Praga e Brasília

CORREIO BRAZIIENSE, Brasília, domingo, 10 de junho de 2001

Brasília tem todos os elementos que fizeram de praga capital cultural da europa e exibe todas as credenciais para tornar-se a capital cultural do brasil

POR BARBARA FREITAG

Quando uma cidade pode ser efetivamente chamada de cidade? Vil√©m Flusser (1913-1990), fil√≥sofo checo, que viveu 35 anos no Brasil, tem uma resposta un√≠voca. 0 t√≠tulo de cidade deve ser reservado √†queles centros urbanos em que est√£o integrados, em conv√≠vio harm√īnico, o espa√ßo pol√≠tico, econ√īmico e cultural. Na falta de um desses espa√ßos, n√£o nos movimentamos em uma verdadeira cidade e sim em um assentamento, em um mercado de troca de bens ou numa mera sede de governo. Flusser foi um grande admirador da “polis” grega, mas o modelo de cidade que est√° por detr√°s de sua defini√ß√£o n√£o √© Atenas e sim Praga, a cidade em que nasceu e morreu.

Em Praga o centro pol√≠tico confunde-se com o Castelo (Hrad) no alto do morro, abra√ßado pelo rio Moldau, no chamado “lado pequeno” (M√°la Strana) da capital checa. O Castelo, por sua vez, cerca o espa√ßo cultural no qual se ergue uma bas√≠lica romana (S√£o George), uma catedral g√≥tica (S√£o Guido) e o grande pal√°cio, c√©lebre pela defenestra√ß√£o – no s√©culo XVI – de mensageiros jesu√≠tas do imperador de √Āustria. Extramuros, atravessando-se a Ponte Carlova, alcan√ßa-se a Pra√ßa (Stare Mesto), com seu famoso rel√≥gio, a prefeitura e as casas burguesas que cercam o antigo mercado livre da cidade.

Praga √© para Flusser a encarna√ß√£o de uma “verdadeira cidade”, que tem sua hist√≥ria, sua tradi√ß√£o e arquitetura pr√≥prias. A integra√ß√£o do espa√ßo urbano com as etnias, a religi√£o, a cultura liter√°ria e art√≠stica atingiu seu apogeu no entreguerras, i. √©, nos anos 20 e 30. Nessa √©poca aqui se deu o encontro entre as etnias eslava, semita e germ√Ęnica, entre religi√Ķes como a pr√©-protestante de Jan Hus, a cat√≥lica dos jesu√≠tas e a judaica, bem como a mistura ling√ľ√≠stica do alem√£o com o checo e i√≠diche, trazido pelos judeus que na Idade M√©dia se assentaram no bairro de Josefov. A Praga do in√≠cio do s√©culo XX n√£o foi somente a capital da ent√£o Tcheco-Eslov√°quia, foi a capital cultural da Europa central. Nessa √©poca, Rilke dedicou-lhe um √°lbum de poesias, Werfel concebia obras lidas e encenadas em Berlim e Viena, e Kafka recitava, no Caf√© Slavia, trechos de seus romances.

Cabe agora perguntar se o que serviu de crit√©rio para considerar Praga uma “verdadeira cidade” tamb√©m se aplicaria para Bras√≠lia. Em seu livro O Brasil ou a busca do novo ser humano (1994), Flusser d√° uma resposta prof√©tica. Com Bras√≠lia foi criado um espa√ßo urbano, no qual se desenvolver√° o “homem novo”, capaz de integrar os “velhos c√≥digos”, preservados do mundo europeu, com os “novos c√≥digos”, baseados nas inova√ß√Ķes tecnol√≥gicas da nova era digital. Esse fato j√° estaria concretizado no tra√ßado urbano e nos monumentos criados pelos urbanistas e arquitetos L√ļcio Costa e Oscar Niemeyer. Segundo Flusser, sua fama corre o mundo por terem conseguido combinar em Bras√≠lia velhas formas do per√≠odo colonial com “riscos” mais ousados que os de Gropius, Wright ou Van der Welde.

Flusser visitou Bras√≠lia em 1967, constatando que os idealizadores da cidade haviam previsto os espa√ßos pol√≠tico, com a Pra√ßa dos Tr√™s Poderes, cultural, com a catedral e o teatro Villa-Lobos, e comercial com os conjuntos Nacional e Conic, refazendo, desse modo, o trip√© no qual se assentaria uma “verdadeira cidade”. 0 fil√≥sofo checo tamb√©m observou em Bras√≠lia a conflu√™ncia de uma popula√ß√£o vinda de todas as regi√Ķes do Brasil, os “candangos”, am√°lgama de tr√™s ra√ßas: a ind√≠gena, a africana e a branca. Sua linguagem, o “brasileiro”, constitui um sincretismo de velhas tradi√ß√Ķes ling√ľ√≠sticas: o portugu√™s colonial arcaico (burocr√°tico e empoeirado), que no entanto preservava a l√≥gica discursiva da l√≠ngua latina; o tupi-guarani, uma l√≠ngua aglutinante de um povo aut√≥ctone √°grafo, e os v√°rios idiomas africanos com estrutura ling√ľ√≠stica “isolante”. Bras√≠lia tinha, pois, todos os elementos que fizeram de Praga uma capital cultural da Europa, tendo todas as credenciais para tornar-se a capital cultural do Brasil.

Para Flusser, o poder de inova√ß√£o inerente √† popula√ß√£o brasileira refletia-se em sua criatividade art√≠stica e inventividade liter√°ria. Um Portinari e um Manabu Mabe haviam indicado o caminho para as artes pl√°sticas. Um Guimar√£es Rosa, Drummond de Andrade, Jo√£o Cabral foram exemplos no campo da literatura. L√ļcio Costa e Oscar Niemeyer prepararam o terreno no espa√ßo urban√≠stico e no campo da arquitetura. Flusser, cheio de otimismo, via no Brasil mais que um “pa√≠s do futuro” ao estilo de Stefan Zweig. Tratava-se de uma na√ß√£o inteira √† busca do novo homem e de uma civiliza√ß√£o, livre da carga negativa e sangrenta da Europa. (√Č preciso lembrar que Flusser era judeu e viu toda sua fam√≠lia vitimada em Auschwitz, depois de os nazistas anexarem os Sudetos e se instalarem em Praga).

Quais seriam, contudo, os poetas, ensa√≠stas, romancistas brasilienses capazes de conferir a Bras√≠lia o estatuto de “cidade”? Onde est√£o os Kafkas, Rilkes, Werfels que animam os caf√©s, casas de vinho e restaurantes da nova capital?

Nós, que habitamos o espaço cultural da cidade e vivemos além de Flusser, precisamos descobrir a criatividade artística pregada por ele. Para a nova capital ocorrem-me, de imediato, pelo menos três nomes no campo da produção literária: Cassiano Nunes, Chico Alvim e João Almino. Sem querer forçar qualquer paralelo com Werfel, Rilke e Kafka, trata-se de uma safra de novos talentos, que, longe de cultivarem uma literatura regionalista, levam temas universais do homem moderno para além das fronteiras de Brasília.

Focalizo o caso de Jo√£o Almino, que desde 1987 tomou a cidade de Bras√≠lia como moldura e enredo de seus romances. Cabe lembrar ao leitor que seus livros foram divulgados em in√ļmeras edi√ß√Ķes do Correio Braziliense. (Vide ApArt do CB de 28/6/87; no Caderno Dois do CB de 30/8/94, 1/3 /98 e 18/4/99, mas tamb√©m no Caderno Id√©ias do JB, no Folhetim e Mais da Folha e em jornais e revistas do M√©xico, de Lisboa e at√© mesmo da Calif√≥rnia/ EUA).

√Č uma trilogia composta de Id√©ias para onde passar o fim do mundo (1987), Samba-enredo (1994) e As Cinco esta√ß√Ķes de amor . Nos seus romances Almino introduz formas liter√°rias surpreendentes e temas existenciais que brotam da condi√ß√£o urbana do homem moderno. Surpreendente √© a figura do narrador, que no primeiro romance √© um cineasta defunto √† busca de um novo roteiro para o novo mil√™nio; no segundo, um computador laptop, apaixonado por sua propriet√°ria, que o jogara no lixo; no romance mais recente, a narradora √© Ana, de 55 anos, professora aposentada da UnB, ali√°s, a mesma que no romance anterior jogara fora o seu computador. Nos tr√™s casos, Bras√≠lia √© moldura e espelho para os personagens, que vivem na cidade e s√£o habitados por ela. Seu denominador comum √© a viv√™ncia de estarem inscritos na mesma capital planejada.

Outros romancistas h√£o de surgir, narrando Bras√≠lia, exprimindo sua narratividade. Todos eles ter√£o de debater-se com esta cidade, que segundo Clarice Lispector √© “cidade abstrata”, “tra√ßada no ar”, “de beleza assustadora”, “de sil√™ncio visual”, “o fracasso do mais espetacular sucesso do mundo. Bras√≠lia √© uma estrela espatifada. √Č linda e nua. 0 despudoramento que se tem na solid√£o”.

BARBARA FREITAG √Č PROFESSORA PESQUISADORA DA UNIVERSIDADE DE BRAS√ćLIA

Leia também, de Barbara Freitag, o ensaio O Mito da Megalópole na Literatura Brasileira, em que, a propósito do Rio, de São Paulo e de Brasília, comenta respectivamente A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, Não Verás País, de Ignacio de Loyola Brandão, e Samba-Enredo, de João Almino.


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