Samba-Enredo

Este novo romance de João Almino Рautor também do instigante Idéias para onde passar o fim do mundo (1987) -, consegue aquilo que, para muitos, pareceria impossível: apresentar e discutir, pelo viés da alegoria, o cada vez mais incongruente Brasil dos anos noventa.

O carnaval que atravessa o romance tem Bras√≠lia e seu torvelinho de intrigas amorosas e palacianas, como espa√ßo privilegiado. A trama – passo a passo narrada, ou registrada, por um computador apaixonado por sua dona, uma escritora – tem por centro o seq√ľestro e as relac√Ķes amorosas e clandestinas do Presidente do Brasil, Paulo Antonio Fernandes. A m√°quina de narrar, humanizada, questiona sua pr√≥pria exist√™ncia e a dos homens. Estes, em contrapartida, aparecem reificados na artificialidade das ideologias vigentes e no erotismo quase folhetinesco que permeia suas emo√ß√Ķes.

Jo√£o Almino revela seu dom√≠nio da arte narrativa sobretudo no car√°ter fragment√°rio da montagem romanesca e no fino humor e ironia que perpassam os r√°pidos cap√≠tulos-epis√≥dios. Sua requintada prosa-po√©tica se contrap√Ķe √† necess√°ria superficialidade do material narrado. H√° um achatamento proposital das emo√ß√Ķes, que se fundem √† paisagem urbana oscilante entre a frieza da Capital e as sequ√™ncias carnavalescas, onde ocorrem todas as m√©salliances do povo brasileiro. Tal distanciamento do que √© narrado faz ressaltar de maneira extraordin√°ria a banaliza√ß√£o do poder nas rela√ß√Ķes pol√≠ticas e humanas. Neste sentido, uma poss√≠vel leitura tr√°gica do Brasil se d√° ironicamente na unidimensionalidade deste mesmo tecido pol√≠tico-social, no qual n√£o falta nenhum dos ingredientes que constituem nosso pobre cotidiano mascarado pelo desfile do samba-enredo.

Jorge Schwartz é professor de literatura latino-americana da Universidade de São Paulo (USP).


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