O MITO DE BRAS√ćLIA E A LITERATURA

JOÃO ALMINO

Falo como quem situou tr√™s romances em Bras√≠lia, trilogia que corre s√©rio risco de se transformar num quarteto (2). N√£o me caberia fazer uma cr√≠tica de meu trabalho. Mas gostaria de tom√°-lo como refer√™ncia para desenvolver uma reflex√£o sobre Bras√≠lia como projeto e realiza√ß√£o de uma na√ß√£o e a rela√ß√£o que isso possa ter com a literatura. Se h√° uma diferen√ßa entre o narrador e o autor, n√£o √© menor a dist√Ęncia entre ambos e o ensa√≠sta que se refere a sua obra, uma dist√Ęncia t√£o grande quanto a que separa um artigo sobre m√ļsica da execu√ß√£o de uma pe√ßa, ou um coment√°rio de cinema da proje√ß√£o de um filme. Quem fala aqui, portanto, n√£o √© o autor dos romances nem seu narrador, mas uma terceira persona, que veste provisoriamente o chap√©u do ensa√≠sta.

N√£o tendo nascido nem crescido em Bras√≠lia, √†s vezes me perguntam por que escolhi aquela cidade como cen√°rio ou personagem de meus romances ‚Äď‚Äď j√° se v√£o agora mais de trinta anos das primeiras anota√ß√Ķes e quase vinte da publica√ß√£o do primeiro livro da Trilogia, Id√©ias para Onde Passar o Fim do Mundo. Embora, repito, n√£o pretenda girar em torno de minha literatura, este ensaio √© uma tentativa de resposta √†quela pergunta.

Permitam-me, a título de introdução, uma pequena nota pessoal. Algumas de minhas histórias poderiam certamente situar-se em lugares distintos de Brasília ou talvez em países distintos do Brasil. Uma cidade não é suficiente para definir um romance. Pode haver mais pontos de contato entre duas histórias que se passam respectivamente no Rio e em Nova York, do que entre duas outras na mesma cidade. No entanto, devo admitir: escolhi Brasília, não outras cidades onde também vivi.

Quando comecei a escrever fic√ß√£o, pensei que, se pudesse transpor algumas hist√≥rias do Nordeste do Brasil ‚Äď onde nasci ‚Äď para Bras√≠lia, a atmosfera desta cidade improv√°vel lhes agregaria alguns elementos de estranheza, ajudando-me a eliminar estere√≥tipos e a desfamiliarizar a realidade. Em 1985, o Brasil tinha regressado a um governo civil, j√° n√£o havia presos pol√≠ticos, e a democracia parecia uma op√ß√£o vi√°vel para o pa√≠s. A literatura tinha que mudar diante do novo clima pol√≠tico.

Ao lidar com o dia a dia, com a cidade real, uma literatura que retratasse Brasília podia, a meu ver, se beneficiar não apenas de sua história e de sua geografia, mas também de sua dimensão mítica, o mito entendido como uma narrativa de significação simbólica.

Algumas cidades mostram de si uma imagem recorrente, como um palimpsesto ou uma fotografia antiga que permanecesse impressa, ainda que amarelecendo com o tempo, e conservasse seus traços por trás de outras, mais vivas e atuais.

No caso de Brasília é imagem forjada pelo mito e também pela história de uma idéia, que se conclui com a execução do seu projeto modernista. Para dizer de outra forma, aquela cidade sem história é rica em carga simbólica. E o que Brasília simboliza? A democracia. A racionalidade. A nação. A integração e o desenvolvimento. A aspiração de igualdade. O moderno. O futuro. E também, claro, o poder, a alienação, o encastelamento, a corrupção, o autoritarismo, o misticismo e a irracionalidade.

Poucas cidades do mundo têm uma carga simbólica tão forte. Não importa que a realidade negue ou venha a negar o que a idéia de Brasília representa ou representou ao longo dos tempos. Mitos não se destróem facilmente; sobrevivem à própria realidade material.

Lembro-me do dia da inaugura√ß√£o de Bras√≠lia, eu ainda crian√ßa, toda a minha fam√≠lia ao p√© do r√°dio, l√° em Mossor√≥, no Rio Grande do Norte, como milh√Ķes de outras fam√≠lias espalhadas por todo o pa√≠s. N√£o foi apenas no Brasil que a constru√ß√£o de Bras√≠lia atraiu as aten√ß√Ķes, de um lado sendo vista com ceticismo, de outro, produzindo espanto e admira√ß√£o. Fotos da cidade em constru√ß√£o vinham estampadas em jornais e revistas em v√°rias partes do mundo. Muitos foram seus visitantes ilustres: chefes de Estado, como Dwight Eisenhower, dos Estados Unidos, e Fidel Castro, de Cuba, atores, como o ingl√™s David Niven, e escritores como Jean-Paul Sartre e Aldous Huxley. Entre outros, Clarice Lispector, Andr√© Malraux, John dos Passos e Simone de Beauvoir registraram suas impress√Ķes sobre a nova capital. Charles Aznavour lhe dedicou uma can√ß√£o e Tom Jobim e Vinicius de Moraes uma sinfonia. Sua inaugura√ß√£o atraiu o maior n√ļmero de visitantes brasileiros e estrangeiros em toda a hist√≥ria brasileira at√© √†quela data, 21 de abril de 1960.

A maioria das cidades resultam do acaso, do encontro fortuito e da necessidade. Bras√≠lia √© obra do esp√≠rito, da vontade e do plano. Se a experi√™ncia concreta daqueles que l√° vivem ainda tem uma hist√≥ria curta, a hist√≥ria de Bras√≠lia como projeto, s√≠mbolo e mito se confunde com a do Brasil independente. √Č a hist√≥ria de uma utopia constru√≠da ao longo de um s√©culo e meio.

A interioriza√ß√£o da capital, n√£o ainda necessariamente para o Planalto Central, foi defendida inicialmente como fruto dos ideais nacionalistas, pelos inconfidentes mineiros e pelos revolucion√°rios de 1817, em Pernambuco, e tamb√©m, a partir de 1808, por Hip√≥lito Jos√© da Costa, que, de seu ex√≠lio londrino, localizava a nova capital no “interior central” , nas “cabeceiras dos grandes rios”.

Ainda antes da independ√™ncia, em 1821, Jos√© Bonif√°cio de Andrade e Silva sugeriu, nas “instru√ß√Ķes dos Deputados Paulistas √† Corte”, que se levantasse “uma cidade central no interior do Brasil para assento da Corte ou da Reg√™ncia”, acrescentando que poderia ser “na latitude pouco mais ou menos de 15 graus”, o que veio a coincidir com a futura localiza√ß√£o de Bras√≠lia. No mesmo documento Bonif√°cio propunha que a nova cidade tivesse a “denomina√ß√£o de Petr√≥pole, Bras√≠lia ou outra qualquer.””

A interioriza√ß√£o era vista n√£o apenas como instrumento de seguran√ßa. Naquelas instru√ß√Ķes j√° se encontrava o embri√£o do futuro projeto desenvolvimentista de Kubitschek ou de integra√ß√£o nacional dos militares. “Daquela Corte, central, proposta” ‚Äď‚Äď afirmavam as instru√ß√Ķes ‚Äď‚Äď “dever-se-√£o logo abrir estradas para as diversas prov√≠ncias e portos de mar, para que se comuniquem e circulem com prontid√£o as ordens do Governo e se favore√ßa por elas o com√©rcio interno do vasto Imp√©rio do Brasil”. Essas id√©ias ser√£o retomadas na mem√≥ria “sobre a necessidade e os meios de edificar no interior do Brasil uma nova capital”, apresentada pelo mesmo Bonif√°cio √† Assembl√©ia Constituinte brasileira, em 1823. Ser√£o tamb√©m mais tarde expandidas pelo historiador e diplomata Francisco Varnhagen, o Visconde de Porto Seguro, entre outros escritos, em seu Memorial Org√Ęnico, de 1849.

Ali Varnhagen, respons√°vel pela indica√ß√£o de uma localiza√ß√£o ainda mais precisa para a nova capital, apontava, al√©m das raz√Ķes de seguran√ßa, fatores geradores de riqueza, de unidade nacional, integra√ß√£o e civiliza√ß√£o. Para ele o emprego de “capitais produtivos” no interior aumentaria “sua cultura e riqueza, e depois sua popula√ß√£o”. Seria necess√°rio levar “como t√īnicos” aos sert√Ķes “grandes focos de civiliza√ß√£o, e n√£o o pode haver melhor do que o de assentar a√≠ a capital, que em todos os reinos √© centro do luxo‚Ķ”. Seria uma maneira de manter vivo o pr√≥prio Estado. Diz ele que “os governos cuja sede est√° no interior do pa√≠s tratam mais que os outros em cuidar de facilitar as comunica√ß√Ķes, que s√£o as veias e as art√©rias do Estado, que sem elas definha e morre.” H√° tamb√©m o argumento da irradia√ß√£o equ√Ęnime da administra√ß√£o ‚Äď‚Äď e, portanto, do bom governo ‚Äď‚Äď a partir do centro: “ao mesmo tempo, uma capital central pode distribuir com mais igualdade, em diferentes raios, sua solicitude.” O com√©rcio interno e a gera√ß√£o de riqueza da√≠ decorrentes seriam criados pelo consumo desta capital interiorana. Ali se cultivariam artigos de com√©rcio “que n√£o cultiva a beiramar” e pouco a pouco se criaria uma auto-sufici√™ncia. A popula√ß√£o “pastoril passaria a ser agricultora, e at√© com o tempo, a ensaiar-se a outros ramos d’industria.”

Em outros escritos do s√©culo XIX, a nova capital simbolizava tamb√©m a autoridade que se espraiaria por todo o territ√≥rio nacional. Em carta dirigida ao Ministro da Agricultura, Tom√°s Coelho, por exemplo, em 1877, assinalava que sua localiza√ß√£o, no centro do pa√≠s, parecia estar indicada “pela natureza na pr√≥pria regi√£o elevada do seu territ√≥rio, donde baixariam as ordens, como baixam as √°guas que v√£o pelo Tocantins ao Norte, pelo Prata ao Sul e pelo S√£o Francisco a Leste.”

N√£o falta √† hist√≥ria do projeto de Bras√≠lia tamb√©m a dimens√£o m√≠stica. D. Bosco, o santo fundador da ordem dos salesianos, teria tido em 1883 um sonho prof√©tico sobre a “Terra Prometida”, num “leito muito largo e muito extenso, partindo de um ponto onde se forma um lago”, “entre os paralelos 12 e 20” e onde seria fundada “uma nova civiliza√ß√£o”.

√Č poss√≠vel citar v√°rias outras provas de que a id√©ia de mudan√ßa da capital esteve presente no imagin√°rio das lideran√ßas pol√≠ticas e de muitos outros brasileiros especialmente a partir da segunda metade do s√©culo XIX e adquiriu sua legitimidade como elemento fundamental da constru√ß√£o da na√ß√£o, bem como da promo√ß√£o de sua riqueza. O “Projeto de Lei de Mudan√ßa da Capital”, em parte inspirado nos escritos de Varnhagen, do Senador Holanda Cavalcanti, de Pernambuco, de 1852, a situava nas “latitudes de 10 a 15 graus-Sul”, no Planalto Central. O artigo 3.o da Constitui√ß√£o de 1891, destinava √† uni√£o, no Planalto Central, uma zona de 14.400 quil√īmetros a ser “demarcada para nela estabelecer-se a futura Capital Federal”. E em 1892, o Presidente Floriano Peixoto designou uma Comiss√£o, sob a Presid√™ncia do diretor do Observat√≥rio Nacional, Luiz Cruls, para “proceder √† demarca√ß√£o da √°rea e fazer sobre a zona os indispens√°veis estudos”, o que foi realizado ao longo de quatro anos.

O fundador e primeiro presidente desta Academia, Machado de Assis, n√£o esteve alheio √† import√Ęncia do assunto. Dizia, em sua cr√īnica semanal de 22 de janeiro de 1893, que “a quest√£o Capital est√° na ordem do dia” e dava not√≠cia dos trabalhos da Comiss√£o Cruls.

“Quanto √† capital da rep√ļblica,” afirmava, “√© mat√©ria constitucional, e a comiss√£o encarregada de escolher e delimitar a √°rea j√° concluiu os seus trabalhos, ou est√° prestes a faz√™-lo, segundo li esta mesma semana. Telegrama de Uberaba diz que ali chegou o chefe, Lu√≠s Cruls. N√£o h√° d√ļvida que uma capital √© obra dos tempos, filha da hist√≥ria. A hist√≥ria e os tempos se encarregar√£o de consagrar as novas. A cidade que j√° estiver feita, como no Estado do Rio, √© de esperar que se desenvolva com a capitaliza√ß√£o. As novas devemos esperar que ser√£o habitadas logo que sejam habit√°veis. O resto vir√° com os anos.”

E acrescentava Machado, numa indica√ß√£o da expectativa de que a mudan√ßa ocorreria ainda num futuro n√£o t√£o long√≠nquo: “N√£o sei se viverei at√© a inaugura√ß√£o. A vida √© t√£o curta, a morte t√£o incerta que a inaugura√ß√£o pode fazer-se sem mim, e t√£o certo √© o esquecimento, que nem dar√£o pela minha falta.”

Mais de tr√™s anos depois, o assunto ainda o interessava. Noutra de suas cr√īnicas semanais, esta de 7 de junho de 1896, afirmava, ao se discutir um projeto de lei que visava a conservar o Rio de Janeiro como capital, que “a quest√£o da capital, … a nossa quest√£o capital teve esta semana um impulso.” E uma vez mais registrava os trabalhos da Comiss√£o Cruls: “a Constitui√ß√£o determina que no planalto de Goi√°s, seja demarcado o territ√≥rio da nova capital, e j√° l√° trabalha uma comiss√£o de engenheiros”.

Pedia ao leitor que n√£o imaginasse que falava “pela tristeza de ver decapitada a minha boa cidade carioca. Tristeza tenho em verdade; mas tristezas n√£o valem raz√Ķes de Estado; e, se o bem comum o exige, devem converter-se em alegrias.”

A id√©ia da mudan√ßa da capital continuou viva, como sonho de vision√°rios e int√©rpretes da vontade nacional e do destino de um povo. S√£o indica√ß√Ķes disso as grandes discuss√Ķes p√ļblicas sobre a mat√©ria, ocorridas em 1905, de que participaram jornalistas e escritores renomados, como Olavo Bilac e Euclides da Cunha; o lan√ßamento da pedra fundamental no Planalto Central, no centen√°rio da Independ√™ncia, sob o governo de Epit√°cio Pessoa; a inclus√£o de dispositivos sobre a transfer√™ncia da capital para “o ponto central do Brasil” na constitui√ß√£o de 1934; ou para o Planalto Central, conforme estabelecia o artigo 4.o das Disposi√ß√Ķes Transit√≥rias da Constitui√ß√£o de 1946; os estudos t√©cnicos para sua precisa localiza√ß√£o durante os governos Dutra, Vargas e Caf√© Filho, at√© aquela id√©ia constituir-se na “Meta-S√≠ntese”, de grandeza √©pica, do Programa de Metas do governo Kubitschek e transformar-se, no dizer do mais recente eleito para esta Academia, o ex-Chanceler Celso Lafer, no “s√≠mbolo da dimens√£o de Juscelino como o estadista que fez surgir a racionalidade superior do novo a partir do existente.” (Mudam-se os Tempos, IPRI, Bras√≠lia, 2002, p. 307; texto de apresenta√ß√£o do livro Brasil, Bras√≠lia e os Brasileiros, Funda√ß√£o Israel Pinheiro, Bras√≠lia, 2002). O pa√≠s parecia finalmente estar chegando a seu futuro.

Talvez a defesa mais eloq√ľente do valor simb√≥lico da nova capital no momento mesmo de sua funda√ß√£o tenha sido feita por Andr√© Malraux quando de sua visita oficial ao Brasil como Ministro da Cultura da Fran√ßa. Como afirmou Lafer, “a voz do autor d’A condi√ß√£o humana foi a primeira a proclamar o alcance simb√≥lico da constru√ß√£o de Bras√≠lia e a real√ßar a dimens√£o espiritual de seus espa√ßos e edif√≠cios.” (Mudam-se os tempos, IPRI, Bras√≠lia, 2002, p.275). Para Malraux, em seu discurso de 25 de agosto de 1959, pronunciado em Bras√≠lia, sendo “a ressurrei√ß√£o do lirismo arquitetural nascido com o mundo hel√™nico”, aquele cidade era “um pouco a acr√≥pole em seu rochedo”, a “capital da esperan√ßa”, “a primeira das capitais da nova civiliza√ß√£o”, “a cidade mais audaciosa que o Ocidente j√° concebeu” e que “lembra ao mundo que os monumentos est√£o a servi√ßo do esp√≠rito.” Naquele mesmo discurso, o escritor franc√™s que veio a ser eleito em 1967 o s√≥cio correspondente de n√ļmero 13 desta Academia, acreditava, como Lucio Costa, que “a cidade n√£o [seria] apenas a sede do novo governo e da administra√ß√£o, mas tamb√©m um dos maiores centros culturais do pa√≠s.” “As grandes na√ß√Ķes sempre encontram seu s√≠mbolo, e sem d√ļvida Bras√≠lia √© um s√≠mbolo de tal sorte”, acrescentava. (Palavras no Brasil, org. e trad. Edson Rosa da Silva, FUNARTE, Rio, 1998, p. 33 a 41).

Diz James Holston em seu livro A Cidade Modernista, Uma cr√≠tica de Bras√≠lia e sua utopia, que os vision√°rios que sonharam com a mudan√ßa da capital “deixaram a Bras√≠lia o legado de uma mitologia do Novo Mundo em que a constru√ß√£o de uma capital no Planalto Central seria o meio de desencadear o florescimento de uma grande civiliza√ß√£o num para√≠so de abund√Ęncia.” (Companhia das Letras, S√£o Paulo, 1993, p. 23). O projeto de Bras√≠lia deveria “exprimir a grandeza da vontade nacional”, conforme assinalava o relat√≥rio do j√ļri do concurso. Bras√≠lia “devia instituir um novo sistema de vida” e constituir uma mensagem capaz, entre outras coisas, “de comunicar ideais de vida democr√°tica” e “de auto-identifica√ß√£o triunfal de um pa√≠s jovem”, como observou Umberto Eco, em seu livro A Estrutura Ausente, originalmente publicado em 1968 (Perspectiva, S√£o Paulo, 2001, p. 244).

A cidade nasceu sob o manto do sagrado, representado pelo signo da cruz. Ainda durante o governo Caf√© Filho, √© fincada a cruz de madeira no ponto mais alto da √°rea demarcada, hoje Pra√ßa do Cruzeiro, marco da funda√ß√£o da cidade, local onde mais tarde, em maio de 1957, foi rezada a primeira missa. O poeta e acad√™mico Guilherme de Almeida saudou a inaugura√ß√£o com um poema que dizia: “agora e aqui todos se cruzam pelo sinal da Santa Cruz.” A cruz est√° no pr√≥prio projeto urban√≠stico e nas palavras com que L√ļcio Costa o descreveu: “nasceu do gesto prim√°rio de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em √Ęngulo reto, ou seja, o pr√≥prio sinal-da-cruz.”

A utopia de Brasília estava expressa naquela cruz. O eixo monumental abrigava o sonho de realização da nação. A monumentalidade desejada correspondia à ambição do projeto e era proporcional à grandeza de seu ideal. Uma cidade de iguais surgiria ao longo do eixo residencial. Brasília devia fundar um novo país, moderno como a arquitetura de sua capital; ser a base de uma nova e mais justa sociedade.

O Plano Piloto era um espaço de possibilidades. Estava associado ao novo: um novo homem, uma nova política. Seu tema mais visível era a busca do moderno, a discussão sobre o renascimento, sobre o novo começo. Por outro lado, sua cartografia virá também a empregar os limites e a transgressão como símbolos; a enfocar imagens da revolução e do fim do mundo.

Com a cidade inaugurada, a utopia de Bras√≠lia come√ßava a se confrontar com a Bras√≠lia real. Diz uma das principais estudiosas de Bras√≠lia, a soci√≥loga B√°rbara Freitag, que aquela cidade “recebeu em seu espa√ßo urbano todos os problemas da sociedade brasileira sem corre√ß√Ķes pr√©vias. N√£o √© de admirar,” ela acrescenta, “que neste verdadeiro ‘laborat√≥rio social’ vejamos a olho nu e convivamos de forma mais direta com os problemas globais da sociedade brasileira como um todo.” (“Bras√≠lia Refletida”, in: Abstrata Bras√≠lia Concreta, Medialecom, Bras√≠lia, 2003, p. 75).

O projeto de desenvolvimento e a modernidade passavam pela educa√ß√£o. Atrav√©s da Universidade de Bras√≠lia, Darcy Ribeiro e An√≠sio Teixeira pretendiam que a nova capital se transformasse no centro inovador do pensamento cr√≠tico brasileiro. Na m√ļsica Cl√°udio Santoro, na cr√≠tica Paulo Em√≠lio Sales Gomes, no cinema o hoje imortal Nelson Pereira dos Santos, na arquitetura aquele que projetou os principais pr√©dios e monumentos da cidade, Oscar Niemeyer, foram alguns dos nomes que passaram pela universidade. Mas veio a ditadura militar, e a universidade sofreu sua primeira invas√£o por tropas policiais j√° em 1965. Quinze professores foram presos e 210 se demitiram. Entre outros, Nelson Pereira dos Santos e Niemeyer deixaram a Universidade naquela ocasi√£o. Outra invas√£o ocorreu em 1968, quando 500 alunos foram detidos por militares e o corpo docente foi demitido em massa.

Com o tempo descobriu-se o que era √≥bvio: n√£o √© o plano urban√≠stico que molda a sociedade, mas esta que vai dando novos significados √†quele. Mesmo quando preservada, a arquitetura absorve o esp√≠rito do tempo, moldando-se √†s novas realidades. Bras√≠lia recebeu o impacto das transforma√ß√Ķes pol√≠ticas brasileiras, bem como da revolu√ß√£o dos costumes dos anos sessenta e setenta. Com a expans√£o das cidades sat√©lites, a urbe que havia nascido com o sonho da igualdade, tornava a desigualdade mais patente do que em qualquer outro centro urbano brasileiro. Com os militares, a cidade que havia sido inaugurada sob um governo democr√°tico, passava a espelhar a imagem do autoritarismo. Por outro lado, simbolicamente, como centro do poder, ela estava associada √† luta contra a ditadura e √† ilus√£o revolucion√°ria. Teve tamb√©m a sua gera√ß√£o do desbunde, que projetou seu roque.

Bras√≠lia obedece a um plano racional e quase matem√°tico, onde a classifica√ß√£o foi levada ao extremo. √Č sem d√ļvida a cidade moderna por excel√™ncia no sentido de que √© a realiza√ß√£o do projeto moderno dos anos cinq√ľenta, e mais ainda, a execu√ß√£o mais acabada das propostas consubstanciadas nos manifestos dos CIAM (Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna), realizados de 1928 at√© meados da d√©cada de sessenta e que tiveram em Le Corbusier um de seus expoentes. Por isso convida a pensar sobre a id√©ia do moderno que a fundou, uma id√©ia que envelheceu com ela, mas que ainda habita a imagina√ß√£o dos brasileiros. Bras√≠lia, “mist√©rio classificado em arquivos de a√ßo”, “√© um futuro que aconteceu no passado”, dizia Clarice Lispector.

Esse projeto moderno e racional √© confrontado pela cria√ß√£o espont√Ęnea. H√° um contraste entre o caos e a ordem, entre as linhas retas do Plano Piloto, onde os carros circulam, e as veredas sinuosas que os pedestres criam livremente sobre a grama, como formas de resist√™ncia √† planifica√ß√£o. Muitas das supostas constru√ß√Ķes modernas envelheceram prematuramente e est√£o cobertas de graffiti.

O projeto moderno e racional se mescla tamb√©m com a express√£o pr√©-moderna e irracional que prolifera dentro e em torno de si. A cidade se v√™ rodeada pela irracionalidade de v√°rias seitas m√≠sticas. Algumas delas vislumbram no Planalto Central uma grandeza paralela √† do papel civilizador da interioriza√ß√£o: em contraponto ao tri√Ęngulo eq√ľil√°tero que, no plano de L√ļcio Costa, define a √°rea da cidade, existiria um tri√Ęngulo muito maior, localizado no Planalto Central, que sobreviveria √† grande cat√°strofe que estaria por vir e seria o ber√ßo de uma nova era e uma nova humanidade. Acrescente-se a esse contraste gritante com a modernidade, outro, silencioso e corriqueiro: por seu car√°ter geograficamente goiano, a cidade foi tamb√©m absorvendo a atmosfera do Brasil profundo e tradicional. Ali√°s, ling√ľisticamente √© sobretudo goiana.

Est√£o, assim, exacerbadas em Bras√≠lia, tanto a tens√£o entre a racionalidade geom√©trica e a viv√™ncia criativa do cotidiano, existente em toda cidade ‚Äď‚Äď como j√° nos mostrou √ćtalo Calvino em suas Seis propostas para o pr√≥ximo mil√™nio (Companhia das Letras, 1990, p. 85) ‚Äď‚Äď, quanto a tens√£o entre o moderno e o arcaico que parece estar no cora√ß√£o do mundo contempor√Ęneo.

Ao longo de sua curta hist√≥ria, alguns tra√ßos permanecem. Um aspecto do perfil psicol√≥gico do Plano Piloto √© sua artificialidade. “Bras√≠lia √© artificial. T√£o artificial quanto devia ter sido o mundo quando foi criado”, escreveu Clarice Lispector. Diz-se com freq√ľ√™ncia que aquela cidade foi feita para a passagem r√°pida dos autom√≥veis. Ali h√° poucos lugares p√ļblicos de encontro, n√£o h√° ruas, esquinas ou cal√ßadas do tipo usual, e h√° relativamente poucos pedestres. Claro, a artificialidade √© pr√≥pria dos centros urbanos. Mas se pode considerar “natural” um desenvolvimento urbano que seja a conseq√ľ√™ncia espont√Ęnea da hist√≥ria de um lugar e das rela√ß√Ķes que as pessoas estabelecem entre si. N√£o √© o caso de Bras√≠lia. Sua configura√ß√£o assinala sua natureza artificial. Totalmente planejada e tendo sido concebida sobretudo para sua fun√ß√£o pol√≠tica, a cidade original n√£o foi de forma alguma resultado de uma evolu√ß√£o espont√Ęnea e org√Ęnica. Os pequenos rios da regi√£o do Planalto Central n√£o contribu√≠ram para a forma√ß√£o da cidade, nem ela cresceu sobre suas margens. Suas √°guas escassas foram utilizadas para conformar o lago Parano√°. O Plano Piloto abra√ßa, com suas asas, o lago artificial que √© fundamental tanto para aliviar a secura do ar, quanto para as atividades l√ļdicas sobre o espelho de √°gua ou no que sobrou das margens privatizadas. J√° a pequena lagoa que antecedeu Bras√≠lia, a lagoa Jaburu, atualmente situada no terreno do pal√°cio do Vice-Presidente, vem secando desde o nascimento da cidade.

Na enorme Cidade Parque, não se caminha com sentido utilitário, para ir às compras, ao trabalho. Passeia-se, exercita-se. A artificialidade que invade a paisagem Рa natureza reinventada pelos homens e que ainda guarda exemplos do gênio de Burle Marx Рestá também presente na flora do Plano Piloto.

Falta de espa√ßo √© comum nas cidades modernas, onde os edif√≠cios altos bloqueiam o horizonte. Ali √© o contr√°rio. Ante os amplos horizontes e a longa dist√Ęncia entre os pr√©dios, os humanos se sentem pequenos e solit√°rios. Tanto a grandeza quanto a artificialidade da paisagem urbana freq√ľentemente inspiram uma sensa√ß√£o de estranheza positiva ou negativa entre os visitantes e at√© mesmo entre os habitantes da cidade. Embora sem os resultados sociais esperados pelos modernistas, ocorreu uma desfamiliariza√ß√£o. Bras√≠lia, em alguma medida, ainda n√£o √© uma cidade como as outras e isto em parte se deve a seu plano piloto.

Creio que são traços positivos para a literatura não apenas essas, mas também outras características, às vezes apontadas como defeitos, mas que poderiam inspirar um ideário estético-literário.

Esta cidade sem ra√≠zes, povoada de migrantes, onde a identidade √© aberta e m√ļltipla, recusa a no√ß√£o da origem √ļnica. Aqui as origens podem aparentar o que s√£o de fato: mitos, ou refer√™ncias cambiantes. A cidade serve de vacina contra o pitoresco. Aqui a cultura n√£o √© corpo normativo, uma moral ou uma cole√ß√£o de pensamentos ou comportamentos congelados. Bras√≠lia requer todos os legados que se possa recolher de m√ļltiplas mem√≥rias.

Considerada pela UNESCO patrim√īnio da humanidade, fruto de um projeto modernista que transcendeu as fronteiras brasileiras e parte de uma heran√ßa mundial, seu car√°ter √© universal.

Sem passado e com futuro ainda em aberto, associada com o surgimento de uma nova sociedade, sugere pensar sobre como habitar o relativo vazio de história e de espaço. Legitima a liberdade de imaginação.

Uma cidade √© como um caleidosc√≥pio de combina√ß√Ķes infinitas. √Č feita de prismas, perspectivas. Est√° aberta ao olhar subjetivo do seu fl√Ęneur, do seu habitante, turista, daquele que a observa de longe, como id√©ia. Poder√° haver, portanto, v√°rias literaturas de Bras√≠lia.

Elas se fazem com hist√≥rias de verdade, com a verosimilhan√ßa, com emo√ß√Ķes, com evoca√ß√£o de dramas verdadeiros. Mas, em qualquer delas, a camada m√≠tica ‚Äď‚Äď aquela foto amarelada, imagem recorrente, de que eu falava no come√ßo ‚Äď‚Äď as enriquece, como se fosse uma segunda linguagem.

Tento n√£o idealizar esta cidade. N√£o a vejo como modelo. Pratico o pessimismo como m√©todo criativo. Isto n√£o significa que somente tenho expectativas negativas, que desconfio de toda no√ß√£o de progresso ou que vejo a decad√™ncia como fatalidade. O papel dos escritores n√£o √© o de fazer profecias. √Č o de tentar iluminar o que parece obscuro e de tornar opaco o que parecia claro. Ao faz√™-lo, chamam a aten√ß√£o para o lado sombrio da exist√™ncia e tamb√©m para as utopias negativas, √†s vezes com a esperan√ßa de evitar que se tornem reais. Bras√≠lia √© um retrato do Brasil, com seus v√≠cios e a mis√©ria corroendo o forte desejo de moderniza√ß√£o.

Conhec√™-la n√£o √© conhecer a Esplanada dos Minist√©rios, nem a Pra√ßa dos Tr√™s Poderes, nem as super-quadras, nem tampouco o Lago Sul ou as cidades sat√©lites. √Č sentir por dentro o peso de seu drama, de suas intrigas, de seus contrastes, sua desordem disfar√ßada de linhas retas, sua modernidade carcomida e suja, sua poeira e sua luz, as l√°grimas derramadas e os risos ouvidos nos corredores do Congresso, o clamor de suas multid√Ķes na Esplanada, sua beleza e seu sonho de igualdade, aquilo tudo de que √© poss√≠vel extrair um resto de esperan√ßa, a constante lembran√ßa de seus mitos e utopia e a insatisfa√ß√£o com a realidade que alimenta a boa literatura.

No fundo, o Plano Piloto continua sendo um espa√ßo de possibilidades. Sua utopia pode ser recriada, n√£o como uma aspira√ß√£o ao ideal, mas como uma ocupa√ß√£o presente dos espa√ßos existentes, como uma redefini√ß√£o das rela√ß√Ķes poss√≠veis, como a cria√ß√£o de novas formas de organizar o caos ‚Äď em resumo, como uma nova percep√ß√£o do que √©. Esta nova percep√ß√£o poderia mostrar-se como guia para o processo necess√°rio atrav√©s do qual Bras√≠lia se tornaria gradualmente menos um plano incompleto ou fracassado e mais um lugar moldado por uma hist√≥ria viva e por problemas urgentes, ou seja: uma cidade como a maioria das demais, mas que guardasse ainda, por n√£o ser poss√≠vel apag√°-la, sua dimens√£o mitol√≥gica. Como dizia Machado de Assis, ” a hist√≥ria e os tempos se encarregar√£o de consagrar as novas” cidades ‚Äď‚Äď e poder√≠amos acrescentar: para aquelas que nascem cheias de promessa, de destruir suas ilus√Ķes.

NOTAS

(1) Conferência pronunciada na Academia Brasileira de Letras, em 24 de agosto de 2006, publicada na Revista Estudos Avançados, Publicação Quadrimestral do Instituto de Estudos Avançados da USP, n.o 59, abril de 2007.

(2) O quarto romance, intitulado O livro das emo√ß√Ķes, ser√° publicado em 2008 pela Record.

RESUMO

Havendo situado vários de seus romances em Brasília, o autor defende que uma literatura que retrate aquela cidade pode se beneficiar de sua dimensão mítica e de traços que lhe são próprios, aqui discutidos. A imagem de Brasília é forjada pelo mito e pela história de uma idéia, que se conclui com a execução do seu projeto modernista. Poucas cidades do mundo têm uma carga simbólica tão forte. A história de Brasília é a história de uma utopia construída ao longo de um século e meio. Com a cidade inaugurada, essa utopia passou a se confrontar com a Brasília real, estando ali exacerbadas tanto a tensão entre a racionalidade geométrica e a vivência criativa do cotidiano quanto a tensão entre o moderno e o arcaico.

Palavras-chave: Mito e literatura, Brasília Рhistória, Utopia, Projeto modernista.

ABSTRACT

Having set several novels in Brasilia, the author of this essay suggests that a fiction representing that city could benefit from its mythic dimension and from other traits discussed here. Brasilias image is shaped by myth and by the history of an idea that culminates with its modernistic project. Very few cities in the world have such a strong symbolic power. Brasilia’s history is the history of a utopia built throughout a hundred and fifty years. After the city’s inauguration, this utopia came face to face with the real Brasilia, thus exacerbating the tensions between geometric rationality and creative life, the modern and the old.

Keywords: Myth and literature, Brasilia – history, Utopia, Modernistic project.

Jo√£o Almino √© escritor e diplomata, autor da Trilogia de Bras√≠lia, composta pelos romances Id√©ias para Onde Passar o Fim do Mundo (Brasiliense, S√£o Paulo, 1987; Record, Rio, 2002); Samba-Enredo (Marco Zero, S√£o Paulo, 1994) e As Cinco Esta√ß√Ķes do Amor (Record, Rio, 2001; Alfaguara, M√©xico, 2003; Pr√™mio Casa de las Am√©ricas 2003).


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