para o mundo real ‚Äď um mundo com as marcas da ignor√Ęncia e da estupidez, bem vis√≠veis nas quadras e ruas da capital federal.

O livro em que ele se abriga pertence √† jovem diplomata Flor, trig√™mea de Hugo e Miguel que, assim como os g√™meos de Machado de Assis, vivem em disc√≥rdia em raz√£o de suas posi√ß√Ķes pol√≠ticas.

Saturado de embates privados e p√ļblicos, restar√° ao conselheiro Aires o seguinte dilema: ¬†voltar ou n√£o voltar para dentro do livro. E nisso Jo√£o Almino opera uma li√ß√£o de literatura, como assinala o ensa√≠sta e cr√≠tico liter√°rio portugu√™s Abel Barros Baptista, no posf√°cio de¬†Homem de Papel,¬†por ele considerado surpreendente, inteligente e ‚Äúdivertidamente ir√īnico, ou n√£o fosse Aires o mais eminentemente personagem machadiano transport√°vel para fora do livro e o mais eminentemente capaz de restaurar a necessidade de a ele regressar‚ÄĚ, conclui o muito premiado ensa√≠sta e cr√≠tico liter√°rio Abel Barros Baptista, professor da Universidade Nova de Lisboa, e autor de 3 livros sobre Machado de Assis.

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Sobre HOMEM DE PAPEL, leia resenha de Adelto Gonçalves em Baía da Lusofonia, Lisboa, 9 de maio de 2022

Lisboa, segunda-feira, 9 de maio de 2022

‚ÄėHomem de papel‚Äô, uma metafic√ß√£o machadiana

Oitavo romance de Jo√£o Almino ser√° fundamental para quem quiser saber, daqui a cem anos, o que foi o Brasil destes tempos

 

I

Foi quando j√° estava em seus derradeiros anos que Machado de Assis (1839-1908) escreveu o romance¬†Memorial de Aires¬†(1908) e que tem como personagem principal o conselheiro Aires, um diplomata em fim de carreira que j√° havia aparecido em¬†Esa√ļ e Jac√≥¬†(1904) como participante do enredo, anotando em seu caderno tudo o que de mais significativo acontecia ao redor de sua vida. Esse personagem-narrador seria um¬†alter ego¬†do autor, como deixam concluir algumas coincid√™ncias, tais como a idolatria que dedica √† mulher e a aus√™ncia de filhos em seu casamento.

Pois √© esse personagem carism√°tico que j√° n√£o se sentia como ‚Äúdeste mundo‚ÄĚ, pois se achava um homem do s√©culo XIX, que o premiado romancista Jo√£o Almino ressuscita e transporta para o s√©culo XXI em sua √ļltima obra,¬†Homem de papel¬†(Editora Record, 2022), que, desta vez, alinha-se ao g√™nero da metafic√ß√£o, ao romper com os c√Ęnones do Modernismo, mostrando-o como um autor p√≥s-modernista. √Č o que se conclui da observa√ß√£o do professor Abel Barros Baptista, da Universidade Nova de Lisboa, feita no posf√°cio, ao ressaltar que ‚Äúa primeira possibilidade de¬†Homem de papel¬†√© assim a metaficcional‚ÄĚ, com ‚ÄúAires narrando-se de novo, mas para se inventar novo‚ÄĚ.

Como se sabe, esse termo foi cunhado pelo romancista, contista, ensa√≠sta e cr√≠tico liter√°rio norte-americano William Howard Gass (1924-2017), na d√©cada de 1960, para definir os romances que fugiam √†s conven√ß√Ķes estabelecidas pelo Modernismo. Em¬†Homem de¬†papel, o personagem-narrador sai de¬†Memorial de Aires¬†para atuar no Brasil do s√©culo XXI, hoje um pa√≠s √† deriva num mar de ignor√Ęncia e que parece ter perdido para sempre a batalha da Educa√ß√£o, como dizia Jo√£o Calmon (1916-1999). E, assim, Jo√£o Almino consegue construir ‚Äúuma alegoria delirante e sarc√°stica da atual conjuntura pol√≠tica brasileira‚ÄĚ, na defini√ß√£o perfeita de Abel Barros Baptista.

De fato, como observa no texto de apresenta√ß√£o o professor H√©lio Guimar√£es, livre-docente de Literatura Brasileira da Universidade de S√£o Paulo (USP), autor de v√°rios livros sobre a obra de Machado de Assis, neste seu oitavo romance, Jo√£o Almino ‚Äún√£o poupa ironia √† vida liter√°ria, √† academia, √† pol√≠tica e √† diplomacia‚ÄĚ. E, quando o conselheiro redivivo se refere a alguns personagens que povoam¬†Homem de papel, n√£o h√° como deixar de associ√°-los a algumas figuras que h√° anos dominam a cena pol√≠tica brasileira.

II

√Č de se lembrar que, em¬†Esa√ļ e Jac√≥, o conselheiro est√° envolvido como espectador de uma trama entre dois irm√£os que t√™m ideais opostos, ou seja, um defende a monarquia enquanto o outro √© adepto do regime republicano. Em seu retorno ao mundo dos homens, mais de um s√©culo depois, Aires, ao sair do exemplar que pertence √† jovem diplomata Flor, depara-se com os irm√£os Hugo e Miguel, igualmente defensores de ideias pol√≠ticas opostas. Desta vez, n√£o se trata de g√™meos, mas de trig√™meos, pois Flor teria nascido do mesmo parto que colocara seus irm√£os no mundo. E procura atuar como o ponto de equil√≠brio entre eles.

O que se destaca neste livro é a preocupação do autor em dar ao romance um viés pós-moderno, tratando de temas até há pouco tempo incomuns em romances, como o relacionamento entre as pessoas pelas chamadas redes sociais, que tornam a comunicação cada vez mais veloz, em que uma palavra mal colocada pode redundar em bloqueio e no fim de uma amizade.

Igualmente diplomata como o personagem Aires, Jo√£o Almino conhece muito bem n√£o s√≥ os meandros da pol√≠tica, que frequentemente obriga os profissionais do Itamaraty a agirem contra os seus princ√≠pios em nome da governabilidade e do bom entendimento entre as na√ß√Ķes, como domina o cen√°rio por onde transitam as personagens, ou seja, as agitadas superquadras ou a Pra√ßa dos Tr√™s Poderes em Bras√≠lia, em vez das pacatas Rua do Ouvidor e Praia de Botafogo, ao tempo de Machado de Assis.

Nesse sentido, João Almino assume-se como o escritor que faz de Brasília o pano de fundo predileto para as suas obras, tal como Machado de Assis fez do Rio de Janeiro do final do século XIX e início do XX, o que significa que, daqui a cem anos ou mais, sua obra, tal como a machadiana, será fundamental para quem quiser conhecer o Brasil destes tempos.

Ao mesmo tempo, √© de se observar que, em sua metafic√ß√£o machadiana, Jo√£o Almino n√£o deixa de exercer o humor √† inglesa, ou a ironia, e ainda o humor c√©tico, tal como Machado de Assis, construindo s√°tiras de fina textura. Como a da invas√£o de Bras√≠lia por uma legi√£o de antas e da pretens√£o de uma delas de se candidatar √† presid√™ncia da Rep√ļblica.

Tal como a obra que lhe inspirou, Jo√£o Almino faz de¬†Homem de papel¬†n√£o propriamente um romance, nem mesmo uma novela que tenha escapado √†s r√©deas do narrador, com suas quatrocentas e tantas p√°ginas, mas um relato, um di√°rio, enfim, um memorial ou um testamento liter√°rio de um tempo em que j√° n√£o h√° espa√ßo para ilus√Ķes.

                                                                   III

Nascido em Mossor√≥, no Rio Grande do Norte, Jo√£o Almino (1950), diplomata, √© c√īnsul-geral do Brasil em Munique, na Alemanha. Foi embaixador em Quito, no Equador, por tr√™s anos e meio, de 2018 a 2022. Foi tamb√©m c√īnsul em Lisboa. Fez doutoramento em Paris, sob a orienta√ß√£o do fil√≥sofo e historiador da Filosofia Claude Lefort (1924-2010), foi professor na Universidade Nacional Aut√īnoma do M√©xico (Unam), na Universidade de Bras√≠lia (UnB), no Instituto Rio Branco e nas universidades de Berkeley, Stanford e Chicago, nos Estados Unidos. √Č membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2017.

Como romancista, √© hoje reconhecido pela cr√≠tica como um dos nomes mais importantes da Literatura Brasileira, como comprovam os muitos pr√™mios que sua obra j√° recebeu. Seu pen√ļltimo romance,¬†Entre facas,¬†algod√£o¬†(Editora Record, 2018),¬†com apresenta√ß√£o de Crist√≥v√£o Tezza e posf√°cio de Hans Ulrich Gumbrecht, obteve grande repercuss√£o entre a m√≠dia especializada.

O seu romance¬†Ideias para onde passar o fim do mundo¬†(1987) foi indicado ao Pr√™mio Jabuti e ganhou o Pr√™mio do Instituto Nacional do Livro (INL) e o Pr√™mio Candango de Literatura, enquanto¬†As cinco esta√ß√Ķes do amor¬†(2001) conquistou o Pr√™mio Casa de las Am√©ricas de 2003. J√°¬†O livro das emo√ß√Ķes¬†(2008) foi indicado ao 7¬ļ Pr√™mio Portugal Telecom e finalista do 6¬ļ Pr√™mio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de 2009.

Outro romance,¬†Cidade livre¬†(2010), foi vencedor do Pr√™mio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de melhor romance publicado no Brasil entre 2009 e 2011 e finalista do Pr√™mio Jabuti e do Pr√™mio Portugal Telecom de 2011, enquanto¬†Enigmas da primavera¬†(2015) ficou em segundo lugar no Pr√™mio Jabuti, como o melhor livro brasileiro traduzido, chegou a semifinalista do Pr√™mio Oceanos e foi finalista do Pr√™mio Rio de Literatura de 2016 e segundo colocado do Pr√™mio S√£o Paulo de Literatura de 2016, como livro brasileiro publicado no exterior, com tradu√ß√£o para o ingl√™s. √Č autor tamb√©m do romance¬†Samba-enredo¬†(1994). Alguns de seus romances foram publicados na Argentina, Espanha, Estados Unidos, Fran√ßa, It√°lia, M√©xico e em outros pa√≠ses.

Seus livros de Hist√≥ria e Filosofia Pol√≠tica s√£o refer√™ncias para os estudiosos do autoritarismo e da democracia. Entre estes, est√£o¬†Os democratas autorit√°rios¬†(1980),¬†A idade do presente¬†(1985),¬†Era uma vez uma Constituinte¬†(1985) e¬†O segredo e a informa√ß√£o¬†(1986). √Č tamb√©m autor de¬†Naturezas mortas ‚Äď a filosofia pol√≠tica do ecologismo¬†(2004), de¬†Brasil-EUA: balan√ßo po√©tico¬†(1996),¬†Escrita em contraponto¬†(2008),¬†O diabrete ang√©lico e o pav√£o: enredo e amor poss√≠veis em Br√°s Cubas¬†(2009),¬†500 anos de Utopia¬†(2017) e¬†Dois ensaios sobre Utopia¬†(2017).

Publicou ainda Literatura Brasileira e Portuguesa ano 2000, organizado com o professor Arnaldo Saraiva, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e Rio Branco, a América do Sul e modernização do Brasil (2002), organizado com Carlos Henrique Cardim, diplomata e professor universitário, docente do Instituto Rio Branco e da UnB. Adelto Gonçalves РBrasil

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Homem de papel, de João Almino, com apresentação de Hélio Guimarães, professor da Universidade de São Paulo (USP) e posfácio de Abel Barros Baptista, professor da Universidade Nova de Lisboa. Rio de Janeiro: Editora Record, 416 páginas, R$ 64,90, 2022. E-mail: sac@record.com.br Site: www.record.com.br

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Adelto Gon√ßalves¬†√© doutor em Letras na √°rea de Literatura Portuguesa pela Universidade de S√£o Paulo (USP) e autor de¬†Gonzaga, um Poeta do Iluminismo¬†(Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999),¬†Barcelona Brasileira¬†(Lisboa, Nova Arrancada, 1999; S√£o Paulo, Publisher Brasil, 2002),¬†Bocage ‚Äď o Perfil Perdido¬†(Lisboa, Caminho, 2003),¬†Tom√°s Ant√īnio Gonzaga¬†(Imprensa Oficial do Estado de S√£o Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),¬†¬†Direito e Justi√ßa em Terras d¬īEl-Rei na S√£o Paulo Colonial¬†(Imprensa Oficial do Estado de S√£o Paulo, 2015) e¬†Os Vira-latas da Madrugada¬†(Rio de Janeiro, Livraria Jos√© Olympio Editora, 1981; Taubat√©-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail:¬†marilizadelto@uol.com.br

 

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Sobre HOMEM DE PAPEL, leia cr√≠tica de Vera L√ļcia de Oliveira

 

CORREIO BARZILIENSE, 14 de junho de 2022

As aventuras do conselheiro Aires em Brasília
Vera L√ļcia de Oliveira

‚Äú√Č por causa de gente como o senhor, sempre disposto a acomodar, que as coisas n√£o
avançam, Hugo falou.
O senhor é puramente livresco, disse Miguel, no centro da mesa.
Um homem de papel, completou Hugo.
Isso n√£o posso negar, respondi contrariado.‚ÄĚ (P√°g. 145).
Quem respondeu contrariado foi o conselheiro Aires, personagem-
narrador que migrou do romance Memorial de Aires (1908), de Machado
de Assis, para o recém-lançado Homem de papel (2022), de João Almino,
seu oitavo romance. Ambos dispensam apresentação. Machado, o clássico
da literatura de todos os tempos; Almino, o cl√°ssico moderno, autor do
magnífico Cidade livre (2010), entre outros excelentes romances e ensaios
de história e filosofia política. Ambos imortais da Academia Brasileira de
Letras.
Pois foi com o espírito da paráfrase, da literatura fantástica, da
graça cult que Almino construiu esse romance pós-moderno, homenagem
ao ‚Äúbruxo do Cosme Velho‚ÄĚ. Ningu√©m poderia faz√™-lo melhor: diplomata
de carreira, mergulhou no personagem aposentado, pacifista (mais por
t√©dio √† controv√©rsia) e bebeu suas palavras, sua modera√ß√£o e eleg√Ęncia. E,
num poderoso exercício de imaginação, trouxe-o para Brasília. Diz ele:
Meu nome, não sei se terão adivinhado, é José da Costa Marcondes Aires. Nasci
no Rio de Janeiro às seis da tarde em 17 de outubro de 1825 e acordei em Brasília
confundido por siglas. Mesmo sem ser aristocrata, me infiltrei na aristocracia quando
passei em 1852 num concurso para a Secretaria de Estado de Negócios Estrangeiros.
Depois de hesitar se aceitaria uma encarregatura de negócios junto à Gran Colombia,
onde havia estado um visconde conhecido meu, fui enviado a Viena. (P√°g. 31).
Assim se constrói a trama desse romance encantador: uma
diplomata ‚Äúarretada‚ÄĚ da nova gera√ß√£o de nome Flor recebe um presente
e n√£o se desgruda mais dele, o romance Memorial de Aires. Personagem
forte, inteligente, franca, mulher de quase de meia idade, que sabe o que
quer (menos quando tem de escolher o parceiro com quem ficar). O livro
que, segundo ela, a acompanharia pelo resto da vida, era um guia para a
sua carreira. Casada, m√£e de um filho, e com relacionamento
extraconjugal com um diplomata superior hierarquicamente, Flor tem vida

amorosa complicada. Ela, C√°ssio, o marido, e o amante Zeus formam o
tri√Ęngulo desamoroso da hist√≥ria.
Almino ‚Äúentra‚ÄĚ no Memorial de Aires e utiliza palavras e express√Ķes
do livro num diálogo que mantém vivo o romance, tecendo a narrativa
com personagens equivalentes aos da história original. Dentro do livro, na
m√£o ou na pasta de trabalho de Flor, o conselheiro aposentado
acompanha-a em passeios em Brasília e em viagens, a exemplo da ida a
Viena, onde queria rever o t√ļmulo da mulher e o de Beethoven, cuja
√≥pera Fid√©lio com a abertura ‚ÄúLeonora‚ÄĚ tem mais de um sentido na obra.
A narrativa desperta o interesse do leitor cada vez mais pelo
elemento fantástico que, curiosamente, se desfaz pelo fato de as próprias
personagens tratarem o livro falante com naturalidade (como na
Metamorfose, de Kafka, em que a família não se espanta em ver Gregor
Samsa transformado em inseto). Há também ecos de Borges quando a
fantasia e as pistas falsas, como obras e sites inexistentes, deixam o leitor
desnorteado. Artimanhas do autor.
O conselheiro Aires, uma espécie de guru da diplomacia para Flor,
aparece inicialmente como personagem machadiano em Esa√ļ e Jac√≥,
romance de 1904, para, em seguida, ter um livro só seu, de memórias, o
Memorial de Aires, de 1908, ano da morte de Machado. Em Esa√ļ e Jac√≥, o
autor focaliza o fato pol√≠tico da Proclama√ß√£o da Rep√ļblica, em 1889. No
Memorial, o tempo histórico é 1888, ano da Abolição da Escravatura no
Brasil. E, no Homem de papel, Almino concentra a ação neste selvagem
2022, ano de elei√ß√Ķes, destacando-se a de Presidente da Rep√ļblica, e faz
um contraponto com as duas obras citadas, no sentido de discutir com
espírito crítico a insana situação política do país, no passado como no
presente. Replica, portanto, os personagens: os gêmeos briguentos Pedro
e Paulo, de Esa√ļ e Jac√≥, em Miguel e Hugo (trig√™meos com Flora)
igualmente beligerantes e irreconcili√°veis, met√°fora sutil para o Brasil de
hoje. Por sua vez, Flor lembra a indecisa Flora quanto à escolha do
parceiro, enquanto Leonor, a professora argentina especialista no
conselheiro-personagem, guarda semelhan√ßa com Fid√©lia, a jovem vi√ļva
que despertou todos os sentidos (ocultados) do velho conselheiro Aires.
Fid√©lia, Leonor ‚Äď tema da fidelidade conjugal em Beethoven.
A ideia do autor √© muito feliz, pois utiliza um recurso c√īmico ao
fazer o velho conselheiro viajar ao futuro e ao passado, do qual, na

verdade, nunca saiu, com sua cultura e linguagem polida, seu colete,
fraque, botinas enceradas e bigode retorcido. Todo ele démodé. Mas
ningu√©m em Bras√≠lia repara… Ele sai e volta ao livro com desenvoltura,
como um animalzinho de estima√ß√£o ‚Äď e obediente ‚Äď de Flor, que o guarda
com todo o cuidado. Mas as coisas mudam e ele vai parar até num sebo. E
em lugares piores. Muito piores. √Č um personagem falante. Um verdadeiro
‚Äúaudiobook‚ÄĚ.
O melhor do livro √© esse jogo, uma esp√©cie de ‚Äúmise en abyme‚ÄĚ, um
romance dentro do outro, o que é muito engenhoso e divertido. Há
tamb√©m um ‚Äútrompe-loeil‚ÄĚ liter√°rio que brinca com a pr√≥pria narra√ß√£o,
uma vez que os personagens de Homem de papel dizem ao conselheiro
que ele não tem existência real, que é um personagem de romance, um
homem sem carne ‚Äď de papel -, quando na realidade esses mesmos
personagens são igualmente de papel para o leitor. Sem contar a aparição
do enigmático editor M. de A. para aumentar o imbróglio.
Os personagens do Memorial dialogam entre si, a exemplo de dona
Cesárea, velha amiga de língua afiada, que pede ao conselheiro que volte
ao passado. Os di√°logos se alternam entre passado e presente, num
exercício de intertextualidade, o que na narrativa significa futuro, num
jogo entre fic√ß√£o e… fic√ß√£o.
E o conselheiro, homem conservador, vai se adaptando à nova vida,
se soltando muito à vontade, protagonizando mil e uma peripécias,
rebelando-se, o que preocupa Flor: ‚Äúconselheiro, imploro que as situa√ß√Ķes
que o senhor anda criando parem por aí. O senhor sabe o carinho e o
respeito que tenho pelo senhor.‚ÄĚ (P√°g. 117). Algumas delas como fazer
pagamentos com moedas do século 19 que ainda trazia no bolso; fugir
sem pagar a conta; frequentar as redes sociais com milh√Ķes de seguidores;
ser guiado por um cego pelas ruas de Brasília; visitar o palácio do
Itamaraty (de onde quase foi expulso); lidar com fake News e participar de
manifestação política na Esplanada dos Ministérios. Esta, particularmente
hilariante, tem alguma coisa de O rinoceronte, de Ionesco, pelo absurdo
da situa√ß√£o. Assim como a sess√£o na C√Ęmara dos Deputados, cuja
comicidade atinge o paroxismo com a discuss√£o acalorada sobre a
quest√£o de uma anta ser candidata √†s pr√≥ximas elei√ß√Ķes. (Num pa√≠s que
quase elegeu um macaco, o Tião, à prefeitura do Rio de Janeiro tudo é
possível.). Almino utiliza com muita graça o jargão de todas as categorias
sociais, bem como os mais variados registros linguísticos como profundo
conhecedor da língua portuguesa que é, e não só da língua de Machado
de Assis, cujo representante no romance é o conselheiro Aires, homem
lido e relido, leitor de Shelley, Dostoiévski, Platão. Sobrevivendo a si
mesmo, diz: ‚ÄúVoc√™s pensam, logo existo‚ÄĚ.
Assim, o embaixador Jo√£o Almino com sua prosa vigorosa mais uma
vez declara o seu amor a Bras√≠lia de JK, L√ļcio Costa e Niemeyer, que,
agradecida, o abra√ßa calorosamente; cidade aberta ao novo e ao velho ‚Äď
que nela se encontram, ou se cruzam, como os dois eixos que formam o
traçado da cidade. Assim também, o velho diplomata, exumado, se
encontra com o novo Brasil, que, dividido, anseia por dias melhores. Que
h√£o de vir.

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Sobre HOMEM DE PAPEL, leia resenha no RASCUNHO de Ana Cristina Braga Martes

ensaios e resenhas

Da intuição delirante à descrença ponderada
« Homem de papel », oitavo romance de Jo√£o Almino, discute temas como fidelidade, decad√™ncia e pol√≠tica
ANA CRISTINA BRAGA MARTES
S√ÉO PAULO ‚Äď SP
# EDIÇÃO 267, JULHO DE 2022

Jo√£o Almino, autor de ‚ÄúHomem de papel‚ÄĚ

01/07/2022
Homem de papel, oitavo romance de Jo√£o Almino, √© uma par√≥dia do Memorial de Aires, √ļltimo livro de Machado de Assis. Ele incorpora o protagonista e alguns personagens tamb√©m presentes em Esa√ļ e Jac√≥, do mesmo autor, e d√° continuidade √† hist√≥ria do conselheiro at√© chegar ao s√©culo 21, com uma anta disputando a presid√™ncia da Rep√ļblica.

Sem met√°foras, a anta tamb√©m √© ‚ÄĒ literalmente ‚ÄĒ um animal neste livro. Al√©m de ser, √© claro, um s√≠mbolo nacional. A partir da√≠, todas as deriva√ß√Ķes s√£o poss√≠veis. Entre met√°foras e muita ironia, o enredo vem e vai na hist√≥ria do Brasil. Par√≥dia combinada √† metalinguagem e intertextualidade, pois √© um livro escrito por um livro que adota outros livros como refer√™ncia. Aires, o narrador centen√°rio, se transforma em um homem de papel ‚ÄĒ tamb√©m ele, um her√≥i malogrado.

Ainda que o leitor nunca tenha lido Machado de Assis, Homem de papel flui machadianamente do mesmo jeito. O livro √© escrito com um tipo de humor tamb√©m machadiano, ir√īnico e cortante, assim como a escrita √© muito pr√≥xima deste autor, direta mas carregada de surpresas.

Enredo e temas
Homem de papel conta a hist√≥ria de um livro com todos os dramas capazes de acometer o mais comum dos mortais: o amor, a incerteza do ser, problemas com a pr√≥pria identidade e com o envelhecimento. Tudo come√ßa com a personagem Flor, uma diplomata que adorava ler ‚Äúo livro‚ÄĚ. H√° muitas passagens elucidativas e nost√°lgicas que parecem ter o objetivo de realmente esclarecer (e criticar) o exerc√≠cio da diplomacia, o acesso √† carreira e as promo√ß√Ķes internas, especialmente nas primeiras d√©cadas dos anos 2000.

Em Machado, Aires √© conselheiro para dilemas pessoais e dramas morais t√≠picos do s√©culo 19, com as transforma√ß√Ķes ocorridas nos √ļltimos cem anos. Agora, no livro de Almino, ele passa a ser requisitado como uma esp√©cie de terapeuta ou analista. Al√©m dos problemas enfrentados na carreira diplom√°tica de Flor, Aires ouve pacientemente seus relatos de trai√ß√£o conjugal e outras coisas mais √≠ntimas, que as mulheres de Machado talvez n√£o ousassem. Por se tratar de um livro, deve-se considerar que o Aires do Homem de papel √© um voyeur discreto e poderoso.

Morador da capital, teve que deixar o Rio de Janeiro ao ser levado para Bras√≠lia a contragosto. Nesta cidade, que aparece em v√°rios romances de Almino e √© por ele definida como ‚Äúuma cidade de cruzamentos‚ÄĚ e um ‚ÄúBrasil de Brasis‚ÄĚ, o livro pode continuar testemunhando a fant√°stica vida pol√≠tica brasileira.

Do Rio para Bras√≠lia, de Flor para Leonor. O livro foi comprado em um sebo por Leonor, que tamb√©m o tem como um conselheiro, solicitando sua opini√£o, confessando sentimentos amb√≠guos e angustiados. Por ser um livro, √© incapaz de ver todas a cenas, faltam-lhe pernas e onipresen√ßa. Mas sua intui√ß√£o, viv√™ncia e racioc√≠nio l√≥gico s√£o suficientes para deduzir tudo o que se passa. Num tom ‚Äúmodesto‚ÄĚ e sarc√°stico ao mesmo tempo, ele se permite afirma√ß√Ķes como: ‚ÄúIsto exatamente eu n√£o vi, mas‚Ķ‚ÄĚ.

Um dos pontos altos do enredo ocorre quando o protagonista sai do livro. Sim, o livro deixa de ser livro para ser personagem, personagem preso ao próprio livro, que vai desembocar, de fato, na prisão de Aires por causa da anta. Muita inspiração, humor fantástico e fabulação literária.

O narrador-livro filosofa e √© um ser intrigado com a natureza humana. Suas p√°ginas trazem uma reflex√£o constante sobre a vida, as a√ß√Ķes mundanas e suas consequ√™ncias, principalmente as mais absurdas e inesperadas (ou esperadas, mas carregadas de autoengano). Apesar de ser t√£o velho ‚ÄĒ e talvez por isso mesmo ‚ÄĒ, Aires tem um olhar cr√≠tico sobre si, sujeito decadente, e a pr√≥pria decad√™ncia do Brasil ao longo de tantas d√©cadas. Ele tenta se atualizar ao m√°ximo, chegando a ter uma presen√ßa ativa nas redes sociais, mas tem consci√™ncia de ser imposs√≠vel superar sua condi√ß√£o de sujeito/objeto ultrapassado. At√© o Google √© capaz de atestar seu decl√≠nio: as pesquisas pelo seu nome decresciam ano a ano, tendo ca√≠do de 40 mil para 30 mil nos √ļltimos dez anos.

Discursos radicais
Solil√≥quios e di√°logos em meio a narrativas pol√≠ticas, especialmente as que se referem a dois momentos da hist√≥ria do Brasil que Almino aproxima e compara para destacar similaridades curiosas: de um lado, a aboli√ß√£o da escravatura e fim do Imp√©rio e, de outro, a instabilidade pol√≠tica e jur√≠dica das primeiras d√©cadas do s√©culo 21. A polariza√ß√£o e o √≥dio est√£o presentes nos dois contextos, apesar das diferen√ßas temporais, tecnol√≥gicas e econ√īmicas.

Como livro e conselheiro, ele se v√™ obrigado a ouvir (e sobretudo a ponderar) discursos radicais e populistas √† direita e √† esquerda, semelhantes aos discursos conservadores e liberais que testemunhou no fim do Imp√©rio, com o embate entre republicanos e monarquistas. Um dos recursos liter√°rios usados para aproximar estes dois momentos hist√≥ricos √© a men√ß√£o a uma passagem do memorial, que faz com que Aires se lembre de que est√° no Brasil ao ouvir algu√©m gritando da rua: ‚ÄúVassoura, vassoura, vassoura‚Ķ‚ÄĚ. Em Homem de papel, a frase an√°loga √©: ‚ÄúPamonhas, pamonhas, pamonhas‚ÄĚ. No final das contas, o pa√≠s n√£o mudou muito.

Ironia
Almino usa a ironia como estilo literário e motor do enredo. O recurso está na construção dos personagens, nas cenas, nos diálogos, no pensamento enroscado nele mesmo. Nada escapa ao olhar relativista e pessimista do livro-narrador, capaz de radicalizar a ironia até tudo se tornar ridículo ou fantástico, como no caso da anta. Nesta e em outras passagens, observa-se uma tensão permanente entre o que é literal e o que é figurado, levando o leitor a se perguntar sobre o sentido das palavras. Uma vez que a ironia deixa transparecer um sentimento de superioridade, o leitor suspeita de que a autoimagem de flagrante decadência é puro fingimento, um artifício de sedução do protagonista.

Tal como em Machado, o humor reflete uma compreens√£o filos√≥fica do mundo que ilumina a dimens√£o comezinha da qual nenhum humano escapa e que induz a c√°lculos e a√ß√Ķes equivocadas. Todos est√£o perdidos e a vida talvez n√£o fa√ßa sentido algum. Mas n√£o se engane, o narrador √© um dissimulador profissional. Muita galhofa e esc√°rnio s√£o usados para denunciar, mas sempre reduzindo os riscos de cair nos extremos. Nada de posicionamentos definitivos ou absolutos sobre os fatos, especialmente se capazes de descartar definitivamente a esperan√ßa. Homem de papel vai da intui√ß√£o delirante √† pondera√ß√£o para atingir o √°pice de uma cr√≠tica resignada.

Compre este livro

HOMEM DE PAPEL
Jo√£o Almino
Record
413 p√°gs.

JOÃO ALMINO
Nasceu em Mossor√≥ (RN). √Č escritor e diplomata. Autor de Entre facas, algod√£o (2017), Enigmas da primavera (2015) e Cidade livre (2010), entre outros. Ocupa a Cadeira 22 da Academia Brasileira de Letras (ABL).

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Sobre HOMEM DE PAPEL, leia resenha da Estação José Nêumanne Pinto

Machado visita Almino em romance de gênio

José Nêumanne

Homem de papel traz o √ļltimo protagonista do maior romancista brasileiro, com sua sutileza expl√≠cita, a f√ļria de Barreto e um toque de Rabelais, para coroar grande feito de nossa fic√ß√£o

Uma obra-prima da literatura √© uma pe√ßa muito rara, muito especial, de alt√≠ssima qualidade. Ser posta no alto de todos os pedestais e altares da cr√≠tica imp√Ķe um imenso respeito e tamb√©m uma enorme solid√£o. Mas nem sempre esse p√≠ncaro significa esterilidade. Ao contr√°rio: estar nesse pico pode gerar outro texto a merecer elogios dos cr√≠ticos especializados. E tamb√©m a satisfa√ß√£o de um grupo seleto, mas numeroso, de leitores. O efeito gerador da genialidade consta de dois dos mais lidos e celebrados romances do mestre dos mestres, Joaquim Maria Machado de Assis: Esa√ļ e Jac√≥ e Memorial de Aires, o canto de cisne do ‚Äúbruxo‚ÄĚ do Cosme Velho. Eles escalaram o Olimpo da fic√ß√£o nacional e para l√° deram passagem para Homem de Papel, de Jo√£o Almino, editado este ano pela Record.

Tal livro entrega a um aficionado do mulato genial tudo o que, desde o t√≠tulo, seu texto promete. O protagonista e/ou narrador √© um tipo centen√°rio, no qual o maior romancista brasileiro empenhou sua genialidade e sua experi√™ncia: o conselheiro Aires. E aqui a palavra tipo pode ser empregada em todos os seus valores sem√Ęnticos. Antes como personagem de uma pe√ßa de fic√ß√£o, corpo dos logaritmos do passado, os chamados tipos m√≥veis, de que se compunham as frases dos impressos em geral e dos romances em particular no come√ßo do s√©culo passado. A narrativa foi transposta de um material original, do qual emergiu o texto do contexto da personagem e de seu tempo. Ao leitor pouco importa que tenham mudado as formas originais dos tipos, que sa√≠ram dos prelos oriundos da mec√Ęnica de Gutenberg. E saltitam nas m√°quinas compositoras eletr√īnicas atuais, no g√™nero da cibern√©tica, descrita por Norbert Wiener, autor de uma manual prof√©tico de relev√Ęncia t√©cnica e cient√≠fica reconhecida.

O Machado ressuscitado na composi√ß√£o eletr√īnica usada pelo diplomata (como a personagem) ressuscita em plena forma na figura recriada de um antigo conselheiro do Imp√©rio para se tornar palpiteiro amador, ou melhor, n√£o profissional, da ‚Äúverdadeira‚ÄĚ protagonista do livro, a colega Flor, na atual republiqueta. Isso se reproduz na atemporalidade das cenas vividas pelo Aires duplamente romanesco, quando algumas vezes ele se perde e se reencontra na confus√£o estabelecida entre a mem√≥ria remota de uma crise desafiadora dos oitocentos e ressurge na lembran√ßa pr√≥xima dos conflitos do atual√≠ssimo segundo mil√™nio. Trata-se evidentemente de uma tarefa espinhosa, um desafio e tanto, de vez que o autor contempor√Ęneo empenha seu talento de escriba na recria√ß√£o do tipo machadiano por se obrigar √† verossimilhan√ßa. E este √© o mais exigido dos atributos de um criador liter√°rio de qualquer √©poca. Almino √© potiguar de Mossor√≥ e elegeu Bras√≠lia como l√≥cus primordial de seus oito t√≠tulos de fic√ß√£o. Machado, um urbanoide carioca de outra distante e praieira capital federal em plena deteriora√ß√£o da s√©tima, e talvez mais desastrada, reencarna√ß√£o, do golpe da rep√ļblica privatizada, que o Aires original conheceu E assim teria conv√≠vio de menor familiaridade com um s√©culo inteiro de golpes e contragolpes armados at√© os dentes, contrariamente ao que ocorria no Segundo Imp√©rio, cen√°rio no qual viveu e trabalhou.

Almino, sertanejo no cerrado do Planalto Central, saiu-se desse q√ľiproqu√≥ com aquela caracter√≠stica reconhecida em seus ancestrais por Euclydes da Cunha, militar, g√™nio liter√°rio e v√≠tima fatal da imper√≠cia no manejo de armas: a t√™mpera, que n√£o se traduzia no sin√īnimo mais comum, sempre a lembrar a for√ßa f√≠sica. Reconstruir o mundo do amado de Carolina n√£o √© nem nunca foi uma tarefa de H√©rcules, e o fez com a finura afiada de uma adaga √°rabe ou de uma peixeira nordestina. Adestrado e bem-sucedido na saga hom√©rica de voltar a √ćtaca no romance anterior, o tamb√©m magn√≠fico (desde o t√≠tulo fidel√≠ssimo) Entre Facas, Algod√£o, sobre o tema ancestral da volta ao pago sagrado, mostra no mais recente, sua intimidade absurda com a ironia refinada do criador de Aires. Ao qual acrescentou a cr√≠tica amarga e arrebatada de Lima Barreto, inspirador secreto de seu primor machadiano. Policarpo Quaresma passeia pelas p√°ginas de Homem de Papel em cenas antol√≥gicas, caso do almo√ßo entre os trig√™meos centrais da trama – um esquerdista de boteco, um oportunista de direita e uma ‚Äúisentona‚ÄĚ de almanaque -, talvez a que melhor resume as inten√ß√Ķes do autor. Como no Brasil, onde um compadre do imperador o derrubou para criar uma rep√ļblica de opereta. Nela um camel√ī de feira reuniu embaixadores do resto do mundo para denunciar como fraudulenta a elei√ß√£o da qual ascendeu ao poder discricion√°rio, que exerce sem empatia nem civismo, sem sabedoria nem bom senso.

O protagonista que sai, literalmente, das p√°ginas, para intervir na ‚Äúfalsa‚ÄĚ, mas muito veross√≠mil, farsa da perman√™ncia do desgoverno intermin√°vel dos med√≠ocres (aten√ß√£o, a palavra reproduz um eufemismo!), mant√©m a f√ļria de Barreto e a delicadeza de Machado quando abandona a sutileza de Sterne, herdada do vov√ī guanabarino. F√°-lo ao adotar no epis√≥dio final da anta a entroniza√ß√£o da estupidez com a verve de Rabelais. N√£o √© preciso recorrer √† escatologia da descarga intestinal do tapir candidato para atingir esse paroxismo, talvez intencional do autor, porque, ao longo da descri√ß√£o, o leitor deleita-se com a cultura enciclop√©dica do escritor, com a entrada da alim√°ria-s√≠mbolo do integralismo de Pl√≠nio Salgado, intelectual de direita que o golpista da hora imita sem saber. Mas o faz de forma t√£o imprudente que acaba por mostrar que ignora at√© a anta de t√™nis, adotada como s√≠mbolo das poucas luzes da ditadura no Pasquim.

Saiba o leitor, que navega entre monstros e sereias, como o herói helênico depois da invasão de Troia por um cavalo de pau, que estes comentários irreverentes aqui expostos decorrem apenas de uma das muitas leituras da obra comentada. Essa parte da intromissão de um homem de papel na ficção brasileira com verve e delicadeza, dão-lhe todos os méritos para subir ao altar elevado do ciclo que a inspirou, como mais um produto do engenho do qual herdou o que de melhor nele há.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog da Estação José Nêumanne Pinto, na sexta 22 de julho de 2022)

Para ler no original clique no link abaixo:

Machado visita Almino em romance de gênio


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