O HOMEM SOTERRADO

O GLOBO, PROSA & VERSO, 26 de junho de 2010

Um escritor é isso: alguém que tenta domar e disciplinar o que se escreve

Eu ainda vivia no Rio de Janeiro. Ainda morava em Botafogo, e tinha uma vizinha chamada Francisca. √Č claro: o nome √© falso. Eu o tomei emprestado de uma personagem de “Cidade Livre”, o novo romance de Jo√£o Almino (Record). Logo entender√£o por qu√™.

Francisca era uma mulher de nervos fracos. Vivia √† base de tranquilizantes e n√£o se dava com ningu√©m no pr√©dio. Mas gostava de mim. Um dia, me procurou para desabafar: “H√° um oper√°rio enterrado na parede de minha cozinha”.

Eu a fiz entrar. Por que haveria um oper√°rio enterrado em sua parede? Aos poucos, Francisca defendeu sua tese. Surgiu um vazamento no teto. Andava sem dinheiro, adiou o conserto. At√© que, naquela manh√£, um l√≠quido mais denso, e avermelhado, passou a escorrer do teto da cozinha. Entrou em p√Ęnico: estava certa de que se tratava de sangue.

“Dizem que, durante as obras, enterram os oper√°rios rebeldes no cimento armado”, ela argumentou. N√£o consegui convenc√™-la do contr√°rio. N√£o andava mesmo muito bem. Dei-lhe de presente uma caixa de ch√° e me despedi. “Voc√™s, homens, sempre apressados”, me repreendeu. Nunca mais me dirigiu a palavra.
Pensei em Francisca ‚Äď essa mulher que traz o nome roubado de Tia Francisca, de “Cidade Livre”‚ÄĒporque tamb√©m no romance de Jo√£o Almino parece haver, agora, um oper√°rio soterrado. Chama-se Valdivino e ‚Äď como a carta roubada no conto de Edgar Allan Poe –, se est√° escondido, √© porque est√° bem √† mostra. Exposto de uma maneira t√£o escandalosa que n√≥s, leitores, esquecemos de v√™-lo.

Explico o que me aconteceu. Depois de ler “Cidade Livre”, andei fu√ßando as resenhas j√° publicadas sobre o livro. Li, antes, a orelha do romance, assinada por Walnice Nogueira Galv√£o ‚Äď uma cr√≠tica que tenha na conta de mestre. Walnice se refere √†s presen√ßas de Fidel Castro, de Elizabeth Bishop, de John dos Passos, celebridades liter√°rias que circularam por Bras√≠lia antes ou durante su inaugura√ß√£o, e que agora ressurgem no livro de Jo√£o Almino.

Avanço para o prefácio de Benjamin Abdala Junior, outro pensador a quem devo muito. Ele fala de Guimarães Rosa, de José Bonifácio, de Aldous Huxley. Nenhuma palavra, porém, sobre Valdivino,o operário que ocupa o centro da narrativa. Por quê?

Nas resenhas, a aus√™ncia se repete. Fala-se de Andr√© Malraux, de Fostes Dulles, entre outros nomes ilustres. E de Dalton Trevisan e William Faulkner, fundadores de cidades imagin√°rias. De pessoas de quem n√£o se pode mesmo fugir, como Juscelino Kubitschek, Oscar Niemeyer, L√ļcio Costa e Benardo Say√£o ‚Äď o realizador de Bras√≠lia.

N√£o encontro, contudo, uma s√≥ refer√™ncia a Valdivino, o grande personagem do romance, cuja presen√ßa obscurece um pouco at√© a do narrador Jo√£o. Por que n√£o se fala dele? Volto ao livro. A partir da p√°gina 87, Almino tra√ßa um retrato de seu her√≥i. Ia escrever: “anti-her√≥i”. Mas n√£o, √© her√≥i mesmo.

O narrador √© um jornalista que resgata suas mem√≥rias de inf√Ęncia, vividas em torno da inaugura√ß√£o de Bras√≠lia, e as mistura com as mem√≥rias de seu pai adotivo, um m√©dico psiquiatra. Nelas ocupa lugar de destaque o oper√°rio Valdivino, que os dois conheceram no ano de 1956, durante uma ca√ßada no cerrado virgem, onde a nova capital se ergueria.

Valdivino √© um rapaz franzino, de dezessete ou dezoito anos. Usa cal√ßas e camisa largas, que parecem n√£o lhe pertencer. Veio da Bahia na carroceria de um pau-de-arara. √Č seguidor de Mestre Yokaanam, um m√≠stico que pretende fundar, em pleno planalto, a Cidade Ecl√©tica ‚Äď algo como uma Nova Jerusal√©m, que abrigaria uma mistura de religi√Ķes. Ele √© um candango ‚Äď para usar a express√£o que a constru√ß√£o de Bras√≠lia consagrou.

Pois √©: Valdivino sustenta “Cidade Livre”, o romance de Jo√£o Almino, um pouco como os candangos carregam nas costas os sacos de cimento e as pedras de m√°rmore com que se construiu Bras√≠lia. Com sua alma ambulante, sua religi√£o sem dogmas e seu peito aberto, ele simboliza, ainda, a Cidade Livre, vila provis√≥ria constru√≠da no Planalto Central nos anos 1950, para abrigar os construtores da nova capital. Uma cidade tempor√°ria, erguida para desaparecer ‚Äď mas que, ainda hoje, resiste na imensa periferia que deforma o Plano Piloto de Oscar Niemeyer.

No centro de “Cidade Livre” est√° a figura esquiva, mas forte, de Valdivino, cuja morte presumida, no dia da inaugura√ß√£o da cidade, se transforma em um enigma. Com o avan√ßar do relato, o narrador suspeita que le tenha sido, na verdade, assassinado. Mais ainda: que o assassino possa ser seu pr√≥prio pai. O hibridismo de Bras√≠lia se encarna em Valdivino ‚Äď que chegou ao planalto movido pelo mito da “Cidade de Z”, uma cidade perdida na regi√£o do Araguaia que, no passado, teria abrigado uma grande civiliza√ß√£o. Suas origens primitivas, escondidas no sil√™ncio do cerrado, tamb√©m.

Quando concebeu Bras√≠lia, o presidente Juscelino se inspirou, por certo, nesses mitos que falam de cidades fabulosas, capazes de recriar o mundo. Cidades h√≠bridas e plurais, onde nada se exclui. A ideia da mistura se espalha pela narrativa de Almino, que junta personagens reais a seres imagin√°rios, acontecimentos hist√≥ricos a sonhos antigos, fatos a fic√ß√Ķes.

A figura encoberta de Valdivino est√° no cora√ß√£o do romance, como um sinal dessas funda√ß√Ķes que, em geral, preferimos esconder, ou esquecer ‚Äď alicerces que a arquitetura modernista tratou de desenterrar e de expor. Seu sangue escorre pelas frestas do relato, assim como o suposto sangue que minha vizinha via pingar de seu teto e a levou a acreditar que ali havia um oper√°rio enterrado. Seu desaparecimento ‚Äď como o de D. Sebasti√£o, o Encoberto, que desapareceu na batalha de Alc√°cer-Quibir ‚Äď fica como uma pergunta que, por n√£o corresponder a uma resposta, sustenta o relato e funda um mito.

O narrador de “Cidade Livre” tem a seu lado um revisor, chamado Jo√£o Almino, que acrescenta e modifica seu relato. Com que ele vive √†s turras e de quem n√£o consegue se livrar. Um escritor √© isso: algu√©m que tenta domar e disciplinar o que se escreve. Tamb√©m sob a escrita, por√©m, existe um sujeito oculto ‚Äď um Valdivino ‚Äď que, embora esquecido, √© quem d√° as cartas.


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