Um mergulho na cultura √°rabe

Caderno 3, DI√ĀRIO DO NORDESTE
26 de novembro de 2016

Um mergulho na cultura √°rabe
Romance “Enigmas da Primavera”, de Jo√£o Almino, ganha leitura do cr√≠tico liter√°rio Adelto Gon√ßalves
por Adelto Gonçalves* РEspecial para ao Caderno 3

I

Se para conhecer a S√£o Petersburgo do s√©culo XIX, √© preciso ler Fi√≥dor Dostoi√©vski (1821-1881), tal como para descobrir detalhes do Rio de Janeiro do final daquele s√©culo √© fundamental percorrer os romances de Machado de Assis (1839-1908), daqui a cem anos, certamente, para saber como era (ou √©) a cidade de Bras√≠lia (e o Brasil) deste come√ßo de s√©culo XXI, ser√° necess√°rio ler Enigmas da Primavera (Rio de Janeiro: Editora Record, 2015), o novo (e sexto) romance do diplomata Jo√£o Almino (1950). Trata-se da primeira obra de peso na literatura brasileira que n√£o s√≥ traz para as p√°ginas da fic√ß√£o os movimentos pol√≠ticos dos √ļltimos anos, conforme observou o cr√≠tico Manuel da Costa Pinto (Folha de S. Paulo, 16/10/2015), como incorpora na prosa as novas tecnologias e formas de comunica√ß√£o, como o e-mail, o iPhone, o iPad, o Facebook, o WhatsApp e outras redes sociais.

Obra do autor dosa ficção e não ficção

A partir das chamadas Jornadas de Junho, que agitaram as grandes cidades brasileiras em 2013, o autor cria um jovem personagem, Majnun, neto de um antigo esquerdista, simpatizante da luta armada contra a ditadura civil-militar (1964-1985), que, a exemplo daqueles que foram √†s ruas, n√£o sabe bem o que quer nem para onde ir. ‚ÄúSe n√£o fosse a companhia de seu laptop, de seu iPhone e de seu iPad, seu mundo n√£o seria mais do que uns poucos cent√≠metros de ch√£o de cimento rachado‚ÄĚ, diz o narrador. Com o pai morto por overdose de droga e a m√£e, viciada e psic√≥tica, sem condi√ß√Ķes para assumir sua cria√ß√£o, os av√≥s de Majnun seriam os seus verdadeiros progenitores,
Apaixonado pela cultura mu√ßulmana, Majnun sonha abandonar a casa do av√ī e ganhar o mundo, indo de Bras√≠lia para Madri e, em seguida, para Granada, √† √©poca do 15-M (15 de maio de 2011), movimento de protesto que ganhou as ruas da capital espanhola, e da Primavera √Ārabe, que marcou a queda de v√°rios regimes ditatoriais no Oriente M√©dio.
Como um protagonista de romance picaresco, Majnun est√° em v√°rios lugares, v√™ o mundo de fora, mas acaba por n√£o se integrar √† sociedade. ‚ÄúAos 20 anos, ele era uma tela em branco‚ÄĚ, diz o narrador. N√£o tinha voca√ß√£o para se tornar militante pol√≠tico, como fora seu av√ī. ‚ÄúN√£o havia mais ditadura contra a qual lutar, e n√£o era suficiente juntar-se √† mediocridade, agregar uma pequena pe√ßa na engrenagem, corrigir uma injusti√ßa aqui e outra ali, fazer um trabalho de formiguinha, tapar um buraco, consertar um defeito. Sua av√≥ Elvira fazia projetos para prefeituras. Mas ele nunca conseguiria ser pr√°tico (…)‚ÄĚ.

Romance captura momento político, de incertezas históricas, ruína ideológica e agitação social em meio mundo

II
Encantado pelas f√°bulas e hist√≥rias do mundo √°rabe e em busca de suas ra√≠zes, o protagonista do romance depara-se com o paradoxo multissecular do fundamentalismo isl√Ęmico, que, em seus prim√≥rdios, assumia a toler√Ęncia como comportamento √©tico, mas que, hoje, dividido por fac√ß√Ķes radicais, faz da intoler√Ęncia o seu lema. Por isso, rom√Ęntico, contradit√≥rio e imprevis√≠vel, Majnun encarnaria as idiossincrasias da juventude dos dias de hoje. ‚ÄúMajnun √© um jovem enfadado com seu cotidiano, que busca preencher seu vazio nas redes sociais. Tem todo um futuro pela frente, que, em vez de alimentar sua utopia, o faz mergulhar inicialmente num pensamento antiut√≥pico, j√° que flerta com a volta a um passado que nunca vivenciou‚ÄĚ, diz o narrador.
Dividido pela atra√ß√£o por tr√™s mulheres ‚Äď especialmente, Laila, casada, mais velha que ele quinze anos ‚Äď, Majnun, ‚Äúo homem que amava demais‚ÄĚ, envolve-se numa trama densa e sedutora, que atrai do come√ßo ao fim. E que ao mesmo tempo, n√£o s√≥ consagra como mostra o perfeito dom√≠nio que o ficcionista Jo√£o Almino tem de seu of√≠cio, ao passar ao leitor uma reflex√£o sobre o atual est√°gio pol√≠tico do Brasil deste s√©culo em que os jovens n√£o v√™em a sa√≠da nem o futuro e protestam sem saber o que colocar no lugar daqueles que lhes causam repulsa porque n√£o encontram l√≠deres confi√°veis.
III
N√£o bastasse a erudi√ß√£o do autor, que, de fato, preparou-se para escrever este romance, mergulhando no estudo da hist√≥ria √°rabe e de sua influ√™ncia na Espanha de ontem e de hoje, o livro traz ainda um percuciente e esclarecedor pref√°cio de Jo√£o Cezar de Castro Rocha, que ajuda o leitor a conhecer os caminhos que o romancista percorreu para construir a sua fic√ß√£o neste livro labir√≠ntico, ao mostrar que a trama de Enigmas da Primavera ‚Äúatualiza, ou seja, transforma, a mais divulgada hist√≥ria de amor da literatura √°rabe, transmitida oralmente e codificada, no s√©culo XII, pelo poeta persa Nizami ‚Äď e, desde ent√£o, reescrita um sem-fim de vezes‚ÄĚ. De fato, como observa o prefaciador, o protagonista do romance carrega o nome do personagem do poema de Niz√Ęm√ģ ou Nizman ou Nezami Ganjavi (1141-1209), ‚ÄúLayla y Majn√ļn‚ÄĚ, que tem um pequeno trecho reproduzido como ep√≠grafe em tradu√ß√£o de Jordi Quingles.
Como se sabe, ‚ÄúLaila e Majnun‚ÄĚ, uma esp√©cie de ‚ÄúRomeu e Julieta‚ÄĚ, de William Shakespeare (1564-1616), da literatura persa, √© um conto folcl√≥rico em versos e seu protagonista est√° associado a um homem que, de fato, teria existido, Qays Ibn al-Mulawwah, que viveu, provavelmente, na segunda metade do s√©culo VII d.C., no deserto de Najd, na Pen√≠nsula √Ārabe. Esse poema √©pico, dedicado ao rei Shirvanshah, com cerca de 8 mil versos, em 1188, tornou-se tema de populares can√ß√Ķes, sonetos e odes de amor entre os bedu√≠nos ao longo dos s√©culos.

* Doutor em Literatura Portuguesa pela USP e autor de livros como “Os vira-latas da madrugada”, “Gonzaga, um poeta do Iluminismo” e “Bocage ‚Äď o perfil perdido”.

http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/um-mergulho-na-cultura-arabe-1.1658170


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