O MITO DA MEGAL√ďPOLE NA LITERATURA BRASILEIRA

Revista Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 132: 143-158, jan.-mar., 1998

por Barbara Freitag

1. Metrópole e megalópole

Em um pequeno ensaio Civiliza√ß√£o urbana e subculturas da cidade (Freitag 1997: 111), fiz uma distin√ß√£o conceitual entre “metr√≥pole” e “megal√≥pole”. O termo “megal√≥pole” n√£o se refere somente √† dimens√£o quantitativa da vida urbana, mas tamb√©m a uma dimens√£o qualitativa, ou seja, a uma forma espec√≠fica da vida societ√°ria em cidades gigantescas, t√≠pica para este final do s√©culo XX. As caracter√≠sticas essenciais da “megal√≥pole” contempor√Ęnea podem ser resumidas de forma t√≠pico-ideal como segue:

1. trata-se de cidades gigantes, com uma popula√ß√£o que oscila em torno de 10 milh√Ķes ou mais de habitantes;

2. esse crescimento urbano vertiginoso aconteceu nas √ļltimas tr√™s d√©cadas, portanto nos anos 70, 80 e 90 (do s√©culo XX), per√≠odo em que o n√ļmero de habitantes triplicou ou quadruplicou-se;

3. essa verdadeira explos√£o demogr√°fica n√£o se deveu tanto a um crescimento vegetativo da popula√ß√£o urbana, mas sim √† conflu√™ncia maci√ßa de popula√ß√Ķes das mais variadas origens;

4. a imigra√ß√£o mais ou menos descontrolada dos migrantes das mais variadas regi√Ķes do territ√≥rio nacional e mesmo do exterior, do campo, de aldeias e de pequenas cidades gera uma civiliza√ß√£o multicultural;

5. essa civiliza√ß√£o urbana comp√Ķe-se de “.subculturas” em si homog√™neas, mas entre si divergentes; tomando-se como crit√©rios de distin√ß√£o a nacionalidade, a classe social, a etnia, convic√ß√Ķes religiosas, grupos et√°rios, o g√™nero e os h√°bitos sexuais dos habitantes da megal√≥pole;

6. por isso mesmo, a megal√≥pole caracteriza-se por contrastes radicais que se refletem no tecido urbano, nos materiais dos pr√©dios, nos estilos arquitet√īnicos: ao lado de arranha-c√©us de a√ßo e vidro fum√©, encontram-se favelas, corti√ßos, “barriadas” que ocupam as √°reas vazias entre os pr√©dios e bairros, e as zonas perif√©ricas. Os barracos de papel√£o e lata, madeira e bambu v√£o se multiplicando √† beira dos rios e das auto-estradas, embaixo de pontes de concreto e a√ßo e em estacas sobre lagunas, como em tempos pr√©-hist√≥ricos. Eles convivem com enormes centros comerciais (shopping centers), parques de divers√£o, complexos empresariais, conglomerados banc√°rios de alto luxo dos tempos p√≥s-modernos;

7. as megalópoles de hoje são os pilares e os pontos de cristalização da economia mundial globalizada; elas são os sustentáculos da pós-modernidade.

8. Praticamente quatro quintos das megal√≥poles do mundo contempor√Ęneo encontram-se no hemisf√©rio sul, o que equivale a dizer que pertencem aos pa√≠ses subdesenvolvidos ou em franco desenvolvimento.

Essa lista de caracter√≠sticas permitiria novos acr√©scimos. Entretanto, o conceito de “megal√≥pole” se torna mais n√≠tido se o confrontarmos ao conceito de “metr√≥pole”.

Quando se fala em “metr√≥pole” tamb√©m se tem em mente uma cidade grande. Mas ao contr√°rio da megal√≥pole, a metr√≥pole n√£o chega a 10 milh√Ķes de habitantes e n√£o acusa um crescimento populacional sens√≠vel nas √ļltimas tr√™s ou quatro d√©cadas. Ao contr√°rio, na maior parte das metr√≥poles do mundo registra-se, hoje, um decr√©scimo da popula√ß√£o, devido a taxas de natalidade baix√≠ssimas e um controle rigoroso das imigra√ß√Ķes.

O termo “metr√≥pole” denota uma cidade hist√≥rica, de tradi√ß√£o centen√°ria. Especialmente as metr√≥poles europ√©ias transformaramse no final do s√©culo XIX e come√ßo do s√©culo XX em capitais de na√ß√Ķes desenvolvidas, centros da industrializa√ß√£o moderna e arquivos da cultura mundial, que passaram a determinar os estilos de vida dentro e fora da Europa. Um exame do mapa mundial revela que a maioria das metr√≥poles encontra-se no hemisf√©rio norte. Elas foram e continuam sendo os pontos de irradia√ß√£o da modernidade.

As enormes riquezas materiais e simb√≥licas compiladas nas metr√≥poles, transformaram-nas em lugares de atra√ß√£o tur√≠stica sem par. Anualmente, milh√Ķes de turistas batem √†s suas portas, invadem seus museus, suas galerias de arte, hot√©is e restaurantes para admirar as curiosidades e consumir os bens materiais e simb√≥licos aqui armazenados. Depois da “temporada”, voltam aos seus pa√≠ses de origem. As metr√≥poles europ√©ias demonstraram uma extraordin√°ria habilidade em explorar o turismo. Gra√ßas √† preserva√ß√£o e prote√ß√£o de suas riquezas culturais, ao controle dos refugiados emigrantes, √†s suas institui√ß√Ķes de assist√™ncia social, aos seus sistemas vi√°rios e de transportes a√©reos, onde se registram os movimentos de passageiros e os fluxos de turistas e refugiados, as metr√≥poles de hoje ainda conseguem preservar a paz intramuros e oferecer uma alta qualidade de vida a seus cidad√£os. Tens√Ķes sociais; conflitos √©tnicos e religiosos em outras partes do mundo s√£o ignorados ou harmonizados por institui√ß√Ķes competentes extra-muros. Por quanto tempo ainda?

Ronald Daus fala da “terceiromundializa√ß√£o” das metr√≥poles europ√©ias (Daus: 1997: 222). De minha parte, dou prefer√™ncia ao termo “megalopoliza√ß√£o” . Na ess√™ncia, os dois termos se referem √† mesma coisa. Ambos procuram dar conta dos radicais processos de transforma√ß√£o da vida humana no globo terrestre, que se refletem nos modernos espa√ßos urbanos. As tend√™ncias da megalopoliza√ß√£o s√£o, pois, mais n√≠tidas nas cidades gigantescas do hemisf√©rio sul, ou seja, nas megal√≥poles, mas podem manifestar-se, de forma atenuada, nas metr√≥poles do hemisf√©rio norte. Nesse processo de megalopoliza√ß√£o, as fronteiras nacionais est√£o sendo gradativamente dissolvidas, os Estados Nacionais tornam-se cada vez mais perme√°veis, diluindo-se suas formas de legitima√ß√£o e seu alcance jur√≠dico. Haver√° uma condensa√ß√£o cada vez maior de pessoas nos grandes conglomerados urbanos. Comunidades campestres; cidades de pequeno e ‘ m√©dio porte possivelmente desaparecer√£o do mapa no in√≠cio do terceiro mil√™nio, diluindo-se tamb√©m as institui√ß√Ķes sociais nas quais se apoiavam (fam√≠lia, cooperativas, corpora√ß√Ķes, municipalidades). Sua sobreviv√™ncia ficar√° condicionada √† proximidade ou n√£o de uma grande megal√≥pole.

A forma de institucionaliza√ß√£o da sociedade moderna passa pela urbaniza√ß√£o crescente, em outras palavras, pela “metropoliza√ß√£o” e “megalopoliza√ß√£o” .

No Brasil, essa tend√™ncia j√° se concretizou. Enquanto hoje em dia 50% da popula√ß√£o mundial vive no campo, no Brasil dos anos noventa, a popula√ß√£o rural j√° se reduziu a 25% da popula√ß√£o total. Isso significa que 120 milh√Ķes dos 160 milh√Ķes de brasileiros vivem em cidades, a maior parte em conglomerados urbanos no sul e sudeste do pa√≠s, ou seja, no Eixo Rio-S√£o Paulo, i. √©., em duas megal√≥poles, na defini√ß√£o acima.

Em quase todas as partes do mundo artistas, cineastas, escritores e poetas detectaram esse fen√īmeno da megalopoliza√ß√£o. Com sua maior sensibilidade √†s novas formas de sociabilidade que as megal√≥poles fazem emergir, eles traduziram esses fen√īmenos em seus filmes, romances, pe√ßas de teatro ou poemas. Fil√≥sofos, soci√≥logos, pol√≠ticos, economistas e dem√≥grafos assumiram at√© agora o papel do mocho de Minerva: somente foram alertados para os fatos novos depois do clamor dos profissionais da criatividade e buscaram, a posteriori, explica√ß√Ķes ou conceptualiza√ß√Ķes para o que vem acontecendo.

2. A megal√≥pole na literatura brasileira contempor√Ęnea

Para compreender melhor esse papel “sismogr√°fico” da arte, selecionei, a t√≠tulo de exemplo, tr√™s romances brasileiros, escritos nas √ļltimas tr√™s d√©cadas, e que se passam em tr√™s megal√≥poles brasileiras: o Rio de Janeiro, S√£o Paulo e Bras√≠lia:

-A hora da estrela (1977), de Clarice Lispector;

РNão verás país nenhum (1981), de Ignácio de Loyola Brandão;

– Samba-enredo (1994), de Jo√£o Almino.

Os crit√©rios para essa sele√ß√£o foram fornecidos pela pr√≥pria defini√ß√£o de “megalopoliza√ß√£o” e pela distin√ß√£o feita entre metr√≥pole e megal√≥pole.

O Rio de Janeiro dos anos setenta, ex-capital federal, fornece a moldura urbana para o romance A hora da estrela, de Clarice Lispector. Trata-se do Rio de Janeiro que ainda apresenta certas fei√ß√Ķes da metr√≥pole que ela j√° n√£o √© mais, em conseq√ľ√™ncia da “megalopoliza√ß√£o” a que esteve submetida nas √ļltimas d√©cadas.

A S√£o Paulo da d√©cada de oitenta, a maior megal√≥pole da Am√©rica do Sul, constitui a arena que Ign√°cio de Loyola Brand√£o escolheu para desenvolver suas vis√Ķes apocal√≠pticas da sociedade brasileira e da capital paulista no ano 2020.

E, finalmente, a Bras√≠lia da d√©cada de 90, que ainda n√£o √© “megal√≥pole”, no sentido estrito da palavra, mas que se encontra em franco processo de “megalopoliza√ß√£o”, fornece o palco para a a√ß√£o do romance de Jo√£o Almino.

Outros critérios foram fornecidos por teóricos e críticos literários mas também tradutores (do português para o alemão) da literatura ficcional brasileira.

Em suas narrativas, esses romances traduzem percep√ß√Ķes bem peculiares da cidade: os seus ru√≠dos e cheiros, suas cores, as luzes e sombras, os espa√ßos estruturados e delimitados. Impl√≠cita ou explicitamente, seus autores apontam para as caracter√≠sticas “t√≠picas” de uma megal√≥pole. Essa forma do romance urbano representa um salto qualitativo com rela√ß√£o aos romances urbanos cl√°ssicos que descreviam a metr√≥pole europ√©ia. (Vide os estudos detalhados feitos por Volker Klotz , 1969).

Metaforicamente, poder-se-ia dizer que as características da megalópole, inicialmente destacadas, assumem a função de filtro ou rede, capazes de detectar, nos próprios romances, os processos de institucionalização das sociedades globalizadas.

2.1. O Rio no romance “A hora da estrela”

Como j√° foi dito, a a√ß√£o deste √ļltimo romance de Clarice Lispector (1925-1977) desenrola-se no Rio. Considerando-se que n√£o pretendo fazer cr√≠tica liter√°ria, permito-me colocar em par√™nteses a sofisticada constru√ß√£o do romance, em especial a intrincada rela√ß√£o entre narrador e leitor, idealizada pela escritora, voltando-me diretamente para a trama do romance. Esta √© surpreendentemente simples, quase banal.

Macab√©a, a personagem central do romance, muda-se, depois da morte de sua tia, de Alagoas, onde nascera, para o Rio. Ela mora na rua do Acre, na zona portu√°ria j√° decadente, dividindo o quarto com tr√™s outras mo√ßas em uma pequena pens√£o. Macab√©a trabalha como datil√≥grafa em um escrit√≥rio, onde – por sua mediocridade e insignific√Ęncia – √©maltratada pelo chefe. Ela √© virgem, pequena e franzina, quase feia, em todo caso, inexpressiva. Por isso mesmo, at√© surpreende que arranje um namorado, Ol√≠mpio, que mais tarde a deixar√° por Gl√≥ria, uma de suas companheiras de quarto. Macab√©a, que aceita esse fato novo com certa naturalidade, tamb√©m aceita o conselho de Gl√≥ria: procurar uma cartomante. Ao “ler” o futuro implac√°vel da mo√ßa nas cartas, at√© mesmo a cartomante se compadece. N√£o ousa revelar a verdade a Macab√©a e resolve mentir. A cartomante inventa uma pequena hist√≥ria e fala de uma mudan√ßa radical em sua vida: o encontro com um jovem rico, loiro, de olhos azuis, e de nome Hans. Alegre com essa boa nova, Macab√©a sai da casa da cartomante. Ao p√īr o p√© na cal√ßada √© atropelada por uma Mercedes, cuja estrela na capota da frente do carro ainda percebe ao tombar na rua. O motorista loiro foge em seu carro. Com um sorriso nos l√°bios, Macab√©a morre no local, convencida de que essa era a sua hora da estrela.

Macab√©a representa milhares de “nordestinas” que, ansiosas por deixarem a vida miser√°vel que vivem no nordeste, tentam sua sorte na grande cidade, onde na maioria das vezes acabam sendo trituradas e engolidas. Macab√©a √© uma dessas m√°rtires inumer√°veis, com sua morte anunciada j√° no pr√≥prio nome.

2.2. S√£o Paulo em “N√£o ver√°s pa√≠s nenhum”

O autor deste romance, nascido no interior de São Paulo, em 1936, escolhe a capital paulista no ano 2020 para desenvolver sua trama da sociedade brasileira vitimada pelo regime militar e pelo desequilíbrio ecológico. Como já foi destacado por outros autores (Engler, 1992; Spielmann, 1994), Ignácio de Loyola Brandão fez da megalópole São Paulo seu personagem principal. O futuro próximo dessa cidade é apresentado numa visão de horror e apocalipse em Não verás país nenhum parafraseando o conhecido poema de Olavo Bilac.

Souza; ao mesmo tempo narrador e personagem central do romance, vivencia as diferentes etapas da destruição da cidade, que coincidem com as etapas da destruição da sociedade brasileira. Como antigo professor de história, prematuramente aposentado, Souza procura relembrar-se de passagens relevantes de sua vida, especialmente os momentos que lhe teriam possibilitado interferir nos processos societários em curso para tentar evitar o pior.

O governo militar havia entregue a firmas nacionais e multinacionais concess√Ķes para a explora√ß√£o de vastas regi√Ķes do territ√≥rio nacional, especialmente na Amaz√īnia. Com a derrubada da √ļltima √°rvore da antiga selva amaz√īnica, a seca no nordeste se agravara, deslanchando um movimento migrat√≥rio sem paralelo, em dire√ß√£o ao sul. Em p√Ęnico, a popula√ß√£o nordestina buscara salvar-se em S√£o Paulo, mas fora apanhada em sua fuga por enormes ondas e buracos de calor que os haviam torrado e reduzido a p√≥ e cinzas. A maior parte dos fugitivos morrera, pois, no caminho. Uma pequena parte procurou voltar e buscar abrigo nos antigos s√≠tios. Somente um grupo menor alcan√ßara a megal√≥pole S√£o Paulo, onde passara a viver “no isolamento”, na periferia pauperizada da cidade. Aqui h√° falta de tudo. A comida ins√≠pida tem consist√™ncia de borracha. Somente variam as cores e os cheiros, sem que os alimentos, uma vez ingeridos, saciem os famintos. Em toda

cidade h√° falta cr√īnica de √°gua. At√© mesmo a urina √© reciclada. Para a racionaliza√ß√£o e o controle do uso da √°gua, s√£o distribu√≠dos “t√≠quetes” que muitos usam como moeda de barganha. Do mesmo modo, existem t√≠quetes de alimenta√ß√£o e de “circula√ß√£o” que autorizam (ou n√£o) os habitantes a se locomoverem de um bairro a outro. H√° controles em toda parte para capturar os infratores. Os controladores s√£o suborn√°veis, mas s√£o, ao mesmo tempo, espi√Ķes e delatores que reportam irregularidades aos superiores e dirigentes pol√≠ticos.

A polui√ß√£o do ar submerge S√£o Paulo sob uma enorme nuvem marrom-cinzenta. O sol somente √© percept√≠vel pelo imenso calor que irradia e que fica armazenado entre os pr√©dios cinzentos e as ruas estreitas; barulhentas e malcheirosas. O centro da cidade parece morto, triste e deserto. Envolve-o um cintur√£o de √°reas habitadas, onde vivem certos privilegiados que procuram defender-se como podem. Mas ningu√©m sabe exatamente como vivem e o que acontece atr√°s das muralhas de prote√ß√£o erguidas contra os habitantes menos privilegiados e os fugitivos do nordeste. Sabe-se que este cintur√£o est√° habitado pelos conformistas que vivem com medo do estado policial, mas o ap√≥iam para defender-se de outros medos. No “Isolamento”, o c√≠rculo perif√©rico, as multid√Ķes se atropelam, se agridem e se matam. Cad√°veres e moribundos amontoam-se por toda parte, s√£o esmagados e pisoteados por aqueles que aind a lutam pela sobreviv√™ncia. E preciso fugir do sol, de seus raios, de seu calor, antes que eles abafem, sufoquem tudo e todos. O √ļnico lugar de abrigo existente s√£o as enormes marquises que o governo mandou instalar. Um passo em falso, um empurr√£o para a √°rea exposta aos raios e a morte √© certa. Cai-se no abismo, no nada, no calor t√≥rrido do inferno.

O romance termina com Souza, o personagem central, à beira do abismo. Ele ainda está vivo mas sem esperanças. Lembra-se, remo-tamente, de que no desespero extremo ele, como outros pais, havia levado os seus filhos para um navio em Santos, enviando-os para além-mar. Somente o retorno dessa geração mais nova poderia trazer alguma forma de salvação.

2.3 Bras√≠lia no Romance “Samba-enredo”

O narrador sem corpo mas n√£o imaterial deste romance √© uma m√°quina, mais especificamente um computador port√°til, um laptop, jogado no lixo. No seu disco r√≠gido, encontram-se anota√ß√Ķes de Ana, escritora e amante do presidente.

GG ou “Gigi”, como se autodenomina o computador sem dono, come√ßa a decodificar os textos cifrados que guarda em sua mem√≥ria. Nesse processo, traz √† tona os textos com os quais havia sido alimentado por Ana, antes de ser jogado fora. Eram anota√ß√Ķes feitas durante as festividades de carnaval em Bras√≠lia, nos anos noventa. Originalmente, Ana pensara transformar essas anota√ß√Ķes em um romance, depois desistira dessa id√©ia. Em seu esfor√ßo de rememoriza√ß√£o, o disco r√≠gido consegue restabelecer os ru√≠dos e as batucadas do pano de fundo, que v√£o se avolumando. O programa de computador submete-os, ent√£o, a uma filtragem para discriminar a gritaria da m√ļsica, os di√°logos do barulho das cigarras, para finalmente selecionar o que julga relevante. Reconstitui, em seguida, os jogos de luz com o c√©u estrelado, os cartazes iluminados de Conjunto Nacional, os holofotes perto do teatro Martins Pena e da Rodovi√°ria. Finalmente, reconfigura a a√ß√£o, tudo aquilo que aconteceu em uma noite morna de carnaval no Plano Piloto da cidade, antes de Ana desfazer-se da m√°quina.

Jo√£o Almino (1950- ), o autor do romance, atribui ao computador a compet√™ncia para retrieve, de fragmento em fragmento, a trama do que aconteceu ao personagem central. Paulo Ant√īnio Fernandes, o primeiro presidente negro do Brasil, acredita ser um novo messias, capaz de ajudar o seu povo. Ele assiste √† folia carnavalesca sentado em sua tribuna, erguida ao longo do Eix√£o e aproveita a ocasi√£o para dirigir algumas palavras √† multid√£o. Depois do discurso, ao entrar em seu carro, √© cercado por um grupo de pessoas contrariadas. Com olhares raivosos, gritando palavr√Ķes, jogam pedras e d√£o vaz√£o ao seu descontentamento com o governo. O grupo rebelde √© disperso pelos simpatizantes, pelos seguran√ßas, policiais e militares que est√£o por perto. O carro se afasta, mas permanece o mal-estar. Antes que o ve√≠culo atinja a garagem do Pal√°cio do Planalto, j√° correm boatos de que o presidente teria sido seq√ľestrado. Ouvem-se afirma√ß√Ķes de que estaria morto, que um novo golpe militar teria tido √™xito. Como o vice-presidente n√£o se encontrava no pa√≠s, o ex√©rcito j√° teria cercado a Pra√ßa dos Tr√™s Poderes.

Enquanto a boataria progride, uma tempestade desaba sobre o Plano Piloto, encharcando os foli√Ķes e os espectadores. A festa vira pesadelo. A multid√£o tensa e silenciosa aguarda um milagre. Velas s√£o acesas e, por causa da chuva, tamb√©m lanternas e lampe√Ķes. Ouvem-se murm√ļrios e preces.

Em verdade, o presidente n√£o tinha tomado rumo ao Pal√°cio, mas estava a caminho da fazenda de sua irm√£, Eva. Na estrada deserta seu carro √© assaltado por homens mascarados que o seq√ľestram e levam para o meio do cerrado. A√≠ o obrigam a escrever uma carta, na qual informa o valor do resgate exigido. Junto com a carta dirigida ao povo brasileiro, Paulo Ant√īnio envia um bilhete para sua mulher e sua filha. Est√° convencido de que o seq√ľestro tem raz√Ķes pol√≠ticas e aposta em sua liberta√ß√£o para, finalmente, dar in√≠cio √†s obras de reformas das quais a sociedade brasileira tanto necessita. Caso seja sacrificado, pede em lugar de choro e vela que o homenageiem com um bom “samba-enredo”.

A chuva forte continua caindo sobre o telhado do barraco em que o presidente est√° preso. Seus raptores parecem t√™-lo abandonado ali. O sil√™ncio √© total. O presidente recluso decide fugir pelo telhado. A alguns passos da cabana um tiro o colhe pela nuca. Sua morte √©instant√Ęnea. Um dos seq√ľestradores, acordado pela barulheira, briga com o atirador. Adeus dinheiro para o resgate! “Esse neg√≥cio com presidente n√£o vale a pena”, argumenta o assassino, “o valor do resgate de um presidente √© muito baixo.”

O cad√°ver √© enterrado, ali mesmo, no anonimato do cerrado. Os seq√ľestradores haviam assaltado o carro errado, o plano era capturar um empres√°rio rico.

3. Sobre o mito nos três romances.

“O que √© um mito?” pergunta-se Jean-Pierre Vernant (1996) em sua colet√Ęnea mais recente: Entre mythe et politique. E sua resposta √© inequ√≠voca: “O mito n√£o existe. O mito √© um conceito que os antrop√≥logos tomaram de empr√©stimo √† tradi√ß√£o ocidental, como se isso fosse t√£o f√°cil! Seu significado n√£o √©universal, seu sentido n√£o √© un√≠voco, n√£o h√° realidade que lhe corresponda. Stricto sensu essa palavra n√£o diz nada.” (Vernant 1966: 353).

Vernant admite, entretanto, que ao conceito de “mito” sempre se contrap√īs o conceito de “logos”, o que permite ver o mito como sendo o lado avesso, o outro, do discurso verdadeiro. “Assim, o mito conquista seu direito de exist√™ncia, no mundo grego, n√£o pelo que ele propriamente √© mas pelo que ele – por uma raz√£o ou outra – exclui ou denega.” (Vernant 1996: 355). Assim sendo, o mito estabelece uma certa dist√Ęncia com rela√ß√£o ao que ele pr√≥prio tematiza. Nesta acep√ß√£o, o conceito pode ‘transcender os limites da cultura grega cl√°ssica. Neste sentido lato sensu, a refer√™ncia ao “mito” simplesmente exprime o fato de que, no caso do tratamento liter√°rio de um tema, n√£o est√° sendo representada a realidade como tal; o texto liter√°rio ou o discurso permanecem no √Ęmbito da “fic√ß√£o”.

√Č nestes termos que procuro usar o conceito de mito na interpreta√ß√£o do meu tema.

Em sua Filosofia das formas simb√≥licas (1987), como √© sabido, Ernst Cassirer refletiu sobre o “pensamento m√≠tico”. Segundo o fil√≥sofo alem√£o, o mito estaria voltado essencialmente para a configura√ß√£o, a estrutura√ß√£o do tempo (Gestaltung), mais especificamente, para as formas temporais (Zeitgestalten).

“O verdadeiro mito n√£o nasce simplesmente no momento em que a intui√ß√£o do universo com suas partes e for√ßas se configura em certas imagens e figuras de deuses e dem√īnios, mas no momento em que se atribui a tais figuras uma emerg√™ncia, um vir-a-ser, uma vida no tempo.” (Cassirer 1987: 129).

Esse conceito de tempo impl√≠cito no mito n√£o deve ser confundido com o conceito de tempo usado na hist√≥ria, como um simples desenrolar de eventos e fatos que se comportam de maneira causal um com rela√ß√£o ao outro, mas de uma passagem no tempo – de um tempo original (Urzeit) para o tempo efetivo (eigendiche Zeit), ou deste para um tempo sagrado (heilige Zeit). Essa passagem corresponderia a um “rito de passagem” para uma nova qualidade de vida, em que √© dado o salto qualitativo no tempo, do tempo profano para o tempo sagrado (ou n√£o).

Ao indagar sobre o mito da megal√≥pole na literatura brasileira contempor√Ęnea, interessa-me, pois, descobrir e ressaltar essas “figuras temporais” (Zeitgestalten) no sentido de Cassirer. At√© que ponto os tr√™s romances urbanos aqui escolhidos tematizam este tipo de figuras? E como?

Ao aprofundar-me no tema, tornou-se necess√°rio considerar uma outra diferencia√ß√£o: de um lado, a quest√£o do “mi to na megal√≥pole” e, de outro, a quest√£o do “mito da megal√≥pole”. No primeiro caso, trata-se de estudar os personagens que se transformam em mitos na grande cidade. Nos romances aqui selecionados, as figuras m√≠ticas s√£o encarnadas por Macab√©a, Souza e o presidente Paulo Ant√īnio. No segundo caso, o do mito da megal√≥pole, a pr√≥pria megal√≥pole passa a ser um personagem principal, ou seja, sua “a√ß√£o” e seu “desempenho” passam a assumir um car√°ter m√≠tico. No sentido de Barthes, a pr√≥pria cidade passa a ser considerada “texto”, produtora de textos. Nesta √≥tica, as cidades do Rio, de S√£o Paulo e de Bras√≠lia estariam sendo tratadas como personagens m√≠ticos.

O “mito do passado” ganha destaque na Hora da estrela, de Lispector, pela maneira com que Macab√©a se movimenta na cidade, presa √†s regras do jogo e padr√Ķes sociais de sua regi√£o de origem. Ela n√£o consegue beneficiar-se das “ofertas” da megal√≥pole por continuar vivendo no passado, no estilo de vida nordestino. Ela n√£o consegue transformar a rela√ß√£o com Ol√≠mpio em um verdadeiro namoro por continuar presa aos preceitos morais tradicionais do nordeste. Jamais realizar√° seu sonho oculto de tornar-se atriz, por sua apar√™ncia insignificante e “tipicamente nordestina”. Macab√©a tamb√©m n√£o pode comprar as mercadorias expostas nas vitrines de luxo de Copacabana por n√£o possuir dinheiro. Pela mesma raz√£o ela n√£o pode ir a restaurantes. Alimenta-se de cachorro-quente, tem saudades da comida nordestina e continua subnutrida no Rio como j√° o era em Alagoas. Os navios que partem do porto e que gosta de observar calada, bem como os avi√Ķes que a sobrevoam s√£o t√£o inating√≠veis para a mo√ßa como as estrelas. Com sua mudan√ßa para o Rio, nada mudou para ela: Macab√©a continua t√£o pobre, ignorante, explorada, infeliz e amea√ßada de morte quanto esteve em sua terra natal. Ela n√£o tem compet√™ncia para viver na megal√≥pole e paga essa incompet√™ncia com a morte. Ser√° a v√≠tima do tr√Ęnsito agressivo da antiga capital. Assim termina o mito na megal√≥pole. Ela n√£o consegue conhecer seu tempo, acompanha-lo, adiantar-se a ele, no sentido de Cassirer. E sucumbe √†s crendices e mentiras do passado para as quais √© seduzida pela cartomante.

Mas como se apresenta, neste romance de Lispector, o mito da cidade do Rio de Janeiro? O Rio permanece para Macab√©a um enigma. Um monstro que lhe tirar√° a vida, a megal√≥pole que tudo devora. Mas o Rio, sujeito, personagem, est√° voltado para o passado como Macab√©a. A viol√™ncia do cangaceiro √© substitu√≠da pela viol√™ncia do motorista no tr√Ęnsito. A cidade se comporta – depois da transfer√™ncia da capital para Bras√≠lia – como uma mulher abandonada pelo marido que n√£o consegue refazer a vida. A pr√≥pria Rio de Janeiro n√£o tem controle sobre a situa√ß√£o e sucumbe nos tempos da megal√≥pole √†s suas pr√≥prias contradi√ß√Ķes. Por isso mesmo, o Rio √© incapaz de amparar aqueles seres humanos que o procuram para, mudar de vida, vencer na luta. Macab√©a n√£o decifrou o enigma da cidade e a cidade se vinga, engolindo-a.

O mito do presente est√° condensado no romance de Almino, Samba-enredo. 0 presidente fict√≠cio, Paulo Ant√īnio, que gostaria de ser um l√≠der messi√Ęnico, nada mais √© que um simples presidente, cidad√£o comum, como tantos outros antes (e possivelmente depois) dele. Seu valor √© t√£o √≠nfimo que os seq√ľestradores, ao perceberem que ele √© o presidente, nem se d√£o o trabalho de pedir o resgate, enterrando-o numa cova an√īnima do cerrado. Como em outros casos, antes dele, ele n√£o chegar√° ao final de seu mandato, deixar√° o pa√≠s na crise e com a amea√ßa de nova ditadura militar. Sua voca√ß√£o messi√Ęnica n√£o basta para dar o salto do profano para o sagrado, como sua lideran√ßa √© fraca para projetar o pa√≠s do presente para o futuro. At√©mesmo Ana, sua amante, prefere abandonar o computador, a transformar o presidente morto em √≠dolo e mito para conquistar novos horizontes e vencer velhas dificuldades. As circunst√Ęncias de sua morte s√£o demasiadamente banais.

Nem mesmo Bras√≠lia, a cidade planejada e simbolizada em forma do avi√£o, consegue reverter esse quadro da mediocridade do personagem central. A nova Capital procura sua identidade no presente, no carnaval, na farsa e no deboche da pol√≠tica do dia-a-dia. A cidade constru√≠da por urbanistas e arquitetos n√£o tem, por si s√≥, for√ßa para construir uma nova sociedade. O povo permanece supersticioso, ing√™nuo, cr√©dulo e vulner√°vel a movimentos messi√Ęnicos, a sentimentos m√≠ticos. Est√° exposto √† m√≠dia niveladora, presa ao cotidiano, ao presente. R√°dio, televis√£o, v√≠deo, cinema, tel√Ķes, cartazes, telefones port√°teis s√£o tecnologias novas que veiculam ideologias velhas. Bras√≠lia, como a antiga capital, fornece o substrato urbano para a corrup√ß√£o, os esc√Ęndalos sexuais, os golpes que j√° pertenciam ao quotidiano da vida pol√≠tica e social carioca. O novo, prometido por Bras√≠lia, √© roupagem diferente, fantasia carnavalesca para disfar√ßar o d√©j√† vu, o velho, o sempre-o-mesmo.

O laptop conservava em seu disco rígido uma estória que, por sua repetição cansativa, se desfaz em farsa, não tem interesse. Ana percebe isso e abandona a máquina em que parou o tempo, jogando-a no lixo.

O mito do futuro √© tematizado em N√£o ver√°s pa√≠s nenhum. Trata-se de um futuro sem perspectivas para Souza, o narrador e personagem m√≠tico do romance. Seu triste fim est√° selado desde o in√≠cio da narrativa. O mesmo vale para a megal√≥pole que serve de base material e urbana para a trama. Souza, historiador, ainda tem lembran√ßas de tempos melhores, mas vive na consci√™ncia do seu fim pr√≥ximo, desesperado. Seu destino √© indissoci√°vel do destino de S√£o Paulo. Aqui o mito na megal√≥pole se sobrep√Ķe ao mito da megal√°pole. Os dois mitos se confundem, se mesclam em um. 0 destino de Souza √© o destino de S√£o Paulo e o que vai acontecer a S√£o Paulo arrastar√° consigo todos os milh√Ķes de Souzas que povoam a cidade. S√£o Paulo, em franca ascens√£o econ√īmica, no in√≠cio do s√©culo XIX e XX, √© apresentada – no final do s√©culo XX – como uma cidade “terminal” que somente promete morte e esterilidade para todos os seus habitantes.

A economia de mercado globalizada, a ditadura militar, a falta de consci√™ncia ecol√≥gica, a indiferen√ßa e a ignor√Ęncia da popula√ß√£o n√£o deixam perspectivas para o futuro. Uma gera√ß√£o nova, expatriada, √© a √ļnica esperam que resta.

Nos tr√™s romances, os autores desconstroem a vis√£o otimista da cidade como inst√Ęncia civilizadora, socializadora, de “civitas” no sentido que lhe atribuiu Sennett (1990). Longe de serem pontos de irradia√ß√£o do progresso, espa√ßos organizados para uma vida melhor, centrais racionais da organiza√ß√£o da cidadania, da democracia e do “bem viver” aristot√©lico, as cidades tematizadas por Lispector, Loyola Brand√£o e Jo√£o Almino n√£o prometem vida melhor, n√£o oferecem chances aos indiv√≠duos de transcenderem os seus limites e seu tempo para constru√≠rem um novo mundo em novo espa√ßo urbano. Essa vis√£o, que caracterizava ainda certos romances de Hugo a Balzac, de Dickens e Dos Passos parece justificar-se somente para as “metr√≥poles” da virada do s√©culo XIX para o XX (cf. Caillois, 1966; Klotz, 1969). Aqui o espa√ßo urbano ainda oferecia chances de realiza√ß√£o individual aos personagens atrevidos e pouco escrupulosos. Na era da megal√≥pole, neste final de s√©culo e mil√™nio, os indiv√≠duos j√° n√£o t√™m vez. Como vimos, tanto Macab√©a quanto Souza e Paulo Ant√īnio est√£o condenados √† morte, cada um √† sua maneira e dentro das malhas que cada megal√≥pole lhes teceu: o tr√Ęnsito infernal do Rio, o desequil√≠brio pol√≠tico e ecol√≥gico de S√£o Paulo, o crime econ√īmico e pol√≠tico organizado de Bras√≠lia. ..

Acreditando-se nos romancistas aqui analisados, as megal√≥poles n√£o conseguem gerar personagens m√≠ticas novas, Zeitfiguren, no sentido de Cassirer, que rompam as algemas do profano, do agora e anunciem tempos melhores, “sagrados”, de uma vida digna no futuro das megal√≥poles. O que ainda parecia ser poss√≠vel no contexto das metr√≥poles, se tomarmos a Paris de Balzac como paradigma, n√£o acontece mais no contexto das megal√≥poles.

Em outras palavras, o mito na megal√≥pole, representado pelos personagens de Macab√©a, Souza e Paulo Ant√īnio √© devorado pelo mito da megal√≥pole, o monstro cicl√≥pico que destr√≥i seus habitantes e acabar√° se devorando a si pr√≥prio.


4. Bibliografia

Almino, Jo√£o (1994). Samba-enredo. S√£o Paulo: Marco Zero.

Balzac, Honor√© de (1966). Le p√®re Goriot (1834). Em. Ibid. La Com√©die Humaine (1966). Paris: Le Club Fran√ßais du Livre, vol. 4 (pp. 19-323). Bonvicino, Regis (1994). “A carnavaliza√ß√£o na obra de Jo√£o Almino: escritor retoma a reflex√£o e ironia de Machado para tratar em seu romance do que h√° de banal e alienante na cultura nacional”, em: Jornal do Brasil/Id√©ias, 27.08.94, p. 3..

Brandão, Ignácio de Loyola (1981). Não verás país nenhum. Rio de Janeiro: Coderci.

Briesemeister, Dietrich/Feldmann, Helmut/Santiago, Silviano (eds.). Brasilianische Literatur der Zeit der Milit√£rherrschaft (1964-1984). Frankfurt/Main: Vervuert (Biblioteca Ibero-americana, 47).

Caillois, Roger (1966). “Balzac et le mythe de Paris”, Em: Balzac, H. de. La Com√©die Humaine (1966), vol. 14: (pp. I – xvii).

Cassirer, Ernst (1987). Philosophie der symbolischen Formen, vol. 2: Das mythische Denken. Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft.

Datis, Ronald (1997). Grossst√§dte Aussereuropas: Lebenslust und Menschenleid. Berlin: Ursula Opitz (Babylon Metropolis Studies, 3). Engler, Erhard (1992). “Von der Pr√§historie in die Zukunft: die Herausforderung gilt”, em: Briesemeister/Feldmann/Santiago (1992: 129-149).

Freitag, Barbara (1997). “Civiliza√ß√£o urbana e subculturas da cidade”, em: Ludemann, Marina (ed.): Brasmitte: urbane Interventionen. S√£o Paulo, Pancrom, pp.110-114.

Klotz, Volker. (1969). Die erz√§hlte Stadt. Ein Sujet als Herausforderung des Romans von Lesage bis D√∂blin. M√ľnchen: Carl Hanser Verlag.

Lispector, Clarice (1977). A hora da estrela. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 23′ edi√ß√£o (usada) 1995.

Machado de Assis (1957). “A cartomante”. Em: Ibid. Obras Completas de Machado de Assis. Editores W. M. Jackson Inc.. Rio, S.Paulo, P Alegre, vol. 14 (pp. 9-25).

Orsini, Elisabeth (1994). “Caso de amor com um computador”. Em: O Globo/Livros, 07.08.94, p. 6.

Osaskabe, Haquira (1994). “O romance carnavalesco de um narrador-computador”, em: Folha de S√£o Paulo/Livros, 09.10.94, p. 6.

Spielmann, Ellen (1994). Brasilianische Fiktionen: Gegenwart als Pastiche. Frankfurt/M: Vervuert.

Vernant, Jean-Pierre (1996). Entre mythe et politique. Paris: Seuil.

Notas

1 Vide (na bibliografia trabalhos publicados por Briesemeister/Feldmann/ Santiago (1992); Spielmann (1994); Osakabe (1994); Bonvicino (1994); Orsini (1994) a respeito.

2 A filmagem deste romance, feita por Susana do Amaral, em 1986, transfere o cen√°rio da vida e morte de Macab√©a para S√£o Paulo. A cineasta consegue, assim, radicalizar as diferen√ßas da vida de Macab√©a (no nordeste) e sua vida urbana,” nova” , na megal√≥pole.

3 O leitor de V√°rias hist√≥rias, de Machado de Assis, far√° a associa√ß√£o com Camilo, o personagem central de “A Cartomante” (M. de Assis, 1957: Obras Completas, vol. 14, pp. 9-25). Camilo ouvira da cartomante que nada lhe aconteceria, pois seu amigo Vilela ignorava a rela√ß√£o amorosa clandestina que ele, Camilo, mantinha com Rita, a mulher do amigo. “Pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir”, vai √† casa do Vilela que o mandara chamar. Ao entrar no apartamento, Vilela o mata com dois tiros.

4 Clarice Lispector fez um empréstimo aos escritos apócrifos dos Macabeus (em quatro volumes: I-IV) do judaísmo. Nesses escritos, encontram-se relatos das lutas dos judeus contra os sírios na época do Imperador romano, Calígula. Nesses relatos é dado destaque ao martírio dos judeus que representavam o protótipo do homem justo e sensato que luta contra impulsos irracionais. Esses escritos não foram reconhecidos nem pelos judeus, nem pelos protestantes. Contudo, os católicos, entre eles Tomás de Aquino, preservaram e retransmitiram-nos esses escritos por suas histórias de sofrimento e martírio.

5 Em Balzac et le mythe de Paris (1957), Roger Caillois mostra que Balzac, apoiado em Baudelaire, procurava refletir em sua Com√©die Humaine exatamente essa no√ß√£o do mito moderno. Seus her√≥is simbolizam supera√ß√£o de dificuldades, saltos no tempo, passagens de uma episteme a outra (p. ex., do romantismo para o realismo). “Certes le roman n’est pas le mythe. Cependant ses h√©ros, comme les h√©ros mythiques, apportent √† l’individu les r√©pondants dont il a besoin pour oser agir, quelquefois m√™me pour seulement imaginer sa conduite future.” (p. xvii). Em Balzac, Honor√© de. (1966, vol.4, pp. I-xvi)

6 Essa distin√ß√£o* pode facilmente ser ilustrada no final do romance de Balzac Le p√®re Goriot (1834; 1966), no di√°logo de Rastignac, o jovem her√≥i vindo do campo, disposto a enfrentar os desafios da grande cidade, da metr√≥pole de Paris. Rastignac, que testemunhara o sacrif√≠cio do pai pelas filhas e a indiferen√ßa dessas na hora da morte do velho, conscientiza-se, durante o enterro, que Paris √© o personagem que destr√≥i todas as sensibilidades; e √©contra ela que Rastignac lan√ßar√° seu grito de revolta: “√Ä nous deux maintenant!” (Balzac, vo1.4: p. 322). Atrav√©s da Com√©die Humaine este “her√≥i” n√£o se deixar√° intimidar e ensinar√° a outros jovens, como “vencer” na vida, em Paris. Enquanto Rastignac incorpora o mito na cidade, Paris representa o mito da cidade. Aqui, os dois personagens ainda est√£o em p√© de igualdade; um desafia o outro, um √© a condi√ß√£o de exist√™ncia e sobreviv√™ncia do outro. Na megal√≥pole essa equa√ß√£o ser√° zerada.

7. Le mythe de Paris annonce d’√©tranges pouvoirs de Ia litt√©rature. […111 entend traduire une r√©alit√© eph√©m√®re et changeante, qu’il cherche √† modifier en donnant conscience au lecteur des probl√®mes de l’√©poque, en l’obligeant √† les examiner, en lui sugg√©rant l’attitude qu’il doit prendre, en lui proposant l’exemple d’une d√©cision prestig√≠euse. Balzac est √† l’origine d’un pareil mode d’emploi du roman.” (Caillois, 1957: xvii).


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