Homem de Papel

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Oitavo romance de João Almino e segundo após entrar para a Academia Brasileira de Letras, Homem de papel transporta o conselheiro Aires para o século XXI. Livro será lançado em live no dia 12/04 às 19h.
O que Machado de Assis diria se escrevesse sobre a realidade contempor√Ęnea? Em Homem de papel, Jo√£o Almino, diplomata e um dos escritores mais importantes da literatura nacional, resgata o personagem-narrador conselheiro Aires, transportando-o para os dias atuais. Se no machadiano Esa√ļ e Jac√≥ o conselheiro est√° numa trama sobre dois irm√£os que disputam a mesma mulher e defendem regimes pol√≠ticos contr√°rios (Monarquia e Rep√ļblica), em Homem de papel ele ganha protagonismo metamorfoseado em livro, do qual consegue dar escapadelas para o mundo real, regido pela ignor√Ęncia e estupidez.
O exemplar que o abriga pertence √† jovem diplomata Flor, trig√™mea de Hugo e Miguel, que, assim como os g√™meos de Machado, est√£o em eterna rixa. O conselheiro se depara com as redes sociais e precisa se adaptar √† velocidade com que as not√≠cias se multiplicam. Diferentemente do final do s√©culo XIX e in√≠cio do XX, cada not√≠cia cria milh√Ķes e milh√Ķes de ‚Äúverdades‚ÄĚ de consequ√™ncias irrepar√°veis.
Sobre Homem de papel, H√©lio Guimar√£es, professor da USP, escreve: ‚ÄúMovendo-se entre a farsa, a par√≥dia, a s√°tira e a tragicom√©dia, Jo√£o Almino aciona com maestria muitas notas do c√īmico. O humor afasta qualquer sugest√£o de que o passado fosse muito melhor do que o presente. Continua valendo aqui, como em Machado, a convic√ß√£o de que ci√ļmes, trai√ß√Ķes, medo, orgulho, vaidade at√© mudam de endere√ßo, mas mant√™m o frescor do primeiro p√© de alface que nossos ancestrais arrancaram da terra.‚ÄĚ E afirma o cr√≠tico portugu√™s Abel Barros Baptista: ‚Äúuma li√ß√£o de literatura: surpreendente e inteligente.‚ÄĚ

HOMEM DE PAPEL
Jo√£o Almino

416 p√°gs. | R$ 64,90

Ed. Record | Grupo Editorial Record

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Simone Magno
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Lançamento
Homem de papel será lançado no dia 12 de abril, às 19h, em uma conversa do autor, João Almino, com o escritor Luiz Ruffato. A transmissão será ao vivo no youtube da Livraria da Travessa.

Trecho do livro
‚ÄúSempre que eu ouvia desaven√ßas pol√≠ticas, corriqueiras, menos corriqueiras e de todos os tipos, eu pensava em Pedro e Paulo, irm√£os g√™meos, um monarquista e o outro republicano, que j√° brigavam na barriga da m√£e. Voc√™s fiquem tranquilos, jamais darei tanta import√Ęncia a eles neste meu relato. N√£o vou substituir suas paix√Ķes pelas dos partidos azul e vermelho, nem os colocar a defender e condenar o golpe, embora o tenham feito em 1889. N√£o os convidaria para estes pap√©is novos por uma raz√£o fundamental: um e outro abdicariam, como fizeram no passado, de suas paix√Ķes pol√≠ticas por outra maior. Escreveriam suas constitui√ß√Ķes pessoais, acima da Monarquia e da Rep√ļblica, para conquistar o amor de uma mo√ßa que acabaria morrendo de indecis√£o.‚ÄĚ

Sobre o autor
Jo√£o Almino nasceu em Mossor√≥, RN. Diplomata e um dos nomes mais importantes da literatura nacional atualmente, tem sido aclamado pela cr√≠tica por seus romances Ideias para onde passar o fim do mundo (Pr√™mio do Instituto Nacional do Livro), Samba-enredo, As cinco esta√ß√Ķes do amor (Pr√™mio Casa de las Am√©ricas), O livro das emo√ß√Ķes, Cidade livre (Pr√™mio Passo Fundo Zaffari & Bourbon), Enigmas da primavera e Entre facas, algod√£o. Seus romances foram publicados na Argentina, Espanha, EUA, Fran√ßa, Holanda, It√°lia e M√©xico, entre outros pa√≠ses. Seus escritos de hist√≥ria e filosofia pol√≠tica s√£o refer√™ncia para os estudiosos do autoritarismo e da democracia. Em 2017, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.

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CONSULTAR RESENHAS SOBRE “HOMEM DE PAPEL” abaixo e tamb√©m em RESENHAS/Entre facas, algod√£o

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SOBRE “HOMEM DE PAPEL”, LEIA ORELHA DO PROFESSOR H√ČLIO GUIMAR√ÉES, da Universidade de S√£o Paulo:

O que diriam o conselheiro Aires, e Machado de Assis, sobre o estado de coisas no Brasil de hoje?

√Č essa a pergunta que parece mover a imagina√ß√£o do escritor, e a do leitor, neste Sedu√ß√Ķes do Ocaso, o oitavo romance de Jo√£o Almino.

O conselheiro Aires, que preside os dois √ļltimos romances de Machado de Assis, √© o narrador e protagonista aqui. Espiando de dentro das p√°ginas do livro que habita h√° mais de s√©culo, e tamb√©m em algumas escapadelas para o mundo exterior, ele passa em revista este nosso tempo regido pela ignor√Ęncia e pela estupidez.

O exemplar que lhe serve de abrigo pertence a uma certa Flor, jovem diplomata, trigêmea de Hugo e Miguel. Neste caso, Flor não está dividida entre o amor de dois gêmeos, mas espremida entre dois irmãos em eterna rixa política.

O centro da ação desloca-se agora do Catete e do Botafogo para uma Brasília invadida por antas, esse animal tipicamente nacional, como o romance faz questão de frisar.

Os anos de transi√ß√£o da monarquia para a rep√ļblica, em que as personagens machadianas assistem, entre embasbacadas e indiferentes, tanto √† aboli√ß√£o como √† proclama√ß√£o do novo regime, d√£o lugar √† vertigem do agora.

A confus√£o generalizada n√£o provoca muito mais do que bocejos no velho diplomata. Quando lhe perguntam como v√™ a atualidade, responde: ‚ÄúA lua est√° bonita‚ÄĚ.

Aires, no entanto, n√£o deixa de se espantar com a propaganda do Viagra, que lhe permitiria reescrever os velhos versos de Shelley e finalmente eliminar o ‚Äúnot‚ÄĚ dos c√©lebres versos ‚ÄúI can give not what men call love‚ÄĚ.

Confrontado com as redes sociais, o conselheiro redivivo √© obrigado a refazer as contas. Se no s√©culo 19 toda not√≠cia crescia pelo menos de dois ter√ßos, agora cada not√≠cia multiplica-se aos milh√Ķes, criando milh√Ķes e milh√Ķes de “verdades” em conflito.

Movendo-se entre a farsa, a par√≥dia, a s√°tira e a tragicom√©dia, Jo√£o Almino aciona com maestria muitas notas do c√īmico, provocando estampidos de riso, risadas mal√©volas, esgares e certamente muito sorriso amarelo.

O riso afasta qualquer sugest√£o de que o passado fosse muito melhor do que o presente. Continua valendo aqui, como em Machado, a convic√ß√£o de que ci√ļmes, trai√ß√Ķes, medo, orgulho, vaidade at√© mudam de endere√ßo, mas mant√™m o frescor do primeiro p√© de alface que nossos ancestrais arrancaram da Terra.

Assim, basta raspar de leve o tênue verniz que recobre as personagens para perceber que o mundo continua povoado pelos descendentes de Brás Cubas, Quincas Borba, Bento Santiago, Fidélia, dona Cesária e, claro, esse Aires, com a sua eterna flor na botoeira.

Neste que talvez seja o mais alusivo de todos os seus romances, Jo√£o Almino n√£o poupa ironia √† vida liter√°ria, √† academia, √† pol√≠tica e √† diplomacia. Entre o desespero e o riso, ressuscita o velho diplomata para nos perguntar ainda mais uma vez: “Que pa√≠s √© este?” E, por tabela, que mundo e que tempo √© este em que sobrevivemos.

Hélio Guimarães, USP
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SOBRE “HOMEM DE PAPEL”, LEIA POSF√ĀCIO DO PROFESSOR ABEL BARROS BAPTISTA, DA UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA:

‚ÄúOlha, conselheiro… O senhor deve ficar no livro, √© o que lhe digo. Nem Machado de Assis consegue permanecer como grande escritor sem a presen√ßa do senhor. Fique, conselheiro. O mundo l√° fora, como est√°, n√£o merece o senhor.‚ÄĚ S√£o palavras de uma certa D. Ces√°ria, que o leitor vai encontrar bem cedo no livro que tem nas m√£os. O mundo ‚Äúl√° fora‚ÄĚ √© o que vamos chamando de nosso, decerto aquele onde o mesmo leitor passa os seus dias; por oposi√ß√£o, l√° dentro, o mundo √© o do livro, e o livro √© evidentemente Memorial de Aires. O problema do livro de Jo√£o Almino fica assim posto por essa figura que j√° animava a obra de Machado com tanta maldade como gra√ßa: n√£o tanto o problema de sair do livro, antes o de, saindo, ficar neste outro mundo, o que chamamos nosso. Nenhum mist√©rio. De entrada se percebe que Aires est√° no livro e √© o livro; e o livro, por sua vez, circula nesse nosso mundo, presente e pr√≥ximo, pela m√£o de Flor, que tem no mesmo conselheiro Aires o seu interlocutor favorito. (Flor, n√£o Flora, advert√™ncia em aten√ß√£o aos machadianos ass√≠duos.) Num certo sentido, o empreendimento ficcional de Jo√£o Almino ajeita-se bem √† formula√ß√£o que descrevia D. Ces√°ria: d√° interesse a um reputado entediado e movimento a um confirmado defunto. Num primeiro movimento, a desloca√ß√£o de Aires sugere que o romance o traz a este nosso mundo para o consertar, ao mundo, ou para que ele se conserte, o conselheiro. Quando o c√©lebre verso de Shelley comparece ‚ÄĒ I can give not what men call love ‚ÄĒ, a sugest√£o √© de algum intuito redescritivo, como se Jo√£o Almino pretendesse, trazendo Aires ao nosso presente, restituir-lhe uma oportunidade de amor que negou a si mesmo no romance de Machado e, depois, uma oportunidade de empenho que lhe parecia negar a condi√ß√£o diplom√°tica. A primeira possibilidade de Homem de Papel √© assim a metaficcional; Aires narrando-se de novo, mas para se inventar novo. Entretanto, num lance surpreendente se compreende que Homem de Papel vai noutro sentido sem renunciar a esse primeiro. Ficar ou n√£o ficar no mundo deste s√©culo, este mundo merec√™-lo ou n√£o, enquanto decis√Ķes e ju√≠zos atribu√≠dos ao conselheiro Aires, emergem no confronto com a brutalidade desse ‚Äúmundo l√° fora‚ÄĚ e abrem o caminho para uma alegoria delirante e sarc√°stica da actual conjuntura pol√≠tica brasileira, incompat√≠vel tanto com a diplomacia como com o t√©dio da controv√©rsia famosamente caracterizadores de Aires. O contraste √© grande, e enorme a dist√Ęncia da delicadeza melanc√≥lica √† bo√ßalidade em que Aires fica tentado a morar para sempre. D. Ces√°ria adverte que assim se prejudicaria a grandeza de Machado, que o mundo l√° fora n√£o merece o conselheiro: e eis a gra√ßa sem maldade nenhuma e a maldade sem gra√ßa nenhuma reunidas num s√≥ problema: ficar ou n√£o ficar fora do livro. Jo√£o Almino subverte Aires para o restituir ao original Aires de 1908: depois de ter transformado esse mesmo original em gerador de encontros e desencontros catalisados politicamente pelo aparecimento de uma anta. A discrep√Ęncia entre os dois movimentos √© suficientemente flagrante para operar uma li√ß√£o de literatura: surpreendente e inteligente, remetendo ao passado sem perder a atra√ß√£o pelo presente, denunciando e do mesmo passo contemplando. E ir√≥nico, claro, divertidamente ir√≥nico, ou n√£o fosse Aires o mais eminentemente personagem machadiano transport√°vel para fora do livro e o mais eminentemente capaz de restaurar a necessidade de a ele regressar.

Abel Barros Baptista, Universidade Nova de Lisboa

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Sobre HOMEM DE PAPEL, leia resenha de Stefania Chiarelli em O Globo:

‘Homem de papel’: personagem de Machado de Assis conhece s√©culo XXI em novo livro de Jo√£o Almino

Circulando as ruas de Brasília, o conselheiro Aires segue especialista na alma humana

Stefania Chiarelli, especial para O GLOBO

02/04/2022 – 04:30

 

 

Ele √© um diplomata aposentado. Vestido √† moda antiga, apresenta-se s√≥brio, equilibrado, verdadeiro mediador. Homem bicenten√°rio, seu nome √© Aires, e ele vem de outro s√©culo ‚ÄĒ viajou diretamente das p√°ginas de ‚ÄúEsa√ļ e Jac√≥‚ÄĚ (1904) e ‚ÄúMemorial de Aires‚ÄĚ (1908), de Machado de Assis, para protagonizar ‚ÄúHomem de papel‚ÄĚ, oitavo romance de Jo√£o Almino. O escritor, nascido em Mossor√≥ (RN), tamb√©m diplomata, promove na narrativa intenso jogo entre passado e presente, em que o c√©lebre personagem transita hoje pelas entrequadras de Bras√≠lia, no lugar dos passeios pela Praia de Botafogo e Rua do Ouvidor, no Centro da antiga capital federal.

Plantado neste confuso s√©culo XXI, Aires vai revelando, em primeira pessoa, sua perspectiva das coisas. O conselheiro agora mora dentro de um livro. A diplomata Flor, trig√™mea de Hugo e Miguel, √© sua interlocutora privilegiada, e diante de seus olhos espantados o personagem se materializa a cada tanto, saindo do exemplar para o mundo real. A mo√ßa vive uma crise, dividida entre o amor do marido C√°ssio e do colega Zeus, ecos vis√≠veis da grande Flora, de ‚ÄúEsa√ļ e Jac√≥‚ÄĚ, jovem perdidamente apaixonada pelos g√™meos que protagonizam a trama.

√Č antiga a rela√ß√£o quase prom√≠scua entre livros, hist√≥rias e palavras. A obra machadiana j√° vem marcada por m√ļltiplas cita√ß√Ķes: o escritor carioca se pautou pela releitura da tradi√ß√£o, parodiando sem reservas o texto alheio, da B√≠blia a Jos√© de Alencar, de Laurence Stern a Xavier de Ma√ģstre. Nessa espiral, o romance de Almino se situa entre cria√ß√£o e apropria√ß√£o, gesto que desde sempre sustenta a pr√≥pria literatura. Ele n√£o est√° s√≥, muitos escritores j√° beberam dessa √°gua, como Lygia Fagundes Telles, com o roteiro ‚ÄúCapitu‚ÄĚ (1967), e Silviano Santiago, no romance ‚ÄúMachado‚ÄĚ (2016), entre tantos outros.

Em Almino, ecoando Machado, Aires chama a aten√ß√£o para que o leitor tome parte ativa na hist√≥ria, orientando nossa leitura com lembretes e perguntas: ‚ÄúPe√ßo que n√£o riam de mim‚ÄĚ ou ‚ÄúAfinal, quem era eu?‚ÄĚ Tal procedimento surge como alerta ‚ÄĒestamos lendo um relato ficcional, aqui fala um homem de papel. Nessa condi√ß√£o, em algum momento ele d√° o salto e sai da p√°gina escrita. Flor e a entusiasmada professora Leonor s√£o as que melhor conseguem v√™-lo.

Tentador ver aqui sopros vindos da cinematografia de Woody Allen, n√£o por acaso diretor citado no discurso do escritor ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 2017. ‚ÄúA rosa p√ļrpura do Cairo‚ÄĚ (1985) evoca com for√ßa a quebra da dist√Ęncia entre personagem fict√≠cio e espectadora, na figura de Tom Baxter, ator que abandona a tela para declarar o amor √† gar√ßonete Cec√≠lia, que v√™ o filme repetidas vezes na Nova Jersey dos anos 1930. Uma f√£, um personagem. Uma leitora, um conselheiro. Em ambas as narrativas, a sa√≠da do protagonista provoca imediata desarmonia no universo ficcional. Como fazer sentido sem sua presen√ßa? Filme e livro respondem √† pergunta com interessantes desdobramentos.

No √Ęmbito da trama, chama a aten√ß√£o a ambienta√ß√£o em Bras√≠lia, lugar de grande relev√Ęncia na prosa de Almino, dedicada a pensar as rela√ß√Ķes com esse espa√ßo m√≠tico e ut√≥pico. √Ä trilogia composta por ‚ÄúIdeias para onde passar o fim do mundo‚ÄĚ (1987), ‚ÄúSamba-enredo‚ÄĚ (1994) e ‚ÄúAs cinco esta√ß√Ķes do amor‚ÄĚ (2001), acresceu-se ‚ÄúO livro das emo√ß√Ķes‚ÄĚ (2008), ‚ÄúCidade livre‚ÄĚ (2010) e ‚ÄúEntre facas, algod√£o‚ÄĚ (2017), tamb√©m ancorados na cidade. Ao olhar para o conjunto dessa j√° vasta obra, √© poss√≠vel perceber um s√≥lido projeto liter√°rio ‚ÄĒtemas e ambienta√ß√£o retornam, criando uma esp√©cie de constela√ß√£o em di√°logo, em que o escritor d√° asa solta √† imagina√ß√£o. Um personagem pode saltar das p√°ginas do livro que o abriga, ou um computador √© capaz de narrar toda a trama, como G.G., de ‚ÄúSamba-enredo‚ÄĚ.

Mas o narrador Aires carrega v√°rias ambiguidades. Empenhado em recordar o passado, confessa ter a mem√≥ria falha, admitindo ser impreciso na recomposi√ß√£o do vivido. Surpresas e equ√≠vocos se intercalam, como na divertida passagem do carnaval, em que √© tomado por foli√£o. Nesse universo d√ļbio, por vezes um ser imaterial pode ser mais real do que indiv√≠duos de carne e osso, e as cenas ambientadas no mundo da pol√≠tica e da diplomacia comprovam o quanto de teatro a vida obriga a fazer. Na vis√£o de alguns, Aires revela prud√™ncia no viver. J√° outros o enxergam como algu√©m que jamais se posiciona e evita a controv√©rsia a qualquer pre√ßo.

Mesmo desconhecendo as redes sociais, os aparelhos de celular e os bitcoins, o conselheiro segue um especialista na alma humana. No Brasil ca√≥tico de hoje, em que a diplomacia anda t√£o mal representada, seu esp√≠rito sens√≠vel e elegante faz diferen√ßa. Vi√ļvo e sem filhos, Aires pensa que o verdadeiro patrim√īnio consiste na heran√ßa das palavras. Esse imprescind√≠vel capital constitui um modo de prolongar a estirpe do conselheiro nos leitores de hoje e do futuro ‚ÄĒ de corpo presente, papel ou d√≠gitos, cada leitura dir√°.

Stefania Chiarelli é professora e pesquisadora de literatura brasileira na UFF

“Homem de papel”

Autor: João Almino. Editora: Record. Páginas: 416.

__https://oglobo.globo.com/cultura/livros/homem-de-papel-personagem-de-machado-de-assis-conhece-seculo-xxi-em-novo-livro-de-joao-almino-25459235

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Sobre HOMEM DE PAPEL leia resenha de Paula Sperb na revista Quatro Cinco Um:

Como se tornar moderno

Conselheiro Aires, famoso personagem de Machado de Assis, ganha roupagem atual em novo romance de Jo√£o Almino

Paula Sperb
14mar2022 04h51 (14mar2022 10h05)

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O escritor portiguar João AlminoPio Figueroa/Divulgação
Jo√£o Almino
Homem de papel

Record ‚Äʬ†416 pp ‚Äʬ†R$ 64,90

Em um primeiro momento, pode parecer uma miss√£o delicada para um escritor apoderar-se de um personagem de Machado de Assis e traz√™-lo para a atualidade em um romance. Tarefa desafiadora especialmente quando trata-se de Conselheiro Aires, personagem t√£o estimado pelos leitores machadianos. Parte do carisma de Jos√© da Costa Marcondes Aires ‚ÄĒ seu nome completo ‚ÄĒ deve-se principalmente ao car√°ter temperado e √† capacidade de escutar e observar para, ent√£o, narrar os dramas humanos.

Aires, um diplomata aposentado, conta, em forma de di√°rio, sua vida em 1888 e 1889, quando volta ao Brasil ap√≥s passagem pela Europa, no seu¬†Memorial de Aires¬†(1908). Entretanto, os leitores j√° conheciam o personagem de¬†Esa√ļ e Jac√≥¬†(1904), no qual se descobre que o romance √©, na verdade, o d√©cimo tomo do Memorial que o conselheiro estava escrevendo. Agora, Aires ganha fumos de modernidade em¬†Homem de papel, oitavo romance de Jo√£o Almino, o segundo desde que o escritor passou a integrar a Academia Brasileira de Letras (ABL), casa dos imortais fundada por Machado. Em¬†Homem de papel, Aires √© renovado, mas continua no papel de narrador.


Homem de papel, de Jo√£o Almino

A forma como o leitor descobre quem narra j√° se encontra na primeira frase do romance: ‚ÄúFlor me colocava numa estante baixa entre uma c√īmoda de tr√™s gavetas e uma escrivaninha coberta de pap√©is desarrumados‚ÄĚ. A ora√ß√£o inicial permite inferir de imediato que a voz est√° dentro de um livro na estante de Flor, uma das personagens. ‚ÄúN√£o quero valorizar essas min√ļcias, que n√£o deveriam me ocupar quando me concentro na hist√≥ria principal. Se √© que lhes conto uma hist√≥ria‚ÄĚ, prossegue o narrador. Aqui, o Aires de Almino ressoa o Aires de Machado, que narra detalhes de seus compromissos e hist√≥rias para depois desculpar-se pelos seus supostos excessos em ‚Äúmin√ļcias‚ÄĚ.

Almino ‚ÄĒ ele pr√≥prio um diplomata de carreira ‚ÄĒ conseguiu manter a coer√™ncia do personagem ao rejuvenesc√™-lo. Os leitores familiarizados com a voz de Aires e sua mentalidade. Como se tornar moderno Conselheiro Aires, famoso personagem de Machado de Assis, ganha roupagem atual em novo romance de Jo√£o Almino Paula Sperb de aberta ao novo e sua convic√ß√£o em n√£o tomar partido de grandes quest√Ķes n√£o se decepcionar√£o. Na verdade, √© quase um presente descobrir que √© poss√≠vel um Aires que usa ‚Äúbon√© e √≥culos escuros‚ÄĚ e caminha pelas ruas de Bras√≠lia, cidade que percorre parte significativa da obra de Almino. √Č l√° que os ossos do conselheiro, doloridos devido ao reumatismo, param de doer. A cura n√£o decorre da mudan√ßa de ares, do Rio de Janeiro para Bras√≠lia. O narrador explica e joga luz sobre o t√≠tulo da obra: ‚ÄúPassei a ter papel no lugar de ossos‚ÄĚ.

Emancipação

Aires n√£o apenas narra epis√≥dios vividos pela personagem Flor, a dona do livro, como tamb√©m acompanha sua trajet√≥ria, de estudante √† diplomata, passando a participar dela. Isso s√≥ √© vi√°vel gra√ßas √† emancipa√ß√£o do homem de papel, ent√£o preso ao livro. Esta emancipa√ß√£o ocorre em quatro etapas ao longo do romance. A primeira, quando Aires apenas escuta o que se passa ao seu redor, seja com o livro na estante ou fora dele. A segunda, quando Aires passa a escrever no livro, inserindo frases e at√© sinais de pontua√ß√£o reconhecidos como novos por Flor. √Č ador√°vel, por√©m n√£o menos convincente, quando Aires deixa um emoji de sorriso para Flor,¬†que enfrenta um momento de afli√ß√£o. ‚ÄúEra como se eu tivesse me tornado moderno‚ÄĚ, conta o narrador. A terceira etapa √© quando Aires passa a falar de dentro do livro. Por fim, Aires sai do exemplar, inicialmente vis√≠vel apenas para a dona da publica√ß√£o.

A fus√£o de Machado de Assis com Jorge Amado faz com que ‚ÄėHomem de Papel‚Äô seja o melhor livro de Jo√£o Almino

Flor √© uma mulher dividida entre o amor de C√°ssio e Zenir, desde a sua juventude. Seu dilema lembra aquele enfrentado pela personagem Flora, de¬†Esa√ļ e Jac√≥. Flora √© objeto da paix√£o dos irm√£os g√™meos Pedro e Paulo, opostos entre si inclusive politicamente. Enquanto um √© monarquista, o outro √© republicano. Flora tamb√©m padece da indecis√£o entre os pretendentes. Mas a Flor de Almino n√£o remete apenas a Machado de Assis, mas a Jorge Amado. Ela √© um pouco¬†Dona Flor e seus dois maridos¬†(1966), como faz quest√£o de apontar o personagem Zenir. Na saborosa obra amadiana, Flor √© uma vi√ļva que ama tanto o malandro Vadinho, o marido morto que aparece nu em forma de esp√≠rito, como o novo marido, o correto Teodoro.

Realismo m√°gico

Almino faz com que seja verossímil que Aires saia do livro e circule por Brasília. Há aí o traço de realismo mágico que também o aproxima de Jorge Amado. Não apenas há um diálogo com Dona Flor, como com O sumiço da santa (1988). No livro, uma imagem de Santa Bárbara, talhada por Aleijadinho, ganha vida ao desembarcar para ser exposta em um museu.

Al√©m do elemento m√°gico,¬†O sumi√ßo da santa¬†tamb√©m √© uma s√°tira pol√≠tica e trata de movimentos sociais e ditadura militar. Em¬†Homem de papel,¬†Almino n√£o foge do contexto pol√≠tico. Os irm√£os trig√™meos de Flor brigam por discordar sobre os rumos do pa√≠s. Sabe-se que ocorreu um¬†impeachment¬†no Brasil e outro chega a ser cogitado. Em tom de f√°bula, antas ‚ÄĒ sim, os animais ‚ÄĒ invadem Bras√≠lia. Uma anta ganha fama e √© aclamada para concorrer √† Presid√™ncia. No¬†Memorial de Aires, o contexto social e pol√≠tico √© o do fim da escravid√£o e a proclama√ß√£o da Rep√ļblica.

A fusão de Machado de Assis com Jorge Amado somada à originalidade de um Aires rejuvenescido faz com que Homem de Papel seja o melhor livro de João Almino. O escritor não poupa delicadezas para os leitores, com referências de outras obras machadianas e do próprio Almino. O fotógrafo Cadu, personagem de Ideias para onde passar o fim do mundo (1987), romance de estreia de Almino, encontra com Aires. A mulher de Almino, a artista plástica Bia Wouk, também surge no livro, com um quadro que decora um ambiente. Diz-se que em Memorial de Aires Machado de Assis também teria colocado um pouco de sua biografia nos personagens Aguiar e D. Carmo, um casal sem filhos, assim como o autor e a mulher Carolina.

Logo no in√≠cio de¬†Memorial, Machado escreveu que a publica√ß√£o estava ‚Äúdesbastada e estreita‚ÄĚ e indicou: ‚ÄúO resto aparecer√° um dia, se aparecer algum dia‚ÄĚ. Gra√ßas ao poder da literatura de inventar uma nova realidade, √© como se Almino tivesse dado continuidade ao¬†Memorial.

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SOBRE “HOMEM DE PAPEL”, LEIA MAT√ČRIA NO UOL ASSINADA POR RAFAELA BERTOLINI E ISABELLA BISORDI:
UOL:
VITRINE ¬Ľ CULTURA
UOL
ROMANCE RESGATA CONSELHEIRO AIRES, CL√ĀSSICO PERSONAGEM DE MACHADO DE ASSIS

“Homem de Papel” √© o oitavo romance de Jo√£o Almino, respons√°vel por trazer Aires para o s√©culo XXI
RAFAELA BERTOLINI, SOB A SUPERVISÃO DE ISABELLA BISORDI PUBLICADO EM 02/03/2022, ÀS 15H35
Capa da obra “Homem de Papel” (2022) – Cr√©dito: Reprodu√ß√£o / Record
Machado de Assis é um dos nomes mais importantes da literatura brasileira, sendo que seus livros e contos são celebrados até os dias atuais. E para resgatar uma parte da obra de Machado de Assis, o autor João Almino, também muito importante para a literatura brasileira, resgata o clássicopersonagem-narrador conselheiro Aires para transportá-lo ao século XXI.
“Homem de papel” tira o personagem do papel de conselheiro e o coloca como protagonista metamorfoseado na hist√≥ria, onde ele consegue escapar para o mundo real, que √© regido pela ignor√Ęncia e estupidez. A hist√≥ria conta sobre Flor, que √© trig√™mea de Hugo e Miguel. A rela√ß√£o entre os tr√™s √© cercada de uma eterna richa pol√≠tica, assim como os g√™meos de Machado, Esa√ļ e Jac√≥. Seria Flor a pessoa que atrapalha a simetria ou seria ela um epicentro de equil√≠brio nessa disputa entre irm√£os?
Crédito: Reprodução / Record

O livro se torna moderno por inserir Aires em um mundo moderno onde as notícias são muito rápidas e todos estão cercados por redes sociais. Assim, ele se torna responsável por trazer a essência de Machado de Assis para o mundo moderno, resgatando o seu humor sarcástico em uma narrativa intrigante e inteligente.
A obra será lançada pela editora Record no dia 14 de março de 2022, mas já está disponível para reserva na pré-venda na Amazon.

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https://aventurasnahistoria.uol.com.br/tags/homem-de-papel

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https://www.record.com.br/produto/homem-de-papel/

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Sobre HOMEM DE PAPEL, leia resenha de Vivian De Moraes, em Literatura Brasileira Contempor√Ęnea, QUORA:

Vivian De Moraes

 

 

JornalistaAtualizado 12 de abr.

[DICA DE LANÇAMENTO]

Homem de papel será lançado nesta terça, 12 de abril, às 19h, em uma conversa com o autor, João Almino, com o escritor Luiz Ruffato. A transmissão será ao vivo no Youtube da Livraria da Travessa.

[RESENHA]

O velhos Aires de Machado ressurge em

Homem de papel de João Almino (Record, 2022, 416 pp.)

O surrealismo predomina neste livro em que Almino, o autor imortal da ABL e diplomata, exp√Ķe quest√Ķes de pol√≠tica e diplomacia de forma hilariante. O conselheiro Aires, personagem machadiana, que j√° foi Ayres, com “y”, come√ßa a se desprender do papel exatamente deixando-se escorregar nessa letrinha. Da√≠ para a frente, ele vai ganhando mais autonomia, a partir da sua vida de papel. Ele √© uma personagem de um livro editado por um tal M. de A., que n√≥s sabemos bem quem √©.

Em toda a trama, seja nas negocia√ß√Ķes pol√≠ticas, seja no apaziguamento da fam√≠lia de Flor, a diplomata que possui o √ļnico exemplar da edi√ß√£o onde o conselheiro vive, ele se imiscui, por interesse e curiosidade pelos tempos atuais. Ele se envolve em discuss√Ķes, tentando ser sempre neutro, mas sempre se confunde quando se fala de golpe, por exemplo (ele imagina que referem √† proclama√ß√£o da Rep√ļblica), ou guerra (que ele acredita ser a do Paraguai). Novas formas de falar e tecnologias o confundem, e ele se veste √† antiga, sem perder a eleg√Ęncia da postura e do discurso, quando resolve sair de vez do livro e fazer andan√ßas que levam a compara√ß√Ķes entre Bras√≠lia e o velho mar de Botafogo do Rio, antiga capital onde despachava.

As piruetas ocorrem sem parar neste enredo em que, por exemplo, ao se materializar fora do livro, tenta pagar comida ou outra coisa em vint√©ns, √ļnico dinheiro que possui, se envolve em protestos, sem inten√ß√£o, e por isso vai parar na cadeia, se envolve amorosamente com uma mulher (Leonor) etc. Mas a gra√ßa maior vem na apari√ß√£o, perto do fim do livro, de uma anta gigante em Bras√≠lia, onde o livro se passa, que pol√≠ticos interesseiros prop√Ķem seja candidata √† presid√™ncia da Rep√ļblica. Ele √© o √ļnico amigo real da anta. Este √© um daqueles livros que despertam a pressa, a curiosidade irrefre√°vel de se conhecer o fim da hist√≥ria.

AVALIAÇÃO: EXCELENTE

Leia um trecho do romance:

Sempre que eu ouvia desaven√ßas pol√≠ticas, corriqueiras, menos corriqueiras e de todos os tipos, eu pensava em Pedro e Paulo, irm√£os g√™meos, um monarquista e o outro republicano, que j√° brigavam na barriga da m√£e. Voc√™s fiquem tranquilos, jamais darei tanta import√Ęncia a eles neste meu relato. N√£o vou substituir suas paix√Ķes pelas dos partidos azul e vermelho, nem os colocar a defender e condenar o golpe, embora o tenham feito em 1889. N√£o os convidaria para esses pap√©is novos por uma raz√£o fundamental: um e outro abdicariam, como fizeram no passado, de suas paix√Ķes pol√≠ticas por outra maior. Escreveriam suas constitui√ß√Ķes pessoais, acima da Monarquia e da Rep√ļblica, para conquistar o amor de uma mo√ßa que acabaria morrendo de indecis√£o.

https://literaturabrasileiracontemporanea.quora.com/DICA-DE-LAN%C3%87AMENTO-Homem-de-papel-ser%C3%A1-lan%C3%A7ado-nesta-ter%C3%A7a-12-de-abril-%C3%A0s-19h-em-uma-conversa-com-o-autor-Jo%C3%A3o-Al?ch=10&oid=63203846&share=7750d0c6&srid=uP6gHn&target_type=post

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Sobre HOMEM DE PAPEL, leia texto do escritor Ant√īnio Torres:

Jo√£o Almino nos brinda com o seu oitavo romance, com o qual acrescenta um ponto importante ao conjunto de sua obra ‚Äď uma obra, diga-se, vigorosa e rigorosa, de intensa leveza narrativa, e que inclui o ensaio liter√°rio e escritos de hist√≥ria e filosofia.

Se no seu romance anterior, Entre facas, algodão, ele se fez o continuador da prosa realista, enxuta, metonímica de Graciliano Ramos, do mundo de casas repartidas dos meninos de engenho de José Lins do Rego, e até da poesia descarnada de João Cabral de Melo Neto, agora, com a pena da galhofa, tintas alegóricas, por vezes melancólicas, em outras utópicas e distópicas, João Almino resgata um personagem de Machado de Assis, e o enfia nas farsas e tragédias desse nosso tempo.

Homem de Papel tem como narrador o conselheiro Aires, que √© transportado do Rio de Janeiro dos fins do s√©culo 19 e come√ßos do 20 para a cidade projetada como um cen√°rio modernista e que passa a ser associada ao que o pa√≠s tem hoje como palco das mais acerbas e/ou retr√≥gadas discuss√Ķes, que, por √≥bvio, nem preciso nomear.

Se em Esa√ļ e Jac√≥ o conselheiro Aires est√° numa trama que envolve dois irm√£os em disputa de uma mesma mulher, enquanto defendem regimes contr√°rios (Monarquia e Rep√ļblica), agora ele ganha protagonismo metamorfoseado em livro, do qual d√° suas sa√≠das para o mundo real ‚Äď um mundo com as marcas da ignor√Ęncia e da estupidez, bem vis√≠veis nas quadras e ruas da capital federal.

O livro em que ele se abriga pertence √† jovem diplomata Flor, trig√™mea de Hugo e Miguel que, assim como os g√™meos de Machado de Assis, vivem em disc√≥rdia em raz√£o de suas posi√ß√Ķes pol√≠ticas.

Saturado de embates privados e p√ļblicos, restar√° ao conselheiro Aires o seguinte dilema: ¬†voltar ou n√£o voltar para dentro do livro. E nisso Jo√£o Almino opera uma li√ß√£o de literatura, como assinala o ensa√≠sta e cr√≠tico liter√°rio portugu√™s Abel Barros Baptista, no posf√°cio de Homem de Papel, por ele considerado surpreendente, inteligente e ‚Äúdivertidamente ir√īnico, ou n√£o fosse Aires o mais eminentemente personagem machadiano transport√°vel para fora do livro e o mais eminentemente capaz de restaurar a necessidade de a ele regressar‚ÄĚ, conclui o muito premiado ensa√≠sta e cr√≠tico liter√°rio Abel Barros Baptista, professor da Universidade Nova de Lisboa, e autor de 3 livros sobre Machado de Assis.

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Sobre HOMEM DE PAPEL, leia resenha de Adelto Gonçalves em Baía da Lusofonia, Lisboa, 9 de maio de 2022

Lisboa, segunda-feira, 9 de maio de 2022

‚ÄėHomem de papel‚Äô, uma metafic√ß√£o machadiana

Oitavo romance de Jo√£o Almino ser√° fundamental para quem quiser saber, daqui a cem anos, o que foi o Brasil destes tempos

 

I

Foi quando j√° estava em seus derradeiros anos que Machado de Assis (1839-1908) escreveu o romance¬†Memorial de Aires¬†(1908) e que tem como personagem principal o conselheiro Aires, um diplomata em fim de carreira que j√° havia aparecido em¬†Esa√ļ e Jac√≥¬†(1904) como participante do enredo, anotando em seu caderno tudo o que de mais significativo acontecia ao redor de sua vida. Esse personagem-narrador seria um¬†alter ego¬†do autor, como deixam concluir algumas coincid√™ncias, tais como a idolatria que dedica √† mulher e a aus√™ncia de filhos em seu casamento.

Pois √© esse personagem carism√°tico que j√° n√£o se sentia como ‚Äúdeste mundo‚ÄĚ, pois se achava um homem do s√©culo XIX, que o premiado romancista Jo√£o Almino ressuscita e transporta para o s√©culo XXI em sua √ļltima obra,¬†Homem de papel¬†(Editora Record, 2022), que, desta vez, alinha-se ao g√™nero da metafic√ß√£o, ao romper com os c√Ęnones do Modernismo, mostrando-o como um autor p√≥s-modernista. √Č o que se conclui da observa√ß√£o do professor Abel Barros Baptista, da Universidade Nova de Lisboa, feita no posf√°cio, ao ressaltar que ‚Äúa primeira possibilidade de¬†Homem de papel¬†√© assim a metaficcional‚ÄĚ, com ‚ÄúAires narrando-se de novo, mas para se inventar novo‚ÄĚ.

Como se sabe, esse termo foi cunhado pelo romancista, contista, ensa√≠sta e cr√≠tico liter√°rio norte-americano William Howard Gass (1924-2017), na d√©cada de 1960, para definir os romances que fugiam √†s conven√ß√Ķes estabelecidas pelo Modernismo. Em¬†Homem de¬†papel, o personagem-narrador sai de¬†Memorial de Aires¬†para atuar no Brasil do s√©culo XXI, hoje um pa√≠s √† deriva num mar de ignor√Ęncia e que parece ter perdido para sempre a batalha da Educa√ß√£o, como dizia Jo√£o Calmon (1916-1999). E, assim, Jo√£o Almino consegue construir ‚Äúuma alegoria delirante e sarc√°stica da atual conjuntura pol√≠tica brasileira‚ÄĚ, na defini√ß√£o perfeita de Abel Barros Baptista.

De fato, como observa no texto de apresenta√ß√£o o professor H√©lio Guimar√£es, livre-docente de Literatura Brasileira da Universidade de S√£o Paulo (USP), autor de v√°rios livros sobre a obra de Machado de Assis, neste seu oitavo romance, Jo√£o Almino ‚Äún√£o poupa ironia √† vida liter√°ria, √† academia, √† pol√≠tica e √† diplomacia‚ÄĚ. E, quando o conselheiro redivivo se refere a alguns personagens que povoam¬†Homem de papel, n√£o h√° como deixar de associ√°-los a algumas figuras que h√° anos dominam a cena pol√≠tica brasileira.

 

II

√Č de se lembrar que, em¬†Esa√ļ e Jac√≥, o conselheiro est√° envolvido como espectador de uma trama entre dois irm√£os que t√™m ideais opostos, ou seja, um defende a monarquia enquanto o outro √© adepto do regime republicano. Em seu retorno ao mundo dos homens, mais de um s√©culo depois, Aires, ao sair do exemplar que pertence √† jovem diplomata Flor, depara-se com os irm√£os Hugo e Miguel, igualmente defensores de ideias pol√≠ticas opostas. Desta vez, n√£o se trata de g√™meos, mas de trig√™meos, pois Flor teria nascido do mesmo parto que colocara seus irm√£os no mundo. E procura atuar como o ponto de equil√≠brio entre eles.

O que se destaca neste livro é a preocupação do autor em dar ao romance um viés pós-moderno, tratando de temas até há pouco tempo incomuns em romances, como o relacionamento entre as pessoas pelas chamadas redes sociais, que tornam a comunicação cada vez mais veloz, em que uma palavra mal colocada pode redundar em bloqueio e no fim de uma amizade.

Igualmente diplomata como o personagem Aires, Jo√£o Almino conhece muito bem n√£o s√≥ os meandros da pol√≠tica, que frequentemente obriga os profissionais do Itamaraty a agirem contra os seus princ√≠pios em nome da governabilidade e do bom entendimento entre as na√ß√Ķes, como domina o cen√°rio por onde transitam as personagens, ou seja, as agitadas superquadras ou a Pra√ßa dos Tr√™s Poderes em Bras√≠lia, em vez das pacatas Rua do Ouvidor e Praia de Botafogo, ao tempo de Machado de Assis.

Nesse sentido, João Almino assume-se como o escritor que faz de Brasília o pano de fundo predileto para as suas obras, tal como Machado de Assis fez do Rio de Janeiro do final do século XIX e início do XX, o que significa que, daqui a cem anos ou mais, sua obra, tal como a machadiana, será fundamental para quem quiser conhecer o Brasil destes tempos.

Ao mesmo tempo, √© de se observar que, em sua metafic√ß√£o machadiana, Jo√£o Almino n√£o deixa de exercer o humor √† inglesa, ou a ironia, e ainda o humor c√©tico, tal como Machado de Assis, construindo s√°tiras de fina textura. Como a da invas√£o de Bras√≠lia por uma legi√£o de antas e da pretens√£o de uma delas de se candidatar √† presid√™ncia da Rep√ļblica.

Tal como a obra que lhe inspirou, Jo√£o Almino faz de¬†Homem de papel¬†n√£o propriamente um romance, nem mesmo uma novela que tenha escapado √†s r√©deas do narrador, com suas quatrocentas e tantas p√°ginas, mas um relato, um di√°rio, enfim, um memorial ou um testamento liter√°rio de um tempo em que j√° n√£o h√° espa√ßo para ilus√Ķes.

 

                                                                   III

Nascido em Mossor√≥, no Rio Grande do Norte, Jo√£o Almino (1950), diplomata, √© c√īnsul-geral do Brasil em Munique, na Alemanha. Foi embaixador em Quito, no Equador, por tr√™s anos e meio, de 2018 a 2022. Foi tamb√©m c√īnsul em Lisboa. Fez doutoramento em Paris, sob a orienta√ß√£o do fil√≥sofo e historiador da Filosofia Claude Lefort (1924-2010), foi professor na Universidade Nacional Aut√īnoma do M√©xico (Unam), na Universidade de Bras√≠lia (UnB), no Instituto Rio Branco e nas universidades de Berkeley, Stanford e Chicago, nos Estados Unidos. √Č membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2017.

Como romancista, √© hoje reconhecido pela cr√≠tica como um dos nomes mais importantes da Literatura Brasileira, como comprovam os muitos pr√™mios que sua obra j√° recebeu. Seu pen√ļltimo romance,¬†Entre facas,¬†algod√£o¬†(Editora Record, 2018),¬†com apresenta√ß√£o de Crist√≥v√£o Tezza e posf√°cio de Hans Ulrich Gumbrecht, obteve grande repercuss√£o entre a m√≠dia especializada.

O seu romance¬†Ideias para onde passar o fim do mundo¬†(1987) foi indicado ao Pr√™mio Jabuti e ganhou o Pr√™mio do Instituto Nacional do Livro (INL) e o Pr√™mio Candango de Literatura, enquanto¬†As cinco esta√ß√Ķes do amor¬†(2001) conquistou o Pr√™mio Casa de las Am√©ricas de 2003. J√°¬†O livro das emo√ß√Ķes¬†(2008) foi indicado ao 7¬ļ Pr√™mio Portugal Telecom e finalista do 6¬ļ Pr√™mio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de 2009.

Outro romance,¬†Cidade livre¬†(2010), foi vencedor do Pr√™mio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de melhor romance publicado no Brasil entre 2009 e 2011 e finalista do Pr√™mio Jabuti e do Pr√™mio Portugal Telecom de 2011, enquanto¬†Enigmas da primavera¬†(2015) ficou em segundo lugar no Pr√™mio Jabuti, como o melhor livro brasileiro traduzido, chegou a semifinalista do Pr√™mio Oceanos e foi finalista do Pr√™mio Rio de Literatura de 2016 e segundo colocado do Pr√™mio S√£o Paulo de Literatura de 2016, como livro brasileiro publicado no exterior, com tradu√ß√£o para o ingl√™s. √Č autor tamb√©m do romance¬†Samba-enredo¬†(1994). Alguns de seus romances foram publicados na Argentina, Espanha, Estados Unidos, Fran√ßa, It√°lia, M√©xico e em outros pa√≠ses.

Seus livros de Hist√≥ria e Filosofia Pol√≠tica s√£o refer√™ncias para os estudiosos do autoritarismo e da democracia. Entre estes, est√£o¬†Os democratas autorit√°rios¬†(1980),¬†A idade do presente¬†(1985),¬†Era uma vez uma Constituinte¬†(1985) e¬†O segredo e a informa√ß√£o¬†(1986). √Č tamb√©m autor de¬†Naturezas mortas ‚Äď a filosofia pol√≠tica do ecologismo¬†(2004), de¬†Brasil-EUA: balan√ßo po√©tico¬†(1996),¬†Escrita em contraponto¬†(2008),¬†O diabrete ang√©lico e o pav√£o: enredo e amor poss√≠veis em Br√°s Cubas¬†(2009),¬†500 anos de Utopia¬†(2017) e¬†Dois ensaios sobre Utopia¬†(2017).

Publicou ainda Literatura Brasileira e Portuguesa ano 2000, organizado com o professor Arnaldo Saraiva, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e Rio Branco, a América do Sul e modernização do Brasil (2002), organizado com Carlos Henrique Cardim, diplomata e professor universitário, docente do Instituto Rio Branco e da UnB. Adelto Gonçalves РBrasil

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Homem de papel, de João Almino, com apresentação de Hélio Guimarães, professor da Universidade de São Paulo (USP) e posfácio de Abel Barros Baptista, professor da Universidade Nova de Lisboa. Rio de Janeiro: Editora Record, 416 páginas, R$ 64,90, 2022. E-mail: sac@record.com.br Site: www.record.com.br

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Adelto Gon√ßalves¬†√© doutor em Letras na √°rea de Literatura Portuguesa pela Universidade de S√£o Paulo (USP) e autor de¬†Gonzaga, um Poeta do Iluminismo¬†(Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999),¬†Barcelona Brasileira¬†(Lisboa, Nova Arrancada, 1999; S√£o Paulo, Publisher Brasil, 2002),¬†Bocage ‚Äď o Perfil Perdido¬†(Lisboa, Caminho, 2003),¬†Tom√°s Ant√īnio Gonzaga¬†(Imprensa Oficial do Estado de S√£o Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),¬†¬†Direito e Justi√ßa em Terras d¬īEl-Rei na S√£o Paulo Colonial¬†(Imprensa Oficial do Estado de S√£o Paulo, 2015) e¬†Os Vira-latas da Madrugada¬†(Rio de Janeiro, Livraria Jos√© Olympio Editora, 1981; Taubat√©-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail:¬†marilizadelto@uol.com.br

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